11 de setembro de 2018

15 - Pedra da verdade


Quando o homem olhou para a filha inconsciente, senti um peso enorme no estômago. Abaixei-me para pegar o amuleto caído e as espirais de metal de Fanindra com a intenção de seguir Sunil e o pai de volta à casa, mas, no momento em que me ergui, soube que alguma coisa estava errada.
Meu pé não se mexia. Abri a boca para chamá-los, mas nenhum som saiu. Nem mesmo minha tentativa de me transformar em tigre teve resultado. Sunil virou-se para trás para ver se eu os estava seguindo e franziu a testa, olhando para a direita e para a esquerda, como se não pudesse mais me ver. Ele puxou a manga do pai, que também olhou para trás e gritou alguma coisa, mas não pude ouvir o que ele disse.
O espaço começou a pressionar meu corpo. Meus ouvidos estalaram e senti o cheiro de energia elétrica que enche o ar pouco antes de uma forte tempestade desabar. A pressão em meu corpo era terrível e quanto mais o pai de Anamika se afastava de mim, pior eu me sentia. Era como se ela estivesse sendo violentamente arrancada de mim, e essa ruptura era pior do que qualquer coisa que eu já tivesse experimentado.
Um forte zumbido se elevou e a paisagem desbotou, como um quadro deixado ao sol. Então um violento impulso deslocou meu corpo através do espaço e do tempo. Sem chão, meu estômago se contraiu e eu encolhi braços e pernas enquanto rolava várias vezes, em círculos vertiginosos, minha respiração saindo em fortes arquejos.
Apaguei por um tempo. Quando voltei a mim, estava caído na grama. Rolei e me ajoelhei com ânsias de vômito, mas não havia nada em meu estômago. Gemendo, a cabeça latejando, desabei. Com as costas pressionadas contra a grama, fitei as frondosas copas das árvores acima de mim, desejando que parassem de girar. Eu não sabia o que tinha acontecido com Ana, mas sabia que precisava consertar. Tinha que voltar para ela.
Erguendo a cabeça, respirei fundo uma vez, depois outra, e mais outra. Os cheiros que eu normalmente captava estavam tão abrandados a ponto de não mais existirem, mas, ainda assim, eu sabia que essa era minha floresta. A mesma em que passei a maior parte do tempo. Reconheci os marcos. O que quer que acontecera com Ana havia me lançado de volta a meu tempo.
Pelo menos eu ainda tinha o amuleto.
Segurando-o nas mãos em concha, instruí-o a me levar de volta para ela. Nada aconteceu. Esfreguei o polegar nele e fitei a inscrição. As palavras que circundavam sua parte externa saltaram a meus olhos. O amuleto de Damon — O pai da Índia — O filho de Rajaram.
Desde que Ren e Kelsey partiram, eu não tinha pensado muito naquela inscrição. De fato, preferia não pensar no assunto. Ana me chamava de Damon quando eu assumia a forma de tigre, mas eu nunca abraçara de verdade o título. Ele não me pertencia. Sim, eu era um filho de Rajaram, mas Ren também era. Sim, Damon era o tigre de Durga e era o papel que eu desempenhava, mas, ainda assim, eu nunca pensara no amuleto como meu. Na maior parte do tempo ele estava no pescoço de Ana e, embora apreciasse seu poder e o usasse quando necessário, eu teria preferido nunca ter posto os olhos na coisa.
— Vamos lá — instei ao amuleto. — Precisamos trazê-la de volta.
Fechei os olhos e me concentrei. Mais uma vez, nada aconteceu. Grunhindo, lancei o abominável amuleto no meio das árvores, mas não ouvi o baque que ele deveria ter produzido ao atingir o chão. Preocupado, me levantei e cambaleei adiante, só para me imobilizar quando ouvi o ruído de vegetação se quebrando.
— Pensei que tivesse lhe ensinado a respeitar suas armas, filho — ouvi uma familiar voz de barítono falar.
