11 de setembro de 2018

11 - Amor juvenil

Anamika despediu-se rapidamente de Ren e acenou para Nilima antes de vir em minha direção.
Quando chegou perto o bastante para pegar minha mão estendida, olhou-a e ergueu os olhos para mim. Inclinando a cabeça, examinou minha expressão e então, sem pressa, tocou com a ponta dos dedos nos meus e deslizou a palma em minha mão. Embora eu fervesse por dentro, não demonstrava nada na superfície.
Com a mão envolvendo a dela, puxei-a para mim e começamos a dançar. A batida forte refletia meu humor. Ana tinha a habilidade de canalizar nossa conexão quando seu corpo roçava o meu enquanto nos movíamos juntos no meio da multidão compacta. Se a tivesse utilizado, teria facilmente lido meus pensamentos. No entanto, ela se refreou. Isso abrandou um pouco a fera dentro de mim, mas não o suficiente para me acalmar por completo.
Quando a música mudou e começou uma mais lenta, fiquei ali parado, rígido, os maxilares cerrados. Ana virou-se para observar os outros casais e então deu um passo para mais perto de mim. Eu podia sentir o calor que irradiava dela e isso fez meu sangue latejar. Ela deslizou os braços em torno de meu pescoço e automaticamente começamos a nos balançar juntos.
Apertei-a contra mim e, quando ela arquejou, relaxei a pressão e espalmei as mãos de leve em sua cintura nua. A sensação de sua pele macia em meus dedos me distraiu da raiva, mas meu sangue ainda fervia.
— Qual é o problema? — perguntou ela em meu ouvido. Como não respondi, ela insistiu: — Foi ver Kelsey?
— Não — resmunguei.
Seus cabelos longos faziam cócegas em meus pulsos. Ergui os olhos e vi Ren dançando com Randi, a loura que ele levara a bordo do navio para provar a Kelsey que estava partindo para outra. Distante de onde estávamos, vi uma figura pequenina e soube que era Kells voltando para o iate.
Ela vira Ren com todas aquelas mulheres. A atitude dele tinha partido o coração dela. Na manhã seguinte Kelsey me convidaria para sair com ela. Ela cortaria o cabelo e jantaríamos juntos, estaria deslumbrante e... não importava. Ela ainda iria ficar com Ren. Sempre Ren. Meu irmão iria ganhar Kelsey. Provavelmente teria ganhado Yesubai também. E ainda havia Randi. Ela agarrava-se a Ren possessivamente, os olhos brilhando com determinação. Talvez até Nilima tivesse ficado caída por Ren se ele tivesse demonstrado interesse. E agora era Ana. Ren dançando com ela fora a gota d’água.
Vê-la tocar o braço dele daquele jeito fora demais. Ana se apaixonaria por ele, como todas as outras. Eu não iria permitir. O lugar da mão dela era em meu braço, não no dele. Eu era seu tigre. Ren a havia abandonado para correr atrás de Kelsey. Ele a deixou sozinha. Eu fiquei. Se alguém merecia o compromisso e a devoção de Ana, esse alguém era eu. Os músculos de meu pescoço se retesaram enquanto eu olhava para Ren com extrema inveja. Ren tinha um harém e eu não tinha nada. Não tinha ninguém. Não me restara nem mesmo meu péssimo exemplo de irmão. Ele tinha me abandonado como fizera com a deusa.
Ana tomou minha mão e me puxou. Dei as costas para Ren e a segui como um zumbi. Afastamo-nos um pouco da festa, ficando longe o suficiente para termos a sensação de que estávamos sozinhos, embora ainda perto o bastante para ouvir a música. Uma brisa que vinha do oceano soprou a saída de praia, afastando-a de seu corpo. Grunhi suavemente e puxei o tecido, tornando a cobri-la, mas isso não surtiu muito efeito para esconder suas curvas.
Ela afastou minhas mãos e me surpreendeu ao enroscar os braços em meu pescoço novamente. Enquanto se balançava suavemente, eu me movia junto com ela, mas era com um homem abalado, destroçado, entristecido que ela dançava. Quando parou e pousou a palma da mão em meu pescoço, falou comigo em pensamento:
O que foi, Sohan?
