12 de setembro de 2018

17 - Um vilão, independentemente do nome

Minha cabeça virou bruscamente para o lado e o gosto metálico de sangue encheu minha boca. Mal tive tempo de notar que um dos molares estava bambo quando o segundo golpe me atingiu.
Quando meu olho não abria, de tão inchado que estava, e o ar chiava nos pulmões, o homem felizmente foi chamado. Permaneci imóvel, esperando que a cura começasse e a dor diminuísse, mas ela parecia piorar, não melhorar. Gemi e levei a mão ao reparador suco de fruta do fogo, mas lembrei que minha mochila tinha sido levada.
Saber que não podia mais contar com o suco de fruta do fogo já era ruim o bastante, mas perder a pedra da verdade fora uma coisa totalmente idiota da minha parte. Se essa era minha missão, aquela que eu fora incumbido de completar sozinho, eu estava estragando tudo em grande estilo. Ren e Kelsey teriam se saído muito melhor.
Consegui, com muita dificuldade, abrir um olho e vi Anamika sentada à minha frente. Ela me fitava com olhos arregalados, apavorados. Eu teria de fazer melhor por ela, por nós dois. Apesar da dor, tentei lhe dirigir um sorriso tranquilizador, mas ela rapidamente desviou o olhar. Tinha medo de também ser espancada ou de o homem retornar para terminar o que começara comigo.
Quando nos recolheram, segui de boa vontade. Embora o espancamento tivesse sido severo, não fora nada que não se curasse com o tempo. Nenhum dos ossos fora quebrado e meu corpo ainda estava forte. O rosto, no entanto, se encontrava destruído. Eu podia sentir como as maçãs do rosto e o maxilar estavam inchados e feridos. A pior parte era saber que minha cara inchada provavelmente assustava a jovem Ana. Eu tinha certeza de que não era uma visão bonita.
A versão mais velha de Ana certa vez zombara de mim por usar minha boa aparência para conseguir o que queria, sobretudo quando se tratava de obter porções extras. Eu tinha dito que ela estava louca. As garotas sempre gostavam de Ren, não de mim. As criadas sussurravam por trás das mãos quando eu entrava no salão de jantar, era verdade, e me ofereciam pratos extras de comida, mas eu suspeitava que isso acontecia principalmente porque eu era sério e retraído demais e elas queriam interagir comigo o menos possível. Em suma, serviam a comida e fugiam. Quando sugeri que elas tinham medo de mim, Ana riu do modo zombeteiro como sempre ria e disse que elas estavam tentando atrair minha atenção e que era uma pena que eu fosse tapado demais para perceber quando uma garota gostava de mim.
“Não sobrou nada em mim para alguém gostar”, eu dissera a ela, baixinho, sentindo pena de mim mesmo.
Em resposta, ela segurara meu rosto entre as mãos até que eu a olhasse nos olhos. Era um gesto terno da parte dela. Do tipo que ela raramente exibia.
“Uma garota inteligente”, dissera ela, “veria o homem por baixo da armadura. Além disso”, acrescentara, traçando com o dedo uma pequena cicatriz branca em meu queixo, lembrança de uma batalha muito antiga, “as pedras mais fortes são as mais preciosas. Elas não racham. Pedras mais frágeis quebram quando se chocam com elas. Essas são as pedras preciosas que as mulheres desejam e que colocam em seus dedos como símbolos do amor. Não é assim?”
“É”, eu respondera, “mas você esquece que os diamantes são cobiçados pelo seu brilho, não por sua durabilidade.”
“E por que a mulher não pode ter ambos?”, ela havia perguntado. “Basta um pouco de polimento para fazê-los brilhar.”
Com isso ela pressionara a mão sobre meu nariz e começara a esfregá-lo vigorosamente. Eu rira e a empurrara para o lado, mas, girando, ela se levantara e saíra correndo atrás de mim com a mão cheia de lama, dizendo que precisava esfregá-la em minha pele para me deixar mais bonito.