— Kadam! — exclamei quando ele emergiu do meio das árvores.
Ele se aproximou e me devolveu o amuleto que eu havia atirado.
Quando se inclinou, a parte quebrada do amuleto que representava o passado e permitia que ele viajasse no tempo oscilou na corrente em torno de seu pescoço.
— Ensinou, sim — assenti, manuseando o amuleto completo e me perguntando como os dois objetos podiam existir no mesmo espaço. Rapidamente, expulsei o pensamento da mente. Eu não gostava de pensar nessas coisas. — Mas isto está muito distante de ser uma faca ou uma espada.
— Ele não é feito do mais fino aço, reconheço, mas o Amuleto de Damon é a arma mais poderosa que você tem.
Deixei escapar um suspiro de frustração.
— Poderoso, mas não funciona no momento — retruquei.
— Não — replicou Kadam. — Imagino que não esteja funcionando mesmo.
Minhas costas se enrijeceram.
— Você sabe o que aconteceu, então?
Ele suspirou.
— Sim. Eu sei.
— Se você sabia que isso ia acontecer, deveria ter nos advertido.
— Só porque sei de uma coisa não significa que possa ou vá evitar que ela aconteça.
— É. O que me faz lembrar de algo. — Dei um passo ameaçador na direção dele, não muito certo do que iria fazer. Não que eu nunca tivesse brigado com ele antes. Tínhamos treinado bastante nos longos anos em que nos conhecíamos. Cerrei os punhos e o sangue latejou em minhas veias.
— Pode me bater se quiser, filho — disse ele suavemente. — Eu não o culparia.
Ele me pareceu muitíssimo cansado naquele momento. A exaustão máxima era como um manto que usava sobre o corpo ainda forte. Lembrei-me da tristeza que sentira quando o perdemos. Eu a havia engolido e ela agora descansava bem fundo dentro de mim, mas ainda rasgava minhas entranhas como um anzol sempre que eu pensava nele, me deixando ferido e sangrando. O fato era que eu ainda estava de luto por ele. O gosto em minha boca era de cinzas.
Afastei-me dele.
— Então qual é o problema com o amuleto? — perguntei, erguendo o objeto entre os dedos.
— O problema é que, quando Anamika cruzou o caminho de seu antigo eu, ela essencialmente apagou seu eu futuro do tecido do universo. A deusa Durga não existe mais e, por causa disso, o elo entre vocês se fragmentou e o amuleto não tem mais poder. Sem uma deusa, Damon e seu amuleto não têm nenhum propósito.
Ele sentou-se em um tronco caído e prosseguiu:
— Tudo que vocês dois deveriam fazer, deveriam se tornar, agora existe em um limbo.
O sangue gelou em minhas veias.
— Você quer dizer que Ren e Kelsey...
— Nunca se conheceram. Neste plano, tanto você quanto Ren morreram há muito tempo. Esta sua versão não pode se transformar em tigre. Na verdade, você não tem absolutamente nenhum poder além do que teria como um jovem guerreiro.
— As armas? — perguntei.
— As armas e os presentes de Durga estão desvanecendo. Mesmo que você conseguisse recuperá-los dos espíritos malignos que se apoderaram deles e desse um jeito de manejá-los, eles não serviriam para você. Lembra-se de como eu penei para usar o arco?
— Lembro.
— Você seria tão incapaz de manejá-lo quanto eu. De qualquer maneira, as armas logo irão desaparecer.
— E quanto ao demônio?
— Lokesh?
Assenti.
— Ele nunca obteve imortalidade, porque o Amuleto de Damon não existe em seu plano.
— Entendo.
Deixei-me cair na grama, dobrando as pernas sob o corpo e esfregando o amuleto distraidamente com o polegar. Eu a havia perdido. Havia me perdido. Havia perdido tudo.
