11 de setembro de 2018

14 - Alerta de intrusos

Aterrissamos em nosso tempo, no gramado de nossa casa na montanha. Coloquei-a no chão e me virei bruscamente, indo a passos largos na direção das portas. O menino que ela mandara na frente irrompeu porta afora no momento em que eu entrava. Ele recuou ao ver meu rosto, assim como Bhavin. Xing-Xing saiu correndo, passando longe de mim, indo cumprimentar sua deusa enquanto eu entrava no saguão e batia com força a porta atrás de mim.
Chegando a meu quarto, que eu raramente usava, pus-me a andar de um lado para outro, irritado, e depois, ao sentir que minhas emoções não se apaziguavam, desci a longa escada para a passagem secreta que levava ao lado de fora. Saltei vários degraus de cada vez e, quando cheguei à base, negligentemente deixei aberta a entrada da passagem e me transformei de imediato em tigre.
Corri na direção da floresta, sem me preocupar se alguém estava me vendo, e disparei por entre as árvores. Ao encontrar um toco de árvore apodrecido, ataquei-o com garras e dentes até reduzi-lo a destroços espalhados a meu redor. Ainda inconformado, persegui uma manada de animais, tentando morder e arranhar suas pernas, não no intuito de derrubar algum, mas apenas para causar o máximo de caos possível.
Quando me vi ofegante, com a língua pendendo da boca de tanto arquejar, penetrei ainda mais na floresta até encontrar um buraco escuro junto a um córrego. Bebi sofregamente, deixando a água gelada refrescar o sangue que pulsava em minha cabeça, depois entrei no buraco e me enrosquei, descansando a cabeça nas patas.
Devo ter caído no sono, porque a lua já havia nascido quando um som me alertou. Sem que me mexesse, meus olhos se abriram de imediato e esquadrinhei a floresta. Ouvi o barulho de água e senti o aroma de jasmim. Minha cauda se moveu quando tudo em mim voltou à vida e então ergui a cabeça. Reposicionando o corpo, concentrei-me e esperei. Meu focinho se franziu e meus bigodes se ergueram em um rosnado silencioso. O intruso se aproximou devagar, os passos quase silenciosos.
Quando ela estava no lugar exato, saltei de meu esconderijo e disparei na direção dela. No momento certo, saltei no ar, garras expostas e mandíbulas abertas, um espectro da morte tão negro quanto a noite. Minha vítima não correu. Não gritou. Em vez disso, voltou os olhos verdes para mim, a expressão resignada, e abriu os braços para o ataque.
Tentar deter meu impulso era impossível. Mesmo assim tentei, e provavelmente intensifiquei o impacto. Todo o peso de meu corpo de tigre a atingiu com força suficiente para quebrar-lhe os ossos. Torci o corpo, abaixando a cabeça para que meus dentes não a rasgassem, e retraí as garras.
Mas não foi o bastante. Caímos. Meu corpo bateu no solo e rolou. Senti seus braços me envolverem e me dei conta de que estávamos rolando juntos.
Só paramos quando minhas costas bateram com força em uma árvore. Minha cauda era a única coisa que não doía, mas eu sabia que ela estaria muito pior. Tentei me afastar, mas estava preso entre ela e a árvore, e não queria machucá-la mais. Com sua mão nas minhas costelas, abri nossa conexão para avaliar o dano e fiquei feliz ao descobrir que ela estava contundida mas não tinha quebrado nada, embora minhas garras houvessem deixado um arranhão feio em sua coxa.
— Está tudo bem — disse ela em voz alta quando soltei uma espécie de ganido rouco.
Ela levou a mão até meu rosto e acariciou meu pelo.
— Você tem razão de estar com raiva de mim, Sohan — falou. — Não o culpo por me atacar.
