12 de setembro de 2018

18 - A Princesa e o Tigre

— Anamika? — murmurei suavemente. — Meu nome é Kishan. Estou aqui para resgatá-la.
Ela não respondeu. Eu não podia culpá-la, de verdade. Ela não me conhecia. Seu irmão dissera que ela nem se lembrara de mim antes. Alguma coisa roçou em meu ombro. Afastei o corpo, pensando que se tratava de um rato, uma aranha ou algum fantasma assustador decidido a me matar, mas então ouvi a voz de um garotinho vinda da cela ao lado da minha.
— Vai nos salvar também? — perguntou ele.
Eu não conseguia ver na escuridão absoluta do porão, mas estendi a mão e encontrei um braço fininho e os dedos que haviam me tocado. Meu coração se partiu naquele momento e gentilmente peguei a mão dele na minha e a apertei de leve.
— Vou ajudar todos vocês — declarei. — Prometo.
Embora eu não contasse mais com a visão de tigre, podia jurar que dezenas de olhos famintos tinham se voltado em minha direção. Eu podia quase sentir o gosto de sua esperança, de sua fé infantil.
— Vocês terão de ter paciência comigo — avisei, tentando falar alto o suficiente para que todos pudessem ouvir, mas baixo o bastante para não atrair a atenção dos guardas. — Vou precisar de tempo para descobrir como nos tirar daqui.
— Vamos esperar. E vamos ajudá-lo quando estiver pronto — disse o garoto perto de mim.
— Ótimo. Você então será meu capitão — disse-lhe eu, estendendo a mão para dar tapinhas em seu ombro ossudo.
O fato de ele estar passando fome a ponto de ficar desnutrido fez minha pele ficar quente. Eu queria estrangular com minhas mãos o homem que estava fazendo isso com eles. Até então, Anamika nada dissera. Ouvi um ronco na cela do outro lado e me dei conta de que vinha da barriga de uma criança.
— Querem que eu conte a vocês uma história de grande bravura? — perguntei ao grupo. Meu propósito era distraí-los de sua fome e seu sofrimento. Era um truque que Kadam usara com frequência conosco e que funcionava muito bem.
A garota à minha esquerda sussurrou:
— Tem princesa na sua história?
— Bem, sim — respondi. — Por acaso, tem, sim, e uma princesa muito gentil. Essa história se chama “A Princesa e o Tigre”.
Fazendo psiu, as crianças pediram silêncio umas às outras para que pudessem ouvir e eu comecei.
— Era uma vez, há muitos e muitos anos, em um mundo que esquecemos, uma árvore especial. Nela crescia a fruta mais deliciosa, que era consumida apenas pelos deuses. Se um mortal desse uma mordida, vejam bem, ele se tornava imortal.
— Isso não parece tão ruim — disse a garota.
— Ah, sim, você tem razão. Mas não se pode morar no mundo e ser imortal. Essa é a razão pela qual os pés dos deuses nunca tocam a terra. Eles se sentam em flores de lótus e em tapetes mágicos. Ou montam em grandes feras e flutuam no ar. Qualquer um, mesmo um deus, se comer essa fruta enquanto toca o solo com os pés, irá sofrer as consequências.
— O que acontece com eles? — perguntou o garoto.
— O corpo da pessoa é consumido e se transforma em pura luz. Uma vez que isso aconteça, os deuses a usam para seus propósitos, pois essa pessoa não pode mais andar pela terra. Qualquer um que a encontrasse queimaria em seu fogo. Apesar disso, muitos homens roubaram a fruta imortal e cometeram o erro de comê-la com os pés na terra. É por isso que existem tantas estrelas.
— Você está dizendo que cada pessoa apanhada pelos deuses vira uma estrela?
— Isso mesmo. Os deuses a colocam lá no alto, no céu, para iluminar a escuridão do mundo.
— É muita gente! — exclamou a garota.
— É, sim. Bem, apesar do risco, muitas pessoas buscavam a imortalidade e o céu estava ficando superlotado de estrelas. Então os deuses decidiram fazer alguma coisa a respeito. Criaram um tigre, o primeiro do mundo, e o colocaram embaixo da árvore, para guardá-la. Quem viesse roubar a fruta seria comido pelo tigre antes.
— Eu tenho medo de tigres — disse o garoto.