Justamente quando o desespero ameaçava me afogar, uma coisa me ocorreu.
— Espere. Se o amuleto nunca existiu, então como é que você está aqui?
Kadam me dirigiu um breve sorriso.
— Você sempre foi um estrategista ágil. A resposta é que você conseguiu consertá-lo em meu plano de existência. Lembra-se de quando eu disse que havia percorrido muitos caminhos possíveis?
— Lembro — respondi sombriamente.
— Este era um dos caminhos potenciais. Na verdade, este é o que, no fim das contas, leva ao melhor resultado.
— E qual é ele?
— Acredito que você pode triunfar e salvá-la.
— Mas como? Você vai me levar de volta a ela?
Ele sacudiu a cabeça.
— Eu não posso transportá-lo ao tempo e ao lugar a que você precisa ir, mas posso aconselhá-lo.
— Me aconselhar — resmunguei, em tom seco. — Que novidade... Me diga, Kadam, para que servem conselhos quando estou em um tempo diferente do dela?
— Você pode voltar para o tempo dela, Kishan. Mas, quando chegar, estará completamente sozinho, contando com a força de seus braços e a astúcia de sua mente. Você terá de arrancá-la de seu eu mais jovem, e vou lhe dizer desde já: não vai ser uma tarefa fácil. Mesmo que você tivesse o poder do amuleto, seria difícil. Você fez algo semelhante ao resgatar Ren da morte.
— Mas, como você disse, eu tinha o amuleto daquela vez.
— Sim, tinha. Mesmo assim, você sacrificou sua imortalidade para salvá-lo. E, ao resgatar Ana, novamente lhe será pedido que abra mão de alguma coisa. Mas tenha coragem, filho. Eu vi você fazendo isso. O poder de libertá-la está de fato em suas mãos. — Ele inclinou a cabeça, os olhos intensos e profundos. — Quanto Ana lhe contou do seu passado?
Dei de ombros.
— Não muito. Tem uma parte que ela guarda com todo o cuidado. Eu sei que alguma coisa em seu passado a assusta.
— Entendo. — Ele deixou escapar um suspiro, a expressão indecisa. — Não creio que caiba a mim lhe falar do passado dela, mas, de qualquer forma, você logo descobrirá. A jovem Anamika que você viu era uma criança muito feliz, mas algo que vai mudar a vida dela está prestes a acontecer. — Ele inclinou-se para a frente, a expressão séria. — Você precisa deixar que aconteça.
— O que é? — perguntei, temendo o caminho que meus pensamentos estavam tomando.
Ele franziu o nariz.
— Acredito que, se você soubesse, faria tudo que estivesse em seu poder para evitar que acontecesse. Sinto muito, Kishan, mas acho que é melhor eu deixar que descubra sozinho. No entanto, direi que você precisa ser aquele que vai salvá-la.
Meu estômago se contraiu.
— Salvá-la? Você está falando de algo mais do que simplesmente arrancar a deusa de sua forma mais jovem, não é? Está querendo dizer que alguém vai tentar matá-la?
Kadam sacudiu a cabeça.
— Eu já disse mais do que deveria.
Minha raiva retornou.
— Ótimo — repliquei bruscamente. — Guarde os seus segredos, então. Me diga apenas como chegar lá.
Meu amigo e pai substituto pareceu magoado com minha raiva e minha falta de fé. Eu sempre o tratara com deferência e respeito, e não gostava do grande abismo de desconfiança que havia surgido entre nós, mas estava cansado dos mistérios envoltos em enigmas e das expectativas do universo em geral. Como Kadam agora representava tudo que havia me proporcionado infelicidade, era fácil descontar nele.
Ele desviou os olhos, como se não pudesse mais encarar meu azedume.
— Você está disposta a levá-lo, minha querida? — perguntou Kadam, olhando para meus pés.
— Com quem você está falando? — perguntei, olhando ao redor.
— Com Fanindra, é claro.
