11 de setembro de 2018

10 - Festa na praia


— Espere aí. Nilima? Tem certeza?
— Tenho. Ela está suplicando à deusa Durga neste exato momento em que falamos. Fervorosamente.
Esfreguei a nuca com a mão.
— Você sabe por quê? Quando?
Ana inclinou a cabeça, fechando os olhos. Após um momento, disse:
— Ela está rezando pela segurança e felicidade de Kelsey. Não posso ter certeza de quando essa prece foi feita, mas acho que é importante atendermos ao seu pedido imediatamente.
Prendi a respiração à menção de Kelsey.
— Sim — repliquei rapidamente. — Concordo.
Seus lábios voluptuosos voltaram-se para baixo, em uma careta de descontentamento.
— Por outro lado, talvez devêssemos esperar — disse ela, hesitante.
— Não. — Sacudi a cabeça. — Kelsey pode estar precisando de nós.
Ana me olhou demoradamente. Eu me contorci sob seu olhar, sentindo-me culpado, mas me mantive firme.
— Muito bem — disse ela por fim, e pegou a Corda de Fogo, girando-a até surgir um vórtice.
Meu estômago se contraiu com força quando saltamos, indicando que estávamos de fato viajando bem distante no futuro. Quando aterrissamos, reconheci imediatamente que estávamos na Índia, mas onde e quando eu não tinha a menor ideia.
Era de dia e protegi os olhos contra o sol ofuscante, tentando ver se reconhecia a cidade. Eu estava descalço e Ana usava seu vestido de caça verde com botas e um arco cruzado nas costas, o que fazia com que chamássemos muita atenção no mundo moderno. Enquanto ela enrolava a Corda de Fogo e a pendurava na cintura, prendendo-a como um cinto, usei o lenço para fazer sapatos para mim e, para ela, leggings que se formaram sob seu vestido.
Ana implicou com isso, dizendo que eu não tinha qualquer direito de vesti-la sem seu consentimento. Não estava errada, portanto resmunguei um pedido de desculpas. Ela ainda se destacava. Não havia o que eu pudesse fazer em relação ao arco, então escondi-o atrás de um latão de lixo, algo horrível de se fazer com uma arma tão bela, e, depois de pedir permissão, pus o lenço sobre sua cabeça, cobrindo-lhe os cabelos longos e lustrosos. O Lenço Divino cresceu e combinou sua cor com a do vestido.
— Onde estamos? — perguntou Ana enquanto eu ajustava o lenço, prendendo seu cabelo debaixo dele.
Quando me dei por satisfeito, percebi como nossos rostos estavam próximos. Os lábios dela pareciam incrivelmente macios e fiquei paralisado. Nossos olhos se encontraram e engoli em seco.
Suas mãos pressionaram meu peito e meu coração disparou, mas, aparentemente, seus pensamentos não estavam alinhados aos meus, pois ela me afastou.
— Terminou? — perguntou.
Pisquei. Então me virei de lado. O que há de errado comigo? Estou sentindo tanto assim a falta de Kelsey que qualquer mulher serve? Meu olfato de tigre deveria ter bastado para me desencorajar, pois o cheiro de batalha e morte ainda me impregnava. Mudar para a forma humana havia ajudado, mas eu precisava de um banho demorado para me livrar do fedor de sangue e suor.
Ana deveria estar com o mesmo cheiro horrível, mas não estava. Toda vez que me aproximava dela era como entrar em seu jardim. O perfume de rosas e jasmim flutuava em torno de Ana e agarrava-se a seus cabelos. Teria ela de alguma forma tomado banho quando eu não estava olhando?
Meu pensamento de repente se deslocou para Ana deitada de maneira lânguida em um banho de espuma e sacudi a cabeça para tirar aquela imagem da mente. Ela era como uma irmã. Não era?
Sim, era bonita, poderosa, impressionante até. Sobretudo durante a batalha. O mais provável era que minha reação se devesse ao fato de eu estar sozinho há tanto tempo. Afastei-me vários metros, o que foi muito óbvio e provavelmente confuso para ela. A questão era que, mesmo à distância, eu ainda podia sentir o perfume de jasmim.
Fechando os olhos, rangi os dentes. Sem responder à pergunta, que ficou pairando embaraçosamente entre nós, dei meia-volta e me dirigi a uma loja próxima. Ela me seguiu e entrou logo depois de mim, maravilhando-se com os artigos expostos enquanto eu perguntava ao vendedor a data e a hora e se ele tinha um cartão de visita.
Quando ele me entregou o cartão, eu o li e arquejei. Mangalore. O que Nilima estava fazendo em Mangalore?
De súbito, eu soube.
— Venha — chamei e lhe estendi a mão, sabendo que ela odiaria se eu agarrasse seu braço. Ela a pegou lentamente, colocando sua mão na minha de um jeito consciente e deliberado. Aquilo significava alguma coisa para ela. Para mim também, mas eu não queria pensar a respeito disso no momento. — Para que lado fica o mar? — perguntei ao homem.
— Para oeste — replicou ele e saímos.
Depois de nos orientarmos rapidamente pelo sol, passamos entre lojas e descemos ruas a passo rápido o bastante para que as pessoas saíssem da nossa frente temendo que pisássemos nelas. Quando o mar enfim apareceu em nosso campo de visão, ouvi Ana ofegar, assombrada.