— Tigres são ferozes e poderosos — afirmei com um sorriso e me recostei na parede, cruzando as pernas. — Você tem razão em ter cuidado perto deles. Mas esse tigre, o primeiro de todos, era diferente. Embora devesse comer quem fosse até a árvore, não gostava do sabor dos mortais. De qualquer forma, ele não matava para comer porque seu corpo não precisava de comida. O tigre gostava de caçar, mas seu dever era proteger a árvore, portanto nunca se afastava dela por muito tempo. A maioria das pessoas tinha medo dele e nem mesmo tentava pegar a fruta quando o via. Sabem, ele tinha um rugido muito feroz e garras afiadíssimas. Quando as pessoas vinham, ele mostrava os dentes e arranhava o chão. Quase sempre, isso era suficiente para afugentá-las.
Fiz uma pausa antes de continuar:
— Alguns homens tentavam enganar o tigre, mas ele era muito esperto e ninguém jamais tinha levado vantagem sobre ele, embora muitos houvessem tentado. A maioria dos tigres tem audição apurada e olfato ainda melhor, mas esse podia ouvir pássaros cantando em montanhas distantes. Quando uma tempestade se aproximava, ele podia prever o momento em que ela passaria. Podia se agachar e se esconder na grama ou na folhagem de uma árvore e se tornar invisível. Você nunca o via até ser tarde demais. Na maior parte dos casos, ao ver sua figura assustadora, as pessoas que chegavam perto fugiam de pavor. Isso era o que ele preferia que acontecesse. Em alguns casos, porém, os mortais se mostravam teimosos e ele era forçado a matar o transgressor. Em vez de comê-los, como os deuses queriam, ele arrastava os corpos até uma grande vala longe da árvore. Dessa forma, não seria distraído pelo cheiro dos cadáveres apodrecendo. Às vezes ele falhava e um mortal pegava uma fruta na árvore e a mordia antes que ele pudesse impedi-lo. Quando isso acontecia, só lhe restava olhar enquanto o mortal se transformava em luz e os deuses desciam para escoltar a pessoa até o céu. Cada vez que isso acontecia, os deuses o puniam com um golpe de seu chicote de fogo. Foi assim que o primeiro tigre adquiriu as listras.
Ouvi um arquejo vindo das crianças. Era surpreendente que elas nunca tivessem ouvido aquela história antes. Mordendo o lábio, fiz uma pausa, me perguntando se fora assim, no momento em que eu a tinha contado, que a história se originara. Kadam teria um ataque se soubesse. Suspirei, me perguntando se havia cometido um erro ao contar a história para elas, mas o menino me pediu que continuasse e eu prontamente atendi.
— Muito bem. Como eu ia dizendo, esse tigre foi o primeiro e, como o primeiro, ele fora criado sem listras. Estas lhe foram dadas pelos deuses como punição: uma para cada mortal que se tornara estrela.
— Pensei que essa história tivesse uma princesa — comentou a menina.
— Já estou chegando a essa parte — repliquei.
As duas crianças cujas celas eram adjacentes à minha haviam se aproximado. Eu podia ouvir a respiração áspera do garoto e a mais suave da menina. Até agora, não ouvira um só ruído vindo da cela de Ana. Me preocupava o fato de ela estar tão quieta. Não era um comportamento típico de Ana.
— Então — continuei —, um dia, uma princesa veio ver o tigre.
— Ela era bonita? — perguntou uma criança algumas jaulas adiante.
— Era de tirar o fôlego. Na verdade, o tigre nunca vira uma criatura tão linda. Àquela altura, em sua longa vida, ele só tinha umas poucas listras em seu traseiro e se sentia um pouco constrangido com elas, então se mantinha escondido na grama alta. Se ele quisesse permanecer oculto, ela não conseguiria vê-lo, mas um tigre tem uma reputação a zelar. Quando a princesa se aproximou, o tigre entrou em desespero, pensando que teria de matá-la. O interessante, porém, era que os olhos da garota não estavam na árvore, em absoluto, mas no tigre. Era surpreendente que ela pudesse vê-lo escondido na grama, a cauda balançando, pois a maioria dos mortais só podia vê-lo se ele permitisse. O tigre sentiu um desejo irresistível de ir ao encontro da garota. Primeiro, pôs o focinho para fora da vegetação, em seguida a cara, e parou para farejar o ar. Não havia mais ninguém por ali.
