11 de setembro de 2018

2 - Salvando Kelsey

— Podemos? — Ele encontrou um tronco virado e se sentou.
Eu ainda não conseguia acreditar que ele estivesse ali. Que estivesse vivo.
— Como você voltou? — perguntei.
— Não voltei. Não exatamente. Quando você testemunhou minha morte, eu de fato fiz minha passagem deste mundo. Mas você precisa entender que esse evento, embora já tenha ocorrido na sua linha do tempo, ainda não aconteceu na minha.
— Ainda não aconteceu? Não estou entendendo.
Kadam sorriu pacientemente e perguntou:
— Lembra-se de quando apareci com Nilima depois que vocês resgataram a Srta. Kelsey de Lokesh?
— Sim. Vocês estavam desaparecidos havia semanas.
— Correto. Contei a vocês então que uma força havia levado a mim e Nilima no momento em que o arpão disparou em nossa direção.
Quando assenti, ele puxou da camisa o fragmento do Amuleto de Damon que costumava usar e prosseguiu:
— E depois disso vocês descobriram que o pedaço do amuleto que uso é o que controla o espaço e o tempo.
— Sim. Mas como você pode estar usando o amuleto novamente quando sei que esse pedaço específico, que foi usado para enviar Lokesh para o passado, foi reintegrado ao amuleto completo e no momento se encontra no pescoço de Anamika?
— Eu tenho este pedaço porque ainda o uso em meu tempo.
Pondo-me de pé, comecei a andar de um lado para outro. Kadam tirou um frasco do bolso e desenroscou a tampa. Um cheiro pungente pairou no ar.
— Olíbano? — ofereceu. — Acalma os nervos.
Recusei sua oferta com um gesto e ele deu de ombros, pegando um pedaço antes de tornar a fechar o frasco.
— Então me diga de quando você vem — insisti.
— Eu venho de pouco antes da minha morte — replicou Kadam suavemente. — Vocês todos achavam que eu não estava muito bem depois da minha volta, mas na realidade eu estava fazendo o trabalho que o destino me atribuiu.
— Você se ausentava com frequência — murmurei. — Estava distante.
— Sim — respondeu ele. — Muito distante, de fato.
Ajoelhando-me diante dele, implorei:
— Você pode voltar então e desfazer o que aconteceu. Podemos derrotar Lokesh junto com você. Seu sacrifício não é necessário. Você não tem que morrer. Ainda não aconteceu na sua linha do tempo, então podemos evitar.
Ele sacudiu a cabeça.
— Lokesh é poderoso demais. Se você tivesse me ajudado, a Srta. Kelsey teria sido levada.
— Mas nós podíamos...
Kadam me interrompeu, erguendo a mão.
— Kishan, filho, confie em mim quando digo que minha morte é e era a única maneira de mandar Lokesh para o passado e que sua derrota no passado afeta o futuro. Sem um monstro para Anamika derrotar, sem uma deusa — ele sorriu —, ou duas, entrando na batalha montada em um tigre, o tecido de nosso mundo se desmancharia. Isso é muito mais importante do que prolongar minha vida.
Como não retruquei, ele estendeu a mão e segurou meu braço.
— Por favor, aceite isso. Deixar vocês será a coisa mais difícil que terei que fazer, mas sei que precisa ser feito. De alguma forma, quando chegar a hora, tentarei encontrar coragem.
Desolado, apoiei minha testa em seu joelho. Meus olhos ardiam com as lágrimas não derramadas.
— Eu sei que encontrará — afirmei, renovando meu luto por sua perda iminente. Quando ergui a cabeça, perguntei: — Phet existiu ou foi sempre você?
— O propósito de Phet era orquestrar a maldição do tigre. Eu sou Phet e ele sou eu... na maior parte do tempo — afirmou, hesitante.
— Mas nós teríamos farejado você. Tanto Ren quanto eu teríamos percebido isso há muito tempo.
Kadam sacudiu a cabeça.
— Consegui ocultar meu cheiro não só enchendo a cabana com uma imensa quantidade de ervas, mas também me deslocando ligeiramente no tempo. Vocês também têm essa habilidade. Ambos podiam me ver e tocar, mas, se pararem para pensar, vão notar que não se lembram de Phet ter um cheiro pessoal. — Ele pôs a mão em meu ombro. — Kishan, por mais que eu fosse gostar de fazer isso, discutir o lugar de Phet em nosso mundo não é a razão de eu estar aqui hoje. Você precisa viajar para o futuro e salvar a Srta. Kelsey.
— Salvá-la? Como? Ren...
Kadam ergueu as mãos para me interromper, levantou-se e disse:
— Será mais fácil mostrar. Você vai precisar do Amuleto de Damon. Pegue-o emprestado com Anamika, mas não conte a ela que me viu, não ainda. Encontre-me aqui em uma hora e eu lhe darei as instruções que você precisa para cumprir seu propósito.
Pisquei e ele se foi, deixando apenas a grama amassada no local onde tinha estado. Meu mundo havia sofrido outra reviravolta, mas dessa vez a ideia me deixava eletrizado. Cada nervo de meu corpo estava tenso e a adrenalina circulava em minhas veias enquanto eu corria por entre as árvores. Insatisfeito com meu ritmo, transformei-me em tigre e cobri a distância até o pé da montanha de Durga em pouco tempo.