Essa era uma de minhas poucas lembranças boas com Anamika. Ela sempre tinha a capacidade de me distrair de meus pensamentos sombrios. E esse era o problema. Eu não queria ser desviado. Queria ruminar a falta que Kelsey me fazia e sentir pena de mim mesmo. Depois disso, todas as vezes que comíamos juntos e eu ganhava uma porção extra, ela erguia as sobrancelhas, tentando me fazer rir. Eu não valorizava seus esforços e, como resultado, costumava deixá-la sozinha. Não demorou muito para que suas tentativas de me animar desaparecessem.
Antes eu a vira como uma pessoa dura, severa e formidável demais para permitir qualquer ternura, mas agora eu já vira muitos lados diferentes dela e tivera uma conexão direta com suas emoções. Com aqueles que machucavam outras pessoas, sua vingança era implacável, mas, com os pequenos e alquebrados, ela era terna e gentil. Não era paternalista, mas sua gentileza e sua generosidade transpareciam. Eu pensava que essas características eram simplesmente parte de seu brilho etéreo de deusa, mas vi sinais delas em sua versão jovem também.
Mesmo agora, enquanto seguíamos nosso novo senhor, ela me ofereceu um breve sorriso de empatia. Era como se conhecesse a direção que meus pensamentos haviam tomado e quisesse que eu soubesse que ela compreendia. Embora ela não soubesse quem eu era ou quem ela se tornaria, e mal tivesse saído da infância, sua presença me centrava, de certa forma. Eu não tinha me dado conta de como passara a depender de sua companhia. Parecia certo estar perto dela, mesmo que nossa situação estivesse muito longe do ideal.
Anamika foi colocada em uma carroça e eu recebi ajuda para subir em um camelo. As rédeas foram mantidas longe de mim e o dócil animal que eu montava seguia o homem à minha frente. Meu rosto queimava ao sol ardente enquanto viajávamos e eu cochilava intermitentemente, agradecido a cada vez que me davam um pequeno gole de um cantil. Eu mantinha os olhos fixos na carroça de Ana, rezando para que não nos separassem.
Se eu estava sofrendo nas costas do camelo, sabia que o interior da carroça, onde ela se encontrava com as outras crianças recém-escravizadas, devia estar horrível. Embora eu ouvisse as crianças fungando baixinho na carroça, não sabia dizer se algum desses sons vinha de Ana. A versão mais velha dela raramente demonstrava esse tipo de emoção, mas talvez essa versão mais nova fosse diferente.
Quando o sol se pôs atrás das colinas poeirentas, finalmente paramos. Grupos de animais, principalmente camelos, pontilhavam a terra. Talvez meu novo senhor os comerciasse. Então notei os mercenários montando guarda. Havia um homem a cada 50 metros mais ou menos, todos brandindo cimitarras de aspecto ameaçador. Parei de contar depois que passei de cinco dúzias. Se o homem de turbante fosse um simples vendedor de camelos, então eu era um... como é mesmo que Kelsey os chamava? Ah, um astronauta. Camelos precisavam de muito pouca proteção, então por que todos os homens estavam armados até os dentes, seus olhos voltados para o horizonte?
A lua subindo no céu parecia aguada e pisquei rapidamente com o olho bom para colocá-la em foco. Agora que o sol havia baixado, a temperatura parecia quase amena. Um homem começou a acender luzes no alto das torres de vigia. Elas lançavam um brilho tênue sobre a areia, onde todos os novos escravos foram enfileirados e inspecionados. Os bem jovens, inclusive Anamika, foram levados por um portão, enquanto eu e dois outros homens seguimos escoltados por outro. Meus músculos forçavam as correntes enquanto Ana era conduzida para longe. O chacoalhar das correntes chamou a atenção de vários homens, que nos cercaram e me inspecionaram rapidamente.
— Este aqui está causando problemas? — perguntou um deles.
— Tentou falar com as crianças — respondeu outro. — Mas se comportou na viagem. Entende seu lugar agora.