Examinei a costa e, quando encontrei o que procurava, soltei o ar que vinha prendendo, meu coração batendo forte no peito como se eu tivesse corrido uns 10 quilômetros.
— Eles estão aqui — informei.
— Quem? — perguntou Ana, olhando com cautela para um lado e outro da rua.
Erguendo o braço, apontei na direção do mar, para o objeto que chamara minha atenção.
— O que eu deveria estar vendo? — indagou ela.
— Aquele é o Deschen — respondi. — Nosso barco. Aquele em que você me encontrou antes, quando eu estava observando Kelsey. Está vendo?
— Você está se referindo... se referindo àquela grande baleia branca na água?
— Não é uma baleia. É um iate. Um barco grande — expliquei quando vi que ela não entendia.
— O que isso tem a ver com Nilima?
Segui para a sombra debaixo de um toldo, de onde ainda podia ver o barco. Quando Ana se juntou a mim, eu disse:
— Ancoramos aqui para ir ao templo de Durga. Isso foi depois de Shangri-lá e antes dos dragões. — Ao longo dos últimos meses eu havia pacientemente ilustrado para Ana a linha do tempo da maldição e dos diferentes lugares em que estivéramos à medida que vencíamos as etapas para quebrá-la ao cumprir as profecias que Kelsey havia descoberto. Ainda assim, dava para ver que ela estava confusa. Eu não a culpava.
— Então, se procurarmos Nilima, vamos encontrar seu eu passado também?
Passei a mão pelo queixo.
— Eu não estava na cidade até irmos para o templo à noite. Eu só podia ser humano durante doze horas nessa época. Meu palpite é que devo estar a bordo do barco, cochilando como tigre durante o dia.
— Então você acredita que estejamos em segurança na cidade?
— Por ora, sim — repliquei.
Ela assentiu e fez uma pausa, erguendo o queixo como se tentasse ouvir alguma coisa.
— Ela está me chamando — disse Ana. — Posso ouvi-la.
Apurei os ouvidos para tentar captar o mesmo que ela, mas, sem a mão dela em mim conectando-me ao poder da deusa, tudo que eu conseguia distinguir eram os típicos sons da cidade — pessoas, cães latindo, carros barulhentos, o mar distante, buzinas de bicicletas e vendedores anunciando seus produtos. Ana fitava a distância, os olhos vidrados e o lábio inferior preso entre os dentes. Fitei aqueles lábios por um minuto longo demais antes de perguntar:
— O que foi?
— São... são as mulheres desta cidade. Muitas delas vêm buscando minha ajuda em relação a... em relação a encontrar um companheiro.
Anamika voltou os olhos perplexos para mim.
— O que devo fazer? — perguntou.
Dei de ombros.
— Não sei. Você precisa fazer alguma coisa?
— Nunca ajudei ninguém nesse sentido. Não tenho nenhuma experiência. Eu me sinto mais à vontade com a guerra do que com os assuntos do coração.
Ela ficara branca como a espuma do mar.
— Talvez esse seja o tipo de súplica que você deve apenas ouvir. Como uma terapeuta — sugeri.
— O que é uma terapeuta?
— Uma conselheira. Uma professora.
— Mas professores ajudam.
— Sim — admiti.
— Como posso ensinar a elas? Oferecer conselhos quando eu mesma preciso deles?
Sorri.
— Você precisa de ajuda para encontrar um companheiro?
— Sim. Não. Nunca pensei em ter um. Por que essas mulheres não escolhem simplesmente viver sozinhas?
— Viver sozinho é difícil. Mesmo que elas escolham ignorar as convenções sociais, uma vida solitária não é vida. Acredite em mim.
— Então talvez você possa ajudá-las.
— Eu? — Sufoquei uma risada enquanto ela dava um tapa de leve em meu braço, pensando que eu estava debochando dela.
Os olhos verdes de Ana me fitaram, afiados como punhais.
— Não zombe de mim assim, Kishan.
A seriedade de sua expressão me pegou de surpresa.
— Você quer mesmo a minha ajuda?
— Sim.
Dei um profundo suspiro.
— Se você tem certeza, então, sim, vou tentar ajudá-la. Mas, sinceramente, não acho que seja necessário. Você é a deusa das batalhas.
Seu rosto entristeceu-se como um bichinho de estimação que fosse chutado pelo dono.
— Apesar de minha habilidade nesse campo, não quero ser conhecida apenas pelas batalhas — declarou ela.
— Não, eu... — Enfiei a ponta de meu sapato novo e macio em uma pedra quebrada no pavimento, subitamente inseguro sobre como consertar o que eu obviamente tinha estragado. — Olhe — falei —, eu não quis dizer que você não pode ser a deusa de outras coisas. Você fornece alimento, cura a terra... Pense em todas as pessoas que você ajudou. As batalhas foram só o que apareceu primeiro na minha mente.
— Compreendo — disse ela com suavidade. — Como posso esperar que as pessoas se lembrem de mim como humana, como uma mulher, quando tudo que veem é uma deusa guerreira?
Estendendo a mão, entrelacei meus dedos nos dela. Um formigamento me subiu pelo braço e senti a força de nossa conexão nos unindo.