Gostei de ela pedir que eu falasse em vez de tirar a informação de mim. Mentalmente, repliquei:
É... é só Ren. Ele... Espere. Como você sabe desse nome?, perguntei. Só minha mãe me chamava de Sohan.
Os olhos dela, culpados, desviaram-se dos meus.
Eu... eu visitei sua família quando você era mais novo.
— O quê? — explodi em voz alta, recuando um passo.
— Shh — sibilou ela. Então, mentalmente, acrescentou: Ren tem a audição aguçada. Ele pode nos ouvir, mesmo daqui.
Quando foi que você conheceu minha família?, perguntei em tom exigente. Onde?
Você tinha cerca de 12 anos.
Não me lembro disso.
Nem pode. Eu apaguei da sua memória.
Paramos de dançar porque fiquei paralisado. Sabia que isso era possível. Eu mesmo fizera isso. Com Kelsey e Ren. A ideia de que Ana tinha usado o poder do amuleto da mesma forma comigo não me caiu bem.
Você tirou minhas lembranças?, perguntei, um arrepio percorrendo meu corpo.
Tirei. Fiquei com medo de que maculassem seu futuro se eu permitisse que você as retivesse.
E essa foi a única vez?
Ela não respondeu imediatamente, e aqueles segundos me pareceram longos demais.
Foi.
Se ela estivesse mentindo, eu teria percebido através de nossa ligação. Mesmo agora o toque dela disparava correntes elétricas por meus nervos. Era ao mesmo tempo estimulante e reconfortante, e implicava certa intimidade. Ver a mão dela descansando no braço de Ren havia deixado um gosto amargo em minha boca.
Teria ela sentido a mesma centelha quando o tocou? Será que a conexão cósmica acontecia com ele também? Não parecera, mas todas as garotas provavelmente experimentavam uma sensação especial ao tocar meu irmão. Deixando de lado o ciúme até onde me era possível, segurei-a pelos ombros. Então devolva-as agora, Ana. Me mostre o que você viu.
Ela deixou escapar um leve suspiro e assentiu. Minhas mãos voltaram, naturalmente, para a curva de sua cintura. Sua pele era quente e macia. Quase sem querer, puxei-a para mais perto de mim. Ela ergueu as mãos, alcançando meu rosto, e tocou minhas têmporas com a ponta dos dedos.
Os olhos verdes de Ana perfuravam os meus e eu me perdi naqueles poços líquidos. Por um breve segundo, minha mente tentou resistir, mas seu toque mental era tão leve quanto o físico e descobri que não conseguia resistir a nenhum dos dois.
Fechei os olhos enquanto ela vasculhava minhas lembranças até encontrar o que procurava. Delicadamente, ela puxou um véu, que escorregou, revelando algo mágico. Era o seu sorriso que eu lembrava mais do que qualquer outra coisa. Seus dentes cintilavam ao sol como pérolas. Eu nunca vira Ana sorrir assim. Era tão livre, pleno e lindo. Meu eu jovem havia pensado que ela era a mulher mais linda de toda a Índia.
As lembranças voltaram lentamente, caindo como folhas no outono, rodopiando no ar. Com muita atenção, observei cada uma delas se desdobrar. Apertei ainda mais sua cintura e ouvi um arquejo, mas mesmo assim ela permaneceu imóvel enquanto revelava partes de minha vida que tinha roubado de mim.
Ana havia aparecido do nada. Viajando sozinha. Ela usava o arco e o vestido de caça verde e foi calorosamente recebida em nosso reino. Ana tinha criado uma história elaborada sobre sua jornada e, embora todos se surpreendessem que ela houvesse viajado sozinha sem ter sido assediada, meus pais a acolheram em nossa casa, especialmente porque ela afirmou que era uma parente distante de meu pai — uma sobrinha-neta do irmão distante.
Mas não importava de fato quem ela era. Meus pais eram do tipo que recepcionava estranhos tão afetuosamente quanto a família, então Ana recebeu comida em nossa mesa, criados para cuidar de suas necessidades e foi informada de que poderia ficar pelo tempo que quisesse. Ela aceitou de bom grado a hospitalidade e, em troca, lhes deu uma pequena lembrança, uma joia preciosa que trouxera consigo. Uma que reconheci. Kadam a trouxera com ele quando escapamos de Lokesh anos mais tarde. Mesmo agora, provavelmente descansava no cofre da família. Ele nunca a tinha usado. Nem mesmo em suas tentativas de resgatar Ren.