O primeiro homem resmungou:
— Melhor ficar de olho nele.
Então gesticulou para que o seguíssemos.
Depois que fui trancado em uma jaula, com os outros dois novos escravos a meu lado, deram-nos um prato de comida e um copo d’água. Os dois homens desmoronaram no chão de terra, encolhendo-se em um canto, e adormeceram. Eu permaneci alerta e fiquei ouvindo o som dos guardas.
Na casa dos Rajaram, os guardas eram zelosos. As conversas à noite eram sussurradas, mas alegres. Esse lugar era muito diferente. O estado de espírito era hostil, sombrio e tão pressagioso quanto uma tempestade se aproximando no mar. Os homens eram endurecidos. Não por batalhas, mas pela crueldade. Eles me lembravam os homens que trabalhavam para Lokesh. Tinham visto muito e estavam dispostos a fazer o que fosse necessário para manter sua posição, ou apenas para manter a cabeça presa ao corpo.
Fiquei sentado observando-os durante horas naquela noite. A dor em meu rosto teria dificultado meu sono, de qualquer jeito. Quando a manhã chegou, fomos apresentados ao feitor dos escravos. Se eu tinha pensado que os soldados eram endurecidos, esse homem era muito pior. Faltavam-lhe vários dedos na mão direita, por isso ele usava uma luva. Era uma luva especial que, em lugar de dedos, tinha facas costuradas. A primeira coisa que ele fez foi ameaçar nos estripar se saíssemos da linha, brandindo sua mão enluvada para enfatizar as palavras. Eu acreditei nele.
Fomos levados imediatamente ao trabalho. Meu corpo forte foi usado para fazer mais trabalhos pesados do que meus companheiros escravos. Logo provei meu valor, mas os outros dois não eram tão saudáveis ou grandes quanto eu e eram espancados por isso. Não levou muito tempo para eu saber que estava certo em minhas primeiras suposições. A criação de camelos era uma fachada para a venda de armas.
Como o homem de turbante vendia armas a qualquer cliente que pagasse, ele empregava diversos condutores de caravana que negociavam com abastados membros de tribos em muitos lugares diferentes — alguns até fora da Índia. Para evitar envolver-se em problemas por vender armas para reis adversários ou fornecê-las a exércitos enfrentando-se em guerras, sua identidade era mantida secreta e a maior parte das negociações era feita com os mercadores. No espaço de uma semana, embalei milhares de lâminas, facas e conjuntos de flechas com ponta de aço em compartimentos secretos criados para serem encaixados sobre as costas dos camelos.
Em cima deles, eu carregava grãos, tecidos, especiarias, mel e uma variedade de outros produtos para disfarçar as armas que estavam sendo transportadas. Uma caravana vendendo tecidos era um acontecimento banal, mas, se fosse divulgado que armas muito procuradas estavam ocultas entre os coloridos rolos de tecido, os mais desonestos poderiam se sentir tentados a atacar a caravana. Os mercadores levavam alguns homens extras com eles, montando guarda, mas isso não era algo anormal.
Eu tinha de admitir que a operação completa era eficiente e executada de forma brilhante. Após uma semana, ainda não havia qualquer sinal de Anamika, embora eu tivesse avistado uma das outras crianças: um garoto que parecia ter 14 ou 15 anos. Ele apresentava machucados ao longo de ambos os braços, tinha o lábio inchado e andava mancando. Seu corpo estava encurvado e os olhos mostravam-se vazios. O garoto parecia faminto, mas eu não havia observado as outras crianças o bastante para saber se ele tinha sido comprado na mesma leva que eu ou se já se encontrava ali havia algum tempo. Meu palpite era que fora recentemente substituído pela nova safra de crianças.
Ele me entregou pão e encheu meu copo com água, e eu lhe dirigi um olhar de simpatia. No entanto, não disse nada ao garoto, exceto um grunhido de agradecimento. Mesmo assim, o feitor dos escravos me observou atentamente e, quando o garoto se foi, advertiu:
— Não fale com as crianças nem fale sobre elas.
