11 de setembro de 2018

12 - Meninos perdidos

Minhas narinas se dilataram quando aterrissamos e meu estômago se revirou. Ana enrolou a Corda de Fogo e, depois de instruir o lenço a vesti-la com seu típico vestido de caça e botas macias, prendeu-a a uma correia em sua cintura. Ela se ofereceu para me fazer roupas novas também, mas eu estava habituado a minhas camisa e calça pretas, por isso aceitei somente um par de sapatos resistentes. Era noite e o céu estava cheio de estrelas. Cheio demais para uma cidade grande e moderna. Estávamos em um passado distante.
— Onde estamos? — perguntei.
— Não tenho certeza — respondeu ela, passando a bolsa pelo ombro.
Ali dentro estavam todas as suas armas, exceto o arco, que ficava preso por um laço quando ela não o estava levando nas costas. Ana murmurou algumas palavras e me entregou um saco com um lanche para a caminhada, contendo uma espécie de carne-seca, frutas secas e castanhas. Ela pegou um punhado e colocou uma castanha na boca antes de dizer:
— As instruções de Kadam só dizem que precisamos libertar Lady Bicho-da-Seda.
— Lady Bicho-da-Seda? Tem certeza?
Ana assentiu e fiquei pensando enquanto comia. Kelsey me contara a história de Lady Bicho-da-Seda muito tempo atrás. Eu não sabia muito bem se me lembrava de todos os detalhes. Ana me entregou um pequeno odre que tirou da bolsa. Agora que tínhamos todos os presentes de Durga e o amuleto estava completo, o Fruto Dourado podia acessar o pedaço de água do amuleto e nos dar de beber. Por mais que eu gostasse de chá e limonada, era água o que mais desejava. Bebi sofregamente e entreguei-lhe o odre para que ela o enchesse de novo.
— Só me lembro de pequenos trechos da história — eu disse. — Kelsey a conheceu em um templo, quando ela contou que Durga a tinha salvado de um casamento com o imperador que matou o homem que ela amava. Ele vendia tecidos ou fabricava seda, acho.
— Temos então que salvar os dois? Ela e seu fornecedor de seda? — questionou Ana.
— Não sei. Kadam não queria que interferíssemos na história.
Depois de comer, esvaziei outro odre e o devolvi a ela. Após guardá-lo na bolsa, Ana girou o corpo e em seguida se agachou para estudar a estrada que tínhamos encontrado.
— As caravanas seguiam por aqui — disse ela, apontando para leste. — Se quisermos encontrar o imperador, temos que encontrar uma cidade primeiro.
Caminhamos lado a lado até cerca de uma hora antes de o sol nascer. Eu me ofereci para carregar sua mochila, mas o máximo que ela aceitou foi um revezamento. Eu entendia a sensação de segurança que se tinha ao carregar as próprias armas, mas o fardo de levar todas era pesado, mesmo para nós. O céu estava escuro e cinzento e o campo começava a despertar. Pássaros cantavam, dando boas-vindas ao sol, e logo juntou-se a nós outro viajante, sentado no alto de uma carroça cheia de feno. O aroma da fumaça de seu cachimbo flutuou até mim.
— Olá! — chamei.
O homem carrancudo murmurou um cumprimento e repassei os idiomas em meu cérebro até descobrir o dele. Meu mandarim não era bom, mas o poder de que a deusa dispunha facilitava a comunicação.
Embora o homem me entendesse, ainda não parecia muito amigável.
— Somos viajantes tentando conseguir uma audiência com o imperador — pressionei. — Poderia nos dizer se estamos na estrada certa?
— O imperador?
Ele olhou para nós com espanto e começou a rir. Embora nos achasse no mínimo ingênuos, indicou que continuássemos naquela estrada até uma bifurcação, a duas horas dali, e depois pegássemos o caminho à direita. Logo ele nos deixou para trás, pois diminuímos o passo para conversar.
— Acho que estamos na China — falei —, a julgar pelas roupas dele e pelo dialeto que usou.
— Lokesh não veio da China? — perguntou Ana.
— Veio, mas seria coincidência demais que ele e Lady Bicho-da-Seda tivessem nascido na mesma época e no mesmo lugar, especialmente na China. Com base no que Kadam e Kelsey reuniram sobre as origens de Lokesh, eu diria que ele nasceu alguns séculos antes deste, durante um período de guerra. Mas você tem razão quando diz que devemos ser cuidadosos.