— A deusa Durga já é muito mais que uma guerreira.
Rocei os nós dos dedos sob seu queixo e esperei que ela olhasse para mim. Quando o fez, pude ver que estava ansiosa, vulnerável.
— Você consegue encontrá-las? — perguntei com delicadeza.
Ela assentiu.
— Então me leve até lá e eu ajudarei da melhor maneira possível.
— Obrigada. — Dessa vez foi ela quem pegou minha mão, segurando-a com força, e me dirigiu um sorriso caloroso que mexeu com meu estômago como se tivéssemos saltado no tempo outra vez.
Enquanto caminhávamos pelas ruas, acrescentei:
— Mas lembre-se de que eu também nunca tive um relacionamento que deu certo.
— Sim, mas você já amou mulheres antes.
Tossi.
— Sim, suponho que isso seja verdade.
Ela assentiu com a cabeça.
— Você dará bons conselhos, pois é um homem grosseiro e lamuriento como todos os outros. Sem dúvida, vai poder me ajudar a dizer a essas mulheres o que um homem realmente quer.
— Espere aí — retruquei, a irritação me fazendo esquecer que ela não gostava que a segurasse. Agarrei seu cotovelo, fazendo-a girar e ficar de frente para mim. — Você disse grosseiro e lamuriento? Eu não me lamurio.
— É claro que sim. Bem, você não é tão autoritário quanto alguns, mas se lamuria e lamenta seu destino tão alto quanto qualquer outro.
Rápido assim, esqueci minha recente adoração à deusa-guerreira e meu fascínio por seus lábios enquanto me lembrava de todas as razões pelas quais a deixava sozinha o tempo todo. A principal delas era sua língua. Se alguém aqui era grosseiro, esse alguém era Anamika.
— Autoritário? — gritei em tom abafado para não chamar atenção. Minha voz soou como um guincho, o que foi um tanto humilhante.
Eu estava prestes a lhe dizer umas verdades, sabendo que uma discussão se seguiria, quando os olhos dela se arregalaram ao ver alguma coisa atrás de nós. Ela me puxou para a escuridão de um beco e sibilou quando abri a boca, cobrindo-a com sua mão.
— É Kelsey! — disse ela, a voz mal audível enquanto retirava a mão. Ela a roçou em meu rosto com a barba por fazer e o formigamento que senti fez todos os pensamentos coerentes desaparecerem de minha mente.
— O quê? — sussurrei de volta.
— Kelsey! — seus lábios se moveram, sem emitir som, então ela segurou meu queixo e virou minha cabeça. De fato, ouvi uma voz que reconheci e, do outro lado da rua, avistei Kelsey e Kadam em um restaurantezinho. Estavam sentados do lado de fora e ambos bebericavam água com gelo e limão enquanto examinavam o cardápio.
— Pensei que você tivesse dito que eles estavam no barco! — sussurrou Ana, arfando em meu ouvido.
— Não. Eu disse que eu estava no barco. Eles devem ter desembarcado.
Meus olhos estavam fixos na mesa do outro lado da rua. Os ombros de Kelsey estavam curvados e Kadam dava tapinhas em seu braço. Com um susto, me dei conta de que isso foi logo depois de Ren romper com ela. Foi esse o momento em que ela deixou de ser a Kelsey de Ren e se tornou minha. Minha bilauta.
— E então? — ouvi Ana dizer, a voz mais brusca.
— Então o quê?
— Você vem comigo ou vai ficar aqui chafurdando por um tempo?
— Eu não chafurdo, Ana.
Ela me dirigiu um olhar de sabe-tudo. Eu me encolhi e fiz um gesto com a cabeça indicando que deveríamos continuar, mas me mantive imóvel, fitando Kelsey, sabendo que cada lágrima que ela derramava a trazia para mais perto de mim. Do antigo eu, mas ainda assim...
Ana de repente me deu uma trombada e seguiu pelo beco com as costas rígidas, nem se dando o trabalho de olhar para trás para ver se eu a acompanhava.
— Ana — chamei. — Espere. — Logo a alcancei, mas sua expressão estava fechada e distante. Toquei seu ombro e perguntei: — Qual o problema?
Ela não respondeu e claramente ignorou minha mão estendida, se recusando a demonstrar qualquer sinal de abrandamento.
Então nos metemos em outro beco que cheirava a lixo e coisas que era melhor deixar para lá e seguimos na direção de um templo. Não era o grande templo a que meu eu passado mais tarde naquela noite iria para encontrar a deusa Durga, ou Ana. A ideia de que iríamos mesmo encontrar a mulher a meu lado era algo que meu cérebro ainda não conseguia compreender totalmente.
A área do templo estava lotada de gente. Era do tipo aberto, com um pavilhão e bancos de pedra. Fiéis dirigiam-se à estátua da deusa e deixavam oferendas a seus pés. Outros sentavam-se em silêncio, os olhos fechados, os lábios contraindo-se suavemente enquanto murmuravam seus segredos para o universo.
