11 de setembro de 2018

13 - Seda libertada

— Meu senhor? — perguntou o homem com voz grave. — A que perigo vocês estão se referindo?
— Temos razão para acreditar que o imperador deseja matá-lo.
— Por que o imperador se importaria com um pobre fornecedor de seda? Meu senhor mal pode enxergar, quanto mais causar um tumulto grande o suficiente para perturbar o imperador. Acredito que estejam equivocados. — Debilmente, o homem ergueu os braços para nos enxotar portão afora.
Quando me mantive firme no lugar, cruzando os braços e firmando os pés, os olhos dele me examinaram rapidamente e sua voz se elevou em um falsete:
— Por favor, vão embora — implorou. — Não temos nada de valor.
Ana pôs a mão no braço dele e seu toque acalmou o homem. Eu não estava bem certo se esse era um dom natural dela ou se fazia parte de seu chamado, mas ela já havia usado o mesmo truque comigo e, em geral, funcionava. Isto é, a menos que fosse com ela que eu estivesse furioso. Com uma voz açucarada, ela pediu:
— Humildemente solicitamos que seu senhor nos receba. O assunto diz respeito ao imperador, a seu senhor e... e à mulher que ele ama.
Assim que ela disse isso, o homem arquejou e deu um passo para trás. Seus olhos se voltaram para as sombras.
— É melhor vocês entrarem. Depressa.
Ele nos conduziu por um caminho pavimentado com pedras que cortava um bosque de amoreiras e parou diante da porta aberta de um grande armazém. Um estranho som efervescente vinha dali. Lembrei-me de quando Kelsey me apresentara um refrigerante, mas esse ruído era como se mil copos de refrigerante estivessem sendo servidos ao mesmo tempo. Levei alguns segundos para me dar conta de que o ruído vinha de insetos — bichos-da-seda.
Observei uma mulher espalhar uma pilha de folhas sobre uma grande bandeja e então deslizá-la de volta ao lugar. Em seguida ela puxou outra e repetiu o processo. Várias mulheres dentro do armazém encontravam-se debruçadas sobre mesas, tirando folhas de galhos compridos.
— Vocês já estão terminando? — perguntou-lhes nosso guia.
Uma das mulheres veio até nós carregando um grande cesto do que pareciam minúsculos ovos.
— Quase — respondeu.
Eu nunca vira seda sendo produzida antes e o processo me fascinou. Avistei mulheres cuidando com desvelo de cestos grandes e redondos que se apoiavam em estruturas com várias fileiras. Do outro lado, a uma boa distância das larvas, outra mulher mexia uma cuba borbulhante e tirava dali casulos com as mãos nuas. Enquanto eu observava, outros trabalhadores examinavam os casulos que esfriavam, extraindo as larvas cozidas e separando o fio do inseto.
Uma mulher jogou um punhado de larvas na boca. Pude ouvir o ruído crocante e percebi que o cheiro no ar era de larvas cozidas, não de uma refeição. Trabalhadores aos pares desenrolavam os casulos enquanto os parceiros tornavam a enrolar os fios em grandes bobinas. Havia cubas para tingimento e fios coloridos pendiam de grandes ganchos enquanto secavam nas vigas.
Nosso guia fez um aceno com a mão.
— Ótimo — disse ele. — Continuem. A sineta do jantar vai soar em breve.
— Eu me pergunto qual será o cardápio — sussurrei para Ana.
Ela me presenteou com um de seus raros sorrisos e me senti como se tivesse ganhado um prêmio.
A mulher com o cesto inclinou a cabeça respeitosamente para nós três, que respondemos da mesma forma e seguimos em frente. Virando a esquina, deparamos com uma grande construção que parecia um quartel e vi trabalhadores movimentando-se em seu interior. Passamos por esse prédio e terminamos em um menor que os outros, mas o trabalho realizado ali dentro era muito mais refinado.
Fomos instruídos a aguardar na porta enquanto ele nos anunciava. Assim que tivemos permissão para entrar, fomos conduzidos a cadeiras junto a uma mesa comprida. Dobrei as pernas sob meu corpo e me sentei, Ana acomodou-se a meu lado e nosso guia trouxe seu senhor. O homem estava deformado pela idade. Suas costas eram tão curvadas que deviam lhe causar uma dor terrível, mas ele não se queixou ao sentar-se diante de nós.