Esculpido no imponente pico himalaio chamado monte Kailash, o palácio de Durga raramente era visto, pois com frequência se ocultava entre as nuvens, mas, quando o sol afugentava esse seu manto orvalhado, a visão de nosso lar era impressionante. Fora construído no estilo de um templo chinês, com torres, pavilhões e arcos que acompanhavam os contornos da encosta da montanha. Cinco andares se conectavam por meio de escadarias e longos corredores, e os íngremes telhados eram revestidos com ladrilhos vitrificados que reluziam ao sol. No centro de duas torres simétricas, Anamika usara seu poder para criar um chafariz que se elevava a grande altura, se derramava sobre pedras de granito no nível mais baixo e então corria livremente pela encosta, criando uma cachoeira que refletia o arco-íris quando o sol da tarde incidia sobre ela no ângulo certo. Cercava o chafariz um amplo jardim florido com dezenas de variedades de rosas e, em um dos cantos, ela havia modelado um grande lago, onde cultivava lótus, sua flor favorita. Quando eu ficava no palácio, meu lugar favorito era seu jardim. À noite, eu dormia na grama aparada e macia, sob o céu estrelado, e imaginava o que poderia ter sido.
Uma escadaria em zigue-zague fora esculpida na pedra, levando do palácio até o pé da montanha, onde acólitos se reuniam para pedir favores à deusa. Era o único acesso dos mortais a nossa casa, por isso era fechado e fortemente vigiado. Havia sempre um bom número de pessoas acampadas logo abaixo do palácio, implorando permissão para entrar. Somente a poucas pessoas especiais era concedida uma audiência com Anamika. Mesmo assim, quando subiam ao topo, eram sempre escoltadas pelos leais soldados remanescentes do exército de Durga.
Querendo evitar ser visto, dei a volta por trás da montanha, passando por uma entrada particular que somente Anamika e eu usávamos. Por mais dramático que fosse subir e descer em uma nuvem todos os dias, ambos decidimos que queríamos algo mais prático e construímos entradas secretas para o palácio que um dia pertencera a Lokesh.
Mudando para a forma humana, apoiei a mão em uma depressão na parede, onde havíamos criado uma espécie de fechadura usando nosso poder. Fora ideia minha instalar um mecanismo baseado no reconhecimento das mãos que daria entrada somente a nós dois. Eu sabia que Kelsey conseguira usar a magia do desenho de hena de Phet para entrar em diferentes reinos onde os presentes de Durga haviam sido escondidos, e eu tinha guardado a informação.
A porta oculta se abriu e me certifiquei de que estivesse novamente fechada antes de subir a longa escadaria. De repente, pensei em uma coisa que me fez interromper abruptamente a subida. Percebi que nunca houve um desenho de hena dado por Phet. Sempre fora um desenho de Kadam. Fora ele quem iniciara Kelsey em sua jornada. Sacudindo a cabeça, tentei não pensar na estranheza de Kadam ser Phet e, em vez disso, me concentrei em Kelsey. Os degraus pareciam intermináveis quase todos os dias, mas especialmente hoje, quando eu sabia que logo veria Kelsey.
Irrompendo pelo painel oculto e correndo até o salão principal, gritei:
— Anamika!
Não houve resposta. Deslizando brevemente no mármore escorregadio e tropeçando nos cantos de um tapete muito caro, presente de um rei como forma de expressar gratidão pela ajuda de Durga para superar a seca que afetara sua nação, procurei cômodo após cômodo, minha voz ecoando em cada um dos amplos espaços.
Opulento e impressionante eram duas palavras que vinham à mente assim que se pisava no palácio que Lokesh havia criado para ser sua residência na montanha. Escavado na encosta e repleto com mais riquezas do que eu jamais imaginara que existissem, o lugar era o sonho de um rei ganancioso.
Mesmo que eu já não preferisse antes os espaços ao ar livre, o interior da casa de Lokesh teria feito com que isso acontecesse. Suponho que fosse bonito de certa forma. As paredes eram incrustadas com pedras preciosas que o mago maligno havia extraído da terra. O trono de Durga, feito de diamante cor-de-rosa, era impressionante, assim como o salão em que ela recebia embaixadores, mas eu achava que todo o local tinha uma atmosfera estéril e fria. Anamika havia se esforçado para tornar os grandes salões mais aconchegantes, mas, como o teto de cada ambiente se elevava muito acima das cabeças e não havia com quem partilhar as riquezas, o local acabava ecoando de uma forma solitária. Eu perambulava por ele como uma abelha deixada sozinha na colmeia. O espaço a minha volta parecia errado — desprovido do zumbido diário da vida normal.
Lokesh tinha o dobro do tamanho de um homem normal quando morara ali, portanto suponho que as dimensões alongadas do lugar fossem necessárias. Ele havia fundido seu corpo com o de um búfalo e se tornara uma criatura monstruosa que provavelmente precisava da cama gigante e da lareira grande o bastante para cozinhar três alces — um ao lado do outro —, que ficavam onde agora era meu quarto.