Encontrei um banco vazio e a conduzi até ele. Ela sentou-se e rapidamente se distraiu de sua recente crítica a mim. À medida que seus olhos iam de uma pessoa a outra, seus lábios entreabriram-se e ela inclinou a cabeça, atenta. Sentei-me ao lado dela, esperando, e enterrei o calcanhar na areia. Inclinando-me, examinei a marca que fizera. Franzindo o cenho, empurrei deliberadamente a terra de um lado para outro até que a marca se assemelhasse vagamente à minha pegada de tigre. Então apaguei tudo com o pé e levantei os olhos. Fiquei chocado ao ver Ana chorando.
Sua expressão era de desolação.
— Aquela. — Ela apontou. — Aquela mulher ali. Perdeu quem ela amava. Aquela no banco pede que eu ajude o homem com quem se casou a amá-la. Aquela outra, ajoelhada ao lado da estátua, vai se casar na próxima semana e não conhece o noivo. Ela pede não amor, mas bondade. Algumas são jovens e só desejam um homem bonito ou rico. Outras querem um amor profundo e duradouro. — Após uma pausa, ela perguntou: — Como posso responder a essas mulheres?
Os ombros de Ana se sacudiram e eu queria enxugar as lágrimas de seu rosto, mas me pareceu um gesto íntimo demais. Então, em vez de fazer isso, pousei as mãos em suas costas e dei tapinhas gentis e desenhei pequenos círculos com meu polegar, massageando-lhe as escápulas. Isso pareceu ajudar. Ela relaxou e se recostou no banco. O lenço havia escorregado por suas costas, revelando o cabelo maravilhoso. Tentei recolocá-lo no lugar, mas ela deu um leve tapa em minha mão e eu desisti.
— Diga-me como posso ajudá-las — insistiu, voltando-se para mim.
Seus olhos verdes cravaram-se nos meus e, por meio segundo, me vi perdido neles. Dois homens passaram por nós e lançaram a ela olhares de admiração. Ana nem mesmo os viu. Contraí as sobrancelhas, sentindo um rosnado fazer cócegas no fundo de minha garganta. Intencionalmente, estendi os braços no banco e acompanhei seus olhares até eles captarem meu olhar afiado. Assim que seguiram adiante, apressados, vi que ela continuava concentrada em ouvir as preces, os olhos vidrados. O cabelo de Ana fazia cócegas em meu pulso; peguei uma mecha solta com a ponta dos dedos. Ela ou não notou ou não se importou.
— Humm — murmurei enquanto brincava com seu cabelo. — Vamos cuidar dos pedidos fáceis primeiro, certo? Creio que as jovens que querem um homem rico ou bonito não precisam de ajuda. Você não precisa de riqueza ou boa aparência para ser feliz.
— Concordo — disse ela, ávida por discutir nossas opções.
— Quanto àquela cujo marido não a aprecia, talvez, se ela se afastar dele por algum tempo, ele perceba o que tem.
Ana piscou.
— Você quer que eu a mande para longe?
— Talvez umas férias prolongadas ou uma viagem a trabalho... — sugeri.
Agitando os dedos, Ana murmurou algumas palavras e então disse:
— Feito. Há várias mulheres na mesma situação. Ajudei todas elas.
— Como? — perguntei.
Ela mordeu o lábio.
— Não sei exatamente. O amuleto respondeu quando eu lhe disse o que queria.
Atônito, perguntei:
— Quan... quantas?
— Muitas. Eu chutaria vários milhares.
Meu queixo caiu.
— Nem todas moram na Índia — prosseguiu ela. — Parece que a falta de apreço por parte dos homens é um mal do qual muitas mulheres sofrem.
Naquele momento, uma mulher levantou-se, empolgada, e disse que fora uma das cem mulheres selecionadas para ir, com todas as despesas pagas, a um festival de cinema onde ia encontrar seus astros favoritos de Bollywood. Ela deixou correndo o pavilhão, gritando a notícia para todos que passavam.
— Isso deve ser coisa sua — comentei com uma risada.
— O que é Bollywood? — perguntou ela.
Sorri.
— Me lembre de explicar mais tarde. Vamos ver, quem é a próxima? Ah, sim, a que não conhece o noivo. Bem, não podemos simplesmente presumir que ele não será bondoso.
— Não — concordou Anamika. — Se ele não for gentil, cuidaremos disso mais tarde.
Assenti.
— O que ainda temos?
— A mulher que perdeu quem ela ama. Você tem experiência nisso. Como superar?
— Não sei — respondi baixinho. — Acho que ainda não descobri.
— Então o que me diz da que anseia por um amor profundo e duradouro? — Ela olhou para mim e o ar entre nós se contraiu até ficar seco e rarefeito.
Passei a língua pelos lábios. Meus dedos agora estavam emaranhados nos cabelos dela de tal maneira que eu teria dificuldade para tirá-los. As madeixas densas e onduladas me tentavam a mergulhar a mão ainda mais. Engolindo em seco, eu disse em um tom gorjeante:
— Você... você já encontrou Nilima?
Anamika estava tão imóvel quanto um coelho se escondendo na grama alta, e eu me perguntei se ela sabia que meus pensamentos tinham se perdido novamente em sua boca.
— É Nilima quem busca isso — disse ela melodiosamente.