A serpente dourada se contorceu, voltando à vida, e expandiu seus anéis, mas parecia diferente. Sua pele estava se soltando em vários pontos e os olhos estavam embaciados. A cobra coleou em meio à grama até chegar à bota de Kadam, então esticou a parte superior do corpo, erguendo-se no ar. Delicadamente, ele estendeu a mão e a pegou, aninhando seu corpo de forma protetora nos braços.
— O que há de errado com ela? — perguntei.
Kadam acariciou-lhe as costas, não se abalando quando um pedaço da pele se soltou.
— Ela está morrendo — explicou sombriamente.
— Morrendo? — gritei, alarmado. — Fanindra não pode morrer.
— Garanto que ela pode. Ela é uma das armas de Durga, não é?
— É, mas...
Abri e fechei a boca. A náusea estava de volta.
— Mas Fanindra é mais do que uma arma. Não é, querida? — perguntou ele, dirigindo-se a ela. — Ela também é um presente.
Os olhos verdes da cobra cintilaram com um brilho fraco.
— Um presente?
— Sim. Como a corda ou o fruto — explicou ele com um floreio das mãos.
— Mas só havia quatro presentes.
Kadam contou nos dedos.
— Quatro presentes, cinco sacrifícios, uma transformação.
— Certo — falei, cruzando os braços. — Temos os quatro presentes. Onde Fanindra entra?
— Como você sabe, cada presente corresponde a um pedaço do amuleto. O cordão funciona com o pedaço da água; o lenço, com o do ar.
— Então Fanindra está ligada ao...
— Tempo — ele respondeu por mim.
— Tempo? — perguntei, boquiaberto.
— Lembra-se de quando lhe falei sobre o primeiro templo de Durga? Aquele com as colunas?
— Lembro. Você me falou que foi ali que Kelsey descobriu como invocar a deusa.
— Correto. Naquela ocasião, Kelsey descobriu quatro colunas. Cada uma representava uma cena que deixava vocês terem um pequeno vislumbre das diferentes missões que realizaram. Desde aquele tempo, venho estudando profundamente as colunas, e o que descobri foi muito revelador. Basicamente, cada uma delas representava a terra, o ar, o fogo e a água. Kishkindha, sendo subterrânea, era a terra. Shangri-lá era o ar.
— Sim, sim. O fogo era o lugar em que encontramos os Lordes da Chama e a água, é claro, era a Cidade dos Sete Pagodes. O que isso tem a ver com o que estamos vivendo agora? — perguntei, passando a mão pelos cabelos.
Kadam me lançou o mesmo olhar que me dirigia quando eu era um rapazinho e não queria dedicar tempo ou energia a imaginar seus cenários de guerra.
— Quantos presentes existem?
— Ao que parece, cinco — respondi de modo automático.
— E quantos pedaços formam o amuleto? — perguntou suavemente.
— Cinco — repeti, cada vez mais impaciente.
— E o número de colunas? — indagou ele, me dirigindo um olhar significativo.
— Certo — falei, me concentrando em seu enigma. — Você está dizendo que havia uma outra coluna representando o último pedaço do amuleto?
— Sim, ela existiu em algum momento. Para guardar a informação do pedaço do tempo do amuleto, aquela coluna foi destruída.
— Quem a destruiu?
Ele agitou a mão no ar.
— Isso é irrelevante. A pergunta que você deveria fazer é: o que havia nela?
— Muito bem — concedi. — O que havia nela?
— Como você disse, as colunas mostravam como a deusa Durga poderia ser invocada para cada missão.
— Mas não há mais missões. Nós derrotamos Lokesh.
— Sim — concordou ele. — Lokesh se foi. Mas ainda resta uma missão em seu futuro: salvar Anamika.
Franzi a testa.
— Então o que é que eu faço, exatamente? Invoco a deusa de novo? Ou a resgato, como fiz com Ren? Enfrento dragões? — Apontei o dedo para ele. — Você disse que a deusa Durga não existe neste plano. Como é que posso invocá-la, se ela não existe?