Suspirando, ela se afastou, e eu rolei, ficando de barriga para baixo e estudando-a enquanto ela usava o lenço para fazer uma atadura no ferimento na coxa. Era fundo e sangrava copiosamente, mas, assim que o tecido do lenço o tocou, o sangue foi diminuindo até quase estancar.
Agora que eu sabia que ela não sofrera danos irreparáveis, minha ira retornou. O que ela havia feito era cruel e abominável e, no entanto, eu sabia que aquela não era sua atitude típica. Suas ações fizeram vibrar uma nota dissonante em minhas veias e, por mais que tentasse, eu não encontrava um modo de justificar o que ela tinha permitido que acontecesse. Um jovem estava morto por causa dela, e ela exercera seu poder sobre mim para que eu não pudesse impedir que isso acontecesse.
Erguendo-me, andei em torno dela. Franzindo meu focinho, sibilei, reduzindo a distância entre nós a cada volta que dava. Eu sabia que não era a coisa mais cavalheiresca a fazer, e ser acossada por um tigre daquela maneira deveria tê-la assustado até a raiz dos cabelos. Kelsey jamais teria me perdoado por tal exibição. Mas Ana ficou ali sentada, observando, impassível, minha reação dramática, e prendeu o lábio inferior entre os dentes, o único sinal de que minha atitude a perturbava.
Finalmente saltei, caindo bem na frente dela, e rugi alto o bastante para estourar seus tímpanos.
O silêncio que se seguiu foi tão intenso quanto o rugido. Ela não se mexeu. Não se defendeu. Nem mesmo se encolheu, o que era um sinal de que tinha absoluta confiança em mim ou — a ideia que mais feria minha masculinidade — de que não tinha absolutamente qualquer medo de mim.
Enquanto olhava para ela, meu focinho se contraiu e percebi que ela estava chorando. A grande deusa Durga tinha baixado a cabeça, os longos cabelos escondendo-lhe o rosto, e chorava silenciosamente. Se eu não tivesse farejado o sal de suas lágrimas frescas, talvez nem percebesse.
Nunca, em minha longa vida, eu tinha visto uma garota chorar daquela maneira. O fio que nos ligava me puxou vigorosamente. Sentei-me depressa e fiquei apenas olhando para ela. Quando Kelsey chorava, era uma coisa selvagem e turbulenta. Uma tristeza molhada — hematomas arroxeados por dentro e raiva rubra por fora — e sentimentos em nós emaranhados. Suas emoções explodiam de tal forma que era difícil acalmá-la. Depois, esgotada, acabava dormindo doze horas seguidas.
Com Anamika, as lágrimas eram quase fantasmagóricas. Ela mal permitia que apenas meros traços de seus sentimentos penetrassem seu coração, quanto mais deixar que transbordassem. Suas lágrimas lembravam-me as de um guerreiro — algo quase vergonhoso, escondido, que acontecia no escuro, junto à fogueira de um acampamento. Os vestígios de lágrimas molhavam os cobertores em que os guerreiros se enrolavam após uma batalha exaustiva e mortal.
Não fosse pela conexão que eu tinha com ela, ainda aberta entre nós depois que eu avaliara seus ferimentos, eu poderia duvidar que ela chegasse a estar aborrecida. As trilhas úmidas em seu rosto podiam ser o brilho do luar. Ela era tão controlada. Tão contida em seu pesar. Mas estava sofrendo. Na verdade, estava quase se afogando na dor. Ouvi o estrondo de um trovão em algum lugar acima de nós e um raio atingiu uma árvore na floresta.
Eu não queria sentir a dor dela. Não queria ceder à tentação de confortá-la. Não depois do que ela havia feito. No entanto, quase sem querer, me aproximei. Ela estendeu os braços e abraçou meu pescoço. Enterrou o rosto em minha pelagem e os sons abafados de sua tristeza desapareceram por completo. Fiquei surpreso por ela não ter interrompido automaticamente nossa conexão. Na verdade, ela me abraçou mais forte e absorveu toda a minha raiva e todo o meu sentimento de traição. Ela os processou e aceitou.