Era a primeira vez, até onde me lembrava, que eu ouvia sua voz soando como nos templos e seu poder me abalou até o âmago. Essa era a voz de que eu me lembrava. Essa era a voz da deusa. Aquela a que eu não tinha forças para resistir. Seus olhos eram lagos verdes que me chamavam; eles me ofereciam paz e tranquilidade, e algo mais. A boca da deusa estava ligeiramente entreaberta, reluzente, um sedoso convite. Sem pensar, reduzi a distância entre nós.
O punho de Ana fez contato com meu maxilar com um poderoso baque e minha cabeça deslocou-se bruscamente para o lado. Sacudi-a enquanto pontos de luz circundavam minha visão periférica. Eu poderia ter esperado que Ana se afastasse. Poderia ter esperado um tapa. Mas um soco?
Não era pouca coisa levar um soco de Anamika. Ela era forte. Mesmo que você só considerasse a mulher, e não a deusa, seu corpo era firme e musculoso. Ela era treinada na arte da guerra. Era inteligente e formidável. Mas eu estava acostumado a ser o saco de pancada de Ren, e isso não era desprezível. Deveria ter sido capaz de resistir a qualquer coisa que ela me fizesse.
Os músculos em meu pescoço se contraíram quando levei os dedos até o lábio inchado. Meu maxilar parecia duro como uma pedra. Eu já tinha visto homens quebrarem a mão em meu rosto.
Sibilei ao tocar a pele sensível e fuzilei com os olhos a mulher que me ferira. Meu rosto esmurrado doía como se eu tivesse sido atingido com uma barra de ferro.
Lentamente, a dor abrandou, mas a mulher que a infligira ainda estava sentada a meu lado — um lembrete irritante e palpitante de um erro que eu não devia ter cometido. Que diabo tinha dado em mim? Eu me sentia um tolo. Um garoto inexperiente flagrado no rubor de uma primeira paixonite.
O que mais me irritava, no entanto, era o fato de que ela nem tinha sentido dor. Qualquer outra pessoa estaria tentando aliviar a dor da mão.
Quase despida de emoção, Ana disse:
— Você não deveria ter tentado isso, Kishan.
— É mesmo? — respondi rudemente, esfregando a nuca. — Acho que sou inteligente o bastante para perceber isso sozinho.
Afastei-me dela no banco e Ana ergueu os olhos para mim, o traço de uma emoção indiscernível desaparecendo deles. Ela agarrou o banco, os dedos ficando brancos enquanto baixava a cabeça, o cabelo caindo sobre os ombros, encobrindo-lhe o rosto. Ela já havia me deixado com raiva antes. Era quase como se não conseguisse se controlar. Às vezes eu achava que ela gostava de me provocar.
Mas isso era diferente. Ela nunca havia me atacado assim antes. Certo, eu também nunca tinha tentado beijá-la antes. Pensando melhor agora, eu me perguntava por que tinha feito isso. Não era como se eu a amasse. Eu mal a tolerava na maior parte do tempo. Talvez fosse uma coisa de soldado. Uma espécie de reação comemorativa, do tipo: Ei, nós sobrevivemos! Mas não. Isso não se aplicava ao caso. Eu definitivamente não estava pensando em guerra enquanto a observava.
A princípio não me dei conta de que ela estava falando.
— O que foi? — perguntei. — Receio que não possa ouvir tão bem depois de você socar meu ouvido.
— Não há nada errado com seu ouvido — disse ela. — Foi sua boca que eu acertei.
— Certo. Então foi.
— Eu não teria feito isso se você não estivesse tentando... tentando...
— Beijar você, Ana. O nome disso é beijo. E não se preocupe. Não vou tentar isso de novo. Nunca mais.
Os ombros dela tremeram.
— Me... me desculpe — murmurou, a voz frágil.
Estudei seu perfil. Nunca antes eu a vira parecendo tão abalada. Era de esperar que depois daquele soco eu estivesse abalado, não ela. Suspirei.
— Olhe, tudo bem. Já estou curado. Não pense mais nisso.
— Tem certeza? — perguntou ela, me espiando através de uma cortina de cabelos.
— Tenho — respondi. — Além disso, eu é que deveria me desculpar. Sei que você não aprecia esses gestos. Eu lhe garanto que não tive nenhuma intenção com isso.
Ela inclinou a cabeça.
— Então você não tem o desejo de me perseguir?
Eu ri, minha voz ressoando forte, talvez um pouco demais.
— Não. Não tenho nenhum desejo de perseguir você, Ana.
— Ótimo — disse ela, embora seu rosto não demonstrasse tanta certeza quanto sua voz.
— Ótimo — ecoei. — Vamos esquecer que isso aconteceu.
— Sim, vou me esforçar para isso.
Ela assentiu e voltou a examinar a multidão. Parecia fácil para ela deixar de lado qualquer drama emocional e simplesmente se concentrar no que estava fazendo. Ela disse que ia esquecer e eu sabia que iria. A questão era que eu não parecia capaz de deixar a questão de lado com tanta facilidade. A lembrança do que quase acontecera se agitava em minha mente como uma nuvem errante. Não produzia nada, mas obscurecia meus pensamentos, de qualquer jeito.
— Ela está aqui — disse Ana. — Quero falar com ela. Você me ajuda a me disfarçar adequadamente? — perguntou, me entregando o lenço.