— Ela não existe, mas ainda assim você precisa invocá-la. Você deve fazer uma oferenda à deusa para invocar a alma dela e separá-la de sua forma jovem. Se conseguir fazer isso, então vocês dois irão retornar à corrente do tempo normal e a jovem Anamika Kalinga vai se tornar o que deve ser. Ela já é a filha de um homem poderoso, mas, quando retornar de sua provação, virá a ser muito mais.
Após uma breve pausa, Kadam prosseguiu:
— Se você falhar, ela nunca se tornará uma campeã ou guerreira. Nunca será treinada ao lado do irmão nem aprenderá a liderar exércitos. Não teria uma vida infeliz, mas a deusa Durga jamais existiria, e todo o bem que ela faz, já fez e fará seria desfeito.
Com o indicador e o polegar, belisquei a ponte do nariz.
— Certo — falei.
— Certo?
— Certo. — Ergui a cabeça. — Eu vou. Farei uma oferenda. Farei o que precisa ser feito. Se você acha que posso trazê-la de volta, salvá-la, vou fazer isso.
Ele me dirigiu um olhar demorado e perspicaz; pareceu estudar o homem que eu havia me tornado e, de alguma forma, me considerar deficiente. Essa ideia me perturbou mais do que deveria.
— Aqui — disse ele. — Leve-a com você.
Erguendo-se, ele me entregou Fanindra e então deixou cair uma velha mochila a meus pés.
— O que é isto? — perguntei, pendurando-a em um ombro.
— Aí há uma faca, roupa, suprimentos e... e o ovo da Fênix.
— Você quer dizer o que estava no meu quarto?
— Sim.
— Por que você o colocou na mochila?
— Porque é hora de você desvendar a verdade, Kishan.
— A verdade?
Quando recebi o ovo, a Fênix me advertira de que ele nunca produziria uma Fênix, mas, em vez disso, se tornaria uma pedra da verdade. Até onde eu sabia, ele não havia feito coisíssima nenhuma. Eu tinha tentado várias vezes espiar dentro dele e fazer-lhe perguntas, na esperança de que me concedesse a sabedoria que a Fênix prometera. Acabei desistindo. Supostamente, havia o coração de uma Fênix ali dentro. Mas nenhuma luz, nem mesmo a magia de Durga, jamais pôde penetrar a casca preciosa. Eu deduzira que ele simplesmente não respondia a mim. Kadam pôs a mão em meu braço.
— Aí tem um jarro cheio de suco de fruta do fogo. Foi a única coisa que pude trazer para você. Use-o com parcimônia. Como agora você é mortal, pode ser ferido ou até mesmo morto. Tenha cuidado, filho.
— Terei.
— E traga-a de volta.
— Farei o melhor que puder.
— Cuide de fazer. — Ele apertou meu braço, os olhos brilhantes e penetrantes. Eu sentia que ele queria dizer mais, no entanto se continha de propósito. Ele acarinhou a cabeça de Fanindra. — Você precisa se apressar, antes que o poder dela falhe. Ela o levará à senhora dela. Boa sorte e adeus.
Antes que eu pudesse responder, ele apertou o amuleto que trazia no pescoço e desapareceu.
— Bem, creio que agora somos só você e eu — comentei com Fanindra.
A cobra dourada torceu a cabeça para me olhar, a língua saindo e entrando na boca. O ouro soltava-se em flocos de seu corpo e caía na grama. Tremendo com o esforço, ela voltou-se e dilatou o pescoço. Seu corpo oscilou para a frente e para trás, para a frente e para trás, como se ela estivesse dançando segundo a música de um encantador. Minha pele arrepiou-se quando ar frio cobriu meu corpo. Parecia que a morte havia me envolvido em suas mãos gélidas. As árvores sussurravam, enquanto as folhas farfalhavam no alto e seus pesados galhos rangiam ao vento. Entre as árvores, o sol lançou uma coluna de luz, mas os raios não eram quentes ou relaxantes.
