12 de setembro de 2018

19 - Por pouco

A manhã chegou rápido demais. Meu corpo se pôs em alerta quase no mesmo instante em que ouvi movimento na porta do porão. Meus membros estavam frios e letárgicos. Fazia muito tempo que eu não sentia a fisgada do ar frio. O tigre em mim sempre me manteve aquecido. Era estranho ser apenas eu novamente. Não só sentia falta do pelo como também descobri que ansiava pela conexão que tinha com a deusa.
Embora a jovem versão dela estivesse muito perto, nosso elo havia sido rompido. Era como se a deusa e tudo que lhe dizia respeito nunca tivessem existido. O mundo precisava dela. Com surpresa, percebi que eu também precisava dela. Havia um grande conforto em sentir a presença constante de alguém a seu lado. Mesmo quando estávamos separados, ela era como uma âncora me conectando não só a ela, mas também ao mundo.
Enquanto refletia, percebi que sentia falta de seu brilho e de sua autoconfiança. Sua risada zombeteira, que costumava me irritar, havia de alguma forma se transformado em algo que ela usava para rir de si mesma, não para me magoar. Agora que eu a conhecia melhor, podia entender quem ela era de verdade. Ela estivera me testando, me pressionando, para descobrir se eu ficaria ou se fugiria. Muitas vezes fugi. A ironia era que precisei das lembranças de meu eu mais jovem para me dar conta do valor de Ana.
Por fora, ela era temível, linda, intocável. Mas eu a vira derreter sempre que encontrava uma criança que precisava dela. Eu a vira lutar com unhas e dentes para defender os fracos. Ela não pensava em si mesma. Não havia um pingo de vaidade nela. Era leal ao extremo e esperava o mesmo de seus homens e, agora eu sabia, de mim. Eu era o companheiro que o universo havia moldado para ela e, no entanto, meu coração e minha mente não foram seus. Não totalmente.
Um homem com uma tocha percorreu a série de jaulas, tirando as crianças. Em seguida, prendeu seus pulsos finos com ferro e amarrou seus tornozelos para que não pudessem correr. Elas receberam um gole d’água e um pedacinho de pão e, então, foram designadas para várias tarefas.
Uma a uma, subiram, desaparecendo de vista.
Quando passavam por mim, seus olhos arregalados relanceavam em direção à minha jaula e pude ver que me reconheciam como o contador da história. Algumas sorriram, hesitantes. A coisa mais assustadora de observar naquela procissão era o alívio em seus rostos ao saber que passariam o dia varrendo o chão, batendo tapetes ou ajudando a levar lenha para a cozinha. Se elas estavam felizes com isso, alguma coisa estava muitíssimo errada. Logo o porão ficou praticamente vazio. Anamika e eu fomos os únicos cativos deixados ali.
Alguns homens pararam diante da jaula dela.
— Esta noite você vai servir ao mestre pessoalmente outra vez, portanto, se eu fosse você, descansaria um pouco, enquanto pode — disse um deles, jogando um pedaço de pão para ela e entregando um copo d’água. O homem riu. Sua expressão grosseira confirmou meus medos mais profundos. — Ele gostou bastante de você. Mas não posso dizer que o culpo. São esses olhos, não acha? — perguntou ao companheiro.
— Imagine como ela será daqui a uns anos — replicou o sujeito e assoviou.
— Verdade — disse o primeiro, para em seguida franzir a testa. — É claro que ele vai acabar com ela muito antes de ela se tornar uma mulher.
Enfurecido, levantei-me de um pulo e segurei as barras de minha jaula com força. Meu sangue fervia tanto que seria capaz de derreter o ferro.
— Não ousem falar com ela — adverti, minha voz sussurrada e ameaçadora. — Se um de vocês se aproximar dela de novo, eu mato os dois. Sua dor e seu sofrimento serão tão lentos e terríveis que vocês vão implorar pela morte. Juro a vocês.
Um dos homens recuou, como se pressentisse minha sinceridade. O outro avançou corajosamente e insinuou que eu também devia ter uma queda por olhos verdes. Esse foi o último erro que ele cometeu. Rápida como uma cobra, minha mão disparou e agarrou a frente de sua camisa. Puxando-o em minha direção com violência, esmaguei seu rosto de encontro à jaula. O nariz dele se quebrou e o sangue escorreu pelo rosto. Antes que ele pudesse pegar a espada, empurrei sua mão e eu mesmo a peguei.
