11 de setembro de 2018

16 - Um pouco tarde demais

— Fanindra! — exclamei.
Quando peguei o corpo do precioso animal de estimação de Durga, a companheira que estivera conosco por anos, meus olhos se encheram de lágrimas. O ar ficou preso em meus pulmões quando seu corpo lentamente se desfez em pó na palma de minhas mãos e, em seguida, elevou-se no ar, me envolvendo em uma nuvem dourada, pequenas centelhas de luz estalando e estourando. Estendendo a mão na vã tentativa de capturar sua essência fugidia, maravilhei-me com a beleza evanescente de minha amiga de tanto tempo.
— Não vá — supliquei, mas a luz dourada se dissipou até nada mais restar.
Meus ombros se sacudiam enquanto eu tentava conter os soluços. Eu tinha fracassado. Não consegui proteger Anamika e agora tinha perdido Fanindra. Kelsey e Ren nunca arruinaram suas missões assim. Caindo pesadamente na cama, enxuguei o rosto com a mão e fitei o teto.
A casa estava em silêncio. Todos tinham se recolhido. Com a partida de Fanindra e o rapto de Anamika, eu me sentia terrivelmente só. Os muitos anos de solidão na selva foram autoimpostos. Tinha dito a mim mesmo que gostava de viver assim. Era mentira. Quando Kelsey e Ren de repente entraram em minha vida, pedindo-me que deixasse a selva, fiquei muito tentado a ir com eles. Meu relacionamento com meu irmão na época estava frágil demais. Eu achava que ele me culpava, me odiava pelo que tinha acontecido a Yesubai. Mesmo depois de séculos, eu ainda não estava pronto para encará-lo.
Agora, sentia falta dele. De todos eles. Apesar de ter sido difícil ver Ren e Kelsey no dia de seu casamento, a lembrança agora era agridoce. Eles estavam felizes. Ele estava exultante ao dançar com sua recente esposa e a expressão dela quando olhava para ele era cheia de amor. Eu não podia tirar aquilo deles. Mais do que qualquer outra coisa, queria que estivessem aqui comigo. Nós três em uma última missão.
Ren era capaz de encontrar uma saída para qualquer situação usando a lógica. Provavelmente teria conseguido obter da mãe de Ana as informações de que precisava apenas abrindo um sorriso, sua marca registrada. Kelsey sempre fora boa em me distrair e me manter focado no que era positivo. Ela teria uma agenda repleta de pesquisas de Kadam e já estaria trabalhando em um plano de resgate. Eu amava isso neles.
Aliás, eu os amava e ponto. Nem mesmo a distância ou o tempo poderiam mudar isso. Eles eram minha família.
Mas Ana também era. A garota havia me conquistado. Para o bem ou para o mal, precisávamos um do outro. Ela era corajosa, obstinada e extremamente leal. E eu… eu tinha de salvá-la. Era responsável por ela. Era minha culpa que ela tivesse sido levada. Minha negligência tinha colocado todos nós em risco. Era uma bênção que ela ainda não estivesse morta.
Respirando fundo, levantei-me da cama e me dirigi à porta, batendo com a cabeça na viga de madeira rústica da entrada. Eu tinha me esquecido de como a porta do quarto era baixa. Sem fazer barulho, fui até o quarto ao lado e vi Sunil dormindo. O quarto adjacente pertencia aos pais de Sunil. Sua mãe descansava na cama, totalmente vestida, como se esperasse ouvir a qualquer momento o grito de que Anamika tinha voltado.
O quarto seguinte era o de Ana. Agachando-me para estudar o chão, amaldiçoei o fato de não mais ter meu faro nem minha visão aguçada. Pensei em pedir a Fanindra que usasse o brilho de seus olhos, mas não, Fanindra se fora. Engoli a onda de tristeza e comecei a trabalhar.
O quarto não era muito diferente daquele que ela mantinha como adulta. Ana gostava de colecionar coisas. Havia uma pilha de pedras brancas lisas, flores secas em um pote de argila, uma fita bonita, uma escova de cabelo. Seus pertences eram simples. Tudo tinha seu lugar. Embora ela só tivesse sido levada na noite anterior, não havia sinal algum de luta. Nem um grão de poeira sequer. Franzi o cenho. Se alguma bota tivesse marcado o chão antes, essa marca havia sido limpa. A mãe de Ana provavelmente tinha arrumado o quarto na expectativa da volta da filha.