Ergui os olhos para registrar que tinha ouvido, mas mantive a boca fechada e dei outra mordida no pão, sabendo que precisaria de toda a minha força para escapar com Ana. Apesar das liberdades limitadas que me tinham sido dadas, eu ainda não conseguira formular um plano. A cidadela em que estava aprisionado era formidável. Fora construída com pedras grandes na encosta de uma montanha. Sentinelas enfileiravam-se junto aos muros o tempo todo, tanto de dia quanto durante a noite. Arqueiros observavam o entorno através de aberturas grandes o bastante para encaixar projéteis capazes de abater um elefante de batalha blindado.
Sem meus poderes, eu não sabia se poderia escapar sozinho, muito menos levando Ana. Ela nem mesmo era mantida no mesmo lugar que eu. Tudo que eu sabia era que fora levada para a casa fortificada do outro lado da cidadela, que era cercada por outro muro. Até onde eu podia ver, a única maneira de entrar ali era por uma grossa porta de ferro, e o senhor dos escravos era o único que tinha a chave.
A construção era fortemente guardada. Para entrar ali, eu teria de obter a chave, passar sem ser visto por todos os guardas do muro e depois dominar os dois que ficavam à porta. Então havia a questão do que encontraria do outro lado. Pelo que eu sabia, Ana estava sendo mantida em uma masmorra embaixo da casa. Esfreguei o maxilar, pensando que, se tivesse corda suficiente, talvez conseguisse escalar o muro e entrar por uma janela. Eu podia vislumbrar o topo do telhado espreitando por trás do muro.
O feitor dos escravos me acertou na parte de trás da cabeça. Felizmente, com a mão normal.
— Preste atenção! — ordenou. — Ouvi falar do dia em que você insultou nosso senhor. Neste momento, ele está ocupado com as crianças, mas também gosta de domar rapazes como você. Mais cedo ou mais tarde virá atrás de você. Acredite em mim quando digo que você não vai querer que isso aconteça.
Ele agitou os dedos letais diante de meu rosto, os gumes afiados das facas raspando em minha bochecha, e meu sangue gelou. Será que o homem de turbante arrancou seus dedos?
— Estou lhe dizendo isso porque gosto de você — falou o homem, enquanto eu tentava disfarçar o horror estampado em meu rosto. — Você é esperto, trabalha duro e mantém a cabeça baixa. Eu também fui um soldado. — Ele fez uma pausa. — Isso foi há muito tempo, mas não estou velho demais para reconhecer um guerreiro quando vejo um.
— Como... como o senhor soube? — perguntei.
Ele soltou um grunhido.
— Homens de aluguel são dissimulados e traiçoeiros. Um soldado olha nos seus olhos enquanto mata você. Ele não sente nenhum prazer nisso. Seus olhos me mostram o que você é, garoto.
Assentindo, engoli em seco e disse:
— Agradeço o conselho.
O homem inclinou-se para mim.
— Não faça pouco caso do que estou dizendo, filho. O que acontece naquela casa é algo que fará meus músculos virarem água se eu parar para pensar a respeito.
Ele olhou com cautela ao redor para ver se alguém estava ouvindo nossa conversa e minhas veias se transformaram em gelo. O que quer que o homem de turbante fizesse em sua casa fortemente guardada era obviamente ruim o bastante para amedrontar um homem endurecido como o feitor dos escravos.
Durante a segunda semana, eu ainda não conseguira fazer muito mais do que esconder um pequeno pedaço de corda e explorar o muro em busca de um ponto mais fácil de escalar. Quando fui encarregado de fazer o inventário de um novo carregamento, observei que uma lâmina afiada e benfeita que viera da Ásia estava sendo testada pelo feitor dos escravos e fiz um comentário a respeito.