Passamos por outras pessoas na estrada e, enquanto caminhávamos, Ana fez muitas perguntas sobre como seria a vida de Sunil agora que ele vivia no tempo de Nilima. Contei-lhe tudo sobre as maravilhas que o futuro tinha a oferecer e como as mulheres podiam trabalhar e aprender lado a lado com os homens. Conversamos sobre transportes modernos, filmes, medicina, computadores e carros, e sobre como o dinheiro era guardado em bancos, não em casa. Embora eu me ativesse sobretudo às coisas agradáveis, ela expressou preocupação com o fato de Sunil não ter dinheiro. Eu disse que Nilima tinha uma situação financeira muito confortável e que Sunil poderia aprender uma profissão se quisesse.
— Ele não pode ser um guerreiro? — perguntou ela. — Ele é treinado para o combate.
— Os guerreiros são diferentes nessa época. As guerras não são travadas com braços e espadas ou arcos e flechas, mas sim com máquinas imensas ou bombas.
— Bombas?
Tentei pensar em algo que a ajudasse a entender.
— Sabe as catapultas que lançam pedras pesadas?
— Sei.
— Uma bomba é como uma grande pedra, só que muito mais potente. Em vez de derrubar um muro, ela arrasa uma cidade inteira.
— Entendo. — Ela trabalhou a ideia em sua mente antes de falar. — Não há muita honra em vencer com uma bomba.
— Não — concordei. — Infelizmente, não existem muitas oportunidades para um homem como Sunil ou como eu no futuro.
— Mas Ren parece ter se adaptado bem.
— Ren sempre foi um diplomata. Ele assina papéis e sorri, encanta as senhoras e adula os velhos. Essa é uma habilidade que ainda é útil no futuro.
— Ah...
O ar do início da manhã estava límpido com o frio do outono. O sol se erguia no horizonte e eu olhei para ela. Ana mordia o lábio, preocupada.
— O que foi? — perguntei.
— Não quero ofendê-lo com minha pergunta.
— Vou tentar não me ofender. O que quer saber?
Queria mostrar-lhe que podia ser tão compreensivo e aberto com ela quanto ela havia sido comigo. Durante muitos e muitos meses eu a afastara, preferindo ficar sozinho em minha infelicidade. Havia muito mais nela do que os olhos podiam ver, e descobri, pela primeira vez em nosso relacionamento, que queria conhecê-la melhor, e também queria que ela me conhecesse.
— O que… o que você teria feito no futuro se tivesse voltado para ficar com Kelsey?
— Eu…
Minha boca fechou-se subitamente. Andamos em silêncio por um tempo.
— Ofendi você — disse ela. — Peço desculpas.
— Não, não é isso. Acho… acho que nunca pensei muito além da ideia de estar com ela. Eu sabia que queria uma família. Tínhamos bastante dinheiro, então eu não precisava trabalhar nem ter uma carreira. Acho que simplesmente teria ido ao escritório todos os dias.
— Trabalhar? Escritório? Está se referindo àquela sala bem no alto no céu com paredes de vidro?
— Sim.
— O que você faz ali? Batuca com os dedos para mandar a janela mágica lhe contar coisas?
Resmunguei e esfreguei o queixo.
— Basicamente, eu passava meu tempo criando problemas para Nilima. Reuniões do conselho me entediavam. Não tenho cabeça para finanças nem para negócios. Apesar de o computador, ou janela mágica, como você chama, ser uma ferramenta muito útil, prefiro trabalhar com as mãos.
Ana assentiu, apesar do cenho franzido. Eu sabia que ela estava tentando entender o que eu estava falando. Eu havia explicado algumas coisas a ela, mas tinha deixado muitos detalhes de fora.
— Eu também prefiro trabalhar com as mãos — afirmou. — Não consigo imaginar passar a vida sentada.
Outros viajantes apareceram na estrada e ficamos em silêncio. Recordei os dias tristes e aparentemente intermináveis que passara naquele escritório, tentando prestar atenção ao que Nilima me ensinava. Não podia imaginar uma vida mais intolerável. Eu não servia para aquilo. A selva era meu lar. Honestamente, eu me sentia mais à vontade no passado do que no futuro. Meu local de trabalho não tinha os sons de telefones tocando ou campainhas de elevador. Era cheio do trincolejo de rédeas de cavalo, dos gritos de batalha, da vibração de uma seta disparada e do retinido de espadas em combate.