Agarrando o pescoço do homem que se debatia, atravessei sua barriga com a lâmina, então puxei a espada para golpear também o amigo, mas o homem correu escada acima, gritando por socorro. Erguendo a espada, golpeei com força a fechadura de minha jaula, empurrei o cadáver do homem para o lado e fiz o mesmo com a de Ana. Quando cedeu, abri a jaula e fiz sinal para que ela avançasse. Ela sacudiu a cabeça, os olhos verdes arregalados de pavor.
— Não vou machucar você — falei. — Prometo. Seu pai me mandou para resgatá-la.
— Meu... meu pai? — perguntou.
— É. Tive de me esforçar para evitar que Sunil me seguisse. — Tentei sorrir, mas temi que parecesse mais uma careta.
Seus olhos encheram-se de lágrimas à menção do irmão e ela estendeu a mão trêmula e a colocou na minha. Levantou-se, hesitante, enquanto eu olhava para a porta aberta do porão. Era apenas uma questão de tempo até que os reforços aparecessem, e o fato de me movimentar lentamente para encorajar sua confiança estava consumindo os minutos. Tentei não pensar no que fora feito a ela, principalmente quando a vi mancar. Quando tive certeza de que ela viria comigo, eu disse:
— Agora fique atrás de mim. Vou ter de lutar. Quando chegarmos lá em cima, quero que você encontre um lugar para se esconder. Eu irei buscá-la, prometo.
Ela assentiu e começamos a subir em direção à porta do porão. Um mercenário veio a meu encontro no topo dos degraus, mas eu o despachei rapidamente e joguei seu corpo escada abaixo. Levando a mão atrás de mim, procurei por Ana e meus dedos esbarraram em seu ombro. Tentei ignorar o fato de que ela se afastou na mesma hora.
— Venha — falei com suavidade. — Temos de continuar.
Meus olhos arderam com a luz depois de tantas horas preso na escuridão. Deparei apenas com o rosto assustado de duas crianças quando alcançamos o piso principal da casa. Gesticulei para que elas viessem conosco e se posicionassem atrás de mim. Progredimos devagar através dos quartos e salas. O tilintar das correntes das crianças me fazia estremecer. Logo eu tinha Anamika e outras seis crianças. Não fazia a menor ideia de como iria tirá-las dali em segurança. Com o número de homens que guardava a cidadela, era praticamente impossível, mas eu precisava tentar.
Levei o dedo aos lábios para fazer as crianças ficarem em silêncio enquanto espiava o interior de cada um dos cômodos. Estavam todos vazios. O mais silenciosamente possível, abri armários à procura de mais armas ou das chaves para abrir as correntes das crianças, mas não encontrei nada exceto uma faca de cozinha. Enfiei-a na faixa enrolada em minha cintura. Avançando sorrateiramente pela casa, cheguei à porta da frente e a entreabri. Havia muitos guardas.
Pressionando a cabeça contra a porta, sussurrei uma súplica silenciosa por ajuda, embora não soubesse de fato quem poderia me ajudar. As crianças me seguiram para os fundos da casa, movendo-se o mais silenciosamente que conseguiam. Era surpreendente como eram boas em manter silêncio. Isso não estava certo. Crianças devem estar rindo e brincando, não se encolhendo de medo.
Meus olhos absorviam tudo à medida que atravessávamos a casa — a ausência de adultos, a bagunça em uma cozinha que fora deixada às pressas, a pilha de sujeira em um piso parcialmente varrido. Isso era uma armadilha. Eu podia sentir. Quando espreitei pela porta dos fundos e não vi ninguém, deixei escapar um suspiro de alívio. Voltando-me para as crianças, avisei que permanecessem atrás de mim e seguissem minhas instruções. Pelo ângulo do sol, eu podia ver que a manhã já ia pelo meio. Fomos até a esquina da casa, mas havia muitos homens para que eu conseguisse passar.