Ele a levou à minha garganta na mesma hora e perguntou o que eu sabia sobre ela. Depois de uma série de perguntas e um rápido relato sobre como a família de minha mãe viera de uma terra distante, o que provei ao falar em várias línguas diferentes, ele perguntou o que eu sabia sobre armas.
Felizmente, eu fora aluno de Kadam e sabia muito mais sobre as espadas em questão do que qualquer um dos homens à minha volta. Perguntei se poderia demonstrar o uso da espada e ele concordou, me observando com olhos atentos. Logo fui cercado por mercenários empunhando arcos e flechas, e ele me entregou a arma.
Rodopiei em uma série de movimentos com a espada e então encontrei a caixa em que ela fora trazida. Erguendo uma segunda lâmina, girei ambas no ar e comecei uma dança complexa usando muitas das técnicas que havia aperfeiçoado ao longo dos anos. Quando terminei, curvei-me sobre as espadas e as estendi, mãos voltadas para cima, ao feitor dos escravos.
Ele olhou para outro homem, fazendo um movimento com a cabeça para indicar que ele deveria pegar as espadas. Quando estavam de volta à caixa e em segurança, ele pediu outra arma. Assim que ela foi colocada em minhas mãos, fiz uma estrela, levando a lâmina ao pescoço de um homem antes que ele pudesse disparar uma flecha, e, em seguida, cortei a trança no alto da cabeça de outro homem.
Mais armas foram trazidas e, depois que demonstrei minha habilidade com cada uma delas, minha carga de trabalho foi transferida para os outros escravos e eu passei a ser usado para examinar as armas em busca de defeitos e para testar a força das lâminas. Satisfeito com meu trabalho, o feitor dos escravos passou a me tratar mais como um homem de confiança do que como escravo, principalmente quando descobrimos um carregamento inteiro com defeito.
Pude ouvir os mercadores falando em sua língua e descobri não só que eles planejavam nos enganar e ficar com o dinheiro como também que haviam retido as melhores espadas. Como resultado de nosso confronto, as armas de boa qualidade foram apresentadas e um novo acordo, muito lucrativo, foi fechado. O feitor dos escravos me deu rações extras, uma tarde de folga e uma moeda de ouro em reconhecimento por meus esforços.
No fim daquela semana, ele me puxou de lado.
— Você é de grande valor para mim — disse, sem rodeios. — Gostaria de levá-lo comigo para negociar uma compra. Você conhece as armas melhor do que qualquer outro e fala a língua deles. Ir comigo também irá tirá-lo de circulação, o que beneficiará nós dois. — Ele estremeceu visivelmente quando olhou para o telhado sobressaindo acima do muro. — Se provar seu valor para mim — prosseguiu —, mais liberdades serão concedidas a você. Talvez até se livre daquelas correntes enquanto dorme. Mais comida. Uma cama confortável. Se tentar fugir ou arruinar o acordo, ou tentar negociar sua liberdade, você perde a mão ou a cabeça, dependendo do que melhor atender a meus propósitos. Entendeu, garoto?
Bebi de uma só vez um copo d’água.
— Entendi — falei.
Ele grunhiu e voltamos ao trabalho.
Sair da cidadela era uma mudança bem-vinda, mas abandonar Anamika aprisionada ali me deixava de consciência pesada. Eu me saí bem com o feitor dos escravos e fechamos o negócio com vantagem. À medida que os dias passavam, sua confiança em mim ia crescendo lentamente. Quando retornamos, ele cumpriu a palavra e me deu uma cama confortável para dormir, assim como comida e água à vontade, e minhas correntes se tornaram coisa do passado. Um mês inteiro havia se passado nesse processo em que eu vinha trabalhando aos poucos para ganhar minha liberdade quando, uma manhã, fui acordado por um sujeito rude, que me cutucou com a bainha de sua espada, espetando-a em minhas costelas.
— O que foi? — perguntei.
— O senhor deseja ver você.
— A esta hora?
Esfreguei os olhos e saí tropeçando da cama, calçando minhas botas. Algemas foram presas em meus pulsos depois que os braços foram levados às costas. Eu congelei. Havia alguma coisa errada.