Serviram-nos uma refeição e comemos quase em silêncio, Ana apenas comentando sobre a noite agradável, e eu, sobre o esplendor da lua. Lamentei essa última observação quando o senhor da casa estendeu a mão trêmula para sua xícara. Quando a levou aos lábios, vi seus olhos. Eram opacos e leitosos. Eu sabia, depois de comparecer a longas reuniões diplomáticas, que devíamos esperar até que a refeição terminasse antes de tratarmos da questão que nos levara até ali.
Eu estava acostumado ao ritmo lento, tradicional do passado, e o apreciava na maior parte do tempo. Mas também havia algo de positivo na correria na condução dos negócios no tempo de Kelsey. Por mais que me sentisse deslocado no futuro, descobri que gostava da rapidez com que as coisas se processavam. Principalmente aquelas que eu considerava tediosas. Meu pé balançava com impaciência enquanto eu esperava que o homem terminasse seu jantar. Ana pôs a mão em meu joelho por baixo da mesa para conter minha inquietação e eu cobri a dela com a minha, entrelaçando nossos dedos.
Ela franziu o cenho, mas não retirou a mão. Pareceu-me outra vitória. Embora eu não soubesse muito bem o que exatamente eu estava ganhando.
Por fim, a refeição terminou e tudo foi recolhido. O criado serviu chá ao senhor da casa e sussurrou em seu ouvido que precisávamos falar com ele a respeito do imperador. Que havíamos afirmado que o senhor se encontrava em grande perigo em razão de seu amor por uma mulher. Uma lágrima escorreu pelo rosto do homem. Ele pareceu não ter consciência dela ou não se importar que a víssemos.
— Então o senhor sabe do que estamos falando — observei.
— Sei — replicou o homem. — Vocês podem ajudá-lo? — perguntou. — Ajudar o meu filho?
— Seu filho? — comecei.
— Seu filho é quem está arriscando a vida — disse Ana, como se já soubesse a resposta. — É ele que está cortejando a mulher do imperador.
O fornecedor de seda correu a mão pelo rosto e tentou empertigar o corpo.
— Sou um homem velho — redarguiu. — Minha mulher morreu há muito tempo e só tivemos um filho. Ele é um bom garoto. Forte de corpo e sensível de espírito, mas há um ano percebi uma mudança nele. Ele não quis me dizer a razão, mas até mesmo eu podia perceber a leveza em seus passos, a felicidade em sua voz. Já me senti assim uma vez. Há muito tempo. E soube o que era.
— Amor — adivinhou Ana, bebendo seu chá.
— Sim. Mas ele se recusava a dizer qualquer coisa a respeito. Então, um dia, encontrei o lenço.
— Lenço? — perguntei.
— Sim. Um trabalho excepcionalmente delicado. Eu só conhecia uma costureira capaz de fazer um trabalho daqueles.
— Mas como o senhor...? — Fiz uma pausa, não sabendo como concluir a pergunta.
— Como vejo o trabalho com olhos que se cobriram de sombras? Não vejo, jovem. Uso as mãos. Meus dedos seguram fios de seda desde antes de eu saber andar. É simples para mim distinguir um trabalho bom de um ruim.
O homem tossiu, uma tosse seca, e estendeu a mão para pegar sua caneca. Encontrando-a vazia, tateou pela mesa até encontrar o bule e o puxou para mais perto. O criado tentou ajudar, mas o senhor bufou, e o criado recuou. O velho fornecedor de seda serviu seu chá, derramando o líquido escaldante sobre a borda da caneca e queimando os dedos.
Ele pareceu não perceber o calor e me perguntei se ele, também, um dia havia tirado os casulos ferventes do pote. O homem sugou o chá dos dedos antes de pousar o bule com força suficiente para ouvirmos o barulho da água espirrando.
— Diga-nos: onde está seu filho? — insistiu Ana.
— Ela o chamou para ir até lá esta tarde, com uma encomenda urgente. Ele ainda não retornou, embora já tenha passado da hora. — O homem retorcia o guardanapo nas mãos enquanto falava. — Não podemos negar um chamado do imperador. Implorei a meu filho que considerasse as consequências de suas ações, mas ele não me deu ouvidos. O imperador planeja casar-se com ela. É o que todos dizem. No mínimo, ele jamais a deixará partir. Eu amo meu filho e, se ele insistir em ir atrás dessa garota, isso será a morte dele. Ninguém contraria o imperador.
Nesse exato momento, houve um tumulto na porta e o rapaz de quem estávamos falando entrou correndo na sala. Seu peito arfava enquanto ele respirava, arquejante, e a expressão em seu rosto era de absoluto terror aliado a determinação. Ele ajoelhou-se ao lado do pai encarquilhado.