Aos poucos, minha fúria amainou o suficiente para que eu abrisse a mente para seus pensamentos. Podia sentir a queimação em sua garganta enquanto ela engolia os soluços. Com o toque calmante de sua mão em minhas costas, ela ao menos me deixou ver, através de seus olhos, o que tinha acontecido: Kadam havia aparecido. Eu devia ter imaginado.
Ele a encontrara no saguão, antes que ela voltasse para me informar o paradeiro de Lady Bicho-da-Seda. Após uma preleção sobre deixar a história se desdobrar do modo como deveria, ele insistiu em que ela me impedisse de salvar o garoto, que eu precisava deixar o destino decidir a sorte dele.
Foi Kadam quem nos impediu de transformar o cavalo de volta no rapaz, no estábulo. Então ele disse a ela que, se eu tivesse salvado o fornecedor de seda, Lady Bicho-da-Seda jamais encontraria Kelsey, nunca nos guiaria em nossa viagem até os dragões. Que retirar aquele jovem específico do tecido do universo causaria um desmantelamento que destruiria tudo que tínhamos realizado. Suas palavras e seu comportamento tinham assustado Ana, enchendo-a de temor com relação à justiça dos propósitos de Kadam, baseados em suas percepções sobrenaturais.
Naquele momento, tive vontade de atacar meu antigo mentor e arremessá-lo no inferno, ou pelo menos no lugar horrível onde Ana e eu vivíamos, que era uma espécie de inferno para mim. Pelos longos meses desde que Kelsey e Ren partiram, eu tinha a sensação de que fora capturado em um terrível limbo, onde estávamos presos — algum lugar entre a mortalidade e a imortalidade —, perdidos no tempo.
Mas então lembrei que Kadam estava preso no mesmo círculo trágico que nós. Ele era tão vítima quanto nós dois. Só que agora ele estava de fato morto. Era irônico e triste que eu pudesse ficar tão irritado com um homem morto. Todas as vezes que ele aparecia para um de nós, era apenas um eco do homem que agora se fora para sempre. Quando aconteceria a última visita? Já havia ocorrido?
Sua morte abrira uma ferida imensa em meu coração. Como o buraco aberto na terra de onde uma árvore grande foi arrancada pela raiz. Nós já tínhamos vivenciado o luto por ele, mas Kadam não havia partido de fato, não inteiramente. Ele deixara pequenas sementes espalhadas, e, mesmo quando tentávamos abrir nossos caminhos, tropeçávamos em um de seus outros eus e seu impacto era sentido mais uma vez. Eu me perguntava se o luto por ele algum dia terminaria.
Tentar evitar o caminho que ele queria que tomássemos era tão inútil quanto chutar um formigueiro. Ele o refazia ou descobria um modo de nos contornar. Qualquer que fosse o caso, eu não podia culpar Anamika por escutá-lo. Kadam tinha sido seu professor, assim como meu. Ela confiava nele tanto quanto eu. Ele nos colocara nesse caminho juntos e, não importava o que acontecesse, eu não pretendia deixá-la encarar essa vida estranha sozinha.
Fechando os olhos, mudei para a forma humana e puxei Ana, trêmula, para meu colo. Ela passou os braços em volta de meu pescoço com mais força e eu fiquei acariciando suas costas.
— Shh, Ana. Eu não culpo você. Vai ficar tudo bem.
— O fornecedor de seda está morto por causa da minha decisão — sussurrou junto a meu pescoço.
— Já tomamos decisões difíceis como essa antes — falei, a voz abafada pelos cabelos dela.
— É — ela respirou fundo, trêmula, e levantou a cabeça, fitando meus olhos —, mas ele era só um garoto. Não era um guerreiro como os outros.
Um trovão ribombou novamente acima de nós. Enxugando uma lágrima do rosto dela com meu polegar, eu disse:
— Você fez o que tinha que fazer.