— Aonde estamos indo? — perguntei.
O homem não respondeu e continuou me arrastando para fora. Seis outros homens vieram ao encontro de meu captor e me cercaram, escoltando-me até o portão. Vi o feitor dos escravos parado ali perto. Ele me fitou nos olhos quando passei, a expressão pétrea. Então olhou significativamente para a casa oculta atrás do muro.
Deixei escapar um suspiro e assenti de maneira discreta, demonstrando que entendera. O homem de turbante havia enfim decidido voltar a atenção para mim. Com os ombros eretos, segui os homens pelo portão, observando com muito cuidado para ver como a tranca funcionava, e então estudei o rosto do homem que tinha a chave e vi onde ele a guardava.
Assimilar cada detalhe dos arredores servia para me distrair da dor que eu sabia que estava por vir. Ren havia sofrido muitíssimo nas mãos de Lokesh, a ponto de ter seu coração arrancado do peito. Certamente, eu poderia tolerar a dor tão bem quanto ele.
Assim que entramos na casa, um tapete foi empurrado para o lado, revelando um alçapão que levava a um porão. As dobradiças rangeram quando o alçapão foi aberto. Um homem desceu e pegou uma lanterna na parede enquanto os outros me empurraram para baixo, atrás dele. Meus olhos levaram algum tempo para se ajustar à escuridão do lugar e, quando isso aconteceu, desejei poder desfazer a imagem à minha frente.
Dentro do porão, ao longo de cada parede, viam-se pequenas jaulas, e em cada uma havia uma criança. Algumas dormiam. Outras choravam baixinho. Muitas tinham ataduras envolvendo mãos ou pés, e eu pensei nos dedos que faltavam na mão do feitor dos escravos lá fora. Um garoto tinha um curativo no olho. Todas as crianças pareciam debilitadas e desidratadas. À medida que passávamos, elas corriam para o canto mais distante de suas jaulas, diminuindo e desaparecendo quanto podiam nas sombras. Passei os olhos por cada jaula, à procura de Anamika, mas não a vi. Se a deusa Durga tivesse sido chamada a esse lugar, ela teria matado cada um dos homens, salvado cada criança e encontrado um lar para elas — provavelmente o nosso — ou as devolvido aos pais.
Cerrei os punhos. Uma coisa era torturar um homem, mas crianças? Jurei naquele momento que mataria o homem de turbante antes de ir embora. Sim, eu iria embora. E levaria Ana comigo. Fui escoltado até um quartinho no fundo do porão e colocado em uma cadeira. Meus pés foram presos em correntes soldadas ao piso.
Os homens então me deixaram, levando a luz com eles, e fiquei pensando na casa. Era cheia de riquezas e opulência, mas, debaixo do piso, havia um segredo medonho. Uma doença que corroía o coração da casa como uma podridão. Não se podia vê-la até que se tirassem camadas suficientes, mas sentado ali, na escuridão, ouvindo os sons de ratos correndo e o choro baixinho de crianças, eu podia sentir o mal pulsando à minha volta como uma presença tangível.
Não sei quanto tempo fiquei sentado ali até que uma luz penetrou a escuridão. Passos pesados se aproximaram e o choramingo das crianças foi interrompido por completo. Os passos vieram até a entrada de meu quarto e a porta se abriu devagar. O homem de turbante entrou. Dessa vez ele não usava turbante e notei que sua cabeça redonda era quase careca. Tinha fios de cabelo compridos e finos penteados para trás e suava profusamente na testa.
Um mercenário entrou com ele, pousou um lampião e se posicionou do lado de fora, fechando a porta ao passar.
— Finalmente nos encontramos — disse o homem, os olhos brilhando de interesse.