Todos me ouviam, atentos. Então prossegui:
— O tigre deu um passo na direção dela e depois outro. Ela ofegou ao ver o tamanho dele, pois era grande até mesmo para os padrões dos tigres. Mas não havia medo nos olhos dela. Na verdade, ela estendeu a mão e se ajoelhou. O tigre olhou para a mão estendida e soprou suavemente nela. A menina falou: “Tigre poderoso, eu não venho roubar aquilo que você protege. Em vez disso, venho implorar que você não tire a vida do meu irmão.” O tigre não sabia o que pensar daquilo. “Seu irmão virá aqui?”, perguntou. Tremendo, a garota respondeu: “Sim. Nosso pai, o rei, está sofrendo e morrerá em breve. Ele decretou que meu irmão mais velho seja coroado o próximo rei imediatamente, se retornar com uma fruta e conceder imortalidade a meu pai.” O tigre sentou-se e perguntou se ela sabia o que acontecia quando um homem comia a fruta. “Sei”, ela replicou. “Meu pai sabe o que acontece. Ele anseia por ascender aos céus de modo que de lá possa vigiar seu reino para sempre.” O tigre parou para refletir e declarou que nunca vira alguém pegar a fruta e não mordê-la. Empertigando-se, a princesa disse: “Meu irmão é um homem honrado. Ele não busca a imortalidade para si mesmo, mas para meu pai.” O tigre ficou comovido com a súplica da princesa, especialmente quando ela estendeu a mão e acariciou seu pescoço, pois é uma verdade sabida que não há nada de que os tigres gostem mais do que uma massagem no pescoço.
— O que foi que ele decidiu? — perguntou o garoto.
— Bem, o tigre refletiu e decidiu que gostara da deferência com que a princesa o tratara. Ele também gostou do beijo no alto da cabeça que ela lhe dera quando ele disse que permitiria que seu irmão pegasse uma fruta. O tigre pensou que ajudar um rei moribundo e sua linda filha valia uma listra em suas costas.
— Deu certo? — quis saber a menina.
— Infelizmente, não. O príncipe pegou facilmente a fruta, mas, na volta para casa, caiu em tentação e a comeu. Ele se transformou em luz na mesma hora e foi apanhado pelos deuses e colocado no céu. O tigre ouviu um grande sermão e ganhou outra listra. Ela ainda estava vermelha quando a princesa apareceu novamente. Agora, ela pedia pelo segundo irmão mais velho. Mais uma vez, o tigre permitiu que o príncipe viesse e, mais uma vez, o jovem provou a fruta antes de entregá-la ao pai. Quando a princesa retornou e viu a segunda listra, ainda em carne viva, que estava ali por sua causa, abraçou o tigre e chorou. Ele gostou do abraço da garota e resolveu perdoá-la. Então ela disse: “Detesto pedir isso a você mas tenho outro irmão. Você vai deixar que ele venha?” O tigre suspirou, mas tinha começado a gostar das visitas da garota. Disse que iria permitir desde que ela concordasse em ficar com ele o resto do dia. Sem demora, a garota concordou e o tigre passou o dia mais agradável de sua vida. Ele até deitou a cabeça no colo da garota e dormiu enquanto ela corria os dedos em seu pelo. Quando o sol baixou, ele implorou que ela não fosse embora. Temia que outro predador, um que gostasse da carne de mortais, pudesse machucá-la.