— O senhor precisa me dizer onde encontrar o mago, pai!
— Filho! Você voltou. — Ele agarrou a mão do rapaz e a levou ao peito, mas o garoto repetiu a pergunta. — Mago? — ecoou o velho.
— Sim, mago, pai. Aquele sobre o qual o senhor me falava todas as noites. Aquele que mora nas montanhas. Preciso encontrá-lo!
— O que você pretende fazer? — perguntou o velho com voz fraca.
Ele se apoiou na mesa para se levantar e quase caiu quando a mesa gemeu, em protesto, deslocando-se em minha direção e de Ana. Ambos pegamos nossas canecas de chá antes que derramassem.
Os olhos do jovem queimavam como uma pedra de fogo recém-riscada quando agarrou o roupão de seda do pai. Os dois oscilaram como duas jovens mudas de árvore em uma tempestade.
A única maneira de se manterem em pé era firmarem os braços e se segurarem um no outro.
— Diga-me, filho — pediu o homem —, o que posso fazer?
A boca do jovem se abriu e fechou, abriu e fechou. Dava para ver a imensa pressão que crescia dentro dele. Era como o pacote de pipoca no forno de micro-ondas sobre o qual Kelsey me explicara. Era preciso deixá-lo no micro-ondas pelo tempo suficiente. Se ficasse um tempo a mais, o milho queimaria. O garoto diante de mim estava queimando, e me perguntei se tínhamos chegado tarde demais para salvá-lo.
— Conte-nos sobre a garota — pedi, na esperança de poder guiá-lo ao âmago da questão.
Em tom sombrio, o rapaz nos contou que havia se apaixonado pela garota aprisionada no palácio do imperador e que ela seria forçada a se casar com um homem que desprezava. Sua única esperança de salvá-la era suplicar um favor ao mago, aquele sobre o qual o pai lhe contara histórias desde a infância.
— Mas, filho, esse mago não existe — disse o pai, os membros tremendo. — Pensei que você soubesse. Eram apenas histórias. Sua mãe acreditava no mago e lhe contava histórias dele quando você era pequeno. Decidi continuar a tradição para ajudá-lo a se lembrar dela.
Pude ver os músculos fortes dos ombros do garoto afrouxarem quando se viu derrotado. Sem ânimo, ele disse:
— Então não há nada que eu possa fazer. Não há como salvá-la de seu destino horrível.
— Talvez haja uma maneira de ajudarmos — murmurou Ana, com a voz abafada.
Como se notasse nossa presença pela primeira vez, o jovem virou-se e nos examinou.
— Quem são vocês? — perguntou. — E por que visitam minha casa a esta hora?
Sem preâmbulos, Anamika canalizou seu poder e estendeu a mão. O Lenço Divino enroscou-se em seu braço como uma cobra e ondulou diante deles, mudando de cor. O garoto recuou.
— O que... o que foi? — perguntou o pai.
Quando ela murmurou um comando, o Lenço Divino soltou-se de seus dedos e voou até a palma estendida do velho. Ele esfregou a borda do tecido entre os dedos e gritou…
— Como isso é possível?
— O que... o que foi, pai? — indagou o garoto, umedecendo os lábios e fitando o lenço.
O homem ergueu os olhos para nós e disse:
— Eu consigo ver vocês. Os dois. Seu tecido toca o olho da minha mente e me mostra cores e formas outra vez. — Ele apressou-se em fazer uma mesura. — Estamos honrados com sua presença, Grandiosa.
Ana sorriu quando o rapaz fez o mesmo, lhes dirigiu um gracioso aceno com a cabeça, pedindo que ficassem à vontade, e abriu as mãos para mostrar que não tencionava fazer nenhum mal.
— Fico feliz que o lenço lhe dê esse dom, mas temo que seja apenas temporário.
— Não importa — disse o velho, voltando-se para o filho e então novamente para ela. — Posso ver o rosto do meu filho outra vez. É um prêmio mais valioso do que qualquer coisa que eu pudesse pedir.
— Fomos enviados para ajudá-lo a resgatar sua dama — disse ela ao jovem. — Como pode ver, temos nossa magia. Diga-nos, que ajuda você pretendia pedir ao mago?
— Eu... — ele gaguejou — ... eu queria que ele entrasse escondido no palácio e a resgatasse. Ele usaria meu lenço como sinal de que fora enviado por mim.
— Mas, certamente, alguém que não estivesse familiarizado com o palácio levaria muito tempo para encontrá-la — observou Ana.