Quase em transe, segui a cabeça balançante de Fanindra enquanto ela se voltava na direção da luz.
Minha respiração tornou-se áspera nos pulmões e a pele da cobra, em geral quente, ficou fria ao toque. Quando me posicionei na luz, fomos sugados para o interior de um vácuo. Pensei ter gritado, mas não houve som algum.
Em um momento eu estava em um lugar luminoso, sem nada à volta a não ser uma dolorosa luz branca, e no seguinte, cambaleava em um caminho pedregoso. Consegui me equilibrar, evitando ir ao chão, mas ainda deixei Fanindra cair de meus braços. A mochila aterrissou com um baque ao lado dela.
— Fanindra! — gritei e me abaixei para ver se ela estava bem.
Se antes ela parecia mal, agora estava muito pior. Desesperado, peguei o jarro de suco de fruta do fogo na mochila e pinguei algumas gotas em sua boca aberta, tomando cuidado para não derramá-lo no chão embaixo dela. Após um momento, ela reviveu um pouco, mas seu corpo ainda estava branco como a morte. Ela conseguiu se transformar em joia, entretanto, e eu a apanhei e guardei na mochila.
Uma propriedade familiar erguia-se no alto de uma colina à distância e reconheci a casa de Ana. Peguei a mochila e pus-me a caminho. Por mais tranquilo que o lugar parecesse de longe, à medida que fui me aproximando, não demorei a perceber que alguma coisa havia perturbado sua paz. Criados corriam de prédio em prédio e homens se reuniam nos estábulos, de onde montarias estavam sendo retiradas. E, antes que eu chegasse lá, um berrante soou, dando sinal aos homens.
Eles ergueram as vozes assim como as espadas e partiram por uma estrada de terra, afastando-se da casa, deixando os idosos e as mulheres retorcendo as mãos e soluçando.
— Minha senhora — falei, quando alcancei uma mulher encurvada que trabalhava em uma horta —, o que aconteceu aqui?
Quando ela se virou para me olhar, lágrimas robustas escorriam por seu rosto e molhavam a blusa suja de terra.
— Levaram minha preciosa menina.
— Quem? — Sacudi de leve seu ombro. — Alguém levou Ana? — Meu coração gelou quando ela se limitou a balançar a cabeça, seu choro soando em um lamento enquanto ela tornava a se curvar, voltando ao trabalho.
Segui na direção da casa, incapaz de desfazer o nó na garganta, e um barulho vindo da lateral do celeiro chamou minha atenção. O relincho de um cavalo irritado foi seguido por um xingamento.
Captei a palavra durbala e sorri. Anamika havia me xingado assim uma vez. Dobrando a esquina, esperei encontrá-la, mas, em seu lugar, deparei com seu irmão gêmeo, Sunil, tentando inutilmente montar um pônei irascível.
— Fique quieto! — gritou Sunil, um pé preso no estribo. Ele dançava à medida que a montaria girava, mal conseguindo se manter em pé.
— Precisa de ajuda? — perguntei, pegando as rédeas.
— Obrigado — disse ele, subindo, desajeitado, no pônei. O animal sacudiu a cabeça, tentando soltar-se de minha mão, mas eu o segurei com firmeza. — Ei — disse ele, reconhecendo meu rosto. — Foi você quem desapareceu há dois meses.
Dois meses? Aparentemente, Fanindra não tinha conseguido me trazer de volta ao momento preciso em que partimos. Pobre cobra. Suspendi a mochila. Pelo menos estávamos no lugar certo, ainda que não no momento exato. Teria de funcionar assim.
— Sim — repliquei. — Eu mesmo. Como está sua irmã? — perguntei, tentando fingir despreocupação. — Ela se recuperou?