Frustrado, voltei para o salão ao qual me referia como sala do trono e chamei novamente:
— Anamika!
Senti sua presença antes de ouvi-la.
— Por que você está berrando? — perguntou ela, irritada.
— Onde você estava?
— Eu estava...
Eu a encarei com os olhos estreitados.
— Você saiu para ajudar alguém e não me avisou?
Ela levantou o queixo, resoluta.
— E se tiver saído?
Exasperado, passei a mão pelos cabelos.
— Você conhece a regra, Ana. Você não sai sem mim. E se alguma coisa tivesse acontecido?
— Você estava ocupado com seu desconsolo. Além disso, essas pessoas precisavam mesmo de ajuda. Aconteceu um incêndio e...
Eu a interrompi:
— Não estou nem aí se uma nação inteira pegar fogo. A regra é: venha e me encontre primeiro.
Ela soltou um suspiro profundo e murmurou, enquanto se abaixava para tirar as botas:
— Tudo bem. Da próxima vez vou forçar sua pessoa digna de pena a me acompanhar. Está bem assim?
— Sim.
Ela puxou a fivela que prendia seus cabelos e a cabeleira negra e sedosa cascateou por suas costas. Fiquei transfixado quando correu as mãos por ela e suspirou de prazer por finalmente poder relaxar.
Quando ela se virou e anunciou que ia tomar um banho e depois iria para a cama, eu a segui até ela perceber. Então ela empurrou meu braço e colocou a mão em meu peito, como se para me impedir.
— Isso não foi um convite — disse ela.
O calor de seu toque se espalhou por meu corpo, provocando uma lânguida sensação de profundo contentamento. O poder fluiu entre nós, vibrando como uma tempestade em formação.
Quanto mais perto ela chegava de meu coração ao me tocar, mais poderosa era a sensação. Eu me perguntei brevemente se a conexão entre Ren e Kelsey era assim tão forte. Então me lembrei de que não queria pensar nisso.
Afastando-me dela e esfregando o braço, retorqui:
— Mesmo que fosse, eu não aceitaria. Você é áspera demais para esfregar as costas de um homem.
Um rubor subiu por seu pescoço e inflamou seu temperamento já esquentado.
— Estou bem ciente de que você prefere mulheres suaves e maleáveis. E pode acreditar quando digo que não tenho qualquer interesse em ver suas costas nuas, muito menos em esfregá-las para você!
Ergui as mãos em rendição.
— Está certo. Acalme-se. Desculpe por aborrecê-la. Só estava pensando que seria uma boa ideia ficar com o amuleto enquanto você toma banho. Assim, se surgir alguma coisa, posso resolver enquanto você relaxa.
— O que aconteceu com a história de nós dois resolvermos juntos?
— Se for alguma coisa importante, virei buscar você. — Sorri. — Quer você esteja vestida ou usando nada mais que espuma de sabonete.
Anamika sibilou.
— Você não vai perturbar o meu banho.
Ela mordeu o lábio de forma tentadora enquanto ponderava o que fazer. Quando refletia sobre alguma coisa, seus olhos verdes se iluminavam. Aqueles olhos se ergueram para os meus e então, rapidamente, se desviaram.
— Ana, se eu não conhecesse você, diria que está enrubescendo.
— A deusa Durga não enrubesce — declarou ela ao erguer o queixo com altivez.
Eu ri.
— Claro que enrubesce.
Com um grunhido de frustração, ela arrancou o amuleto de seu pescoço e o enfiou em minhas mãos.
— Tome, mas não me perturbe pelo resto da noite.
— Sem problema. — Ela me deu as costas. — Durma bem, Ana — falei enquanto se afastava.
Ela parou e assentiu com a cabeça antes de virar no corredor.
Eu só havia ameaçado interromper seu banho porque sabia que isso a distrairia de meu estranho pedido para ficar com o amuleto, mas não podia negar que a ideia de encontrá-la em uma banheira de espuma era agradável. Ali, parado no local em que ela desaparecera, fiquei olhando para o nada por um momento, esfregando o maxilar e sorrindo, antes de me lembrar de que tinha algo a fazer.
Kelsey!
Em dois segundos saí pela porta do palácio e usei o poder do amuleto para transportar meu corpo através do espaço de volta ao ponto da floresta onde deixara Kadam.
Quando as árvores giraram à minha volta — uma sensação vertiginosa e nauseante — e finalmente pararam, me perguntei se estava no lugar certo.
— Kadam? Kadam? — gritei.
Ele se materializou instantaneamente.
— Peço desculpas por deixá-lo à espera. A Srta. Kelsey estava preocupada comigo.
— Ela... Você a viu agora?
— Em meu tempo, sim.
Tentando me livrar da confusão, decidi não me aprofundar.
— Você disse que tinha instruções?
Ele segurou meu braço e assentiu.
— Venha comigo e, quando chegar a hora, salve-a.
Franzindo a testa, eu disse:
— Não acho que você tenha me dado informações sufi...