Voltando na direção em que tínhamos vindo, espiei na outra esquina e vi uma cena semelhante. Então ouvi o inconfundível som de uma espada sendo desembainhada. Lentamente, virei-me e vi que tínhamos sido cercados. Enquanto andávamos furtivamente ao longo da casa, os homens do outro lado haviam se posicionado. Vários deles seguravam com força as crianças, enquanto muitos outros tinham arcos e flechas voltados para mim, prontos para disparar.
Tudo que eu tinha era um punhado de crianças agora espremidas atrás de mim junto à casa, uma espada suja de sangue e uma faca. Eu falhara. A esperança irracional de que a sorte fosse de alguma forma me encontrar foi incinerada e me deixou um gosto de cinzas na boca. Erguendo os olhos, pude ver dezenas de reforços, antes escondidos, subitamente de pé nas ameias acima. O feitor dos escravos encontrava-se entre eles, me olhando com um misto de desapontamento e pesar.
Usando um novo turbante, dessa vez verde, o homem que me comprou abriu caminho entre os homens e juntou as mãos, um sorriso piegas no rosto.
— Muito bem — disse ele. — Preciso cumprimentá-lo por chegar até aqui.
Eu não respondi.
Ele me olhou com perspicácia.
— Tenho de dizer que estou um pouco surpreso. Você não foi atrás do tesouro, como pensei que iria. — O homem olhou as crianças atrás de mim, especificamente Anamika. — Embora eu não possa menosprezar seu bom gosto — ele pegou uma bolsa e tirou dali o ovo da Fênix —, tenho de admitir que estou decepcionado por você ter optado por deixar isto para trás. Talvez não seja tão valioso quanto pensei.
O homem de turbante, girando o ovo entre as mãos, continuou:
— Foi deixado em uma mesa, bem à vista, mas você passou direto, como se não ligasse a mínima para ele. Mas, quem sabe, talvez você voltasse para buscá-lo mais tarde.
O ovo da Fênix cintilava à luz do sol. De fato, eu não o tinha visto. Estava totalmente concentrado em salvar Anamika para sequer pensar na pedra da verdade.
O homem instruiu alguns dos soldados a levar as crianças, assim como a espada que eu carregava. Eu a entreguei sem resistência. Até agora, eles não tinham descoberto a faca. Enquanto estavam distraídos com as crianças, casualmente a tirei da faixa em minha cintura e a coloquei nas mãos do garoto que estava atrás de mim, à esquerda. Eu o reconheci como o que ocupava a jaula ao lado da minha. Quando tornei a olhar para ele, a faca havia desaparecido por completo e não havia o menor sinal dela em sua roupa. Dei uma piscadela quando ele acenou discretamente com a cabeça.
O homem de turbante aproximou-se, sem demonstrar qualquer medo de mim. Suponho que não devesse mesmo sentir medo, não com mais de cinquenta homens à sua disposição. Depois que levaram todas as crianças exceto Anamika, um homem adiantou-se e a pegou pelo braço.
— Devagar, devagar — advertiu o homem de turbante. — Ninguém machuca esta, a não ser eu.
Ele dirigiu um sorriso nauseante a Ana, tocando-lhe o rosto com o dedo, e ela visivelmente se encolheu. Era como se os ossos em seu corpo estivessem derretendo sob o olhar dele.
— Tire as mãos dela — ameacei.
Meu novo dono voltou olhos interessados para mim e riu com vontade.
— Você também sucumbiu aos encantos dela? Ela é uma diversão agradável. Isso eu tenho que admitir.
Ele observou Ana até sua forma pequena desaparecer no interior da casa. Cerrei os punhos. Eu queria cravar minhas garras em sua barriga trêmula e lentamente eviscerá-lo, e observar enquanto os animais comedores de carniça se aproximassem. Somente então, depois que ele tivesse sofrido, eu abriria a boca e morderia seu crânio, esmagando-o enquanto arrancava a cabeça da tora que era seu pescoço de forma que meus dentes fossem a última coisa que ele veria antes de mergulhar na escuridão a que almas nefastas assim pertenciam.
— Pois bem — disse ele, alheio a meus pensamentos sombrios. — Acho que você e eu temos muito que conversar.