— Anamika acordou logo depois que você se foi. Ela não conseguia se lembrar de você, nem da mulher que víramos com você, nem mesmo de desmaiar.
— É mesmo?
— Meu pai ficou furioso para valer quando você desapareceu.
— Sim, bem, a garota que estava comigo correu para o meio das árvores e estava muito machucada. Então tive de segui-la. Eu só queria me certificar de que sua irmã estava bem antes.
Sunil assentiu sabiamente.
— Foi o que eu disse a ele, mas meu pai não acreditou em mim.
— Então — continuei — ela está aqui? Sua irmã, quero dizer.
Com isso, Sunil irrompeu em lágrimas.
— Ela foi levada. É por isso que estou indo. Conheço minha irmã melhor do que ninguém. Eu posso encontrá-la.
— Levada? — Meu coração saltou, alarmado. — Quem fez isso?
— Esse é o problema. Meu pai não sabe. Mika foi levada à noite por ladrões.
— Como você sabe que foram ladrões? — perguntei. — Ela pode estar apenas se escondendo.
Embora eu tenha dito essas palavras, não acreditava nelas. Sabia, lá no fundo, que essa era precisamente a situação sobre a qual Kadam havia me advertido.
— Gastamos a maior parte do dia procurando por ela, mas, no fim da tarde, meu pai encontrou marcas de botas no quarto dela — disse ele. — Então papai convocou rastreadores para seguir as pegadas.
— Seu pai tem inimigos? — perguntei. — Alguém que quereria machucar sua família?
Sunil sacudiu a cabeça.
— Eu não sei. Não entendo quem faria uma coisa dessas.
Dei um tapinha no ombro dele.
— Eu posso ajudar. Sou um bom rastreador.
Os olhos dele se iluminaram.
— Você poderia ir comigo! — exclamou, animado.
Inclinando a cabeça, eu o observei.
— Sua mãe sabe que você está indo se juntar ao resgate?
Sunil mordeu o lábio, entregando-se.
— Acho que eu deveria me apresentar a sua mãe primeiro. Talvez ela nos deixe ir. Você tem outro cavalo que eu possa pegar emprestado?
Ele assentiu vigorosamente.
— Venha — disse, descendo de sua montaria. — Vou levá-lo até ela.
Segui-o até a casa e ele me conduziu por um pórtico aberto até um deslumbrante jardim nos fundos. Do portão em arco pendiam longos cachos de buganvília púrpura que fizeram cócegas em meus ombros quando me abaixei e passei sob eles. O jardim estava cheio de plantas floridas: rosas, calêndulas, rododendros, lírios, orquídeas e, é claro, jasmins. Era fácil ver de onde Anamika herdara seu amor pelas flores.
Tocando um lírio delicado, pensei nas garotas que eu havia amado. Tanto Yesubai quanto Kelsey gostavam de flores. Parecia certo, de alguma forma, que Anamika também gostasse. Sunil passou por mim e gritou:
— Mãe!
Encontramos uma bela senhora com olhos como os de Sunil e cabelos como os de Ana. Seu rosto estava manchado de vermelho e era visível que estivera chorando, mas, apesar de seu sofrimento, ela me cumprimentou com amabilidade e me conduziu para dentro da casa. Depois que me serviu uma bebida fria, eu disse a ela que era um peregrino a caminho de casa e que ouvira a história dos homens que levaram sua filha.
Quando ofereci ajuda para procurá-la e pedi que me fornecesse todas as informações de que tinha conhecimento, ela fez um gesto com a mão.
— Meu marido vai encontrá-la. Nada sob estes céus vai detê-lo.
Assenti com deferência.
— Cara senhora, tenho habilidades específicas para perseguir vilões. Eu lhe garanto que posso ser de grande ajuda.
— Eu também, Amma!
— Não, ladka. Se você fosse, quem ficaria para me proteger?