Ana rapidamente se tornou querida por todos e era procurada por muitos, inclusive minha mãe e Kadam. Vi mamãe treinar com Ana e fiquei hipnotizado pela guerreira, com todo o fascínio de que um adolescente é capaz. Ela dissera que só ficaria por alguns dias, mas acabou ficando uma semana inteira. Uma semana longa e inesquecível, sobretudo para um menino de 12 anos.
O que me impressionou ainda mais foi o fato de ela ter praticamente ignorado Ren. Meu irmão crescera bem rápido, tanto em termos de charme quanto de estatura, e se tornara o favorito na família Rajaram. Ele lia muito e contava as histórias mais interessantes. Eu me sentia sem graça e inútil ao lado dele. Naquela época, ele era pelo menos uns 30 centímetros mais alto e já era um cavaleiro habilidoso. Meu pai costumava procurá-lo para jogos e para ler documentos longos e tediosos. Ele afirmava que Ren conseguia tornar interessante os pergaminhos mais maçantes.
Mas então Ana chegou. Ela era incrível, linda e fascinante, e mais: escolheu a mim, não meu irmão. Embora um lugar de honra no jantar lhe fosse oferecido entre meu pai e Ren, ela preferia sentar-se comigo na outra extremidade da mesa. Ensinei-lhe um código secreto que tinha desenvolvido a partir de batidas na mesa e, através dele, trocávamos piadas durante o jantar.
Quando bati ruidosamente a colher, ganhando a desaprovação de meu pai, ela ergueu a dela e fez o mesmo. Ambos começamos a bater no prato em ritmo rápido. Mamãe riu do outro lado da mesa enquanto papai franzia as sobrancelhas.
Quando saí para treinar com Kadam, ela perguntou se poderia assistir e me deu dicas. Foi constrangedor. Principalmente porque Ren atingiu o alvo com mais frequência. Eu queria superá-lo em algo, ainda mais com Ana observando. Depois que errei o alvo várias vezes, ela se inclinou para mim, de modo que só eu pudesse ouvir, prometeu me mostrar sua arma mais preciosa, um arco que nunca errava, e disse que me deixaria usá-lo.
Acordei cedo na manhã seguinte para ir ao encontro dela. Ana, de fato, levou a arma. Fiquei maravilhado com seu artesanato e, quando atirei, flecha após flecha, não errando o alvo uma só vez, ela se posicionou atrás de mim e me ensinou a fazer a mira. Meu eu de 12 anos tremeu quando ela me tocou, e percebi que já naquela ocasião eu sentira a conexão com ela. Depois de apenas alguns dias, já estava meio apaixonado.
Então ela pegou meu velho arco, mirou o alvo e disparou. Acertou o centro com precisão, e nesse momento eu soube que estava irremediavelmente perdido por seus encantos.
“Você não deve jamais confiar em nada nem em ninguém, exceto em si mesmo”, dissera ela enquanto reunia as flechas. “Armas podem falhar.”
“Até mesmo as mágicas?”, perguntei.
“Até mesmo as mágicas”, garantiu. “As pessoas podem decepcionar você ou ser levadas a traí-lo. Confie em sua mente e em seu braço. Acima de tudo, lembre-se de que o esforço traz a força. E a força do coração, da mente e do espírito define um homem.”
Imaginei que ela já me visse como homem. Suas palavras tocaram meu jovem coração com tamanha força que jurei lembrar-me delas para sempre. Meu peito se inflou e um profundo desejo de me tornar o tipo de homem que ela descreveu tomou conta de mim. Depois disso, passei cada momento livre em sua companhia. Levei flores para ela. Presenteei-a com histórias sobre meus parcos feitos. Vê-la sorrir era tudo que eu desejava.
Fui eu que pedi que ela me chamasse de Sohan. Era algo especial. Um segredo que partilhávamos. Mostrei-lhe todos os meus lugares favoritos — a fonte espumante, o local no estábulo que era sempre mais fresco do que qualquer outro canto, o nicho atrás do trono de meu pai, com o espaço exato para que eu me escondesse. Conversava com ela por horas sobre coisas de criança enquanto escovava meu cavalo e polia a armadura, e fiquei extraordinariamente contente quando ela quis me ajudar em minhas tarefas.