O solo da floresta começou a girar e, com um solavanco nauseante, fui arrancado do passado e impelido para o futuro. Quando chegamos ao destino que ele havia escolhido, ainda estávamos cercados por árvores e nossos pés afundaram numa grossa camada de neve.
— ... cientes.
Enquanto eu cambaleava e caía apoiado em um dos joelhos, subjugado pelo salto no tempo, Kadam sussurrou algumas palavras e a gravata que ele estava usando explodiu em milhares de fios coloridos. O Lenço Divino funcionou de acordo com seu comando e logo estávamos vestidos em trajes modernos para a neve. Com o trabalho finalizado, o lenço transformou-se em uma versão de si mesmo feita de lã vermelha grossa. Kadam jogou a ponta sobre o ombro e disse:
— Siga-me.
— Como não desmaiei? — perguntei enquanto avançava aos tropeços, minha força voltando rapidamente.
— O Amuleto de Damon torna a transição mais fácil e, no meu caso, já viajei através do tempo vezes suficientes para ter me acostumado a seus efeitos. Você logo se adaptará também.
As densas coníferas que nos cercavam estavam pesadas com a neve que as cobria e eram uma linda visão enquanto o sol poente fazia a neve espessa brilhar em um rubor de cores que me lembrava as bochechas de Kelsey. Em poucos minutos saímos da floresta e chegamos a um resort. As cores externas e o telhado inclinado imitavam a impressionante vista da montanha atrás dele.
— Não estamos no Himalaia, estamos? — perguntei, embora já soubesse a resposta.
Kadam sacudiu a cabeça.
— Aqui é o monte Hood.
— Oregon — eu disse, tanto para mim mesmo quanto para ele.
Estava confuso, pois lembrava que Kelsey não gostava muito de neve. Talvez isso tenha se originado quando ela foi atacada por um urso naquela vez que subimos juntos o monte Everest na busca pelo portão do espírito. Mas, se a memória não me falhava, ela mencionara que não gostava do que chamava de “esportes de inverno”, e esse lugar, pela atividade que eu estava observando, era claramente projetado com esse objetivo.
Dezenas de pessoas, inclusive crianças pequenas, dirigiam-se para o resort, muitos carregando esquis ou pranchas ao se recolherem para a noite. Estavam vestidas com roupas em uma variedade de cores, do tipo que eu sabia serem do tempo de Kelsey.
Elas entravam em um edifício principal ladeado por duas alas feericamente iluminadas. As dezenas de janelas me fizeram deduzir que era nas alas que ficavam as acomodações dos hóspedes. Uma luz cálida jorrava do edifício e postes de luz iluminavam nosso caminho à medida que o sol ia mergulhando além do horizonte. Logo alcançamos um grupo carregando seu equipamento nos ombros e entramos com eles no edifício.
Depois de nossa vez batendo as botas em grossos tapetes na entrada, Kadam me levou até uma lareira de pedra e mandou que eu me sentasse.
— Não se levante — disse ele. — Não até que eu lhe diga. — Com essa instrução enigmática, ele me deixou sozinho.
Uma garçonete não demorou a me trazer uma caneca de chocolate fumegante coberto com chantilly e canela, que eu suspeitava que Kadam havia pedido que me fosse servido. À medida que o fogo e o chocolate me aqueciam, meu coração começou a bater mais forte, sabendo que logo a veria outra vez.
Kelsey, a mulher que eu amava mais do que tudo, chegaria a qualquer momento. Ensaiei minhas primeiras palavras. Você não faz ideia de como é bom ver você. Senti tanta saudade. Eu errei. Por favor, volte para mim. Eu te amo.
Eu ainda não sabia quais palavras brotariam de mim inicialmente e, para ser sincero, não estava preocupado com isso. Se pudesse apenas pôr os olhos nela outra vez, tinha certeza de que saberia o que dizer. Uma família entrou arrastando as malas e se deteve na área de espera onde eu me encontrava. A mãe sorriu para mim timidamente, ao passo que o pai me olhou de cima a baixo antes de arrumar seus pertences em uma pilha, e então disse à jovem filha:
— Sente-se perto da lareira enquanto fazemos o check-out. A gente deve demorar alguns minutos, pois há fila.
A garota assentiu e pôs a mochila na cadeira a meu lado. Abrindo o zíper, ela pegou um livro e, depois de puxar a touca cor-de-rosa até as sobrancelhas, escondeu a cabeça atrás dele e começou a ler.
Olhei para a garota, sorri e a cumprimentei movendo a cabeça, mas então voltei a me remexer, nervoso, pensando na mulher que eu amava. Ergui meu chocolate quente e bebi um gole, deixando que o aroma fizesse cócegas no nariz. Então fiquei paralisado quando um novo cheiro me assaltou.
Kelsey! Ela estava ali! Girando a cabeça de um lado para outro, procurei por ela entre o alvoroço de pessoas e amaldiçoei o fato de Kadam ter insistido em que eu permanecesse sentado. Ainda assim, estiquei o pescoço e me contorci de toda forma possível para ter um vislumbre dela.
— Você está bem? — perguntou a garota, me espiando por sobre as páginas de seu livro.
— Sim — repliquei, irritado. — Só estou procurando uma pessoa.