Enquanto Sunil discutia com a mãe, eu pensava no que precisaria fazer. Sem meu faro de tigre, não podia rastrear cheiros. Fazia muito tempo desde a última vez que eu usara habilidades humanas para rastrear, mas estava bastante seguro de que ainda me lembrava da maior parte dos truques.
— Será que posso ver o quarto de onde ela foi levada? — perguntei.
A mulher me estudou e então sacudiu a cabeça.
— Agradeço sua oferta — disse ela —, mas o senhor é um estranho. Eu lhe ofereço nossa hospitalidade, mas não posso permitir que parta nessa missão antes que meu marido retorne.
O rastro desapareceria se esperássemos muito tempo. Mordi o lábio e refleti, então lhe dirigi um sorriso.
— Ficarei muito agradecido em aceitar sua hospitalidade, pois estou exausto da estrada e gostaria de descansar.
Sunil grunhiu, demonstrando contrariedade, e, depois que ela o despachou para avisar na cozinha que eu me juntaria à família para o jantar, contei-lhe sobre a tentativa do filho de seguir o pai.
— Seria melhor ficar de olho nele — adverti.
— Obrigada — disse ela. — Quero expressar meus humildes agradecimentos.
— Não, cara senhora. Sou eu que devo agradecer sua generosidade em um momento tão difícil.
Ela acenou com a cabeça educadamente e deixou a sala.
Após uma refeição longa demais, fui levado a um quarto confortável. Eu teria de esperar que a casa adormecesse antes de examinar o quarto de Ana. Enquanto esperava, tirei o conteúdo da mochila e espalhei na cama. Fanindra caiu sobre o cobertor e atingiu o ovo da Fênix, retinindo.
Estremeci e a peguei, mas flocos de ouro cobriram a cama.
— Fanindra? — murmurei suavemente.
A cobra ganhou vida, alongando e espessando as espirais do corpo. Estremeceu e abriu a boca, quase como se quisesse falar comigo, mas, em vez disso, se afastou. Sua cauda ainda estava dura e metálica. Era como se ela não conseguisse completar a transformação. Empurrando para o lado meu monte de roupas, encontrei o suco de fruta do fogo e tirei a rolha.
— Beba um pouco mais — sugeri, estendendo o jarro até ela.
Ela o olhou e então, deliberadamente, virou-se e enroscou o corpo enfraquecido em torno do ovo uma, duas, três vezes, deixando para trás escamas douradas e pele. Seu pobre corpo estava ferido e vermelho sob as escamas arrancadas. Exausta, descansou a cabeça sobre sua cauda metálica.
— Diga-me — falei enquanto minha visão ficava embaçada. — Diga o que posso fazer para curar você.
A serpente lentamente ergueu a cabeça, as presas projetando-se da boca, uma gota dourada reluzindo na ponta de cada uma. Pensei que ela fosse me picar, o que eu aceitaria de bom grado. Eu sabia que ela conseguira curar Kelsey assim. Talvez a picada a ajudasse de alguma forma. Mas, em vez de cravar as presas em mim, ela pressionou a boca contra o ovo da Fênix.
Erguendo a cabeça e jogando-a para trás, ela deu o bote. Ouvi um estalo quando as presas penetraram a casca. Seu corpo pulsava enquanto ela injetava o veneno dourado no ovo. Depois ela recolheu as presas e desabou na cama. Sua barriga branca estava exposta e os olhos fixos reluziram com um brilho esverdeado e em seguida se apagaram, tornando-se pretos. O corpo de Fanindra estremeceu uma última vez e ela morreu.

9 comentários:

  1. gente,minha cabeça ja esta doendo com tanta informaçao

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  2. Fanindra, umas das criaturas mais adoráveis, não acredito que ela se foi 💔 mas tenho fé no Kishan, com ctz se resgatar a Ana, fanindra retorna, amém

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Boa leitura, E SEM SPOILER!