Eu o peguei e o puxei lentamente de seus ombros. Segurando o tecido, eu o estudei e disse:
— Nilima nunca a conheceu. Ela não a viu ganhar vida no templo. — Tornei a envolvê-la com o lenço, posicionando-o sobre seus cabelos e correndo meu dedo ao longo da linha onde eles começavam a fim de ajustá-lo. Notei então que o lenço agora tinha o tom verde de seus olhos. Com a mão ainda em seus cabelos, eu disse: — Para ela, você vai parecer apenas uma linda mulher com uma extraordinária semelhança com a deusa.
Ela assentiu e tirou o amuleto, que me entregou junto com nossa bolsa. Depois de ajeitar o vestido, seguiu até a mulher que tinha acabado de entrar na área do templo. Segurando o amuleto, sincronizei o tempo à minha volta, de forma que pude ficar invisível, e a segui. Nilima sentou-se ao lado de uma fonte e Ana sentou-se perto dela. Senti uma mudança no ar e o lenço de Ana, o Lenço Divino, ergueu-se de seus cabelos e voou para o chão, em um sussurro de seda.
Era óbvio para mim que o movimento do lenço não fora natural. Ele ondulou como Fanindra no oceano, enroscando-se por fim nas pernas de Nilima. A tataraneta de Kadam abaixou-se e o apanhou no momento em que Ana se levantou e disse:
— Ah, muito obrigada! Esse lenço está na minha família há gerações. Eu detestaria perdê-lo.
— É muito bonito — disse Nilima ao devolvê-lo a Ana.
— Você se importa? — perguntou Ana, indicando o espaço ao lado de Nilima. — Minha mãe sugeriu que eu viesse. Vou me casar daqui a dois meses.
— Parabéns — disse Nilima.
— Você também vai se casar em breve? — perguntou Ana.
Nilima riu.
— Ah, não. Ainda não encontrei o homem certo.
— Certamente seus pais podem arranjar... — começou Ana.
— Não. — Nilima sacudiu a cabeça. — Não estou interessada em nada arranjado.
— Ah.
— Não que eu queira menosprezar a sua escolha — acrescentou Nilima rapidamente.
Ana ficou em silêncio por um momento e então disse:
— Para ser sincera, não tenho muita certeza se o casamento é bom para uma mulher como eu.
— Ah! Por quê? — perguntou Nilima.
Anamika dirigiu-lhe um breve sorriso.
— Os homens... me assustam.
Pude sentir minha boca voltando-se para baixo com aquelas palavras. Teria eu a assustado? Não fora essa minha intenção.
— Além disso — continuou Ana —, sou uma mulher... difícil.
— Difícil? — Nilima riu. — Como assim?
— Não quero ser mantida sob o jugo de um homem.
— Ah — disse Nilima. — Isso é compreensível. Se é essa a sua definição de difícil, então eu também sou difícil.
Um ar de surpresa cruzou as feições de Ana.
— Mas Sunil jamais... — Rapidamente ela se interrompeu e mordeu o lábio.
— O quê? — perguntou Nilima. — Quem é Sunil? Seu noivo?
Com uma careta, Ana assentiu, enquanto eu olhava para o céu, me perguntando como ela ia conseguir o que pretendia.
— O que quero dizer é... que não sou o tipo que a maioria dos homens deseja.
Nilima riu com vontade dessa vez.
— Você se refere ao tipo alta, com lindas pernas, maravilhosa? Sim, os homens odeiam isso.
— Não. Não estou falando da aparência exterior. Quanto a isso, eu não me importo. Quando digo difícil, digo... digo que não sou de falar manso, nem com ternura. Não fico alvoroçada em cima de um homem, com palavras encorajadoras, como quem rega uma flor.
— Você não precisa ser desse jeito. Sou muito parecida com você nesse aspecto. E tem razão: isso afasta muitos homens.
— Afasta? — replicou Ana.
Nilima fez um gesto com a mão.
— Faz com que eles se desinteressem de tentar um relacionamento.
— Entendo. Mas você acredita que possa haver um homem, em algum lugar, que seja desafastado pela franqueza e pela integridade?
— Desafastado? — Nilima deu uma risadinha e eu bufei, mas rapidamente reprimi o ruído quando Nilima olhou à sua volta. — Sim, acho que eu acredito nisso — concluiu.
— Onde se encontra um homem assim? — perguntou Ana.
— Se eu soubesse, já teria pegado um para mim.
— Então como você vai reconhecer esse homem quando o encontrar? — insistiu Ana, uma expressão séria no rosto.
— Às vezes você não reconhece — disse Nilima, com tristeza. — Mas eu não estou aqui por causa de um homem, de qualquer forma. Estou aqui por causa da minha amiga Kelsey.
— Por causa de uma amiga?
Nilima sorriu.
— É. Ela tem uma longa e árdua estrada à frente. Pensei que ajudaria pedir a bênção da deusa...
— Certo, a deusa.
Anamika apertou a mão de Nilima.
— Foi um prazer conhecer você. Acho que a deusa vai atender às suas súplicas. Sua amiga vai encontrar a felicidade que procura.
— Você acha?
— Tenho certeza que sim.
— A propósito, eu sou Nilima. Foi um prazer conhecer você.
— Eu digo o mesmo.
— Não guardei o seu nome.
— É Ana.