— Isso é verdade — respondeu ele —, mas posso desenhar um mapa.
Ana tamborilou os dedos na mesa enquanto pensava.
— Acho que seria melhor você mesmo resgatar sua amada. Você já conhece o local.
— Sim, mas meu rosto é familiar aos guardas. Sou conhecido lá.
— Então vamos disfarçá-lo.
— Disfarçar?
— Sim. O lenço tem essa habilidade.
Ana estendeu a mão e o lenço voou em sua direção.
— Lamento escurecer sua visão de novo — desculpou-se com o velho fornecedor de seda.
Ele fez um gesto com a mão, indicando que ela não se preocupasse, e Ana enrolou-se no lenço. Quando o ergueu, revelando-se, ela era eu. O jovem arquejou enquanto olhava de mim para Ana e de volta para mim.
— Como foi que você fez isso? — perguntou ele, perplexo.
Era desconcertante olhar para mim mesmo. Anamika deve ter sentido isso, então sussurrou para o lenço e meu rosto se dissolveu, revelando-a mais uma vez.
— Eu sou a deusa Durga e este é Damon — disse ela, apontando para mim. — Temos uma boa dose de magia e viemos aqui com o único propósito de salvar aquela que você ama. Vai nos ajudar?
— Sim, Deusa — disse o rapaz, a voz rouca. Então ajoelhou-se aos pés de Ana e levou a mão ao coração. — Eu faria qualquer coisa para salvá-la.
Uma hora depois, caminhávamos com ele em direção à cidade. Esperamos que anoitecesse para que ficássemos cercados pela escuridão. Usando o lenço, transformamos o filho do fornecedor de seda em um soldado e amarramos em seu pescoço o precioso lenço que a garota fizera para ele. Ele avançou silenciosamente e, quando chegou ao portão da cidade, conseguiu entrar, apesar de seus modos em nada se assemelharem aos de um soldado.
Ana e eu tínhamos nos tornado invisíveis, dessincronizando o tempo à nossa volta para que não fôssemos detectados, e seguimos atrás dele, passando, espremidos, pelo portão antes que se fechasse. Então tudo de ruim que poderia acontecer para estragar nosso plano aconteceu.
O rapaz apaixonado foi parado por um contingente de soldados e perguntado por que abandonara seu posto. O pobre garoto não se dirigiu adequadamente ao oficial superior nem lhe deu uma resposta aceitável, então foi acorrentado e levado para o cárcere mais próximo. Tivemos de esperar uma hora para que o grupo o deixasse e pudéssemos libertá-lo dos grilhões que o prendiam.
Depois que o libertamos, ele se perdeu e desperdiçamos um tempo precioso indo de prédio em prédio até ele finalmente encontrar a entrada do muro do palácio que costumava usar. Mais uma vez, ele teve dificuldade em entrar e foi preciso que Ana e eu criássemos uma distração para afastar um guarda de seu posto por tempo suficiente para que o filho do fornecedor de seda passasse.
Por fim, nos vimos embaixo da janela da garota e o rapaz estava prestes a subir quando ouvi um guarda se aproximando. Gemi quando vi que era o mesmo que tinha prendido nosso protegido algumas horas antes. Ana e eu estávamos longe demais para avisar o jovem, então ela pôs a mão no amuleto e recorreu a seu poder. O jovem, que teria sido facilmente reconhecido, transformou-se, naquele instante, em um cavalo com o lenço amarrado no pescoço.
— O que foi que você fez? — sibilei.
— Não sei — respondeu Ana, agarrando-se com força à roda da carroça atrás da qual nos escondemos. — Eu só pedi ao lenço que o transformasse em algo que aos olhos do guarda não representasse uma ameaça.
— O lenço não pode fazer isso. Transformá-lo em um animal, quero dizer.
— Ao que tudo indica, pode — disse ela com brandura.
O lenço tinha sido capaz de transformar Kadam em nossa forma de tigre, mas não em outro animal. Então lembrei-me da maneira como Lokesh havia fundido humanos e animais. Parecia que unificar o Amuleto de Damon dera a Anamika acesso aos poderes que antes eram limitados.
— Ótimo — falei. — Então agora ele é um cavalo. E nem é dos rápidos — observei. — Pela cara, mal consegue puxar um arado.
— Eu não escolhi a forma dele — respondeu Ana, um pouco alto demais. — Foi o amuleto.
— Bem, o amuleto escolheu mal. Transforme-o em outra coisa. Algo com um pouco mais de dentes ou pelo menos pernas mais longas.
