11 de setembro de 2018

1 - Phet se revela

Meus músculos se retesaram e parei de respirar.
Kelsey.
Visualizei o rosto dela. As últimas palavras que trocamos.
Eu fui um perfeito idiota.
Seis meses antes, Phet dissera que Durga precisava de um tigre e que um de nós deveria fazer a escolha e ficar. Quando Ren e eu nos afastamos para falar a respeito, meu irmão se recusou totalmente a sequer considerar ficar para trás. Ele me disse que iria aonde Kelsey fosse. Não havia qualquer opção para ele, declarou, teimoso.
Na ocasião, Phet falara conosco com calma, explicando que Sunil, o irmão de Anamika, voltaria ao futuro com Kelsey e deixaria a irmã para trás. Eu olhara para Anamika e a vira agarrando o braço do irmão recém-resgatado. Ela ainda não sabia que o irmão partiria. Eu sabia, através de minha conexão com a deusa, que a partida dele seria um golpe terrível.
“Durga precisa cumprir seu propósito”, enfatizou Phet. “Gerações serão influenciadas por ela. Sem uma companhia, ela ficará só e o mundo, como o conhecemos, mudará completamente. Um tigre está destinado a abraçar essa vida. Vocês precisam escolher.”
Por mais recente que fosse nosso elo na ocasião, eu estava ciente de que Anamika odiava a ideia de assumir o papel de deusa, fosse esse seu destino ou não. Havia grande chance de que, sem ter alguém a seu lado, ela voltasse para a Índia e desistisse da vida de deusa.
Esfregando as mãos no rosto, sugeri:
“Por que o irmão não pode ficar com ela?”
“O irmão é uma parte da vida humana de Anamika. Ela precisa assumir o papel de imortal, cuidar de seus deveres e deixar os pensamentos ligados ao passado para trás. Confie em mim quando digo que será melhor para ambos seguirem caminhos separados.”
Phet sabia mais do que estava falando. Isso era sempre verdade. Portanto, quando ele disse que Sunil precisava deixar a irmã, não questionei mais.
Ren pareceu chegar à mesma conclusão, porque assentiu e respondeu: “Então eu ficarei e servirei, mas somente se Kelsey permanecer também.”
Phet sacudiu a cabeça de maneira enfática.
“O caminho de Quel-si está no futuro.”
O velho monge foi consolar Kelsey e me deixou sozinho com meu irmão.
“Ela é minha noiva”, comecei.
“Eu a amei primeiro, Kishan.”
“Sim, mas você a deixou.”
“Foi um erro. Que não pretendo repetir.”
Prosseguimos nessa discussão por alguns minutos, tentando convencer o outro a ficar, mas nenhum dos dois arredou pé. Phet retornou e nos informou que precisávamos dar uma resposta sem demora e, enquanto falava, me lançou um olhar. Um olhar que sugeria que eu deveria pôr fim naquilo.
O que isso significava? Ele estava tentando me dizer que deveria ser eu a ceder? A desistir da garota que eu amava? Ou talvez ele quisesse dizer que era eu que entendia o chamado de Durga, que tinha a conexão. Eu me remexi, desconfortável.
Desesperado, sussurrei para Ren:
“Você sabe o que vi, o que minha visão no Bosque dos Sonhos me revelou.”
Ren assentiu, relutante.
Eu insisti:
“Se eu ficar para trás, então o filho de Kelsey nunca...” Olhei ao redor para ver se alguém estava ouvindo. Ninguém. Parecia que estavam nos dando um momento de privacidade. “Nunca nascerá”, concluí em um sussurro.
“Você não sabe disso”, afirmou Ren, teimoso.
“Ele tinha meus olhos, Ren. Meus!”
Ren desviou o olhar, como se lhe doesse ver a prova da existência do futuro filho de Kelsey ao me encarar. Então disse baixinho:
“Você tem uma dívida comigo, irmão.”