— Quem?
— Estou procurando minha... minha amiga.
— Como é a sua amiga?
— Cabelos compridos castanhos, olhos castanhos, um lindo sorriso.
Os olhos dela se arregalaram enquanto ela me espiava acima da borda do livro e dava uma risadinha.
— É a sua namorada?
— Era.
Girei na cadeira, examinando as pessoas que saíam pela porta, temendo que ela houvesse passado por mim e partido. Eu não a vi, mas seu cheiro ainda estava forte, então relaxei e deixei escapar um suspiro, lembrando-me de que devia confiar em Kadam. Ainda assim, mantive os olhos bem abertos.
— E você está aqui para reconquistá-la, certo?
— Mais ou menos isso — murmurei, distraído, enquanto levava à boca o chocolate e bebia.
— Isso é tão romântico — disse ela.
Resmunguei e dirigi um sorriso irônico à garota.
— Pelo menos você acha isso.
— Ah, eu acho. Seu chocolate está cheiroso. Tem canela nele? — Ela agora me espiava pela esquerda do livro, de modo que eu só podia ver metade de seu rosto.
Quando inclinei a cabeça para vê-la melhor, ela arquejou e escondeu novamente os olhos.
— Quer um? — ofereci.
— Humm... não devo aceitar presentes de estranhos.
— Então vou me apresentar. Meu nome é Kishan.
— É um nome estranho. De onde você é?
— Da Índia. E você, de onde é?
— De Salem.
Sorri.
— Eu conheço a cidade. — Ela me olhou sorrateiramente por um segundo, pelo lado direito do livro, e eu disse: — Não precisa ter medo de mim.
— Não estou com medo — insistiu ela. — Só estou sendo... cautelosa.
— Como deve mesmo ser — comentei, sério, assentindo.
Chamei a garçonete, que logo trouxe um segundo chocolate para a garota, e ficamos em silêncio por alguns minutos, eu observando o vapor elevar-se no ar e ela fingindo ignorar meu gesto. Por fim, perguntei:
— Você não vai nem experimentar? É muito bom.
Devagar, ela moveu o livro, ainda mantendo o rosto escondido, e sua mão enluvada projetou-se e segurou a alça da caneca. Após alguns goles ruidosos, pousou a caneca meio vazia de volta na mesa.
Rindo, eu disse:
— É bom ver novamente uma garota que saboreia seu chocolate. Minha namorada adorava chocolate quente.
— É delicioso — disse ela, tímida. — Obrigada. — Enfim ela baixou o livro e sorriu para mim.
Feliz com minha pequena vitória, eu estava prestes a caçoar dela, dizendo que parecia uma traça devorando um livro, quando fitei seus olhos. Globos familiares cor de chocolate em um rosto encantadoramente redondo, de maçãs rosadas. Um tremor me percorreu e meu coração parou.
— O que foi? — perguntou ela, formando as palavras em torno do aparelho de metal preso a seus dentes.
— Eu... eu... eu não sei. — Engoli em seco, mal conseguindo falar.
Eu a encarava de uma forma que tinha certeza que ia assustá-la e ela jogou o livro de lado.
— Está tendo um ataque cardíaco, Sr. Kishan? Por que não está se mexendo?
Ela se aproximou de mim e sacudiu meu ombro. Longas tranças balançavam de um lado para outro, como o pêndulo de um relógio de pé marcando o tempo, e, quando ela se inclinou sobre mim, não pude deixar de rir interiormente da ironia.
Kadam aproximou-se e a garota recuou. Ele assegurou-lhe de que eu estava bem, mas que provavelmente estava um pouco desorientado em razão de uma queda feia. Quando ela voltou a se sentar, me observando, preocupada, ele sentou-se ao lado dela e se apresentou. Ela falou muito mais à vontade com ele e, depois de se certificar de que eu estava recuperado, virou o restante do chocolate e começou a contar a ele sobre as férias com os pais na estação de esqui.
Kelsey.
A garota que eu amava estivera sentada a meu lado o tempo todo. Seu cheiro inesquecível estivera por toda a minha volta. Essa era minha Kelsey. Imaginei que ela tivesse uns 13 anos. Suas bochechas estavam rosadas por causa do calor do fogo e cor-de-rosa parecia ser sua cor favorita, se a mochila e o gorro serviam como indicação. Como pude não reconhecê-la? Era óbvio para mim agora. Eu devia tê-la identificado pelos olhos. Pela voz.
Após um momento, seus pais voltaram e, enquanto Kelsey apresentava Kadam, olhei demoradamente as duas pessoas que a haviam influenciado tanto. A mãe era cheinha e bonita como a filha e, enquanto ela ouvia Kadam contar sua história fabricada das pistas de esqui, vi a força por trás da simpatia que tantas vezes eu vira nos olhos de Kelsey. Ela herdara da mãe a determinação e a franca generosidade.
Quando o pai se sentou ao lado dela e colocou a mão no ombro da mulher, Kelsey se aninhou entre os dois e recostou a cabeça nele. Uma terna lembrança das vezes que ela fez o mesmo comigo me veio à mente. Enquanto ele falava com Kadam, reconheci a mente aguçada atrás do homem gentil. Ele limpava os óculos durante a narração de Kadam.