Não que minha mente se ocupasse apenas com batalhas. Eu gostava de estar na natureza. As cidades me sufocavam. Eu me sentia preso em uma armadilha dentro delas. Em vez de tapetes felpudos ou pisos ladrilhados, desejava andar sobre folhas secas. Trilhas de terra batida em vez de calçadas. Gostava da vida lenta e mais tranquila do passado. Sem Kelsey e meu irmão para me ancorarem, eu me sentia deslocado no futuro, como uma relíquia ou uma espada antiga enferrujando em uma parede em algum lugar. A tranquilidade cultivada do passado me atraía.
Quanto mais eu pensava no barulho — as vozes retumbantes e arrogantes da mídia, as propagandas sem fim, a necessidade constante de adquirir cada vez mais, como se a realização na vida viesse apenas da posse de objetos —, mais me dava conta de como a vida lá teria sido difícil. Eu me perguntava se Kelsey teria sido feliz vivendo sossegada a meu lado. Certa vez, dei a ela uma chave de presente. Em meus sonhos, tinha imaginado construir uma casa na minha antiga selva e viver uma vida simples com ela. Mas será que ela teria abraçado aquela vida ou me desprezaria por isso? Nossos filhos teriam nos abandonado e acabado por me odiar por mantê-los longe do mundo moderno e de tudo que ele oferecia? A ideia me deixou um gosto cáustico na boca. Eu nunca tinha perguntado o que ela pensava a respeito nem o que imaginava para nosso futuro.
Achei que conseguir que Kelsey se comprometesse comigo seria a parte mais difícil, mas talvez as dificuldades tivessem sido maiores do que eu esperava. Uma vida na época de Kelsey poderia não ser fácil para nenhum de nós dois. Cerrei os dentes, não querendo aceitar que eu tinha limitações, que poderia não ter sido bem-sucedido nos padrões do mundo de Kelsey. O amor deveria ser suficiente. Pensar no que poderia ter acontecido depois me deixou abatido.
O braço de Ana roçou o meu e senti o formigamento tranquilizador de nossa conexão. Seu passo acompanhava o meu. Ela andava com confiança, a cabeça erguida e os ombros aprumados, embora estivéssemos em um lugar e um tempo desconhecidos de nós. Seu cabelo estava embaraçado e o rosto tinha uma mancha de sujeira, mas ainda assim era incrivelmente linda. Mesmo sem os ares de deusa, Anamika era o tipo de mulher que poderia chamar com o dedo e qualquer homem com algum senso viria correndo. O estranho era que ela não parecia ter consciência desse poder.
Eu não tinha dúvida de que ela ficaria ainda mais deslocada no futuro do que eu, e mesmo assim podia imaginar multidões se abrindo para lhe dar passagem enquanto ela corajosamente as atravessava. As pessoas recuariam, maravilhadas, como se ela fosse tão magnífica e rara quanto um unicórnio no centro de uma cidade. Ela deixaria um cintilante rastro de magia e todos seguiriam seus passos, esperando que apenas um pouco de seu resplendor passasse para eles.
Tínhamos lutado muitas batalhas juntos e, quando eu pensava em meu dever como seu tigre, o de levá-la até o combate, o sentimento avassalador que tinha era de orgulho. Nós passamos por muitas coisas — lama, inimigos, morte e campos de soldados caídos — e ela nunca vacilou. Nem uma vez sequer. Mantinha-se firme e determinada a cumprir seu papel de deusa. Ninguém o merecia mais do que ela. Ela era a escolha perfeita. Ana era perfeita em todos os sentidos.
— Acho que aquilo ali adiante são as muralhas da cidade — disse Ana em tom autoritário.
Estreitando os olhos, eu os protegi com a mão.
— Tem razão. Qual é o plano?
— Precisamos mudar nossa aparência? — indagou ela, confiando em minha opinião.
— Não creio que alguém nos reconheça. Mas talvez seja bom atualizar nosso armário.
— Armário?
— Roupas.
— Ah. Então estaremos prontos para isso.
Ela assentiu rapidamente e atravessamos juntos os portões da cidade.