Como eu não dissesse nada em resposta, ele inclinou-se para a frente, apoiando as mãos gordas na mesa entre nós. Eu não tinha me dado conta de quanta carne o homem tinha. Ele se encontrava envolto em faixas de tecido no leilão de escravos. Não era de admirar que estivesse suando ao sol. Mudou de posição em sua cadeira, movimentando-se quase preguiçosamente ao tirar o casaco.
De um forro interno, tirou uma bolsinha e a desenrolou sobre a mesa à minha frente. Vários instrumentos, reluzindo como se tivessem acabado de ser polidos, encontravam-se enfiados em pequenos compartimentos na bolsa. Ele tirou um deles e começou a usá-lo para limpar as unhas. O canto de minha boca se ergueu. Ele podia amedrontar crianças assim, mas, até agora, eu não estava impressionado.
— O que você quer? — perguntei, pouco disposto a entrar no jogo que ele tinha em mente.
— Achou que estivesse construindo um lugar para você aqui, não foi? — perguntou com uma expressão blasé.
— Que outra escolha eu tinha? — repliquei.
— Verdade. Totalmente verdade — retrucou ele. Então suspirou e guardou o instrumento. Seu olhar me atravessou enquanto ele me avaliava do outro lado da mesa, tamborilando os dedos no tampo. — Serei direto com você — disse.
— Agradeço — respondi em tom neutro.
— Adquiri um item que já lhe pertenceu e despertou minha curiosidade o suficiente para que eu tente coagir você a cooperar a respeito dele.
— Hein? — perguntei, fingindo ignorância.
Ele gritou uma ordem e o homem que estava lá fora entrou e depositou uma mochila familiar sobre a mesa.
Depois que voltamos a ficar sozinhos, ele abriu a mochila e pegou o ovo da Fênix.
— Esta... pedra preciosa pertencia a você, não é? — perguntou.
— Pertence — repliquei.
— Pertencia — esclareceu com voz aguda. — Agora pertence a mim. O que eu quero saber é... o que é isto?
Dei de ombros.
— É uma pedra preciosa, como você disse.
Ele soltou uma gargalhada.
— Acha que sou idiota? — perguntou.
Optando por não responder, recostei-me na cadeira. Seus olhos queimavam ante meu silêncio e sua careca adquiriu uma tonalidade diferente.
— Eu lhe garanto — advertiu — que você vai me contar...
Interrompendo-o, eu disse:
— Ou o quê?
Se antes achei que ele estava furioso, agora ele fervia. Sua careca estava prestes a pegar fogo, como uma das tochas lá fora. Rápido como uma espada incandescente mergulhada em um balde de água, ele se recostou, o temperamento esfriando, expelindo fumaça pelos ouvidos, e me ofereceu um sorriso frio.
— Ou o quê, de fato — disse ele. — Você vai me contar o que eu quero saber. Isso eu lhe garanto — ameaçou.
Então chamou o mercenário e desapareceu pela porta, deixando-me com o homem, que tirou os grilhões presos em meu tornozelos.
— Não devia ter feito isso — a voz do homem ribombou enquanto ele me levava a uma jaula vazia. — Só torna a coisa pior.
— Não gosto de valentões — falei em resposta.
Ele me conduziu ao longo das jaulas, abriu uma vazia e me empurrou para dentro.
— É a sua cabeça que está em jogo — disse ele. — Lembre-se disso.
Com essas últimas palavras, o homem saiu e a escuridão caiu no porão mais uma vez. Não sei por quanto tempo fiquei ali. Devo ter caído no sono em algum momento, mas acordei quando a porta do porão se abriu e outro prisioneiro foi trazido para baixo. A jaula diante da minha foi destrancada e uma criança magricela foi jogada ali dentro. A triste criatura correu para o fundo da jaula e envolveu os joelhos ossudos com os braços.
Quando os homens se foram, esquadrinhei as sombras, mas não pude ver um rosto.
— Olá! — chamei suavemente, cuidando para que os guardas não me ouvissem.
Houve um leve movimento e então distingui cabelos escuros e um olho verde espiando por trás deles no momento exato em que a porta se fechava com um estrondo.

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