Respirei fundo enquanto suas palavras giravam em minha mente. Eu tinha uma dívida com ele.
Tinha?
Repassei o que havia feito, como o traíra, não só roubando-lhe a noiva, Yesubai, como pondo em risco a vida dele e também nosso reino. Então, com Kelsey, eu a havia pressionado e a beijara, mesmo sabendo que ela gostava de Ren.
Mais tarde eu tentara ser nobre e prometera que ela poderia decidir os termos de nosso relacionamento. Mas, quando finalmente ela foi minha, eu soube que não a deixaria ir, independentemente das circunstâncias. Eu tinha, sim, uma dívida com Ren, mas simplesmente não conseguia entregar a ele a garota que eu amava.
Frustrado, corri a mão pela nuca. Olhei para o grupo e percebi que Kelsey não estava ali.
“Onde ela está?”, perguntei a Phet.
“Está chorando por aquele que ela acredita que ficará para trás”, replicou Phet.
Meu corpo imobilizou-se e inclinei a cabeça, captando os sons de seu pranto suave. Seu sofrimento atravessava a floresta tão claramente que era como se ela estivesse a meu lado. Tudo que eu queria era ir até ela. Interromper seu choro. Curar sua dor.
Dei um passo à frente e então hesitei. De repente, me dei conta de duas coisas. A primeira era que eu sabia por quem ela estava chorando. Ela acreditava que Ren ficaria ali com Durga. Quando eu assumira o papel de minha tia-avó Saachi, Kelsey havia confessado seus sentimentos em relação às tendências, digamos, heroicas de Ren. O que ela não sabia era que meu irmão preferia a companhia de diplomatas à de guerreiros. A única razão de ele se arriscar repetidas vezes era porque estava loucamente apaixonado por minha noiva.
A segunda coisa que percebi foi que meu irmão estivera atento a ela e que a ouvira chorar muito antes de eu sequer perceber que ela havia sumido. A sensibilidade exagerada dele em relação a Kelsey era irritante. Eu teria sempre de competir com meu irmão?
Deixando de lado minha insegurança em relação a Ren, pus-me a escutar o choro da mulher que eu amava.
Como posso deixá-la?
Outra parte de minha mente sussurrou: Como posso não deixar?
O peso do mundo de repente parecia estar sobre meus ombros, e eu não era nenhum Atlas para ter a força que sustentaria aquele peso. Eu sucumbiria sob o fardo.
Eu consigo fazer isso? Consigo deixá-la?
Admiti o fato de que ela ainda amava Ren. Seus sentimentos eram óbvios para qualquer um que os visse juntos, mas eu acreditava que, com o tempo, ela viria a me amar da mesma forma, se não mais. Lembrar de quão devastada ela ficara quando Ren morreu, de quanto sofrera durante o tempo em que ele não se lembrava dela e, a contragosto, de como ela se apoiara nele primeiro quando nós a resgatamos de Lokesh deixava um gosto amargo em minha boca.
Nesse momento, Ren se manifestou, distraindo-me de meus pensamentos, e disse suavemente enquanto fitava as árvores por onde ela desaparecera:
“Não posso viver sem ela, Kishan.”
Então o que isso quer dizer? Que eu devo simplesmente ir embora? Esquecer a felicidade? Esquecer meu futuro? Esquecer a família pela qual eu ansiava, a que aparecera na visão?
Esfregando o maxilar com a mão, pensei em meu irmão. Que ele amava Kelsey era óbvio. Se eu me afastasse, sabia que ele a faria feliz. A pergunta era... Kelsey poderia ser feliz sem Ren?
A resposta me veio em um instante.
Não.
Ela se esforçaria ao máximo, mas uma parte dela sempre sofreria por ele.
A escolha de repente tornou-se óbvia. O tigre que ficaria para trás teria de ser... eu.