A versão jovem de Kelsey me fascinava. Ela ainda movimentava as mãos ao falar. Os cabelos castanhos eram mais longos do que eu estava acostumado a ver e em suas tranças faltavam as costumeiras fitas. O riso franco que ia até os olhos era o mesmo. Meu coração se apertava ao vê-la como tinha sido, e naquele momento apaixonei-me por ela ainda mais do que antes. Eu a amava independentemente da idade e, se ela precisasse ser salva, então eu me lançaria montanha abaixo para protegê-la. Era hora de me tornar um participante ativo na conversa.
— Está tudo bem, pai — afirmei a Kadam. — Tenho certeza que posso esperar até de manhã.
— Bobagem — replicou a mãe de Kelsey. — Tem espaço suficiente para levar você.
— Bem, Maddie, nós temos muita bagagem — contrapôs Joshua Hayes.
— Não quero ser um fardo, de jeito nenhum — declarei. — Vou passar a noite aqui e irei no transporte da manhã.
— Ouça, filho — insistiu Kadam —, pode estar quebrado. Não quero esperar tanto tempo para examinar seu tornozelo. Se você pudesse andar, seria outra história.
Pegando sua deixa, eu disse:
— Olhe, está tudo bem. Eu posso andar. Está vendo? — Levantei-me, pondo o peso todo na perna direita, então dei alguns passos desajeitados e agarrei uma coluna de madeira ali perto, mancando como se estivesse sentindo uma dor terrível. Kelsey gritou e correu até mim. Ela passou o braço pela minha cintura e sua mãe veio para o outro lado, alvoroçando-se em volta de mim enquanto eu tornava a me sentar.
— Eu não vou mais ouvir essas bobagens — disse ela. — Joshua, vamos levar este jovem para o hospital, vê-lo acomodado e pronto. Não se fala mais nisso.
— Sim, querida. — O marido sorriu e começou a pegar a bagagem. — Vou buscar o carro e guardar nosso equipamento primeiro.
Dando tapinhas em meu braço, Maddie disse:
— Fui enfermeira até ter Kelsey e sei que um tornozelo quebrado não é brincadeira. Fique sentado aqui e nos deixe ajudá-lo. Eu insisto.
Ela exibia a mesma expressão determinada de “Não vou aceitar não como resposta” que aparecia no rosto de Kelsey e, embora eu soubesse que Kadam havia orquestrado a coisa toda, não pude deixar de me divertir com a situação. Sorri calorosamente para as duas mulheres Hayes e repliquei:
— Ter duas jovens senhoras tão adoráveis cuidando de mim já curou todos os meus males, exceto um.
— O que ainda dói, Sr. Kishan? — perguntou a jovem Kelsey.
Inclinando a cabeça na direção dela como se fosse lhe contar um segredo, eu disse em voz alta:
— O fato de que não posso ter nenhuma das duas para mim é o que mais dói.
Kelsey ficou boquiaberta e a mãe me encantou com um rubor que coloriu suas faces.
— Ora, ora — disse ela. — Eu sou muito velha para você e Kelsey é muito nova. Além disso, se meu marido o ouvir flertando conosco, pode mudar de ideia sobre levá-lo para o hospital.
— Se vocês duas me pertencessem, receio que iria guardá-las com o mesmo ciúme — concedi. — Esse será nosso segredo então — falei, com um sorriso.
Depois que Kadam pagou à garçonete nossos chocolates quentes, Maddie Hayes se levantou, enquanto Kadam exclamava com toda a sinceridade:
— Minha querida, a senhora me tratou com a maior generosidade. Não são muitos os que se dispõem a ajudar o outro como a senhora fez. Confio meu filho totalmente a seus cuidados e sei que vai tratá-lo como se fosse seu filho. — Ele fez apenas uma breve pausa antes de continuar, sério, segurando a mão dela entre as suas: — Espero que saiba que eu faria o mesmo por sua filha, se fosse preciso.
— Eu gostaria que houvesse espaço no carro para o senhor também — replicou ela com bondade.
— Infelizmente, o destino decidiu que eu deveria ficar para trás. Mas nem tudo está perdido. A senhora é uma alma extraordinária, Sra. Hayes. É uma honra tê-la conhecido.
— Minha também — disse ela.
— E sua namorada? — perguntou Kelsey. — Não devíamos esperar que ela voltasse?
Baixando os olhos, eu disse suavemente:
— Se ela quisesse voltar para mim, teria voltado.
Enquanto Kelsey pegava a mochila, eu a ouvi murmurar:
— A garota deve ser louca de deixar um cara bonito assim.
Ela não sabia que, com minha audição de tigre, suas palavras eram claramente audíveis. Quando se voltou, sorri para ela, que enrubesceu e desviou o olhar.
Joshua Hayes logo veio nos buscar e ele e Kadam me ajudaram a claudicar até o veículo. Kelsey e a mãe ficaram na entrada do hotel enquanto os homens me acomodavam. Ouvi Kelsey perguntar à mãe:
— Por que estamos levando um estranho para o hospital? Pensei que precisássemos tomar cuidado com estranhos.