O lugar era movimentado. Acompanhamos o grupo principal de viajantes e fomos dar em um mercado central. Os cheiros enjoativos de carne cozinhando se combinavam ao odor penetrante e amargo dos resíduos de animais de carga. Metros e metros de seda esvoaçavam à brisa da manhã.
Guiei Anamika naquela direção, esperando fazer algumas perguntas ao vendedor sobre fornecedores de seda e a costureira que morava no palácio do imperador.
Um cão rosnou sob a mesa e avançou sobre nós, latindo, até que grunhi suave, mas guturalmente. Ele ganiu e desapareceu, com o rabo entre as pernas. O vendedor finalmente se virou para nós, arregalando os olhos ao ver Anamika.
— Belas sedas para uma bela dama? — perguntou. — Tenho as melhores que a cidade pode oferecer.
— Estamos procurando um certo fornecedor de seda que recentemente teria caído em desgraça junto ao imperador.
Uma sombra passou pelos olhos dele. Aquele era um homem que gostava de possuir segredos.
— Talvez um pequeno sinal de nossa sinceridade possa ajudá-lo a se lembrar — sugeri.
Ele estendeu um prato e Anamika deixou cair uma pepita de ouro dentro dele. A pedrinha girou ruidosamente no prato e o homem, mais que rápido, a agarrou e escondeu entre dedos longos e sujos. Suas unhas eram compridas, mas bem lixadas. Provavelmente para não puxar os fios da seda. Ele nos observou atentamente e disse:
— Você deve ter muita confiança em sua mulher para permitir que ela controle seu dinheiro.
Inclinei-me para a frente.
— Quem disse que o dinheiro é meu?
O homem guardou habilmente a pepita de ouro no bolso e voltou toda sua atenção para Anamika. O canto de sua boca se ergueu em um sorriso malicioso. Ele puxou um lindo rolo de seda azul e o segurou junto ao rosto dela.
— Azul, não — murmurei. — Ela deve usar dourado.
Anamika ergueu os olhos para mim e sorriu de leve.
— É lindo — disse ela ao vendedor, encerrando o assunto. — Afinal, lembrou-se de alguma coisa sobre o fornecedor de seda?
O homem se afastou e estalou a língua antes de voltar com um maravilhoso lenço bordado.
— Ah — disse ele —, mas você não viu o melhor que temos a oferecer.
Orgulhosamente, desdobrou o quadrado de tecido, revelando-o em todo seu esplendor. Anamika ofegou e tocou os fios, que se trançavam para formar dragões cintilantes e uma Fênix.
Ousado, o homem levantou a mão com o lenço preso entre os dedos, como se fosse tocar o rosto de Ana.
— Sinta-o em sua pele — disse.
Antes que ele pudesse se aproximar, agarrei seu pulso com força, detendo-o a poucos centímetros do rosto dela, e empurrei seu braço para baixo.
— A senhora não gosta de ser tocada — avisei.
Com o sorriso fácil e cativante de um vendedor experiente, ele recuou.
— Claro, claro — disse, com astúcia e afetação. — Eu só queria que ela visse o lenço mais de perto.
— Estou certo que sim — respondi.
O homem piscou para Anamika e disse:
— Ouvi rumores sobre a estimada noiva do imperador e sua afeição por um certo homem. Talvez seja a ele que você se refere.
— E onde podemos encontrá-lo? — perguntou Anamika.
— Costumo comprar seda da família dele. Posso marcar um encontro entre vocês, se o preço for bom.
Rangendo os dentes, perguntei:
— Quanto?
— Ah, não muito, não muito. Uma ninharia.
— O que deseja? — indagou Anamika.
O homem lambeu os lábios com ganância. Eu conhecia aquele olhar. Ele queria nos roubar, e não era apenas nosso dinheiro que tinha em mente. Eu podia imaginar muito bem o que ele via quando olhava para Ana. O vendedor via apenas a superfície. Uma mulher de beleza incomum, livre e com apenas um homem para protegê-la. Os pelos de meu pescoço se eriçaram com a vontade de saltar, de protegê-la; ao mesmo tempo, porém, eu sabia que ela, mais do que qualquer outra mulher no mundo, era capaz de se proteger.
Como se sentisse minha irritação, Ana pôs a mão em meu braço.