Fizemos longas caminhadas juntos, jogamos e cavalgamos. Ela ficava à vontade e relaxada comigo de uma forma que não ficava agora que eu era adulto. Ela sempre tivera jeito com crianças. Severa, porém gentil e afetuosa.
Às vezes, minha mãe ou Kadam, ou até mesmo Ren, nos acompanhava nessas aventuras, mas eu sempre ficava enciumado quando ela voltava os olhos para eles. Eu a queria toda para mim. Ela era minha. Eu a reivindicara e eles não podiam tê-la.
Quando ela anunciou que partiria na manhã seguinte, engasguei com a comida. Lágrimas amargas afloraram em meus olhos e deixei a mesa abruptamente. Não sei o que esperava. Ela avisara que sua estada seria curta. Meu estômago se revirou, como se eu tivesse ingerido ácido no jantar.
Quando me encontrou mais tarde, amuado, no estábulo, ela me perguntou por que eu estava tão aborrecido.
“Não quero que você vá”, afirmei, os punhos cerrados ao lado do corpo e um olhar zangado e pueril. Farpas espinhentas cravaram-se em meu coração e, quando ela se abaixou e tocou a ponta de meu nariz com o dedo, eu me desmanchei em lágrimas.
“Sohan”, disse ela, “um guerreiro chora por uma mulher?”
Limpei as lágrimas do rosto afogueado.
“Se ele a ama, sim”, insisti. “Minha mãe diz que sim.”
Ela me recompensou com um de seus lindos sorrisos.
“Suponho que seja verdade”, concordou. “Então... você acha que me ama, é?”, perguntou.
“Acho”, garanti, assentindo vigorosamente com a cabeça.
Os olhos dela cintilaram com suas lágrimas. Eu quase podia ver os segredos contidos neles, ameaçando transbordar.
A boca de Ana curvou-se para cima.
“E o que um garoto sabe sobre o amor?”, perguntou.
Então se levantou, preparando-se para sair, e, ousadamente, envolvi sua cintura em um abraço apertado.
“Não vá”, implorei. “Você me ensina”, sugeri. “Me ensina a amá-la.”
Ela enrijeceu a princípio, mas então relaxou e desgrenhou meus cabelos antes de me abraçar frouxamente e acariciar minhas costas. Eu nunca tinha amado nada como a amei naquele momento. Nem o gatinho que dormia comigo. Nem os momentos roubados com minha mãe. Nem os doces que eu contrabandeava da cozinha. Não entendia o que queria dela. Não exatamente. Mas sabia que teria feito qualquer coisa para mantê-la ali.
“Vou contar um segredo a você, Sohan”, disse ela, a voz terna e natural.
Fungando, levantei o rosto molhado de lágrimas para olhá-la.
“O que é?”, perguntei.
“A única razão pela qual vim aqui foi para ver você.”
Minha boca escancarou-se.
“Por quê?”, perguntei.
“Eu vim porque um dia, quando você for um homem, forte e poderoso, ficaremos juntos. Você lutará a meu lado. Será o meu guerreiro. Pensei que vir aqui me ajudaria a entendê-lo melhor.”
“Posso fazer isso agora”, garanti. “Deixe-me ir com você!”
Ela deu tapinhas em meu rosto.
“Você ainda não está pronto. Mas eu lhe prometo que vamos nos ver de novo um dia. Tenho certeza disso.”
Meus olhos se desanuviaram e me enchi de determinação. Naquele momento, tive a sensação de que havia alcançado minha altura máxima e dado o primeiro passo no sentido de transpor o limiar da masculinidade. Tomei a mão dela e a pressionei em minha testa, curvando-me sobre ela.
“Então vou me preparar”, jurei, “para estar pronto quando você precisar de mim.”
Anamika assentiu, o sol poente formando um halo para seus gloriosos cabelos.
“Obrigada”, disse ela. “Você me deu muito em que pensar.” Sua voz havia assumido um tom tilintante, à semelhança de um sino, e fez um arrepio percorrer minha espinha. Era bonita e leve, como o sussurro de um riacho.