Olhei pela janela, afastando a cortina esvoaçante. Era fácil ver como os sequestradores tinham entrado e a levado sem grandes dificuldades. A construção tinha degraus fáceis de transpor, que, imaginei, até Ana talvez usasse de vez em quando para dar uma volta depois que todos tivessem ido dormir. Debruçando-me na janela, vi a pegada seca de uma bota. Pegando um graveto caído no parapeito da janela, que devia ter sido quebrado da árvore próxima, inclinei-me para fora o máximo que pude e raspei a lama seca.
Levando-a ao nariz, inalei. O cheiro era fraco, mas inconfundível. Excremento de camelo. Provavelmente, Anamika tinha sido levada por uma caravana. Mercadores costumavam ir de um lugar para outro tentando vender seus artigos. Ana era bela o bastante, mesmo tão jovem, para chamar a atenção dos inescrupulosos. Poderia ser facilmente vendida como escrava ou como um brinquedo para um homem rico. Essa ideia fez meu sangue gelar.
Voltei rapidamente para meu quarto e reuni minhas coisas. Se tivesse lápis e papel, deixaria um bilhete para Sunil. No entanto, pensando melhor, eu sabia que ele tentaria me seguir. Saí sorrateiramente da casa e comecei a descer pelo caminho, pegando a mesma trilha que o pai de Anamika tomara, a lua iluminando meus passos.
Só me afastei da trilha da equipe de resgate no segundo dia. O grupo de cavaleiros que rastreava Ana fora eficiente em seguir as pegadas deixadas pelos camelos, até que as marcas dos animais desapareceram misteriosamente. A trilha que o pai de Ana e seus caçadores seguiam mostrava que eles tinham parado e andado em círculos por ali, mas acabaram prosseguindo no mesmo caminho.
Deslocando-me rapidamente, segui a mesma trilha por uma hora e descobri que ela levava a uma estrada movimentada. Viam-se ali muitas marcas — de cavalos, rodas de carroça e até elefantes —, mas nenhuma de camelo. Esse fato não pareceu deter os rastreadores e eles continuaram pela estrada, suas marcas desaparecendo no poente. Por um momento pensei em segui-los, mas algo naquelas pegadas que faltavam me incomodava.
Retornei até a área onde as pegadas tinham sumido e estudei o solo com atenção. Levei a maior parte da tarde para entender o que tinha acontecido. O solo naquela área era particularmente pedregoso e levava a um desfiladeiro fundo. Do alto, parecia perigoso demais para um grande bando de animais atravessar, mas, depois de passar várias horas estudando a vegetação rasteira, encontrei um caminho para descer.
Era bem escondido e a trilha tinha sido varrida, o que era mais fácil de fazer em solo pedregoso. Mas, agora que eu sabia o que procurava, o caminho era inconfundível. Naquela noite, escalei a lateral do penhasco e dormi em uma depressão rasa de onde podia ver uma grande extensão do rio lá embaixo. Se eu rolasse um pouquinho, provavelmente mergulharia para a morte. Apesar disso, eu não dormia havia dois dias e estava drenando aos poucos o suco de fruta do fogo só para manter meu organismo funcionando.
Quando tirei a rolha do frasco naquela noite, pensei em prosseguir apesar da exaustão, mas parei e me perguntei se precisaria do suco para salvar Ana. Por mais que odiasse perder tempo dormindo, eu necessitava do sono. Naquela noite, sonhei que ela estava gritando por mim. Estava presa em um cercado pequeno demais para poder esticar as pernas e os braços e sentia dores terríveis. Acordei com um sobressalto. Ainda estava escuro, mas pequenas luzes salpicavam o céu de rocha de minha alcova estreita.
Piscando, estiquei uma das mãos para tocar uma delas e notei que minha pele estava brilhando com as luzes. Olhei para baixo e vi que minha mochila estava aberta, o ovo da Fênix exposto. Seu interior cintilava e vi um lampejo mínimo e depois outro, fazendo parecer que um coração batia dentro dele. Mudando de posição, peguei o ovo e olhei dentro dele.
Como isso era possível? A Fênix tinha dito que ele nunca eclodiria. Quando o segurei em minhas mãos em concha, murmurei:
— Você está vivo?
Um calor inundou minhas mãos e o coraçãozinho pulsou, a batida vibrando nitidamente em minha pele.
— Pode me ajudar a encontrar Anamika? — perguntei. Dessa vez o ovo esfriou em minhas mãos. As luzes se turvaram e minha esperança enfraqueceu. — Não pode — respondi por ele. — Para que você serve, então?