O pobre cavalo, digo, rapaz relinchou para a janela acima dele, tentando atrair a atenção de sua dama. Apesar de ter conseguido, ela parecia hesitar em descer até ele, muito embora tivesse uma corda de tecidos amarrados, pronta para ser jogada até o chão.
Esfreguei a mão na cabeça.
— Isso não está indo bem — falei.
Pelo menos os soldados passaram direto, ignorando o cavalo. Mas agora o homem transformado em animal, pensando que estava livre do perigo e vendo que tinha chamado a atenção da garota, estava causando tamanho tumulto que, com certeza, faria os guardas voltarem.
Seus relinchos tinham se tornado insistentes e agudos. Quando a garota voltou para dentro do quarto, puxando a corda de tecido com ela, ele escoiceou os tijolos em frustração e empinou-se nas patas traseiras.
— Basta — bradei, puxando o chakram da alça em meu cinto e me preparando para lutar. O grupo de soldados estava voltando e, se quiséssemos que isso funcionasse, teríamos de entrar no modo batalha.
Ana tocou minhas costas. O calor de sua mão disparou um formigamento que desceu pela minha espinha.
— Espere, Sohan — pediu ela.
Exatamente como eu previra, os soldados responderam ao barulho. Eles cercaram o pobre cavalo, que zurrava e mostrava os dentes. Suspirei quando o capturaram e o arrastaram para o estábulo mais próximo. Erguendo-me, me preparei para ir atrás dele, mas vi Anamika ainda imóvel, olhando para a janela. A garota inclinava-se para fora, observando os homens arrastarem o cavalo, o rosto banhado em lágrimas, os débeis sons de seu pranto atravessando o pátio e chegando até nós.
Sacudia a cabeça enquanto observava os homens e o cavalo desaparecerem nas sombras.
— Eles estragaram tudo — eu disse a Ana.
— Estragaram — replicou ela, distraída, ao pegar minha mão estendida. — Ou, talvez, nós tenhamos estragado tudo.
— Nós? — perguntei. — Nada disso foi culpa nossa. — Apontei o polegar sobre o ombro, na direção em que o cavalo fora levado. — Esse cara atrapalhado está aprontando há horas.
Ana não respondeu. Estava aflita. Mordeu o lábio e me permitiu guiá-la na direção do estábulo sem sequer nos ocultarmos. Ao contrário do rapaz, eu sabia como ser silencioso e passar despercebido. A escuridão se dissolvia à nossa volta. Com meu olfato e minha audição aguçados, era quase fácil demais evitar que nos descobrissem.
Entramos sorrateiramente no estábulo e encontramos nosso protegido batendo os pés na madeira de sua baia. Algum tempo se passou até que ele finalmente se aquietasse e o último guarda saísse. Ana aproximou-se do jovem e deu tapinhas em seu flanco.
— Lamento que isso tenha acontecido. Vamos fazer o melhor que pudermos para consertar essa situação.
O cavalo relinchou baixinho e soprou o ar pelas narinas. Ana levou uma das mãos ao amuleto e manteve a outra na lateral do cavalo. Ela fechou os olhos e recorreu a seu poder, mas nada aconteceu. Tentou de novo. As tochas lá fora tremularam e se apagaram. O ar agitou-se, levantando pedaços de feno em diminutos redemoinhos. Seus cabelos ergueram-se dos ombros e abriram-se à sua volta, formando um leque.
Até mesmo eu pude sentir a força de seu poder. Ele tomou conta de meu corpo e fez todos os meus pelos se arrepiarem. O chão foi sacudido por um tremor e foi a possibilidade de causar um terremoto que finalmente a fez parar.
— Não consigo transformá-lo de volta — disse ela. — O amuleto não permite. — Ela deixou-se cair no feno e enterrou o rosto nas mãos.
O garoto-cavalo baixou a cabeça e soprou em seus cabelos.
— Ei — falei, abaixando-me ao lado dela. — O garoto está bem. Vamos deixá-lo aqui e procurar a garota. Uma vez que a tenhamos tirado daqui em segurança, nós o resgatamos e os estabelecemos em uma bela fazenda de criação de bichos-da-seda em algum lugar bem, bem distante daqui.
— Você faz com que pareça tão fácil, Sohan.
Sorri sedutoramente para ela.
— Nem tudo precisa ser difícil, Ana.