Ela inclinou-se em minha direção e o ar ficou preso em meus pulmões quando beijou meu rosto. Foi um beijo suave e meu coração juvenil começou a bater loucamente. Eu me senti bêbado, ali parado na luminosidade de sua presença, o sol por trás dela me cegando. Alguma coisa aconteceu então. Um deslocamento em minha mente, como um movimento de nuvens deslizando pelo céu e obscurecendo a luz.
Uma brisa soprou meus cabelos e respirei fundo. O perfume de rosas e jasmim flutuava à minha volta. No entanto, eu sabia que não estava no jardim de minha mãe. De onde ele viera? Girei lentamente, perguntando-me por que me encontrava ali e por que meu rosto estava molhado. Esforcei-me para lembrar, mas era como tentar bloquear o caminho de um elefante atacando. Era uma tarefa impossível.
Alguma coisa estava errada. Algo estava faltando. Eu só não conseguia me lembrar o quê. Perguntei a mamãe sobre isso, porém ela não pôde me ajudar. Havia uma tristeza em meu coração, embora eu não compreendesse por quê. A única coisa que permanecera comigo depois que ela partiu foi um anseio, um desejo de alguma coisa ou alguém. Ela havia apagado sua visita da memória de todos nós.
Lentamente, voltei ao presente depois de tecer as lembranças devolvidas a minha mente. Abri os olhos e pisquei algumas vezes. Franzi o cenho. Anamika não estava exatamente como eu lembrava. Segurando seu rosto com a mão, exigi:
— Transforme-se. Quero ver a verdadeira Anamika.
Ela ergueu o queixo e fechou os olhos. Sua boca moveu-se ligeiramente quando ela murmurou palavras suaves para comandar o Lenço Divino. Senti o sussurro dos fios movendo-se ao redor de nós dois. Enquanto observava o lenço fazer seu trabalho, percebi cada minúscula mudança — o formato e a cor de seus olhos, a extensão dos braços firmes, a textura dos cabelos no ponto em que roçavam meu braço — e me maravilhei à medida que a deusa, a mulher que eu conhecera ainda garoto, revelava-se centímetro a centímetro.
Quando o tecido se acomodou, ela abriu os olhos verdes.
— Ana — enunciei em um sussurro venerador. Delicadamente, passei o polegar pelo contorno de seu rosto e senti o formigamento de nossa conexão me percorrer enquanto ela arquejava. Embora eu ainda fosse o mesmo e ela fosse a mulher que sempre fora, tinha a sensação de a estar vendo pela primeira vez, através dos olhos do garoto que fui tanto tempo antes.
Como um adolescente apaixonado e sonhador, eu imaginara abraçá-la, tocar seus cabelos, pegá-la pela mão para partirmos em aventuras, mas a realidade de tê-la em meus braços era muitíssimo diferente. Eu estava perfeitamente ciente de que agora era um homem em pé de igualdade, pelo menos tanto quanto se podia estar em pé de igualdade com uma deusa. Ergui a mão para traçar a linha em que começavam seus cabelos e capturei alguns fios sedosos entre os dedos.
Devagar, deslizei os dedos para baixo e, então, meus olhos seguiram espontaneamente para sua boca quando ela passou a língua pelos lábios. Meu coração disparou quando suas mãos correram por meu peito. Eu queria beijá-la. Tudo em minha mente e em meu coração gritava para que eu a tomasse nos braços e capturasse seus lábios. Para que a puxasse para mim e me fundisse com ela.
Ana era minha. Ren nunca, jamais a tiraria de mim, gritou o garoto desafiador e orgulhoso dentro de mim. Um arrepio percorreu minha espinha quando imaginei me perder em seu abraço. Por um longo momento, nossos olhos ficaram presos nos do outro. Nossa respiração era rasa e a pulsação estava acelerada. Cada instinto meu mandava que eu avançasse. E dizia que ela queria essa intimidade tão desesperadamente quanto eu. Que ela talvez fosse a resposta para tudo. A razão de tudo. A pessoa que eu estivera esperando.