— Isto é o que oferecemos. — Ela estendeu um rubi cintilante. Eu não tinha certeza de onde o conseguira, mas Ana sempre carregava vários tipos de gemas e moedas em sua bolsa com esse propósito. — Seja rápido com sua resposta — ela advertiu o homem —, pois esta é uma oferta generosa e há outro vendedor de seda ali adiante. Talvez ele seja mais prestativo.
O homem franziu o cenho, apressou-se em pegar o rubi de Anamika e estalou os dedos. Um garoto surgiu de sob a mesa. O cão que ele estava acariciando cutucou a perna do menino, pedindo sua atenção de volta.
— Xing-Xing — gritou o vendedor. — Leve estes visitantes à casa do fornecedor de seda. E é melhor estar de volta em uma hora. Caso contrário, vai sentir o peso da minha mão. Entendido?
O menino assentiu vigorosamente e mergulhou entre os rolos de tecido, aparentemente surgindo do nada entre nós.
— Venham — disse ele, estendendo a mão para Anamika.
Ela lhe sorriu e tomou-lhe a mão enquanto ele rapidamente serpenteava entre as pessoas, arrastando-a em seu encalço, indiferente aos que gritavam com ele por se meter no seu caminho.
Tudo que eu podia fazer era seguir as duas cabeças que surgiam e sumiam na multidão compacta. O menino só diminuiu o passo quando entramos em outro bairro, estranhamente vazio. Seus olhos se moviam de um lado para outro e ele passou a língua pelos lábios com nervosismo.
— Está preocupado? — perguntou Anamika.
— Esta área é famosa por ter ladrões e assaltantes. — Ele olhou para mim. — Acho que seu homem não conseguiria enfrentar mais de dois.
Franzi a testa e Ana disse:
— Pode ter certeza de que Sohan é capaz de enfrentar muitas dúzias de ladrões, mesmo sem minha ajuda.
O canto de minha boca levantou-se e o garoto astuto virou-se para me estudar.
— Acho que você está exagerando — disse a ela após sua avaliação. — Ele não parece tão formidável.
Logo tivemos a oportunidade de provar quão formidáveis éramos. Como o menino suspeitava, fomos rapidamente cercados por meia dúzia de ladrões. Eram esguios e jovens. Alguns não eram muito mais velhos do que nosso guia. Levantei as mãos.
— Não queremos machucá-los — declarei em um tom de voz normal e calmo. — Vão em paz e esqueceremos seu desrespeito com a senhora.
Nosso guia pequeno e sujo teve o mérito de puxar um canivete do cinto e postar-se na frente de Anamika, protegendo-a, com uma expressão feroz no rosto.
Ela passou o braço pelo peito dele, o que serviu para fazê-lo aprumar-se ao máximo, inflando o tórax. Eu sabia que o gesto dela tinha a intenção de protegê-lo, mas ele provavelmente achou que ela estava tentando se esconder atrás dele. Entendi a valentia dele. Anamika inspirava bravura como ninguém.
Erguendo as mãos para mostrar que não tinha armas, girei para estudar meus adversários. Na minha conta, eram sete assaltantes. Quatro deles tinham facas. Um tinha uma espada curta e os outros eram grandes em estatura, sem armas visíveis exceto os punhos.
— Muito bem — falei, estalando o pescoço. — Podem vir, então.
Ouvi o zumbido do aço quando a espada foi desembainhada. Os garotos nos rodearam, os olhos frios. Mantinham-se nas sombras escuras do beco e se moviam de tal forma que logo adivinhei seu plano. Não prestavam atenção ao garoto ou a Anamika. Provavelmente achavam que o menor deles daria conta dela. Em vez disso, concentraram-se em mim.
Avançaram todos de uma só vez, o garoto com a espada me atacando primeiro para me distrair enquanto os menores e mais jovens tentavam me esfaquear nas pernas ou nas costas. Senti mais do que vi um jovem vindo sobre mim pelo lado enquanto o que tinha a espada vinha pela frente.
Entrando no jogo, mantive as mãos e os olhos erguidos para o primeiro menino e esperei o momento certo, quando então minha mão desceu sobre o braço do menino com a faca. Com um só movimento, sua arma caiu e eu o agarrei, lançando-o na frente de outro que me atacava por trás.