Pegando-a pela mão, ajudei-a a levantar-se e vi uma lágrima cintilante rolar em seu rosto. Com o dedo, colhi-a com delicadeza e pensei na ocasião em que ela transformara uma das lágrimas de Kelsey em um diamante. No exato momento em que eu pensava isso, a lágrima reluzente se transformou. Ana arquejou, pasma, enquanto eu apoiava o diamante em minha palma.
— Como foi que você fez isso? — perguntou ela.
— Não sei. Vi você fazer isso em um dos seus templos e estava justamente me lembrando disso quando ela se transformou.
Ana levou o dedo à pedra preciosa, rolando-a em minha palma.
— O que foi que você fez com ela? A que eu criei para você?
— Eu... eu a dei para Kelsey no dia em que a pedi em casamento.
— Entendo.
— É uma tradição do tempo dela um homem dar um diamante à mulher ao lhe propor casamento.
Por alguma razão, me senti muito desconfortável falando com ela sobre Kelsey e nosso noivado. Não que ela não soubesse.
— Ela ainda usa o diamante, sabe? — gaguejei. — Quando a vi em seu casamento, ela usava um Mangalsutra. Ren mandou fazer para ela, e o diamante estava lá.
Ana me deu as costas.
— Estamos perdendo tempo — disse ela sobre o ombro.
Segurei-a pelo braço para evitar que saísse.
— Ana, eu...
Seus olhos encontraram os meus, e havia neles algo que eu nunca vira antes.
— Não precisa explicar, Kishan. Eu só estava curiosa.
Aproximando-me ainda mais dela, minha mão em seu braço tornou-se mais gentil.
— Acho que prefiro quando você me chama de Sohan — eu disse, com voz grave e rouca.
Sua respiração foi suspensa e ficamos ali, imóveis, apenas nos entreolhando. O pio de uma coruja assustou-nos e ela piscou e recuou um passo.
— Temos trabalho a fazer — falou.
Assenti e a segui, saindo do estábulo. Passamos várias horas tentando encontrar a garota. Foi fácil para mim captar seu cheiro após termos voltado para a janela, mas, uma vez dentro do palácio, o cheiro dela desapareceu. Era como se a garota jamais houvesse deixado o quarto.
Finalmente o encontramos, só para descobrir que o aposento agora estava vazio. Todos os seus pertences haviam sido removidos.
O sol nasceu e usamos o lenço para nos disfarçar. No entanto, quando passamos pelo cozinheiro-chefe, Ana foi convocada para trabalhar na cozinha. Levei uma hora para chegar até ela, pois Ana estava cercada de gente e não queríamos causar alarme ao desaparecer. Quando ela se transformou, passando de ajudante de cozinha a criada do palácio, e encontrou um jarro d’água para carregar, eu já havia sido convocado para ajudar um grupo de homens a erguer uma carroça que precisava de uma roda nova.
Assim que a tarefa foi concluída, percorremos o palácio, verificando aposento após aposento, nos perdendo mais de uma vez, antes de finalmente captarmos de novo o cheiro da garota. Eu o rastreei até um amplo quarto bloqueado por um guarda. Ele me olhou e estendeu a mão, impedindo minha entrada, mas abriu a porta para Ana.
Ela deu de ombros e entrou. Afastando-me o suficiente para que o guarda não pudesse me ver ou ouvir, mas permanecendo perto o bastante para vigiar a saída de Ana, fiquei andando de um lado para outro, quase fazendo um buraco no tapete requintado, até que ela finalmente surgiu e nos encontramos em um canto do prédio.
— Era um harém. Um bastante grande — disse ela, os olhos brilhando com intensidade.
— Então? Ela estava lá? — perguntei.
— Não. Mas muitas de suas sedas estavam.
Meus ombros se curvaram.
— Então precisamos continuar procurando.
— Não, Sohan. Eu sei onde ela está.
— Onde? — perguntei.
— Está sendo preparada para o casamento. As garotas logo irão até onde ela está para vesti-la.
Segurei-a pelos ombros um tanto rudemente demais.
— Então chegamos tarde?
— Não. Vamos seguir as mulheres. Elas nos levarão direto a ela.
Esperamos, mas as mulheres nunca vieram.
— Vou verificar com o guarda — disse Ana.
Quando retornou, informou:
— Elas já foram. Saíram por uma porta nos fundos. Eu disse a ele que fora convocada para ir até lá e ele me indicou o caminho. Venha. Temos de ser rápidos!
Disparamos através de um labirinto de corredores e finalmente chegamos a um quarto de banho. Havia algumas garotas enxugando o chão.