Um pulsar mínimo vibrou na ponta de meu dedo. Sorri com tristeza.
— Não culpo você — declarei, desculpando-me, embora não soubesse por quê. — Fui eu que a perdi.
Tornei a me deitar, com uma das mãos tocando o ovo. Havia algo de reconfortante em saber que não estava mais totalmente sozinho. As horas restantes da noite passaram depressa enquanto eu dormia.
No dia seguinte, saí do desfiladeiro e franzi a testa ao ver que diversos outros camelos haviam se juntado aos que eu vinha seguindo. À tarde, dúzias de novos viajantes tinham se integrado ao grupo. Alguns se separaram e outros ficaram. Eu não conseguia saber qual grupo estava com Anamika.
Naquela noite, por fim, deparei com o acampamento de uma caravana e procurei o líder. Os homens não foram amigáveis, mas havia algumas mulheres e crianças que pareciam gentis, embora nervosas, o que atenuou um pouco minha preocupação. Perguntei se estavam naquela área havia muito tempo e se tinham algo para vender. Eles me mostraram muitas coisas, mas não mencionaram qualquer escrava. Dei a entender que o homem para quem eu trabalhava podia estar interessado em adquirir uma nova esposa, uma vez que a atual tinha se tornado feia e ranzinza.
Embora tenham rido disso, os homens disseram que não podiam me ajudar.
— Que pena — comentei. — Ele é muito rico e pagaria generosamente se a garota certa fosse encontrada.
Peguei minha mochila e sentei-me junto à fogueira, aceitando de maneira educada a comida e a bebida que as mulheres me ofereceram. Quando estendi a manta que elas me deram para o pernoite, um homem se aproximou. Era sujo e coçava a barba maltratada.
— Talvez eu conheça um homem que poderia conseguir o que você está procurando — disse ele em voz baixa.
— É mesmo? — perguntei, curvando-me sobre a mochila como se verificasse meus pertences.
— É. Se você não deixar de mencionar meu nome, é claro — apressou-se em acrescentar.
— Pode deixar. Eu lhe asseguro que meu benfeitor vai saber a quem agradecer pela informação.
Enquanto ele me contava sobre uma caravana pela qual tinham passado mais cedo e descrevia para onde tinha rumado, mantive a mão no ovo da Fênix. A pedra esquentou rapidamente e a pulsação contra minha pele indicou que o homem dizia a verdade.
— Agradeço sua ajuda — declarei, jogando para o homem uma pequena moeda tirada da bolsinha que Kadam tinha posto na mochila. — Se eu os encontrar, mais tarde haverá mais dessas para você.
O homem ganancioso umedeceu os lábios ao, deliberadamente, evitar olhar minha mochila. Em seguida ele se foi, os olhos faiscando.
Deitei-me, mas não dormi. Eu sabia que o homem iria tentar levar minhas coisas. Quando ele se aproximou sorrateiramente, estendi um braço e o joguei com força no chão. Minhas mãos rodearam seu pescoço, esmagando-lhe a traqueia antes que ele pudesse gritar.
— Olá de novo, amigo — falei enquanto ele se contorcia sob meu joelho. — Não está pensando em me roubar quando sua caravana me ofereceu hospitalidade, está?
Seus olhos saltaram enquanto ele sacudia a cabeça. Em vez de ele me roubar, vasculhei seu bolso e peguei o pouco dinheiro que tinha, bem como uma faca afiada que deixara cair no chão.
Pressionei a faca contra sua garganta.
— Vamos manter isso entre nós, está bem? — sugeri. — Senão terei que derramar seu sangue, e está uma noite agradável demais para isso. Concorda?
O homem assentiu vigorosamente e eu o soltei. Depois que ele fugiu correndo na escuridão, peguei minha mochila e levei a manta comigo, por precaução. Logo a caravana ficou para trás. Levei mais um dia para alcançar a outra caravana descrita por meu agressor. Era muito maior que a primeira. Na verdade, havia várias carroças grandes puxadas por cavalos, além dos camelos carregados. Ouvi o grito agudo de uma ave de rapina no céu e olhei para cima para vê-la mergulhando no ar até o braço estendido de um cavaleiro montado.
A caravana se deslocava devagar e pude alcançá-la sem esforço, mas, quando me aproximei, fui cercado de imediato por mercenários. Ergui as mãos no ar e disse-lhes que encontrara outra caravana, que tinha me enviado na direção deles, e que estava interessado em comprar algo valioso, sugerindo que valeria a pena negociar comigo.