Em vez disso, dei um passo para trás, tentando me livrar das memórias do garoto franco que um dia fui e tentando me lembrar da Ana que eu viera a conhecer. Ela não era receptiva a avanços amorosos e eu tinha prometido que nunca mais tentaria beijá-la. Uma espécie de ácido invadiu meu estômago quando refreei a maré emocional que me sacudira. Eu precisava de tempo para desenredar todos os sentimentos e lembranças conflitantes.
— Obrigado — falei, capturando suas mãos, ainda apoiadas em meu peito. Lentamente, levei uma delas aos lábios e beijei a palma de maneira casta e deferente. — Fico feliz por ter minhas lembranças de volta.
Quando soltei sua mão e me afastei, ela veio atrás de mim, uma expressão confusa no rosto.
— Você não está zangado comigo? — perguntou, pondo a mão em meu braço.
— Por que eu estaria zangado? — perguntei, passando para o lado e atravessando a praia, no sentido oposto à festa, para irmos embora.
— Achei que fosse se ressentir do fato de eu ter tirado suas lembranças — explicou, me seguindo.
Voltando-me para ela, dei de ombros levemente.
— Você fez o que tinha de fazer. O que não entendo é por que você foi até lá. Disse que queria me conhecer melhor. Encontrou o que estava buscando?
— Encontrei — disse ela, e então sacudiu a cabeça. — Não. Não exatamente.
— Bem, o que você quer saber? — Recuando, estendi os braços. — Sou um livro aberto, Ana. Tudo que você precisa fazer é perguntar.
Sorri para ela, um sorriso amplo, então me virei e comecei a correr, sentindo-me gratificado quando ouvi seus passos macios na areia atrás de mim. Só levou um momento para ela me alcançar.
— Quer apostar uma corrida? — perguntei.
— Corrida? — replicou ela. — Com que propósito?
— Para aproveitar o passeio. Pense nisso como um treino. Um teste dos seus limites. A menos que esteja com medo de que seu tigre ganhe de você.
— Nenhum homem pode me derrotar — anunciou, com pompa.
— Vamos ver — provoquei e imediatamente dupliquei a velocidade.
Por um breve momento, me vi na frente. Corri pela praia, os pés mal tocando a areia molhada. Então ouvi um grunhido e, pelo canto do olho, avistei longas pernas me alcançando e, em seguida, me deixando para trás. Logo que ela ficou na frente, desacelerei ligeiramente e deixei-a abrir vantagem. Alguma coisa em mim ganhou vida. Embora eu estivesse em minha pele humana, o tigre queria brincar. Disparei atrás dela, um rugido na garganta.
Para vencê-la, eu poderia ter feito o mesmo que fizera com Ren em outro tempo e outro lugar. Os longos cabelos de Ana voavam atrás dela e teria sido fácil enroscar minha mão neles e puxá-la para o lado, mas essa ideia logo se transformou em puxá-la para trás, de encontro a mim, para cairmos juntos na areia, em um emaranhado de braços e pernas.
Ela olhou para trás e um sorriso de deleite iluminou seu rosto quando viu quão longe eu estava. Minha mente voltou-se novamente para o dia em que disputei uma corrida com Ren em um tipo muito diferente de praia e como eu exigira um beijo de Kells como prêmio. Eu não havia negociado nada com Ana antes dessa corrida, mas a ideia de receber um obséquio como esse, caso fosse o vencedor, me revigorou.
Redobrando meus esforços, disparei atrás dela e, quando ficou claro que ela venceria, trapaceei. Em um instante, eu era Sohan Kishan Rajaram e, no seguinte, era Damon, o tigre negro, o companheiro da deusa. Como tigre, lancei-me pela praia, estirando as pernas e engolindo a curta distância que nos separava.
Finalmente a ultrapassei e saltei no espaço diante de Ana, que gritou, tentando parar antes de nos chocarmos, mas acabou caindo em cima de mim e desabando na areia. Fui até ela e cutuquei com o focinho suas costas, que se sacudiam.
Ana, chamei-a em minha mente, você está bem?
Seus tremores tornaram-se mais intensos e, então, ela rapidamente virou-se em minha direção e lançou um punhado de areia em mim. Depois de me sacudir para me livrar da areia, percebi que ela estava rindo, não chorando, e sua risada era incrível. Era melódica, o tilintar de sinos e todas as coisas felizes e livres.