Para um homem gordo, ele se movia com agilidade. Dando meia-volta, gritou sobre o ombro:
— Tragam-no.
Depois de ter estado lá fora, o fedor impregnado no porão era evidente para mim, mesmo sem o faro do tigre. O mercenário que eu matara ainda estava no mesmo lugar e o homem de turbante escorregou em seu sangue, batendo o ombro em uma jaula.
— Limpe isso — sibilou, furioso, para um homem atrás dele enquanto ajeitava a túnica.
Sem a menor cerimônia, fui jogado na mesma cadeira em que me sentara antes. Meus pés foram presos ao chão, mas apenas uma das mãos foi atada atrás das costas. O guarda grandalhão pegou meu outro braço e o largou com força sobre a mesa. Tentei me desvencilhar, sobretudo quando o homem de turbante tirou uma faca da bolsa que trouxera.
— Segurem-no — disse ao se aproximar.
Tiveram de trazer outro homem para me segurar. Uma hora depois, eu estava exausto e sangrando, com vários cortes profundos no antebraço. Ele não me fizera nem uma só pergunta.
— Muito bem — disse ele, dando a volta por trás de mim. — Deixei seus dedos e sua mão em paz por ora só porque acho que você talvez precise deles para liberar a magia dentro do ovo.
— O que o faz você pensar que ele é mágico?
Ele ergueu as sobrancelhas.
— Existem muitas histórias de tesouros assim. Sou um homem que negocia por dinheiro, mas também por segredos. Conheço um objeto de valor quando vejo um. Há magia nessa pedra. Eu apostaria minha vida nisso.
— Eu também reconheço valor quando o vejo — cuspi em resposta. — E você não vale os parasitas que vivem nas costas dos besouros que comem a bosta que se agarra nas patas dos seus camelos...
O soco veio de lado e senti um molar quase amolecer na parte de trás de minha boca. Cuspi sangue e tive a satisfação de ver que ele foi parar nos sapatos limpíssimos e bordados com joias do homem de turbante. Ele pulou para trás e pegou uma faca de punho entalhado. Com o rosto vermelho, levou a lâmina à minha garganta e poderia ter me degolado com muita facilidade, principalmente quando os guardas agarraram meus cabelos e puxaram minha cabeça para trás, expondo o pescoço.
Ele pareceu pensar melhor e desistiu de pôr fim à minha vida, seus olhos tornando-se pensativos enquanto arrastava a lateral da lâmina por um lado de meu rosto e depois pelo outro, em uma carícia ameaçadora.
— Você vai se arrepender disso — ameaçou de forma quase agradável. — Bem, onde eu estava mesmo? Ah, sim. Estava falando sobre valor e por que deixei seus dedos presos às mãos. Presumo que você seja inteligente o bastante para valorizá-los. Mas estou bem certo de que você não precisa de duas orelhas.
Ele pressionou a faca na pele entre minha orelha e o couro cabeludo.
— O que você quer saber? — perguntei, sentindo o sangue quente escorrer pelo rosto.
— Você já sabe a resposta — retrucou ele, arfando com algo semelhante a alegria. — Não desperdice meu tempo.
— Vou lhe dizer como usar a magia — declarei. — Mas você tem de me dar algo em troca.
Ele fez uma pausa.
— Sua vida não é um presente bom o bastante? — perguntou.
— Deixe-a ir e eu ficarei aqui, trabalharei para você, serei seu escravo, o que quiser. Mas deixe-a ir.
— De quem você está falando? — perguntou ele, dando a volta para me encarar.
— Você já sabe a resposta — repliquei com um sorriso zombeteiro.
Lívido, ele baixou com força a faca, prendendo minha mão à mesa. Doeu, mas eu já suportara dores piores. Um prazer demoníaco iluminou seu rosto. Sua expressão exuberante, porém, logo desapareceu quando viu que não gritei, não implorei por minha vida, nem mesmo estremeci.
Olhei para a faca e então ergui a cabeça para mostrar-lhe que não tinha medo de nada do que ele pudesse fazer. Ele estreitou os olhos, malicioso, então ergueu outra faca e a cravou em meu ombro. O sangue se acumulou em torno do ferimento, escorrendo quando ele torceu a lâmina. Soltei um grunhido, mas, novamente, não gritei, pressentindo que era desse tipo de coisa que ele gostava.