Eles caíram amontoados no chão. O menino com a espada golpeava sem parar, mas não era treinado para aquilo. Movi o corpo para um lado e para outro pegando os demais meninos, um de cada vez, enquanto deixava que ele continuasse a me atacar. Quando estavam todos caídos, exceto ele, cada qual com várias contusões e maxilares fraturados, voltei minha atenção para seus movimentos.
— Assim está melhor — falei. Depois de outro golpe, eu o orientei: — Você está se apoiando no pé errado.
— Você está mesmo ensinando os garotos a lutar melhor? — perguntou Ana. — São ladrões.
— Tem toda a razão, minha senhora. Está na hora de acabar com isto.
Girando o corpo, prendi o braço de meu adversário entre meu tronco e meu braço no momento em que ele desferia outro golpe com a espada. Quando torci seu pulso, a arma caiu em minha mão. Virei-me e segurei a espada embaixo de seu queixo. Nesse momento, ergui os olhos e vi o jovem escondido acima de nós. Estava se preparando para saltar sobre mim.
— Se você for inteligente, vai ficar onde está — adverti.
O jovem ladrão ficou paralisado. Ana ergueu os olhos e sorriu para ele.
— Como líder desse grupo, você é responsável pelas ações deles. Vai se render?
O jovem deixou cair uma faca. Era uma bela adaga. Uma que um imperador poderia usar.
Peguei-a e passei o polegar por seu gume.
— Vamos guardar este butim como pagamento pela injustiça que nos foi feita hoje — informei. — Lembre-se de escolher seus alvos com mais sabedoria no futuro. As aparências enganam. Agora, sumam e vão lamber suas feridas.
Deixamos o beco e seguimos nosso caminho.
— Você não deveria tê-los deixado ir tão facilmente — disse Anamika.
— Eram apenas meninos mal orientados — respondi.
— Talvez. Mas meninos mal orientados se transformam em homens odiosos e cruéis.
— Nem todos.
— Só é preciso um — disse ela suavemente. — A espada da brutalidade é afiada na pedra de amolar das privações. Vire o cabo para um lado e verá sofrimento, tanto do algoz quanto das vítimas. Do outro lado encontrará desprezo por si mesmo e pelos outros.
— Mas você esquece que as privações também criam heróis. Alguns as superam e se tornam melhores por causa delas.
Anamika se virou de costas para mim e olhou para a frente.
— A maioria dos heróis são vilões que ainda não revelaram sua verdadeira natureza.
— Não acredito nisso, Ana. E, francamente, estou surpreso que você acredite.
— Há muito sobre mim que você não sabe, Kishan.
Eu a cutuquei com o braço.
— O que aconteceu com Sohan? Ou você agora me considera um vilão também?
Ela olhou para mim.
— Não acho que você seja um vilão. Tampouco acho que seja um herói.
— Então o que sou? — perguntei.
— Você é apenas… meu tigre — respondeu ela.
Eu não tinha certeza de como interpretar sua resposta nem se era bom ou ruim que ela me visse dessa forma. Anamika não gostava necessariamente de desempenhar o papel de uma deusa, embora adorasse ajudar as pessoas. Ela era incrível no combate, mas me parecia mais uma mãe ursa que defende sua cria do que uma deusa vingativa.
Seria certamente mais fácil tomar minhas decisões na vida com base nos instintos de um tigre, mas eu era mais do que isso. Kelsey não teria tido problemas em me assegurar de minha condição de herói, mas, de certa forma, era bom que Ana não me atribuísse esse papel. Era quase como se ela nada esperasse de mim. Ela me deixava ser o que eu quisesse naquele momento: homem, tigre, herói, companheiro… até mesmo um vilão.
Não que eu chegasse perto de Lokesh, mas não era uma atitude vil de minha parte pensar em estragar o final feliz de Kelsey? A definição de um homem mau é aquele que tenta obter o que deseja, não importando o custo que isso teria para os outros. Seria muito fácil para mim fazer voltar o tempo e destruir o amor que existia entre Ren e Kelsey. Eu tinha o poder de abrir um caminho direto até o coração dela. Mas o amor não exigia sacrifícios?
Meus pensamentos foram interrompidos quando nosso jovem guia parou e apontou para uma casa por trás de um portão fechado.
— Esta é a fábrica e a casa do fornecedor de seda — anunciou.
— Muito bem — falei. — Ana vai lhe dar uma moeda pelo trabalho que teve.
Ela se abaixou e tocou o nariz do menino com a ponta do dedo.