— Chegamos tarde demais? — perguntou Ana. — Devíamos entregar um presente ao imperador e a sua nova noiva.
— Eles já foram — disse uma garota, indiferente.
— Obrigada — murmurou Ana, e saímos em disparada pela porta.
Para evitar muitas interrupções, nos dessincronizamos no tempo e finalmente chegamos a uma grande câmara. A porta se abriu quando um criado saiu, apressado. Entramos meio abaixados, passando por dois guardas antes que a porta se fechasse. Ouvi uma voz alterada e muitos gritos. Parecia uma batalha ou soldados marchando em formação.
Chegamos mais perto, discretamente. O tapete grosso teria camuflado quaisquer ruídos que fizéssemos, mesmo que não estivéssemos ocultos. Uma voz masculina ecoou no amplo aposento e deparamos com a garota que procurávamos e seu noivo, o imperador. Eles se encontravam em uma sacada que dava para o que devia ser um campo de treinamento.
— Tenho um presente de casamento para você, minha cara — disse o homem.
Então ele abriu um pacote e mostrou o conteúdo à garota. Ela estendeu a mão e tocou o pedaço de tecido que ele segurava. Lágrimas corriam pelo rosto dela. O imperador prosseguiu, em tom zombeteiro:
— Aconteceu uma coisa interessante ontem à noite. Parece que um cavalo de puxar arado entrou no terreno do palácio usando este mesmo lenço. Ele fez tanto barulho que os guardas o levaram embora e o trancaram nos estábulos. Esta manhã, para nossa surpresa, não encontramos cavalo algum na baia, mas sim o fornecedor de seda. Perguntamos que tipo de magia ele tinha usado e o que estava fazendo ali. Ele se recusou a falar. Ainda se nega a revelar o motivo que o levou a se infiltrar no meu palácio no meio da noite.
Dei um passo à frente, na intenção de confrontar o homem abertamente, mas Ana tocou meu braço, naquele gesto que me acalmava. Segurou meu bíceps para me manter no lugar e, quando me virei para questioná-la, fiquei surpreso ao ver sua boca formando uma linha tensa e seu rosto muito pálido.
Enquanto os ombros da garota se sacudiam, o homem covarde continuava:
— Só posso imaginar que tenha vindo para me assassinar. Como tem sorte por seu futuro marido estar a salvo.
A garota cerrou os punhos e gritou:
— Ele não veio para assassiná-lo!
Fiz uma careta. A garota não tinha qualquer malícia. Não via que o homem estava preparando uma armadilha para ela.
— Não mesmo? Tem certeza? Você o conhece melhor do que qualquer outra pessoa aqui. Talvez tenha vindo por um motivo completamente diferente. Por que acha que ele veio, querida?
Não responda, pensei. Fique calada. Infelizmente, a garota parecia não conseguir manter a boca fechada. De certa forma, ela e o fornecedor de seda eram perfeitos um para o outro.
A garota atrapalhou-se inventando uma história.
— Eu... tenho certeza de que ele só estava me trazendo mais fio. Talvez tivesse sido enfeitiçado por um mago e precisasse de ajuda.
Esse patético toma lá, dá cá prosseguiu por um tempo, e eu torcia para que o sujeito acabasse logo para que pudéssemos pegar a garota, sair dali e reuni-la a seu fornecedor de seda. No entanto, o imperador a levou para a sacada. Será que ele iria jogá-la?
Ouvi o estalo de um chicote e meu sangue gelou. O imperador lançou o lenço que segurava no rosto da garota. Ele estava roxo de raiva.
— Achou que eu não fosse reconhecer o seu trabalho, querida? — perguntou ele. — Você concedeu seus favores a este homem.
A garota implorou pela vida do jovem, mas eu sabia que era inútil. Olhei para Ana, que parecia traumatizada com todo aquele espetáculo.
— Talvez devêssemos ir salvar o garoto primeiro — sugeri.
Ela sacudiu a cabeça, anestesiada. Meus olhos encontraram os do imperador. Ele era um homem astuto. Eu havia falado bem baixinho para que não me ouvisse e, no entanto, ele correu os olhos pelo quarto, desconfiado, antes de finalmente voltar-se para a garota e humilhá-la ainda mais ao fazê-la negar o rapaz.
É claro que ela negou, embora não fosse dar em nada. Aproximei-me e olhei da sacada. O jovem estava visivelmente abalado pela rejeição dela e eu revirei os olhos. Se havia um casal que se merecia, eram esses dois. Como ele podia pensar que ela não o amava? E mais: como ele havia se transformado em homem novamente?