A mãe, pensando que eu não ouviria, respondeu:
— Meu coração me diz que eles não têm a intenção de nos fazer mal, e acredito que às vezes é melhor ouvir o coração do que a cabeça. Nunca deixe o medo impedi-la de ajudar os outros, Kells. Você está certa ao pensar que sempre deve tomar cuidado, mas às vezes, se não se arriscar, pode perder uma aventura incrível. Quero que você experimente tudo que a vida tem a oferecer, e isso significa correr riscos de vez em quando. Entendeu?
— Entendi — replicou Kelsey.
— Ótimo. Agora vamos nos certificar de que nosso convidado está confortável, ok?
Kelsey logo se juntou a mim no banco traseiro e, enquanto seus pais prendiam os cintos de segurança, me dei conta do milagre que era ter aquele vislumbre do passado de Kelsey. Sua mãe era uma mulher incrível e eu gostaria de tê-la conhecido antes. Ela me lembrava minha mãe, e fiquei triste por saber que Kelsey não podia mais contar com os pais. A morte deles deve tê-la deixado arrasada.
A noite estava fria e límpida e, embora houvesse nevado à tarde, as estrelas estavam claramente visíveis e a lua iluminava nosso caminho. Kelsey prendeu o cinto de segurança e guardou o livro na mochila. Antes que fechasse o zíper, vi de relance um objeto muito familiar.
— Isso é uma colcha? — perguntei.
Ela assentiu e, constrangida, gaguejou:
— Eu sei que estou muito velha para andar por aí carregando meu “cobertorzinho”, mas foi minha avó que a fez para mim e ela morreu uns meses atrás, então eu gosto de mantê-la por perto.
Inclinando a cabeça para ela, eu disse:
— Não precisa se envergonhar. Minha namorada tem uma colcha de estimação também.
Maddie me lançou um olhar de gratidão e acenou para Kadam, que assentiu silenciosamente para mim quando o pai de Kelsey ligou o carro. Agarrei o Amuleto de Damon escondido sob minha camisa, me perguntando de que forma eu teria de usá-lo.
O pai de Kelsey ligou o rádio, deixando a música tocar suavemente ao fundo enquanto descíamos devagar a montanha coberta de neve. O pequeno automóvel estabeleceu um ritmo que criava uma espécie de música própria quando combinado ao som das correntes dos pneus abrindo passagem na neve espessa. Recostando a cabeça, fechei os olhos e quase pude acreditar que Kelsey era minha e que estávamos visitando seus pais para pedir sua bênção, para que ela me apresentasse como o homem que ela amava, aquele sem o qual ela não podia viver.
Em vez disso, ela chamou minha atenção quando falou sobre a escola com a mãe. Parecia tímida ao responder às perguntas da mãe e eu me perguntei se seria o assunto ou minha presença que a deixava nervosa. Maddie tinha acabado de voltar sua atenção para mim e perguntava se eu estava de visita ou se havia me mudado para o Oregon quando Joshua ajeitou o retrovisor e olhou para trás.
— O que foi? — perguntou a mulher.
Ouvi o ruído de um carro e olhei pela janela traseira. A aceleração do motor vinha acompanhada por risadas escandalosas. Kelsey deu um pulo quando o motorista acionou a buzina várias vezes.
— Garotos loucos — disse Joshua. — Provavelmente estão bêbados.
— Ainda restam vários quilômetros de descida. Acene para que nos ultrapassem — sugeriu Maddie.
Joshua baixou o vidro da janela e agitou o braço, mas a buzina continuou. Quem quer que estivesse conduzindo o veículo atrás de nós dirigia em zigue-zague na densa camada de neve e gelo que cobria a estrada. Eles bateram com a traseira do carro em um abeto alto e o impacto lançou uma chuva de neve em cima do seu automóvel. Em vez de trazê-los à razão, o efeito que isso provocou nos garotos foi fazê-los dar gritos de comemoração, como se tivessem acabado de ganhar uma grande batalha. Então aceleraram, aproximando-se perigosamente de nosso veículo.
Kelsey gritou.
— Vai ficar tudo bem — eu lhe assegurei. Ela assentiu, confiante, mas então o motorista em nossa traseira piscou os faróis altos. Kelsey abaixou-se no assento, de modo que sua cabeça não pudesse mais ser vista, envolveu o próprio torso com os braços e começou a brincar nervosamente com uma das tranças.
Vê-la assustada fez meus punhos se fecharem de raiva. Eu queria assumir a forma de tigre e atravessar a janela traseira. Imaginar-me aterrissando pesadamente no capô do carro deles e raspando as garras no para-brisa enquanto eu rugia e eles choramingavam me deu certa satisfação, mas duvidava que esse fosse o motivo para eu estar ali.
Por que estou aqui? Para salvar Kelsey. Mas de quê? Desses garotos? O que eles querem com ela? Assim que comecei a especular, minha mente foi tomada por possibilidades nefastas que me fariam rasgar a garganta de qualquer garoto que ousasse sequer pensar nelas. É por isso que estou aqui? Para evitar que esses garotos machuquem Kelsey e seus pais?