Pigarreei antes de continuar:
— Ela concordou em ficar e dormir ao lado dele naquela noite. Quando foi embora, na manhã seguinte, ele ficou péssimo. Andava de um lado para outro, infeliz, enquanto pensava que talvez nunca mais visse a princesa. O terceiro príncipe veio e o tigre permitiu que ele pegasse uma fruta. Sentiu-se mal por torcer para que o garoto seguisse o exemplo dos irmãos mais velhos, mas, assim mesmo, torceu. Apesar da culpa, ficou feliz ao descobrir que suas esperanças tinham se concretizado e prontamente aceitou outra listra, enquanto observava atento a estrada sinuosa, à espera da figura familiar da princesa. O tigre saltou da grama, verdadeiramente feliz ao vê-la outra vez. A garota deixou-se cair no chão, lamentando a perda dos irmãos. “Eu pensava que eles fossem honrados”, lamuriou-se. Tentando consolá-la, o tigre disse: “Sinto muito. Gostaria de poder fazer mais para ajudar.” Naturalmente, o tigre podia fazer mais para ajudar, mas isso seria algo que enfureceria os deuses. Feliz ou infelizmente, dependendo de sua perspectiva, a princesa tinha outros seis irmãos. A cada vez que um deles vinha, o tigre permitia que pegasse uma fruta. A cada vez, o príncipe dava uma mordida e fracassava em sua missão. E, a cada vez que a princesa retornava, ele concordava que outro irmão tentasse se ela ficasse com ele. A cada visita ele a persuadia a passar mais dias com ele.
A história prendia a atenção de todos. Retomei de onde havia parado:
— Os dias que passava com ela eram os melhores que o tigre já vivera. Ele caçava para a princesa e lhe trazia galhos repletos de frutinhas maduras. O tigre lhe mostrava os melhores lugares para dormir tomando sol e onde encontrar a água mais fresca. A princesa parecia tão feliz por estar com ele quanto ele com ela. Era com grande tristeza que os dois se separavam depois das semanas juntos e o tigre chorava por ela a cada vez que a princesa voltava para casa. Quando só restava um irmão, ela veio uma última vez. Ajoelhou-se, abraçou o tigre e chorou com o rosto enterrado em seu pelo. A essa altura, o tigre estava apaixonado pela garota, pois tinham passado muitas semanas juntos para cumprir as exigências que tinha feito. Seu coração se partiu, pois não tinha nada para dar a ela. Nenhuma lembrança para mostrar a ela a profundidade de seu afeto. Mas então o tigre pensou em seu segredo e soube que havia, sim, algo que poderia dar e que, para ela, significaria mais do que qualquer coisa. Ele tinha sido proibido de revelar o segredo, mas detestava vê-la tão abatida, principalmente quando sabia como ela ficaria feliz por salvar seu último irmão vivo. Desafiando os deuses e sabendo que isso resultaria em mais listras em suas costas, ele disse: “Seus irmãos eram honrados.” E suspirou. “Não foi culpa deles terem comido a fruta. Assim que a fruta toca a pele dos mortais, ela exerce sua magia sobre eles. Se a pessoa não a morder, a pressão se torna tão intensa e dolorosa que é quase impossível resistir a ela.” Mudando de posição para que ela pudesse acariciar suas costas no lugar certo, o tigre esfregou a cabeça no ombro da garota. “Lamento ter tido de ocultar essa informação de você”, disse ele. A princesa chorou pelos irmãos perdidos e, quando se recuperou o suficiente para falar, replicou: “Não se culpe. Eu vejo quanto você sofreu pelos meus irmãos, e sei que vai sofrer mais por me dizer a verdade.” Ela correu os dedos sobre as listras nas costas dele, que, com o tempo, haviam se tornado pretas. Ele estremeceu de prazer ao toque dela. “Se você permitir”, disse ela, “vou avisar o meu irmão mais novo para que ele não toque a fruta com as mãos.”
— Nossa! — uma das crianças exclamou.