Reprimi um silvo de contrariedade, passei um braço pela cintura de Ana quando estávamos longe o bastante para que Nilima não pudesse ouvir e me rematerializei ao dobrarmos uma esquina.
— O que foi aquilo? — perguntei.
— A que você está se referindo? — perguntou ela, impaciente.
— Dizer seu nome verdadeiro. Você não acha que ela pode se lembrar disso?
— E se ela se lembrar? Ana é um nome bastante popular, não é?
Cruzei os braços diante do peito.
— Acho que sim.
— Então não há mal algum.
— Tudo bem.
— Ótimo.
Fiz uma pausa e perguntei:
— Então?
— Então o quê?
— Conseguiu o que queria?
— Ah, isso... Sim. Acredito que sim.
— E o que foi...? — Deixei a pergunta no ar.
Anamika pensou com calma no que queria dizer. Fiquei ali, preocupado, esperando por ela, por muito tempo. Meu pé começou a bater no chão.
— Nilima — disse ela finalmente — vale a pena ser considerada.
Gaguejando, girei em um círculo, olhando para os passantes, como se pedisse ajuda a eles.
— O que... o que você quer dizer? — perguntei.
— Bem, preciso estudá-la mais. — Fazendo meia-volta com um floreio, ela pôs-se a descer a rua. — Venha, Kishan. Quero tomar um banho e descansar antes de irmos à festa.
— Festa? — Parei bruscamente.
— É, festa. Quando toquei a mão de Nilima, pude acessar parte de suas lembranças. Você sabia que ela foi a uma festa em que fez pedidos? Eu gostaria de ir a um evento desses. Vai me dar um entendimento maior em relação ao caráter dela. Mas, primeiro, precisamos buscar o arco.
Refizemos nossos passos e encontramos o arco sem dificuldade. Então, porque Ana queria fazer uma imersão em nosso mundo a fim de compreender melhor Nilima, nos hospedamos em um hotel. Procurei o maior da cidade e usamos o amuleto para ficar invisíveis. Foi bem fácil ir até o último andar, que quase nunca era usado, e entrar por meio de magia.
Não havia um nem dois, mas três quartos. Segui para um deles, tirei a camisa e a calça e tomei um banho bem quente. Depois de me esfregar até quase esfolar a pele, me enxuguei e desabei na cama, puxando o cobertor e me cobrindo, e fiquei desacordado por pelo menos doze horas.
Quando finalmente acordei, Ana estava relaxando em um sofá na área de estar, clicando botões que abriam e fechavam as persianas e ligavam e desligavam a música, assim como as luzes.
— Isso é bem conveniente — disse ela.
— É, sim — respondi. — Uma ajudinha?
Ela manteve a atenção no controle remoto e vagamente apontou para uma mesa onde havia criado travessas de comida. As opções eram rústicas. Mais o que ela teria comido em um acampamento do que o que se servia no mundo moderno, mas fiquei grato por aquilo do mesmo jeito.
— Hã... obrigado — agradeci —, mas eu gostaria de me vestir primeiro.
Ela olhou para mim, para a toalha que eu mantinha presa na cintura. Suas faces ficaram rosadas e ela rapidamente se dirigiu para a escrivaninha, onde pusera todas as nossas armas. Mantendo uma boa distância de mim, segurou o lenço entre os dedos e o estendeu, esticando bem o braço, recusando-se obstinadamente a fazer contato visual.
Murmurei um obrigado e voltei para o quarto com o lenço para fazer roupas novas para mim. Quando saí, ela estava brincando outra vez com o controle remoto, mas seus dedos pairavam acima dos botões, como se não conseguisse decidir qual apertar.
— Algo errado? — perguntei.
— Não — disse ela, levantando-se rapidamente e atrapalhando-se com o controle, que caiu no chão. Abaixei-me e o peguei, colocando-o de volta em sua mão. Ela engoliu em seco e recuou, quase tropeçando na mesa de vidro.
Depois de comer, reunimos nossas coisas e Ana disse:
— Leve-nos à festa. Aquela a que você foi com Kelsey.
— Certo. — Peguei a sacola, pendurei-a no ombro e estendi a mão. Ela a olhou como se fosse veneno. — Eu não vou machucar você, Ana. Francamente, me sinto insultado que você pense isso de mim. Você, de todas as pessoas, é quem melhor conhece as minhas intenções.
— Você tem razão — admitiu ela suavemente. — Sei que você não tem a intenção de me machucar. E me arrependo de ter batido em você como fiz hoje. Você pode... pode me tocar quando quiser. Só evite me segurar de repente. E não tente me beijar outra vez. De acordo? — perguntou.
Fiquei olhando para ela por um longo momento.
— De acordo — respondi.
Ela respirou fundo, olhou de minha mão estendida para meu rosto e então pôs sua mão na minha. Envolvi sua mão com meus dedos e puxei-a delicadamente para mais perto.
— Aguente firme — recomendei.
Fomos sugados por um vórtice, mas foi rápido. Não fomos tão longe quanto antes. Era noite e a vibração da música ecoava pela praia. Nossos pés afundaram na areia e eu podia ouvir a pulsação do oceano não longe dali.
Anamika franziu a testa.
— Tem alguma coisa errada. Cadê a árvore?