— Fiz? — perguntou ela, em tom sombrio.
Com um suspiro profundo, respondi:
— Fez. Kadam não é um homem cruel. Se ele acredita que a morte do rapaz precisava acontecer, então é porque precisava. Senão…
Minhas palavras morreram. Minha tentativa de tranquilizá-la soou falsa e, de certa forma, equivocada. Não que eu não confiasse em Kadam. Eu confiava. Eu acreditava que ele acreditava que era necessário que aquilo acontecesse. Só não sabia se eu já acreditava.
— Você questiona também minhas ações — disse ela.
— Não. Não as suas.
— Vou falar com você primeiro da próxima vez, Sohan — insistiu ela. — Prometo.
— Obrigado — repliquei.
— Foi errado da minha parte tomar a decisão sem você.
Agora que ela estava mais controlada, afastei deliberadamente as mãos do corpo dela e coloquei-as no chão.
— Você pensou que eu iria detê-la — afirmei simplesmente.
Ana inclinou a cabeça e assentiu rapidamente antes de se levantar e me oferecer a mão. Aceitei-a e olhei para sua coxa ferida exposta sob a roupa rasgada.
— Não importa que você tente ou não me deter — disse ela. — Combinamos fazer isso juntos.
Levantei-me com a mão ainda na dela, embora não permitisse que ela sustentasse nada de meu peso.
— Desculpe ter machucado você — eu disse, asperamente.
— Você não me machucou mais do que eu machuquei você.
Começamos a voltar para casa.
— Acho que machuquei você um pouco mais — falei, provocando-a de leve. — Vou usar o kamandal para curá-la quando chegarmos.
— Eu gostaria de um banho e uma boa noite de sono.
— Eu também.
Rumamos para nossa casa na montanha, caminhando lado a lado, um silêncio camarada entre nós. Quando chegamos à base, ela estacou ao ver o grande número de pessoas acampadas lá. Era como se uma pequena cidade tivesse surgido ali. Aguçando meus ouvidos, captei a melodia de pelo menos meia dúzia de línguas e, no entanto, a atmosfera era de alegria e respeito mútuo.
— Precisamos mandar provisões para cá — disse ela, preocupada, enquanto contava as fogueiras que pontilhavam o terreno.
— Vou cuidar disso — falei, com cansaço. — Vamos entrar pelos fundos? — perguntei, pensando na passagem secreta.
— Não.
Virando-se para mim, ela passou os braços ao redor de meu pescoço e aproximou o corpo do meu.
Reagi instintivamente, embora estivesse confuso, e deslizei as mãos em torno de sua cintura estreita. Meus olhos foram atraídos para as pétalas macias de seus lábios e os cílios espessos e escuros que lhe roçaram as maçãs do rosto quando ela fechou os olhos. À nossa volta, o ar mudou.
Uma luz brilhante e dourada envolveu nossos corpos, borbulhando suavemente como espuma do mar tingida pelo pôr do sol. Seus cabelos tocaram de leve meu braço ao serem açoitados pelo vento que nos elevou no céu noturno.
Enquanto flutuávamos acima do acampamento, envoltos por seu poder, pressionei meu rosto contra o dela e nos seguramos um no outro. Eu não tinha certeza se nossa luta superara completamente a barreira que havia entre nós, mas a distância a transpor certamente era menor agora do que tinha sido. Tocamos o solo e peguei a mão de Ana, conduzindo-a até seu quarto.
Depois de a deixar lá, com a porta se fechando sobre o leve sorriso que lhe dirigi, procurei nosso jovem aprendiz, Xing-Xing, e lhe entreguei o Fruto Dourado.
Os olhos dele se arregalaram quando lhe falei sobre seu poder. Após algumas demonstrações de como usá-lo, deixei-o na despensa com a tarefa de criar comida suficiente para alimentar dois mil guerreiros. Ele se lançou ao trabalho com grande entusiasmo, e não pude deixar de rir quando o cheiro de açúcar e mel se espalhou pelo ar.