— O tigre concordou e se desesperou — prossegui —, sabendo que essa seria a última vez que a veria. Quando ela perguntou quanto tempo deveria ficar com ele dessa vez para receber esse favor, ele disse: “Não vou exigir que fique, mas, se quiser, pense em mim de vez em quando e saiba que vou pensar em você cada dia da minha longa e solitária existência.” Ela beijou-lhe a cabeça várias vezes e, com lágrimas escorrendo pelo rosto, despediu-se dele. Não demorou para que viesse o mais novo dos irmãos, o último filho do rei. Trazia uma bolsa e usava luvas e, enquanto o tigre observava da grama, o garoto cuidadosamente procurou um lugar para pegar a fruta na árvore. Infelizmente, os galhos mais baixos não tinham mais frutas que ele pudesse colher, pois os irmãos haviam pegado todas. Por causa disso, o jovem foi forçado a subir na árvore. Nisso, seu pulso nu roçou em uma fruta, embora ele não tenha notado. Com o prêmio na mão, ele partiu, com um grande sorriso no rosto. O tigre esperava do fundo do coração que o garoto conseguisse voltar. Que ele vivesse, se tornasse rei e cuidasse de sua irmã. Mas não era esse o seu destino. Dali a alguns dias, os deuses apareceram e lhe deram uma chicotada pelo garoto e mais uma dúzia por contar o segredo da fruta à garota. Ele aceitou as listras de bom grado, pois elas o distraíam da dor em seu coração. Um dia, ele estava lá deitado, se curando, quando ouviu um ruído. Passos distantes, mas familiares. Era a sua princesa. Ele correu de um lado para outro, empolgado com a perspectiva de tornar a vê-la. O coração em seu peito batia violentamente com a ideia de que ela havia sentido falta dele tanto quanto ele sentira dela. Quando ela surgiu na trilha, ele correu em sua direção, não querendo esperar nem mais um momento. Mas, quando se aproximou, viu que ela vinha cabisbaixa. “Princesa! O que aconteceu?”, gritou ele. Com uma expressão arrasada e magoada, ela disse que seu último irmão fracassara. O fardo de levar a fruta para o pai agora era dela, mas temia chegar tarde demais para realizar seu último desejo. “Meu pai já vê os fantasmas de nossos antepassados rodeando-o”, contou ela. “A cada momento eles chegam mais perto, chamando-o com gritos de aves carniceiras.” Empertigando-se com orgulho, ela perguntou: “Grande tigre, você me permite pegar uma fruta? Se tiver sucesso, retornarei para você após a morte do meu pai e ficarei com você o restante dos meus dias.” O tigre respondeu imediatamente que podia pegar uma fruta, é claro, mas precisava ser muitíssimo cuidadosa. Iriam juntos e ela deveria ficar de pé nas costas dele, de modo que seus pés não tocassem o solo.
Olhei no rosto de cada criança antes de seguir com o relato:
— A princesa agradeceu: “Obrigada, meu amigo.” Embora o tigre sentisse a palavra amigo machucá-lo como se ele fosse um pedaço de pergaminho a ser embolado e jogado por cima do ombro, seguiu de perto a princesa, determinado a não perdê-la. Quando escolheu o local certo, advertiu-a mais uma vez a não deixar que a fruta tocasse sua pele e mandou que ela ficasse de pé em suas costas. Quando estava segura, ela ergueu a mão enluvada e, com delicadeza, puxou uma fruta luminosa, que se soltou da árvore com um leve estalo do galho, e a garota rapidamente a pôs em sua bolsa. Assim que ela desceu de suas costas, o tigre perguntou se estava tudo bem, se a fruta não tocara sua pele. Ela garantiu que não e ele então disse que iria acompanhá-la até o limite do seu território. Juntos, percorreram a trilha, a bolsa batendo no quadril da garota. Sem saber o que dizer, os dois seguiam em silêncio. Quando chegaram à divisa onde a garota seguiria para suas terras, ela ajoelhou-se e acariciou a cara dele. “Prometo que vou voltar”, disse ela. “Vigie o horizonte, à minha espera.” O tigre soltou um suspiro profundo, sentindo-se vazio e seco como uma casca de milho após a colheita. “Vigiarei”, prometeu ele, mas, justamente quando ela deu o primeiro passo para longe dele, deixando a área que ele guardava, o chão tremeu e a princesa caiu. Trovões ribombaram acima deles e um raio atingiu o espaço entre eles, enegrecendo o solo. A eletricidade crepitava, cercando-os, de forma que não havia como escapar.
As crianças estavam tensas, mas não queriam que eu parasse.