Até aquele momento, eles tinham se limitado a ser irritantes. Não havia razão para cortar gargantas. Pelo menos, ainda não. Kelsey e os pais estavam seguros por ora.
O carro seguia costurando atrás de nós, os faróis criando no interior de nosso carro sombras que se esticavam e encolhiam a cada curva. Eu podia ver a tensão nos olhos de Joshua Hayes, mas devo reconhecer que ele estava tão calmo como se estivesse lendo um livro. Ele se esforçava para acalmar a mulher e a filha e se recusou a acelerar na descida da perigosa montanha, apesar da pressão dos jovens idiotas colados em sua traseira. Para distraí-las, começou a falar sobre aonde deveriam ir nas férias do próximo ano, sugerindo uma praia ou algum outro lugar quente, e perguntou aonde elas gostariam de ir.
— Kelsey — disse ele —, o que você acha?
Ela deu de ombros e, quando ele tornou a perguntar, falou baixinho:
— Eu escolhi este ano. Talvez mamãe possa escolher no próximo.
— Tem razão. — O pai sorriu no espelho retrovisor. — Maddie? Aonde você gostaria de ir?
— Ah, não sei — respondeu ela, nervosa. — Kishan? Talvez você possa nos falar um pouco sobre a Índia — sugeriu.
Eu tinha acabado de abrir a boca para responder quando o carro que vinha atrás bateu em nós e nos jogou alguns metros à esquerda antes que o pai de Kelsey recuperasse o controle.
— Agora isso está indo longe demais! — disse o Sr. Hayes em tom severo. Manobrou para voltar à sua faixa com a intenção de parar o carro, mas os garotos bêbados, que continuavam atrás, nos atingiram novamente, dessa vez nos lançando para a frente. O lado direito do carro raspou na parede da montanha. Quando faíscas voaram entre as janelas e a montanha, Kelsey gritou e agarrou minha mão. Eu apertei a dela, tentando tranquilizá-la.
Assim que o outro carro se afastou, eu me inclinei para a frente.
— Precisamos sair do carro, Sr. Hayes. Eu posso cuidar deles — garanti.
— Mas você está com o tornozelo quebrado — interveio a Sra. Hayes, ansiosa. — Além disso, é melhor ficar longe dos valentões e denunciá-los às autoridades do que enfrentá-los.
— Fugir de valentões não é o meu estilo, senhora. Sem querer ofender.
Ela me olhou.
— Não. Não consigo imaginá-lo fugindo de nada.
Kelsey me fitava com os olhos arregalados e o rosto pálido.
— Você não vai sair daqui, vai? — perguntou, nervosa.
— Se seu pai puder parar o carro com segurança, vou, sim.
Joshua Hayes assentiu pelo retrovisor e conseguiu parar o carro, virando as rodas dianteiras um pouco para a esquerda de modo que, quando minha porta se abrisse, eu estivesse de frente para os arruaceiros. No entanto, em vez de parar o carro, eles aceleraram.
— Joshua! Cuidado!
Eu tinha acabado de soltar o cinto de segurança quando eles nos atingiram e a porta do meu lado do carro dobrou para dentro, estilhaçando o vidro. Kelsey gritou e agarrou meu braço na tentativa de me puxar para o lado dela, para que eu não me ferisse. Nosso carro deslizou vários metros, descendo uma encosta que estava coberta com tanto gelo que nem mesmo as correntes dos pneus proporcionavam aderência. Fomos empurrados para a outra faixa, saindo dela e nos chocando contra um rochedo.
Antes que eu me desse conta do que estava acontecendo, meu corpo tornou-se leve e fui jogado com violência do outro lado do carro, atingindo alguma coisa macia, que logo reconheci: Kelsey.
Nós nos agarramos um ao outro e rolamos juntos enquanto o carro girava uma, duas, três vezes. Tentei protegê-la com meu corpo da melhor forma possível, mas o veículo dilacerado deu uma guinada até a beira da estrada e ouvi o ruído de metal sendo triturado quando nos chocamos contra um poste. Então meu estômago se revirou quando o carro foi lançado pela encosta, numa queda livre em direção ao topo das árvores na floresta lá embaixo.
Apertando Kelsey de encontro a meu peito, usei o poder do Amuleto de Damon para tirá-la dali antes que o carro atingisse uma árvore e o para-brisa se espatifasse. Não havia mais nada que eu pudesse fazer para evitar o horrível acidente que não só custou a vida da amada família de Kelsey como iria transformá-la para sempre, impactando a mulher que ela um dia viria a ser.

6 comentários:

  1. Eu tava na metade do capítulo quando entendi oq era isso e demorei uns 20 min pra terminar de ler

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    1. eu também entendi oque tava acontecendo só na metade e torci pra estar errada

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  2. Quando eu comecei a entender o que ia acontecer, entrei em negação.
    Quando aconteceu... Só consegui pensar "ain meu Deus, vou chorar"

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  3. Nss amo a Collen ,Mas demorei pra entender esse também capítulo !!🙈 😂😂😂

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Boa leitura, E SEM SPOILER!