Rugindo de brincadeira, me agachei, a cauda balançando de um lado para outro, e dei o bote nela, tomando cuidado para não cair em cima de seu corpo. Ana gritou e ergueu os braços, mas era tarde demais. Com minhas pernas aprisionando-a, abaixei-me e lambi seu rosto, deixando uma trilha reluzente na pele.
— Kishan! — gritou ela, esfregando o rosto com o punho fechado. — Isso foi nojento!
Fiz um movimento, como se fosse repetir o gesto, e ela gritou e revirou a cabeça de um lado para outro, rindo e tentando frustrar meus esforços. Quando começou a se contorcer, tentando escapar, abaixei-me mais, pondo sobre ela apenas o peso que achava que ela poderia aguentar. Ela bateu de leve em meus ombros e implorou que eu saísse de cima dela, queixando-se de que não conseguia respirar. Reposicionei-me apenas o suficiente para ter certeza de que ela estava confortável, mas ainda presa.
Quando parou de se debater, bufei, saí de cima dela e me joguei de lado. A areia agarrava-se a meu pelo e se acumulava entre minhas garras, mas eu não liguei. Ela ficou deitada de costas na areia, estendeu os braços e as pernas e soltou um profundo suspiro. Embora houvesse mudado sua forma, ainda usava o biquíni verde. A saída de praia estava embolada embaixo dela e um sorriso de contentamento permanecia em seu rosto. Era estranho vê-la agora com minhas antigas lembranças misturando-se às novas. Quando garoto, eu ficara totalmente apaixonado por ela. Se a tivesse conhecido antes de Yesubai, antes de Kelsey... mas, eu tinha conhecido. Era tudo tão confuso. Eu ainda amava Kelsey. Não amava? Eu era fiel. Nunca fui o tipo de homem que procura várias mulheres. Queria uma única que eu pudesse amar. Uma que fosse minha por completo. Uma companheira para a vida, que fosse tão devotada a mim quanto eu a ela. Eu tivera esperanças de que Kelsey fosse essa garota.
Espiei a deusa com um olho semicerrado e aquietei meus pensamentos, algo muito mais simples de fazer como tigre do que como homem, e simplesmente saboreei o momento. O som das ondas me embalou e o cheiro terroso da grama ali perto, misturado ao aroma da mulher a meu lado, era inebriante. Ana virou-se em minha direção, apoiando a cabeça em uma das mãos, e estendeu a outra para mim.
Ela enterrou os dedos no pelo de meu pescoço e se pôs a acariciá-lo. Ficamos assim por muito tempo, só olhando nos olhos do outro e sentindo a força de nossa conexão. A lua ergueu-se acima das ondas e a areia reluziu com o aparecimento do luar. Uma leve brisa beijava minha pelagem, trazendo com ela o cheiro das árvores, das flores e do mar. Se o paraíso existisse, então eu estava nele, pensei. Só faltava uma coisa.
Devo ter caído no sono, porque o que lembro a seguir é de Anamika me sacudindo para que eu acordasse.
— Sohan — chamou ela. — Sohan — repetiu um pouco mais alto.
— O quê? O que foi? — murmurei, a voz engrolada, enchendo a boca de areia. Pisquei e fitei os grãos cintilantes que cobriam meu braço. Eu devia ter mudado para a forma humana enquanto dormia. Isso nunca tinha acontecido antes. A ideia de que podia ocorrer sem meu conhecimento me deixou com uma sensação de frio e desconforto.
Sentando-me, minhas pernas estiradas no sentido contrário às dela, vi que Ana estava enrolada em um cobertor. Ela devia ter feito um, usando o lenço, enquanto eu dormia. O sol apenas começava a espiar acima do horizonte. Tínhamos passado a noite toda na praia. Minha barriga roncou.
— Alguma coisa errada? — perguntei. — Alguém está precisando de você?
Ela encolheu as pernas e as abraçou.
— Não tem nada urgente. Eu só queria fazer você parar de roncar. — Ana estava sorrindo outra vez.
Bati meu ombro no dela.
— Eu não ronco, Ana — falei, devolvendo o sorriso.
— Ah, ronca, sim. Parece um urso.
— Bem, então você parece um dragão.