— Então outro relâmpago caiu na área, e com ele vieram o cheiro e o chiado que anunciavam a presença de um deus. O tigre fez uma careta, seus bigodes se levantando. “Tigre!”, soou uma voz grave e sonora. Árvores atrás da princesa partiram-se ao meio, as partes desabando enquanto ela soluçava. O tigre nada podia fazer além de se ajoelhar e olhar os pés descalços que se erguiam no ar acima de sua cabeça. Ele se preparou para receber nas costas as listras que sabia que viriam. “Você nos traiu pela última vez”, declarou o deus. “O que fez não beneficiou esta garota nem seu pai. Só resultou em você extinguir sua autoridade. Por isso você será punido.” O deus voltou-se para a princesa. “Você, garota mortal, pegue a fruta na bolsa e morda.” “Não!”, gritou o tigre. “Por favor! Ponha mais listras em mim. Destrua-me! Mas eu lhe imploro: não faça mal a ela.” “Seu tigre tolo”, disse o deus. “Esta não é uma punição para ela, mas para você. Ela encontrará consolo no frio céu noturno enquanto seu corpo arde. Sua luz será usada para guiar outras pessoas e ela terá seus tolos irmãos para lhe fazer companhia.” Ele voltou-se para a princesa. “Seu pai já se foi”, disse, insensível. “Não há mais nada para você aqui.” “Mas eu estou aqui”, disse o tigre. “Eu amo a princesa. Vou cuidar dela. Por favor, não a obrigue a provar a fruta.” O deus então perguntou: “E ela sente o mesmo por você, tigre? Olhe as listras em suas costas e tente me convencer de que alguém que o ama permitiu que isso acontecesse.” A princesa ficou ali parada, os dedos agarrando a bolsa e as lágrimas escorrendo pelo seu rosto. Ela ficara branca, tão branca quanto a barriga da lua cheia, mas seus olhos estavam escuros e cheios de pesar. O leve suspiro que escapou de sua linda boca quando ela olhou para o tigre trespassou-lhe o coração, empalando-o, de forma que ele não conseguia se mover, não conseguia sequer respirar. “Eu amo o tigre, sim”, disse ela baixinho, a voz suave e macia como seda. Suas palavras costuraram o coração partido do tigre. “Sofrerei de bom grado a punição.”
— Ah! E o que disse o deus? — indagou uma das crianças.
— Ele disse que ela poderia ir em frente então, dar uma mordida. O corpo inteiro do tigre ribombou quando ele rugiu “Não!”, mas a princesa, determinada, procurou na bolsa, pegou a fruta e a levou à boca. “Lamento pela dor que lhe causei”, disse ao seu amado tigre. “Por favor, me perdoe.” Com isso, a garota mordeu a fruta e arquejou quando a luz da imortalidade lentamente foi enchendo seu corpo. A fruta esquecida caiu de sua mão, rolando, e cruzou a divisa, indo até onde o tigre se encontrava, em sua prisão invisível. O tigre, desesperado, saltou sobre a fruta e a abocanhou, engolindo o que restava. Porque era um tigre incomum e já imortal, a fruta o afetou de forma diferente dos outros.
— O que foi que a fruta fez? — perguntou a garota mais próxima.
— Ela o transformou. Grandes asas surgiram em suas costas e, antes que a mudança na princesa se completasse, ele rompeu a barreira que o deus havia lhe imposto e a pegou. Ela agarrou-se a ele e abraçou seu pescoço. A essa altura, todo seu corpo reluzia e, antes que o deus pudesse detê-lo, ele saltou em direção ao céu, as grandes asas levando ambos cada vez mais alto, até desaparecerem entre as estrelas.
Fiz uma pausa breve para ouvir as crianças. Um suave “Oh!” veio do menino a meu lado.
— O que aconteceu com eles? — perguntou.
Dando de ombros no escuro, eu disse:
— Ninguém sabe. Alguns acreditam que eles perambulam até hoje pelo grande rio de estrelas no céu. Outros dizem que os veem quando uma estrela cai ou cruza o céu. Mas todos concordam que ainda estão juntos.
A história tendo chegado ao fim, eu me acomodei na cela, descansando a cabeça nos braços.
— É melhor dormirem um pouco — sugeri às crianças. — A manhã não demora a chegar.
Logo tudo ficou quieto e ouvi a suave respiração das crianças à minha volta. Meus olhos se fecharam e eu mesmo já tinha quase resvalado para o sono quando captei um leve som vindo da cela em frente à minha. Era Anamika. Em uma voz que mal pude discernir, ela disse:
— Queria que um tigre me levasse embora também.
Eu estou aqui, Ana, falei em minha mente, torcendo para que alguma parte dela me ouvisse. Estou bem aqui.

2 comentários:

  1. Cara esse homem de turbante ai é moh idiota tortura crianças
    Será q o kishan vai conseguir libertar todo mundo? Ai prevejo mtas merdas por ai

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Boa leitura, E SEM SPOILER!