Um dos homens deu um assovio agudo e outro cavaleiro se aproximou. Esse eu reconheci como o líder. A luva de couro mostrava que era ele o dono da ave. Uma feia cicatriz passava sobre o centro de um dos olhos, cuja íris era de um branco leitoso, mas, quando ele me olhou, pude ver que sua deficiência não o tornava menos terrível ou perigoso.
Sua constituição física era grande. Maior do que a de muitos guerreiros que eu tinha visto. Os braços e o tórax eram musculosos. Uma longa tatuagem de espadas interligadas começava no alto do malar e desaparecia sob a camisa. Até seu cavalo era notável. Fazia muito tempo que eu não montava, mas podia ver a definição do peito do animal e a vivacidade de seus olhos. Claramente, era treinado para a batalha.
Inclinando a cabeça no que eu esperava ser uma atitude respeitosa, me apresentei, usando meu nome verdadeiro. Anamika vivia em um tempo muito anterior a meu nascimento. Nem mesmo meu tataravô existia ainda, de modo que usar meu nome era seguro, pensei.
— Por que nos seguiu? — perguntou o homem com voz rouca.
— Meu senhor me enviou numa missão — respondi em tom calmo. — Minha tarefa é encontrar-lhe uma nova esposa.
O líder puxou uma faca de seu colete de couro e passou o polegar pelo cabo.
— E o que faz você pensar que negociamos mulheres? — perguntou. — Essa é uma prática sórdida. Não é, homens? — indagou.
Os mercenários que me cercavam gargalharam selvagemente. Eu soube então que esses homens estavam com Anamika. O fato de usarem carroças tinha sido a primeira pista. Se houvesse mulheres ou crianças, não iam querer que ninguém notasse. A ave provavelmente era usada para passar mensagens a vários contatos, para poderem negociar as vendas de escravos em segredo.
Franzi o cenho. As carroças não podiam ter atravessado o desfiladeiro; no entanto, quando refleti um pouco, me dei conta de que teria sido bem fácil reencontrá-las adiante.
Então minha mente se ateve a outro pensamento. Por que camelos? Era evidente que aqueles homens eram muito mais do que simples comerciantes. Sim, eles tinham camelos, mas estavam sendo usados como animais de carga, não como transporte. Por que tinham usado camelos para sequestrar Anamika?
Um deles ergueu a espada, apontando para mim.
— Devo ensiná-lo a não insultá-lo? — perguntou ao homem da cicatriz enquanto se aproximava montado em seu cavalo, servil e com uma camada de crueldade subjacente.
Levantando a cabeça, o líder me avaliou, ergueu os olhos para o sol e suspirou.
— Queria estar bem mais longe agora. Se vamos nos encontrar com nossos compradores, precisamos nos apressar. Tragam-no — disse ele, e puxou a rédea de seu cavalo, fazendo o animal voltar para a caravana, que tinha prosseguido enquanto falávamos.
Quando os homens chegaram mais perto, protestei:
— Estou desarmado. Vim de boa-fé para negociar.
Os homens corpulentos riram enquanto faziam um círculo a meu redor montados em seus cavalos. Um deles disse:
— Somente um tolo ou um fanático se aventuraria longe de casa desarmado. Como não o tomo por um tolo, você deve ser um zelote. — Ele se inclinou para baixo. — Lamento informar, mas parece que sua fé é fraca demais, zelote. Não acho que seu deus ou deusa vá salvá-lo.
Não, pensei. Não quando estou aqui para salvá-la. Abri a boca para dizer algo e me virei bem a tempo de ver uma bota vindo na direção de meu rosto. Minha cabeça foi jogada para trás e cuspi sangue. A mochila escorregou do ombro e, ao erguer as mãos para lutar, senti uma dor aguda na parte de trás do crânio. Depois me veio um rugido nos ouvidos e o céu escureceu.


A primeira coisa de que tive consciência ao acordar foi um movimento de balanço constante que revirou meu estômago. Tudo que pude fazer foi mudar a posição da cabeça para que o conteúdo do estômago não acabasse sobre meu peito.
Gemi e ergui um dedo para tocar de leve minha bochecha inchada e sentir o calombo na nuca. Um pano molhado foi jogado ruidosamente ao lado de minha perna, seguido por uma voz mal-humorada.
— Agradeço se você mesmo limpar seu vômito — disse a voz.