Antes de me deitar, tomei um banho rápido, sem nem me dar o trabalho de me secar. Sacudi o cabelo molhado, como um tigre faria, e me enfiei entre os lençóis. Umas boas doze horas se passariam antes que tornasse a me mexer e, quando o fiz, soube imediatamente que havia algo errado. Minha cabeça doía e faíscas negras e brilhantes piscavam diante de meus olhos. Alguém tinha estado em meu quarto e me acertado com o que seria um golpe letal na cabeça, se eu fosse um típico mortal.
Crostas de sangue escuro e ressecado soltaram-se dos lençóis quando me sentei e, com cuidado, toquei o grande calombo na parte posterior da cabeça. Ao ficar de pé, quase caí; procurei desesperadamente a cabeceira da cama para me segurar enquanto tentava estabilizar minhas pernas trêmulas. Cambaleando, corri na direção do quarto de Ana e escancarei a porta, encontrando o quarto saqueado e a cama vazia. O cheiro de vários homens invadiu minhas narinas. Como eles tinham entrado?
Gritei por Xing-Xing e pelo escudeiro de Ana, Bhavin. Nenhum dos dois respondeu. Em pânico, fiz uma busca no quarto de Ana. Teria ela tirado o amuleto? A única maneira de ela ter sido capturada seria se tivesse sido atingida na cabeça como eu, isto é, a menos que tivesse tirado o amuleto. Ela fazia isso eventualmente, para tomar banho, embora eu a tivesse avisado várias vezes para jamais se separar dele.
Vasculhando o que restara de sua caixa de joias, nada encontrei de valor. Suas armas tinham desaparecido, assim como vários presentes inestimáveis que ela havia recebido ao longo dos anos. Para meu grande alívio, avistei uma cauda dourada escondida atrás da cortina.
— Fanindra — chamei —, você pode me ajudar a encontrá-la?
A cobra dourada piscou os olhos e esticou seus anéis, crescendo até atingir seu tamanho natural. Deslizou pela cama de Anamika, a língua se projetando para provar o ar, e depois rodeou o pé do móvel, descendo rapidamente até chegar ao chão. Eu a segui até a banheira de Ana e Fanindra enfiou a cabeça debaixo de uma toalha na borda de pedra.
Quando a peguei, o amuleto caiu no chão com um ruído seco. Agradecendo a Fanindra, coloquei o amuleto no pescoço e baixei o braço. Fanindra enroscou-se nele e endureceu, transformando-se em ouro, enquanto eu saía correndo do quarto, seguindo o cheiro dos homens. Os odores seguiam para a escada escondida e me amaldiçoei por ter saído tão abruptamente na véspera e deixado a porta secreta aberta. Em vez de perder tempo descendo os degraus, saltei no espaço negro e caí, usando o poder do vento para reduzir a velocidade da queda, de modo que aterrissei suavemente, agachado, lá embaixo.
Dessa vez, quando fechei a porta secreta atrás de mim, usei o amuleto para trancá-la permanentemente e saí em disparada, no encalço dos homens que tinham levado Ana. Os olhos esmeralda de Fanindra iluminavam a paisagem para mim, embora, como tigre, eu enxergasse o suficiente à noite. Mesmo assim, percebia como as criaturas vivas tinham seu contorno vividamente destacado quando ela lhes voltava seu olhar.
— Ajude-me a encontrá-los — sussurrei para Fanindra. — Ajude-me a encontrar Ana.
Sem o amuleto, eles poderiam dominar Ana, mantê-la inconsciente. Não conseguiriam manejar o arco nem brandir a gada, embora, com certeza, pudessem levá-los. Se tivessem homens suficientes, poderiam dividir o peso das armas facilmente, e meu faro me dizia que eram muitos.