— Árvore? — perguntei. Então olhei ao redor e sussurrei: — Esconda-se, rápido!
Corremos para trás de uma árvore no momento em que Wes e Kelsey passavam. Ela estava linda em um vestido preto. Wes sussurrou alguma coisa em seu ouvido e ela riu. Cravei os dedos na casca da árvore. Eu tinha me esquecido completamente do caubói que tentara roubar Kelsey de nós.
— Quem é aquele? — perguntou Anamika.
— Ninguém — respondi.
— Você me trouxe para a festa errada — disse ela. — Não, espere. Acho que vi Nilima.
Ela estava prestes a sair de nosso esconderijo quando sussurrei:
— Ana, ela vai reconhecer você. Meu eu passado está aqui. Assim como Ren. Temos de nos disfarçar.
Usei o lenço para me transformar em um típico rato de praia, de calção de surfista e chinelos. Meu cabelo ficou mais comprido. A pele em meu rosto coçava enquanto eu me tornava um dos marinheiros que conhecera no barco. Ana pegou o lenço em seguida e mudou apenas a roupa. Eu quase engasguei quando ela apareceu usando um maiô branco decotado e uma saia envelope amarrada na cintura, expondo as pernas longas e bem torneadas e destacando o corpo de músculos firmes.
Minha mão cortou o ar.
— Não! — exclamei com absoluta autoridade. — Você não pode ir lá assim.
— Por que não? — perguntou ela, pondo as mãos nos quadris.
— Porque... porque, em primeiro lugar, você parece você mesma.
— Tudo bem. — Ela envolveu o corpo com o lenço e, quando o afastou, ainda estava bonita e, de certa forma, familiar.
— Quem é você? — perguntei.
— Estou disfarçada da criada que trabalhava em nossa casa.
— Trabalhava? Não é próprio de você dispensar criados.
— Ela... ela olhava para você com intenções lascivas.
— Ah... Bem, obrigado, eu acho, por me proteger de criadas com propósitos sensuais.
Franzindo o cenho, ela perguntou:
— Quer que eu mude de novo?
— Não, está bom. Mas precisa usar algo mais. Isso é chamativo demais para esta época. Acredite em mim.
Ela ergueu as mãos e me entregou o lenço. Quando o afastei, usava um vestido estampado largo que ia até os pés.
— O que é isto? — perguntou, puxando o tecido pesado.
— Vai protegê-la do sol — afirmei, pouco convincente.
— O sol está se pondo.
Ela estendeu a mão e eu lhe entreguei o lenço, recuando e erguendo o nariz para seguir o cheiro de Kelsey. Enquanto fazia isso, disse a ela:
— Tome cuidado. Me encontre aqui em uma hora.
— Muito bem. Isso me dá tempo para conversar com Nilima.
Deixando-a na praia com o lenço para refazer seu vestido visivelmente disforme, rastreei Wes e Kelsey. Passei quase meia hora só observando-os, então meu nariz se contraiu e olhei para cima. Fiquei boquiaberto, em choque, ao avistar a mim mesmo, meu antigo eu, um pouco afastado, observando Kelsey e Wes. Lembrei-me do aviso de Kadam para nunca cruzar meu próprio caminho e segui imediatamente na direção oposta.
Abri caminho entre convidados risonhos. Eles dançavam e chutavam a areia enquanto eu me desviava deles. Foi quando captei um novo cheiro e me imobilizei. Virando-me devagar, vi meu irmão, Ren. Ele estava dançando no meio de um grupo de mulheres. Todas lindas. Todas tendo olhos somente para ele.
Nilima estava lá, dançando nas proximidades, mas não foi Nilima que chamou minha atenção. Não. Eu estava fascinado por uma mulher. Uma garota de cabelos longos e escuros, de biquíni verde e uma saída de praia que não cobria nada. Ela se aproximou de Ren e pousou a mão no músculo saliente do antebraço dele. Seu corpo curvilíneo reluzia, como se a pele tivesse sido beijada por uma chuva de prata.
Uma inveja visceral de meu irmão explodiu em mim e minhas débeis tentativas de aplacar a ira eram tão eficazes quanto jogar um cubo de gelo em um vulcão. De onde estava, ao lado de meu irmão, ela me espiou e nossos olhares se cruzaram. Com uma determinação quase brutal, estendi a mão.
Uma súplica.
Uma pergunta.
Um desafio.

7 comentários:

  1. O Kishan está gostando dela!!!

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    1. obvio....os dois vao se casar msm

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  2. Pera, ate a Ana se apaixonou pelo Ren? Tu é azarado hein, Kishan

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  3. Tá ficando cada vez mais chato essa história da Deusa e o kisham !!

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  4. Sim, não estou aguentando, eu amo demais o Kishan e queria tanto que ele ficasse com a Kelsey, mas estou vendo que ele vai se apaixonar pela Anamika, ela é legal mas não gosto dos dois juntos, eu ainda não havia superado o penúltimo livro, e ai vem essa escritora destruir mais ainda meu coração

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  5. Só me vem a mente a kelsy e a mãe dela dizendo "cala a boca e beija logo!"

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  6. Kkkkkkkkk Vei esses dois são puros Ren e Kelsey

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Boa leitura, E SEM SPOILER!