Estreitando os olhos no escuro, só consegui divisar uma forma grande em um dos cantos.
— Quem é você? — perguntei.
— Humpf — resmungou a voz, e a pessoa se aproximou. — Não importa muito, importa?
Com um silvo de dor, sentei-me, as costas contra a parede da carroça, e ouvi barulho de ferro. Meus tornozelos e pulsos estavam acorrentados ao chão.
— Meu nome é Kishan — falei. — Vim resgatar uma menina.
Ouvi uma risada de desdém.
— Então encontrou uma garota, não é mesmo? Mas, vendo o estado em que está, acho que não vai prestar para muita coisa.
Pegando o pano úmido, levei-o ao rosto e depois o pressionei contra a nuca. A dor era algo fugaz para mim. Até mesmo a pior dor logo desaparecia, desde que me tornara um tigre. Foi a única coisa que me deu algum consolo quando soube que Ren havia sido sequestrado por Lokesh. As torturas que sofreu foram terríveis. Conversamos sobre isso uma vez e prometemos nunca contar a Kelsey o que se passara com ele. Eu tinha pesadelos só de pensar nisso.
A dor que sentia agora não era nada em comparação com o que ele havia sofrido, no entanto, era algo que eu tinha de levar em conta. Eu poderia morrer ali. Aqueles homens poderiam me mutilar a ponto de impedir que eu alcançasse meu propósito. Teria de ser mais cuidadoso. Na verdade, fora tolice minha andar desarmado pelo interior. Eu nunca ficara desarmado antes. Sempre tivera dentes ou garras. As armas de Durga não existiam mais. Pensando bem, eu deveria ter procurado uma arma na casa de Anamika ou pedido a Kadam que me trouxesse uma.
É claro que, conhecendo-o, ele acharia alguma razão para que eu não pudesse levar uma arma do futuro para o passado, para não arruinar a linha do tempo. Ele arrumara pessoalmente minha mochila… espere aí… minha mochila! Tateei no escuro o chão da carroça a meu redor.
— Eles levaram o que você tinha, garoto tolo — disse a mulher em tom de deboche. — Não vai encontrar suas coisas aqui.
— Você… você sabe para onde estão nos levando? — perguntei.
— Para o leilão de escravos — respondeu ela. — Imagino que um rapaz forte como você vá render um bom preço.
— Onde é? — perguntei. — Em que cidade?
— Sempre muda. Às vezes, está no meio de um oásis. Às vezes, numa cidade. Outras, na praia. É de onde gosto mais.
— Quer dizer que você está com eles faz algum tempo?
— Mantenho os prisioneiros vivos — respondeu ela.
— Então deve conhecer a garota que estou procurando. — Eu podia sentir seus olhos em mim, embora o interior da carroça estivesse mais escuro do que breu. — Por favor — implorei. — Sou o protetor da menina. Apenas me diga, ela está viva?
Houve silêncio por duas longas respirações e então a mulher disse em voz baixa:
— Sim, garoto. Ela está viva.
Eu não sabia que estava prendendo a respiração até soltá-la.
— Obrigado — falei.
— Parece que não é um protetor muito bom, já que você mesmo foi capturado.
— Meu encarceramento é só temporário — declarei.
Ela deixou escapar um ruído áspero e pensei por um momento que a velha estivesse sufocando. Então percebi que ela estava rindo.
— Você duvida da minha capacidade de nos libertar? — perguntei.
— Filho, estou aqui há muito tempo — disse ela. — Mais tempo do que você tem de vida, aposto.
Essa aposta ela perderia.
— Ninguém jamais escapou. Pelo menos, ninguém que tenha sobrevivido.
— Então eu vou ser o primeiro.
— Isso nós vamos ver, garoto, vamos ver.
Girei o corpo e enfiei os dedos entre meu tornozelo e as algemas, tentando encontrar um ponto fraco na corrente, mas, depois de algum tempo, desisti.
— Melhor descansar por enquanto — aconselhou a mulher. — Eles vão querer você bem-disposto para amanhã.
— Amanhã?
— O leilão é amanhã.
Um dia? Eu tinha apenas algumas horas para tentar descobrir uma maneira de salvar não só Anamika, mas a mim também. Não era tempo suficiente.