Na verdade, o número aumentava. Cada vez mais cheiros se juntavam ao grupo enquanto eu corria. Meu sangue gelava quando eu pensava no que poderiam fazer com ela. Ana era uma guerreira, mas, sem seus poderes, não teria como enfrentar tantos homens. Para manter minha mente longe do perigo em que ela se achava, fui fazendo uma lista de possíveis agressores, tentando descobrir quem poderia ter feito aquilo. Na realidade, tínhamos feito muitos inimigos, mesmo considerando apenas o tempo presente.
A tentação de apropriar-se dos poderes da deusa era uma forte motivação. Por mais proteção que tivéssemos estabelecido, agora era óbvio que não fora suficiente. Eu tinha sido condescendente demais em meus deveres. Relaxado demais. Deveria ter acordado antes mesmo que um homem entrasse em meu quarto, quanto mais dar-lhe tempo para me golpear na cabeça.
É verdade que ambos estávamos exaustos por causa de nossos esforços recentes, mas isso não era desculpa. Ren arrancaria minha cauda por tal negligência. Corri até a escuridão cair de novo e então entrei na floresta. Com minha visão noturna, meu faro e a audição aguçada, eu acelerava, enquanto os homens diminuíam a velocidade.
Finalmente, encontrei a fogueira deles. Um espeto com algum tipo de carne quebrou e caiu sobre as chamas, e minha boca encheu-se de água. Eu não comia fazia um bom tempo. Colocando Fanindra no chão, perguntei:
— Você consegue encontrar Ana?
A cobra ergueu a cabeça, dilatou o pescoço e virou-se para a direita, balançando-se no ar, e em seguida virou-se para a esquerda. Lentamente, o capuz fechou-se e ela baixou a parte superior do corpo, deslizando para a grama.
Eu a segui da melhor forma que pude enquanto ela contornava o acampamento, mas ela se aproximou demais de um guarda, que gritou e recuou correndo. Abaixei-me para não ser visto quando ele ergueu a cimitarra e golpeou o chão. Minha boca se abriu, mas fiquei quieto quando o homem, cauteloso, saltou para longe e outro se juntou a ele.
— O que foi? — perguntou o segundo.
— Uma cobra. Nunca vi uma como essa. Albina, eu acho. Não tenho certeza se a acertei. Não consigo encontrá-la agora.
Eu estava me preparando para me movimentar de novo, esperando que Fanindra estivesse ilesa, quando algo roçou meu pé. Era Fanindra, sem a cauda. Percorri seu corpo com o dedo.
Enquanto fazia isso, ela se contorceu, a boca aberta, e, diante de meus olhos, uma nova cauda cresceu para substituir a velha.
Ela virou a cabeça, como para inspecionar sua nova metade antes de prosseguir entre as árvores novamente, dando aos guardas um amplo espaço. Contornamos todo o acampamento até que Fanindra parou e fitou o espaço à frente. Afastei uma samambaia com a mão e vi Ana amarrada a uma árvore.
Pegando Fanindra do chão, esperei até que o guarda perto de Ana cochilasse e rastejei mais para perto. Um grande hematoma manchava o queixo dela e a cabeça estava caída sobre o peito. Seus braços estavam amarrados à árvore atrás dela e as pernas também estavam atadas. Ela vestia apenas a camisola, que estava erguida até o meio da coxa, e o decote estava rasgado, expondo a curva superior do seio. Eu não sabia dizer se isso tinha acontecido durante uma luta ou se ela já havia sofrido algum abuso.
Hematomas roxos, vários deles com o tamanho exato de marcas de dedos, manchavam suas longas pernas e os braços. Rangi os dentes com fúria. Eu os mataria por terem tocado nela. Os homens junto à fogueira falavam em seu dialeto anasalado, comentando sua astúcia e recapitulando a incursão triunfante. Um insinuou o que planejava fazer com Ana, enquanto outro se gabava abertamente. Discutiram quem tinha direito a ela primeiro e felicitaram o homem que tinha a magia capaz de manter tigres a distância.