As lufadas de sua respiração passavam sobre mim enquanto ele me fitava, procurando sinais de fraqueza. Que ele gostava de torturar era óbvio. Isso, mais a dor que ele me infligia, me deu ânsia de vômito, embora eu não tivesse qualquer comida no estômago.
— Isso está ficando monótono — comentei. — Ou você me mata ou a liberta. Não tenho medo da morte. Já olhei na cara dela muitas vezes, mas lhe asseguro que sou um homem de palavra. Vou lhe contar os segredos do ovo se você a libertar. Você só precisa decidir quanto quer saber.
Ele estudou meu rosto com atenção. Finalmente, afastou-se e fez um gesto para o guarda, que removeu as facas e enrolou os ferimentos com panos apertados. O cheiro de meu sangue permeava o ambiente. Lenta e pacientemente, o homem de turbante limpou as facas e tornou a guardá-las na bolsa de instrumentos que usava para torturar as pessoas. Observei-o com indiferença enquanto pressionava com a língua o dente amolecido.
Esse homem tinha muito em comum com Lokesh, concluí. Mas era difícil equiparar-se a Lokesh. Eu tinha visto coisas muito piores do que qualquer uma que esse sujeito poderia fazer. O sangue encharcou as ataduras em meu ombro e na mão e continuou a escorrer também pelo rosto. As gotas quentes que pingavam do queixo mancharam a camisa, mas eu me sentia distanciado de tudo isso.
Estranhamente, me sentia quase grato a Lokesh por isso. Vencê-lo tinha me dado um nível de autoconfiança que eu nunca tivera. Sua extrema crueldade exigiu que elevássemos nossos instintos de heroísmo e bravura para enfrentá-lo como iguais. Sem ele, eu não teria a coragem e a força que possuía agora. Qualquer outro vilão que eu havia enfrentado desde então — senhores feudais, déspotas, tiranos e criminosos — não chegava nem perto dele. Esse, porém, merecia morrer. E, de fato, pereceria em minhas mãos ou garras, na primeira oportunidade.
Ele não me assustava. Suas facas, sua postura e seus ataques de fúria não eram nada mais que inconveniências. Sinceramente, eu também não me importava com as armas que ele negociava, ou com o fato de ele comprar e usar escravos. Mas um homem que fazia tais coisas com crianças merecia a ira da deusa e de seu tigre e, de uma forma ou de outra, ela cairia sobre ele.
Quando suas facas foram guardadas, eu disse:
— Segure a pedra entre as mãos. — Quando ele o fez, acrescentei: — Agora me diga que vai deixar a garota ir embora.
Ele hesitou por um instante e então disse:
— Sim, sim. Se me contar o segredo da magia, vou libertá-la.
O ovo da Fênix permaneceu escuro.
— Você está mentindo — falei.
— Você não está em posição de questionar...
Eu sacudi a cabeça.
— Não. Estou dizendo que sei que você está mentindo porque a pedra permanece escura. Quando alguém fala a verdade, a pedra brilha por dentro. Observe com atenção e vou lhe mostrar. — Inclinando-me para a frente, eu disse: — Quando eu fugir, e lhe asseguro que farei isso, nenhuma sombra vai ser escura demais, nenhum quartinho vai ser escondido o bastante para me impedir de encontrá-lo. E, quando eu encontrá-lo, vou matá-lo sem demora.
Quando terminei de falar, a pedra da verdade cintilou com uma luz interior e o homem de turbante levantou as mãos rapidamente, afastando-as da pedra e gritando:
— Ela está viva!
— Está — eu disse. — É uma coisa viva e, quando a verdade é dita, ela brilha.
Ele recostou-se na cadeira e girou a pedra, examinando-a com atenção enquanto ela se apagava. Inclinando a cabeça, ele disse:
— Isso é um truque.
— Não é nenhum truque — declarei. — Experimente você mesmo. Veja se consegue enganá-la com uma mentira.
O homem umedeceu os lábios enquanto olhava da pedra para mim com pálpebras pesadas.