— Um dragão?
— Sim, e eles são os piores.
— Acho que não, Sohan. Meu tigre é o pior de todos.
— Seu tigre? — perguntei, provocando-a. — Quando foi exatamente que eu me tornei seu?
O sorriso dela vacilou e lamentei que a brincadeira inocente tivesse seguido por esse caminho. Tentando ignorar a tensão, pus-me de pé e ofereci a mão para ajudá-la a se levantar.
— Como aparentemente sou o seu tigre — falei —, sugiro que você me alimente antes que eu resolva arrancar um de seus braços. Estou faminto. — Apertando seu braço, como se testasse a maciez, acrescentei: — Pensando melhor, acho que prefiro comer sua perna. Ela me deixaria satisfeito pelo menos até o almoço.
Mantive sua mão na minha mesmo depois de ela estar de pé e me senti gratificado ao ver um rubor iluminar suas faces.
— Então talvez eu tenha de colocar rabo de tigre ensopado no cardápio como vingança — disse ela, enquanto eu descaradamente olhava suas longas pernas. — É justo.
Fazendo a mão dela envolver meu braço, conduzi-a para longe do mar, caminhando em direção às árvores.
— Rabo de tigre seria muito pouco nutritivo. Você precisaria de um pedaço grande de carne. — Bati no peito, enchendo-o deliberadamente.
Ela me cutucou nas costelas e franziu os lábios.
— Receio que a carne do seu peito seja dura e fibrosa demais para o meu gosto. Mas talvez, se a assar direto no fogo, fique comestível.
Brincamos descontraidamente um com o outro enquanto passávamos entre as árvores. Então, quando ela pegou a Corda de Fogo, toquei sua mão para detê-la.
— Ana?
— Sim, Sohan?
— Aonde você quer ir?
Ela fez uma pausa, refletindo, e disse:
— Eu... acho que estou pronta para ver a próxima tarefa na lista de Kadam. Isto é, se você estiver — acrescentou, me olhando através de seus longos cílios.
— Você está satisfeita, então, em permitir que Sunil e Nilima fiquem juntos?
— Acho que sim. Nilima é uma boa escolha para Sunil.
— Concordo — anuí, e esperei que ela fizesse a próxima pergunta, aquela que gritava para ser feita. No entanto, ela não fez.
Enterrando um pé na areia, me perguntei se, como ela, eu estava pronto para seguir em frente. Ana aguardava pacientemente, em silêncio, que eu dissesse alguma coisa. Ela não se incomodava com o silêncio, o que era outra coisa que eu gostava nela. Em vez de me sentir pressionado, sentia a paz e a tranquilidade que vinham de saber que ela me apoiava por completo. O que quer que eu dissesse a seguir, ela aceitaria. Ficamos em silêncio por outro longo momento.
— Eu acho — falei por fim — que estou preparado para segui-la ao próximo local.
Ela pousou a mão em meu braço e disse:
— Ainda não há nada definitivo no que estamos fazendo. Se quiser explorar mais os seus sentimentos, temos tempo.
Cobrindo a mão dela com a minha, apertei-a ligeiramente.
— Obrigado.
Ana sorriu afetuosamente e estalou os dedos. A bolsa de couro surgiu.
— Como você fez isso? — perguntei.
Ela deu de ombros.
— Eu simplesmente procurei sua posição no tempo e no espaço e a atraí para mim. Qualquer coisa que pertença à deusa Durga a busca naturalmente.
Enquanto ela tirava a lista da bolsa e examinava o item seguinte, refleti sobre suas palavras e me perguntei se seu tigre também seria naturalmente atraído para ela. Eu não estava certo se gostava ou não da ideia. No entanto, quando meus olhos percorreram lentamente suas pernas nuas mais uma vez, tive de admitir que havia punições bem piores do que estar preso a uma mulher como ela.
Ana estalou a Corda de Fogo. As chamas se inflamaram, crepitando e soltando faíscas, e um portal se abriu. Ela estendeu a mão e eu a peguei. Então, juntos, saltamos.

2 comentários:

  1. Que casaaaal! Quero muito ver essa aproximação do Kishan e da Ana 😍💙 Amo a interação dos dois!

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Boa leitura, E SEM SPOILER!