Fiquei imóvel e escutei com atenção. Agora tudo fazia sentido. Eles tinham saído e encontrado um ancestral dos baigas. Tinham um gunia entre eles. Foi um alívio saber que eu não tinha falhado em meu posto. Havia magia envolvida. Magia que também tinha incapacitado Ren. Enquanto continuavam a ameaçar a deusa, tive de me segurar para não matá-los imediatamente.
Não que eu não planejasse matá-los. Eu os mataria, sim. Só queria que ela estivesse a salvo primeiro. Inclinando-me sobre ela, arrumei a camisola e dei-lhe tapinhas no rosto.
— Ana? — sussurrei. — Ana, amor, você precisa acordar.
Ela gemeu e choramingou. Sua cabeça pendia, como se ela estivesse embriagada.
— Ana — chamei de novo, sacudindo-a pelo ombro. — Preciso tirá-la daqui.
Ela passou a língua pelos lábios, que estavam rachados e ensanguentados, e afastou bruscamente a cabeça de mim.
— Não — implorou baixinho. — Não!
Cobri sua boca para que ela não acordasse o guarda, mas, para ela, eu era um dos agressores. Ela tragou o ar, a respiração irregular, e tive certeza de que iria gritar.
Deslizei a mão para seu queixo e falei com ela em minha mente, silenciando-a e acalmando-a. Mesmo semiconsciente, ela relaxou na mesma hora, sentindo que eu não tencionava fazer-lhe mal algum. Tirei o amuleto do pescoço e o coloquei no dela. Acariciei suavemente seu rosto machucado, cheguei ainda mais perto e sussurrei:
— Vá para casa, Ana. Você tem que ir para casa.
— Casa — repetiu ela, a voz forte.
Antes que eu pudesse recolher a mão, ambos fomos arrebatados no tempo e no espaço e, quando aterrissamos, a parte superior de seu corpo, sem a árvore para apoiá-la, bateu ruidosamente no solo. Sibilei e levantei seu corpo cheio de contusões, apoiando a cabeça dela em meu joelho. Tínhamos deixado todas as nossas armas para trás. Anamika estava inconsciente. E à minha frente estendia-se uma imensa propriedade inequivocamente indiana.
Um garoto irrompeu do meio das árvores, seguido por uma menina de pernas longas e olhos verdes.
— Ana — murmurei, em choque.
Tínhamos ido parar no passado de Ana. O adolescente era Sunil, e a menina ao lado dele, uma jovem Anamika. Com os olhos arregalados, os dois se aproximaram. A Anamika adolescente agachou-se ao nosso lado.
— Vá correndo chamar papai, Sunil — disse ela, os olhos cheios de compaixão enquanto nos olhava. — A moça está ferida.
Sunil partiu e, antes que eu pudesse detê-la, a bela jovem estendeu a mão para tocar o cabelo de seu eu mais velho. A mulher ferida a meu lado tremeluziu e desapareceu em seguida, transformando-se em uma chuva dourada que se elevou no ar. O amuleto que ela estava usando caiu no chão.
— Ana! — gritei e olhei para cima.
A luz dourada cercou a menina e a ergueu no ar. Seus olhos se reviraram quando a luz foi aspirada para dentro de seu corpo. Quando a luz foi absorvida, ela aproximou-se de mim, flutuando, e desceu devagar, ocupando a mesma posição em que Ana estivera antes. Caiu em meus braços no mesmo instante em que o pai e o irmão corriam até nós.
O homem alto, usando um turbante adornado com joias, ficou vermelho.
— Faça o favor de tirar as mãos de minha filha! — ordenou o homem.
— Para onde a mulher foi? — perguntou Sunil.
Eu nada disse, apenas me levantei e coloquei Anamika nos braços do pai.

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