— Minha mãe morreu quando eu tinha 4 anos — começou.
A pedra brilhou, iluminando seu rosto com uma luz diabólica.
— Eu adoro camelos — foi sua tentativa seguinte, e o fogo no interior da pedra se apagou. — Posso confiar em minha guarda pessoal — disse, e a pedra permaneceu apagada.
Ele fez contato visual com o guarda a meu lado e o homem engoliu em seco, os músculos dos braços se contraindo.
Ignorando o guarda por ora, ele proferiu afirmação após afirmação, revelando tudo, de sua fruta favorita ao nome de um camundongo de estimação que tivera, declarando também o lugar onde guardava seu ouro. Verdade, mentira, mentira. Ele então praticou com o guarda, fazendo-lhe uma série de perguntas, e rapidamente ficou evidente que nem tudo em sua casa era como ele supunha. Isso prosseguiu por algum tempo, até que ele finalmente relaxou, satisfeito.
— Este é um tesouro de valor inestimável, de fato — disse o homem. — De posse deste objeto, nenhum homem jamais poderá mentir para mim outra vez. São tantas as possibilidades...
Minha mente trabalhava ao mesmo tempo que a dele. Havia muitos usos que um homem como ele poderia dar à pedra. Era perigoso deixá-la em suas mãos.
— Por que você o deixou para trás? — perguntou-me, me arrancando de meus pensamentos.
Dei de ombros.
— Salvar as crianças era mais importante.
Ele baixou os olhos para a pedra, mas ela permaneceu escura.
Suspirando, eu disse:
— Eu não o vi.
O ovo reluziu.
— Ah. — Ele sorriu, satisfeito. — Há muitas coisas que quero perguntar a você, mas confesso que primeiro quero testar um pouco mais esta pedra da verdade. Leve-o de volta para a jaula — disse ao guarda, advertindo-o em seguida: — E não pense que vou esquecer as verdades que a pedra revelou sobre sua lealdade — advertiu. — Eu andaria com muito cuidado se fosse você.
O guarda, nervoso, fez uma rápida mesura e me puxou bruscamente, forçando-me a me levantar, e me algemou por precaução antes que seu senhor saísse, fechando a porta atrás dele.
— Você sabe que ele vai matá-lo — declarei enquanto ele me escoltava até a jaula.
— Cale a boca — rosnou ele.
O homem me empurrou para dentro da cela e subiu a escada, deixando o porão e trancando a porta ao sair. Embora fosse apenas início da tarde, mergulhamos todos na escuridão. Peguei a borda da camisa e a pressionei contra a boca, que sangrava.
Quando os passos desapareceram lá em cima, ouvi uma vozinha perto de mim.
— Ainda estou com a faca — sussurrou o garoto. — Eu a usei para abrir minha fechadura.
— Bom trabalho, filho — elogiei. — Acha que consegue abrir a minha?
— Acho que sim.
— Cuidado. Quando ouvir que estão voltando, volte depressa para a sua jaula e feche a porta.
— Farei isso.
Um momento depois, ouvi a dobradiça da porta da jaula dele rangendo ao se abrir e logo o garoto estava trabalhando em minha fechadura.
— Não consigo — informou. — Tome. Tente você.
Ele tentou me passar a faca através das barras de minha jaula.
— Você vai ter de fazer isso — falei gentilmente. — Minha mão foi machucada.
— Ele cortou seus dedos? — perguntou uma voz duas celas à frente. — Ele cortou dois meus.
Respirei fundo, tentando engolir a dor que sentia por essa pessoa tão jovem que já havia sofrido nas mãos do desumano homem de turbante.
— Não — respondi baixinho. — Só não consigo mexer a mão. Sinto muito que ele tenha machucado você — comentei. — Vamos nos libertar. Todos nós.
Foram necessários vários minutos para que o garoto conseguisse abrir minha fechadura. Então ele passou para outra jaula. Já havia aberto várias e começara a trabalhar nas do outro lado quando ouvimos o ruído de botas no piso acima de nós.
— Corra para a sua jaula! — exclamei. — Não se esqueça de fechar a porta e esconder a faca!
O garoto mal tinha entrado na jaula e fechado a porta quando o porão foi aberto.