No dia seguinte, fui arrastado para fora da carroça e encharcado com um balde de água antes de ser jogado sem cerimônia em uma construção. Fui forçado a sentar-me no chão de terra com uma dúzia de outros prisioneiros. Examinei o grupo, desapontado por encontrar somente homens. A velha que conheci na carroça entrou com uma cesta de pão, entregou um a cada um de nós e depois voltou com uma concha e uma jarra de água. Cada prisioneiro teve direito a apenas uma concha.
Quando chegou a mim, ela se abaixou e murmurou:
— Tente atrair a atenção do homem de turbante roxo. É ele quem vai comprar a sua menina.
Antes que ela saísse, segurei sua mão. Nossas correntes se chocaram.
— Obrigado — falei. — Depois que a libertar, prometo voltar para buscar você.
Seu rosto enrugado se animou com um sorriso cansado, mas ela não disse nada e seguiu, arrastando os pés, para o prisioneiro seguinte. A tarde passou devagar enquanto os homens iam sendo retirados, um a um. Eu ouvia gritos e vaias conforme o leilão avançava, até que chegou minha vez. Fui arrastado para fora do prédio por um homem corpulento, com uma lâmina de aspecto perigoso presa à cintura. Quando resisti, ele me deu um tapa na lateral da cabeça e o zumbido em meus ouvidos substituiu os sons da multidão.
A área estava repleta de pessoas. Escravos seguravam guarda-sóis sobre seus proprietários sentados em tapetes ou cadeiras sob o sol brilhante e os abanavam. Fui conduzido até o estrado e virado para um lado e para outro, de forma que todos pudessem dar uma boa olhada em mim.
Minha camisa foi arrancada do corpo para que pudessem ver meus braços e meu peito, e o leilão começou.
Bastou apenas um instante para que eu avistasse o homem de turbante roxo. Parecia entediado com o leilão e examinava uma bandeja de comida em vez de assistir aos procedimentos. Eu não sabia, a princípio, o que poderia fazer para chamar sua atenção, mas então notei as garotas trêmulas sentadas a seu redor. Seus rostos estavam cobertos e eram jovens. Anamika tinha aproximadamente a mesma idade que elas.
O menino que servia as bebidas acidentalmente derramou algo e ficou paralisado, empalidecendo de terror. O homem apenas sorriu e acariciou o rosto do garoto. Traçou uma cicatriz no rosto do jovem e o menino, trêmulo, saiu, visivelmente abalado. Então, pensei, ele gosta de machucar crianças.
Na mesma hora soube o melhor caminho para fazê-lo me comprar. Em um movimento rápido, empurrei o homem que segurava minha corrente e saltei do estrado, caindo bem na frente do homem de turbante roxo. As meninas nem se mexeram, embora eu pudesse ter facilmente caído sobre elas. Gritei com os compradores de escravos, chutei areia no homem de turbante e cuspi em seu rosto antes de lhe dizer que sabia o que ele gostava de fazer às crianças.
Lentamente o homem se levantou, sorriu e ofereceu uma soma considerável por mim quando meus captores começavam a me arrastar de volta. A oferta foi imediatamente aceita e fui retirado de lá. Pouco antes de me empurrarem de volta para dentro da construção, ouvi aplausos e me virei para olhar o estrado. Anamika estava parada no meio — sozinha, suja e inocentemente bela. O homem que me comprou ficou de pé, a cobiça evidente em seu rosto.
Queria ter conseguido me sentir feliz por ter alcançado meu objetivo depois de ouvir o leiloeiro gritar que o homem de turbante comprara Ana, mas um medo doentio me dominou. Meu estômago se contraiu quando ela foi trazida para o mesmo local e acorrentada à minha frente.
Em um instante estudei-a da cabeça aos pés e senti alívio ao ver que estava relativamente ilesa. Ela deixou pender a cabeça, os cabelos escuros cobrindo-lhe o rosto.
— Olá — eu disse gentilmente quando ficamos a sós.
Ela levantou aqueles olhos verdes para mim, lágrimas não derramadas fazendo com que brilhassem na penumbra da prisão. A ausência de reconhecimento em seu olhar me perturbou mais do que eu imaginava.
— Vou tirar a gente daqui, Ana — declarei. — Eu prometo.
Eu a ouvi ofegar e então um homem entrou e perguntou:
— Você estava falando com ela?
— Não — respondi.
— Dê uma lição nele — disse uma voz atrás do guarda. Era o homem de turbante roxo. — Dê uma lição nele e depois vamos embora. O sol está sufocante.
— Sim, senhor — respondeu o guarda.
Então recuou o braço e seu punho poderoso acertou meu rosto.

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