— Talvez eu possa lhe oferecer algo mais do que uma moeda — disse.
— O quê? — perguntou o menino com hesitação, a voz desafinando de maneira juvenil, sinal de que estava se transformando de menino em homem. Meus pensamentos voltaram-se para a época em que eu estava na posição dele, um garoto de 12 anos, olhando com esperança para Ana.
— O que acha de vir trabalhar para mim? — perguntou ela.
Coloquei a mão em seu braço.
— Tem certeza? — murmurei.
— Eu olhei dentro do coração deste menino. Ele é corajoso e leal. E o vendedor de seda não é seu pai, é? — perguntou ela.
O garoto sacudiu a cabeça. Com ar triste, disse:
— Ele é meu senhor. E acho que não me venderia por preço nenhum.
— Então não vamos comprar você — disse Ana. — Vamos roubá-lo, como aqueles ladrões.
Os olhos do menino se arregalaram.
— Não! Não pode fazer isso! Ele vai me encontrar e me castigar!
— Ele não pode encontrá-lo no lugar para onde eu o mandaria. — Ela pôs a palma da mão no rosto dele e entoou algumas palavras em voz baixa, deixando um pouco de seu poder iluminar sua pele. — Você é capaz de confiar em mim? — perguntou.
Ele assentiu, com uma expressão apaixonada no rosto.
— Que bom. Segure minha mão e usarei meu poder para levá-lo para minha casa. Você vai encontrar um guarda lá, o nome dele é Bhavin. Diga-lhe que você vai ser seu aprendiz e que vai servir à deusa pessoalmente. Prometo ir vê-lo muito em breve.
— Sim, senhora.
Xing-Xing curvou-se, segurando a mão de Anamika, e ela apertou o amuleto com a outra, sussurrando as palavras que mandariam o menino para nosso palácio no alto da montanha.
Depois que ele desapareceu, cruzei os braços na frente do peito.
— Vai virar um hábito você colecionar meninos que caem a seus pés? — perguntei, as palavras saindo arrastadas.
— Não decidi ficar com ele por vaidade. Sua situação exigiu minha intervenção.
Suspirando, eu disse:
— Você é muito mole, Ana.
— O que isso significa?
— Significa que você é facilmente persuadida.
— Pelo contrário. É difícil me persuadir.
Dei um passo em sua direção, aceitando o desafio em seus olhos. Ela se imobilizou, rígida, mas não recuou quando soltei um rosnado gutural e baixei a cabeça para seu pescoço. Fechando os olhos, inalei seu perfume embriagador, meu peito ressoando enquanto eu roçava de leve a linha do seu maxilar com meu rosto com a barba por fazer. Demorou apenas alguns segundos para que eu sentisse suas mãos em meu peito, me afastando.
— Parece que você está certa — falei, recuando prontamente. — Você é muito difícil de se persuadir, isto é, se quem estiver tentando for um homem. Acho que teria sido mais fácil ser seu amigo quando eu era garoto.
— Amigos não se tocam — ela fez um gesto apontando o pescoço — dessa maneira.
Ela pressionou os dedos no local, como se estivesse tentando tirar a marca de meu leve toque.
— Por que você tem tanto medo de mim? — perguntei. Embora ela tivesse se fechado para mim, eu podia sentir sua perturbação.
— Não tenho medo. Simplesmente não desejo satisfazer seus hábitos de… acariciar mulheres.
— Ao contrário do que você pensa, não ando por aí acariciando mulheres.
Com um suspiro, Ana disse:
— Não podemos discutir isso mais tarde? Gostaria de completar esta tarefa antes de ser convocada de novo.
Passado um momento, assenti com a cabeça. Ela pegou um martelo dependurado ali e golpeou o gongo ao lado do portão. Ele emitiu um som metálico e harmonioso. Um velho apareceu quase instantaneamente. Perguntei-me quanto ele teria escutado de nossa conversa.
— O que vocês querem? — indagou.
— Estamos aqui para tratar de um assunto urgente — respondeu Anamika, no que eu acreditava ser uma voz animada demais. Ela ainda estava nervosa. Sem tentar descobrir com uma leitura invasiva de sua mente e sem que ela me dissesse, não havia como saber por quê. — Acreditamos que a vida do seu senhor esteja em perigo — continuou Ana.

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