— Aqui está o jantar de vocês — disse o homem enquanto servia um aromático ensopado em tigelas, que eram colocadas rudemente nas mãos estendidas de cada criança.
Quando chegou à terceira jaula, esbarrou o braço nela e a porta se abriu com um rangido.
— Seu maldito idiota! — vociferou para o guarda que o ajudava. — Se o senhor descobrisse que você deixou a jaula destrancada, ele quebraria seus tornozelos e largaria você apodrecendo no deserto! — Com repulsa, ele trancou a porta e então observou a seguinte. — Esta aqui também? Inacreditável! Verifique todas elas.
Quando chegaram à minha jaula, ambos me olharam desconfiados, mas eu estava deitado de frente para eles, pressionando a camisa na boca e gemendo. Eles me revistaram, mas não encontraram nada. Prosseguindo, testaram metodicamente todas as jaulas e, como apenas algumas estavam destrancadas, o guarda culpou o colega em vez de suspeitar de um esquema nosso.
Assim que todos nós recebemos uma tigela de ensopado e um copo d’água, eles abriram a jaula de Ana e a tiraram de lá.
— O senhor quer ver você — disse o homem.
Eles se mantiveram longe de minha jaula, embora eu ainda estivesse caído de bruços perto da parede. Deviam ter ouvido a história de como eu matara o outro guarda.
No momento em que desapareceram e a porta do porão se fechou, meu jovem amigo começou a abrir sua fechadura outra vez.
— Depressa — falei. — Tenho de ajudá-la.
Assim que ele abriu sua jaula, começou a trabalhar freneticamente na minha. Tão logo ela foi destrancada, peguei a faca dele e me dirigi para a porta do porão. Mesmo com a arma, não havia como abri-la. Amaldiçoei o fato de Ana estar nas mãos do homem de turbante e não haver absolutamente nada que eu pudesse fazer a respeito.
O rapazinho puxou minha camisa e perguntou se deveria abrir as outras jaulas. Sacudi a cabeça e então falei, pois ele não podia me ver:
— Não, esta noite, não. Temos de esperar a oportunidade certa. Preciso elaborar um plano de fuga que dê certo.
Voltamos a nossas jaulas e lhe dei meu ensopado, mas esvaziei o copo d’água. Fiquei sentado a noite toda com a cabeça nas mãos, imaginando o terrível sofrimento pelo qual minha Ana estava passando. Era culpa minha. Se eu tivesse sido melhor como rastreador... Se não tivesse deixado a porta de nossa casa aberta... Se não fugisse todas as vezes que as coisas ficavam difíceis... Eu não parava de me repreender.
Todos os dias eu vigiava sua pequena jaula, observando seus membros trêmulos e a maneira como ela, alheia a tudo, fitava o nada. Todas as noites eu me obrigava a olhar enquanto ela era retirada de sua jaula e levada para o andar de cima para entreter o homem de turbante. O homem viera apenas uma vez, ele mesmo, convocar Ana. Ele havia olhado diretamente para mim, ciente de que estava quebrando sua promessa. À luz da tocha, pude ver que havia algo diferente nele. Sua pele parecia amarelada. Ele perdera peso e as veias nas mãos pareciam escuras, quase negras sob a pele. Os olhos estavam injetados de sangue e os dedos tremiam quando ele disse aos homens que se apressassem. Lembrei-me naquele momento do aviso que a Fênix me dera. Ela dissera que o coração da Fênix dentro da pedra da verdade destruiria qualquer um que a usasse para fazer mal a alguém. Talvez o aspecto doentio do homem de turbante fosse um indício disso.
Na quinta noite, nossa oportunidade surgiu. Ficamos atentos ao revelador clique da fechadura da porta do porão após Ana ser escoltada para o andar de cima, mas ele não veio. Eu estava febril e sabia que meu sangue estava se envenenando. Meus ferimentos não haviam sido tratados e estavam começando a infeccionar. Apesar disso, estava determinado a salvar Ana a qualquer custo, mesmo que morresse tentando.