Lancei um olhar contundente a Ana e ela tornou a sacudir a cabeça, justamente quando o imperador disse:
— Isso era tudo que eu precisava ouvir. — Em seguida, gritou: — Acabem com o sofrimento dele!
Todos os arqueiros lá embaixo ergueram seus arcos. Eu grunhi e disparei na direção do parapeito, pronto para saltar no caminho das flechas antes que elas atingissem seu alvo, mas, quando toquei a pedra, meu corpo imobilizou-se. Eu podia mover a cabeça e nada mais.
Voltando-me para Ana, vi que ela se aproximava de mim, os olhos cheios de lágrimas. O tempo havia parado. A garota cobria a boca com as mãos e o imperador estava debruçado sobre o parapeito, os olhos iluminados por um fogo perigoso.
— O que você fez? — murmurei.
— Não é nossa tarefa salvá-lo — disse ela.
— Você imporia essa escolha a mim? — perguntei. — A eles?
Anamika não precisava responder, pois vi a determinação em seus olhos. A coisa frágil que vinha crescendo entre nós se quebrou em dolorosos estilhaços. Ela me deu as costas e o tempo voltou a correr. Isto é, para tudo e todos, menos para mim. De minha posição congelada na sacada, vi quando o jovem apaixonado foi trespassado por dezenas de flechas. Rangi os dentes ao ouvir o arrogante imperador dizer à garota:
— Lembre-se desta lição, minha cara. Eu não serei traído. Agora... recomponha-se para o nosso casamento.
Quando Anamika usou o lenço para se disfarçar, eu a fitei, sentindo a ferroada da traição. Eu me perguntava por que ela havia escondido de mim suas intenções. Eu não havia feito por merecer sua confiança? Se ela tivesse ao menos parado para me explicar, talvez eu tivesse concordado com seu plano.
Ana agachou-se e tocou a garota, que soluçava. Sussurrou condolências e murmurou algumas amenidades, dizendo que seu fornecedor de seda sempre estaria com ela quando ela olhasse os pontos no triste presente que dera a ele. Sacudi a cabeça, desgostoso. Ana e a mulher desapareceram, me deixando sozinho, invisível e imobilizado. Observei os soldados removerem o corpo do pobre rapaz lá embaixo.
Como ela pode ser tão fria?, pensei. Poderíamos ter salvado o garoto. Facilmente. Tínhamos poder para isso. Nunca acreditei no destino da maneira que Kadam ou, ao que parecia, Ana acreditavam. Eu ainda não tinha plena certeza de que havia encontrado o meu. Que essa vida que eu estava levando era meu propósito. A única razão de estar pactuando com a lista de Kadam era porque nada estava gravado em pedra, nada do que tínhamos feito era impossível de ser desfeito. Nada do que tinham me pedido até agora ia contra a lei natural das coisas. Talvez isso fosse mudar agora.
O sangue latejava, quente, nas veias de meu pescoço. Eu estava fervendo de raiva. Nada do que eu lera na lista dizia: Deixe o garoto morrer. Ana havia, deliberadamente, optado por não o salvar. Por quê? Fiquei repetindo a pergunta. Ela era uma guerreira, certo, mas abominava a morte sem sentido, e a do garoto podia ser classificada assim.
O imperador retornou e ficou fora de si. Criados e soldados saíram correndo, procurando a garota por toda parte. O tempo inteiro fiquei ali fervendo em silêncio com o que Anamika fizera.
Quando ela retornou, estalou os dedos e meu corpo relaxou. Eu podia me mover outra vez. Do outro lado do piso de ladrilhos, eu a fitei, não confiando em mim mesmo para falar. O quarto agora estava vazio, mas cada centímetro dele estava repleto de coisas não ditas. O ar entre nós estava quente e nebuloso. Bastava uma única centelha para que explodíssemos.
Ela pareceu compreender meu humor e, sem dizer uma palavra, estendeu o braço e agitou a Corda de Fogo até criar um portal. Ele estalou e cuspiu faíscas, como se sentisse a tensão. Quando, ainda assim, não me movi, ela ergueu uma sobrancelha. Alguma coisa dentro de mim se rompeu e avancei três passos, com audácia, agarrei-a pela cintura e levantei-a no ar.
Ana lutou contra mim, mas eu a sacudi ligeiramente e disse apenas:
— Não faça isso.
Ela se aquietou e segurou-se em meu pescoço. Ajeitei-a nos braços e saltei através da abertura.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!