Meu jovem amigo abriu sua jaula e a minha com a faca clandestina e então prosseguiu em abrir as restantes. Como não tinham os pés acorrentados, as crianças puderam movimentar-se silenciosamente. No tempo em que ficamos juntos, elas tinham me dado uma descrição detalhada da casa. Uma delas até sabia de uma passagem secreta que oferecia uma saída dos aposentos do senhor em caso de ataque. Nosso plano era seguir diretamente para o quarto do senhor, matá-lo e aos guardas que surgissem em nosso caminho, e então fugir pela passagem.
Em silêncio, ergui o alçapão para deixar o porão e fiz sinal para que as crianças saíssem primeiro. Elas eram hábeis em encontrar esconderijos. Eu as havia instruído a permanecerem escondidas enquanto eu cuidava dos guardas e, então, elas deveriam me seguir o mais silenciosamente possível. Depois de a última criança desaparecer, eu saí e me dirigi para o quarto do senhor.
Eliminei um dos guardas com um corte na garganta e aparei o corpo antes que caísse no chão. Deixei-o e segui em frente. Quando olhei para trás, vi as crianças escondendo o corpo em um armário e limpando o sangue. Houve um breve confronto em que matei mais dois. Tão rápido quanto o primeiro, os corpos foram levados embora. Logo estávamos no corredor que levava ao quarto do senhor. Na falta de uma maneira de chegar a ele sorrateiramente, eu sabia que teríamos de recorrer ao ataque direto.
Antes que pudesse fazer isso, o corajoso garoto a quem eu chamava de meu capitão disparou para o corredor e ficou ali parado por tempo suficiente para que os guardas o vissem. Eles o chamaram e começaram a persegui-lo. Abati um deles e então enterrei a faca na espinha do segundo quando ele arrastava o menino de volta ao porão. As crianças jogaram os corpos no porão e o trancaram. Agora não havia nada se interpondo entre nós e a porta.
Experimentei a maçaneta, mas a porta estava trancada. Sem fazer barulho, enfiei a faca entre suas duas folhas e ergui o trinco. O quarto estava iluminado por carvões em brasa em uma pequena lareira e, no centro do aposento, havia uma imensa cama. Em uma mesa próxima, acomodada em uma almofada, estava a reluzente pedra da verdade. Indiquei-a ao garoto que agia como meu braço direito e ele assentiu. Então pegou a pedra e a entregou a uma das garotas atrás dele enquanto revirava uma pilha de roupas até encontrar uma camisa, que usou para improvisar uma bolsa, onde a colocou.
O senhor estava esparramado na cama, roncando bem alto. Quando me aproximei, percebi que sua pele agora estava manchada de azul e parecia descascar em muitos lugares. Só quando cheguei perto pude ver um corpinho pressionado contra o dele. Puxei um pouco o cobertor e deparei com Anamika, os olhos lacrimosos e arregalados me fitando. Seu rosto contorceu-se de dor e ela choramingou baixinho. Praguejei em silêncio, sabendo que provavelmente eu parecia apenas mais um homem ameaçador na penumbra do quarto, e recuei com rapidez, para sair de seu campo de visão.
Enquanto eu estava na cama, as crianças encontraram a passagem oculta e agora meu jovem ajudante acenava com o braço, certificando-se de que todos os pequenos prisioneiros escapassem.
Erguendo a faca, cravei-a no pescoço do homem que roncava, e ele acordou de repente, gritando como um porco. Mais que depressa, dei a volta na cama e peguei Ana nos braços. Ela subitamente ganhou vida, debatendo-se e chutando, mas eu tinha pegado também o cobertor e a enrolei nele, prendendo-lhe as pernas e os braços, desejando que houvesse tido mais tempo para ser gentil com ela.
Com um último olhar para o homem agonizante, virei-me e me dirigi para a passagem, seguindo a luz da tocha erguida por uma das crianças. Ana, de repente, parou de lutar. Sua cabeça caiu para um lado, os olhos ainda abertos. Era como se ela tivesse se trancado em um lugar bem distante. Meus olhos se encheram de lágrimas enquanto eu me debruçava sobre ela e sussurrava:
— Por favor, me perdoe.

Um comentário:

  1. Será q eles vão conseguir fugir? Da última vez deu merda

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Boa leitura, E SEM SPOILER!