Deixar essa ideia assentar em minha mente era tão doloroso quanto ser atingido por uma saraivada de flechas. Centenas de pequenas dores me ferroaram ao mesmo tempo. Se alguém tivesse aparecido e arrancado o coração ainda pulsante de meu peito, eu lhe teria agradecido o favor. Até respirar doía.
Phet olhou para mim com urgência mais uma vez e assenti ligeiramente.
Surpreso por ter força para isso, pus a mão no braço de meu irmão e disse:
“Você não vai ter de fazer isso, irmão. Só me deixe... — murmurei então — me deixe dizer adeus.”
Ren voltou os olhos surpresos para mim e também segurou meu braço, assentindo, com uma expressão de alívio e gratidão.
A dor atenuou um pouquinho. Ela ainda me esmagava insuportavelmente, mas enfim eu conseguia olhar meu irmão nos olhos. Após séculos de culpa e desconfiança, senti o doce alívio do perdão e percebi que meu sacrifício havia eliminado o abismo que eu criara entre nós — uma barreira que nunca deveria ter existido. De repente, eu me senti como se fosse o irmão mais velho e mais sábio.
Enquanto andava em meio às árvores para dizer adeus à mulher que eu amava, uma parte de mim tinha a esperança de que ela recusaria aquilo, que insistiria em que eu voltasse com ela.
Quando irrompeu em soluços histéricos ao me ver e percebi que ela estava chorando não por mim, mas por ele, soube que minha causa estava perdida. Que o amor dela por ele era, e sempre seria, mais forte. Ela dizia que não podia me deixar, mas o fato era que ela... fez isso.
Desde então eu lamentava minha decisão. Tinha sido um idiota por permitir que isso acontecesse. Por fazer com que minha necessidade de remendar o relacionamento com meu irmão influenciasse minha decisão em relação a Kelsey. Racionalizei que Kelsey estava perturbada porque pensava que Ren fosse ficar para trás e que, se tivesse mais alguns minutos para considerar minha permanência no passado, teria ficado igualmente perturbada.
Agora, aqui estava Phet diante de mim, seis meses depois, dizendo que Kelsey precisava de mim. Por dentro, eu vibrava com a notícia. Talvez nem tudo estivesse perdido. Talvez ela tivesse se dado conta de que me amava, afinal.
Soltei o ar que estivera prendendo e perguntei:
— Ela está correndo perigo?
Mas o que eu queria mesmo perguntar era: “Ela sente minha falta?”
— Está. Kelsey corre grande perigo. Mas não do tipo que você está pensando.
— Como assim? — perguntei, confuso. Então outro pensamento veio à tona. — Espere um pouco. Você a chamou de Kelsey, não Quel-si. — Cruzei os braços diante do peito. — O que é que está acontecendo aqui exatamente?
Phet soltou o ar devagar e disse:
— Talvez seja melhor você saber de tudo.
Ele agarrou um emblema em um colar escondido sob sua túnica, e o gesto familiar me deixou confuso. Um presságio percorreu minhas veias e dei um passo para trás.
— O que... O que você está fazendo?
O homenzinho aprumou-se até chegar a sua verdadeira altura e sorriu ao dizer:
— Lenço Divino, por favor, me devolva a minha forma normal.
Túnicas marrons se moveram enquanto fios se enrolavam em torno de seu corpo. O que eu estava vendo não fazia qualquer sentido. Eu sabia que o Lenço Divino se encontrava, nesse momento, sob os cuidados de Durga, então, mesmo que de algum modo ele tivesse se apoderado do lenço, por que estava mudando para uma forma diferente?
A magia espiralava em volta dele, obscurecendo-lhe o rosto, e então, quando os fios finalmente se aquietaram, caí de joelhos e as lágrimas toldaram minha visão.
— Não... não é possível — sussurrei, incapaz de acreditar em meus olhos.
— Você sabe que é — respondeu ele gentilmente.
— Como é que você...? — Tive dificuldade em engolir, dominado pela emoção. — Quando?
— Ah... o quando é um pouco complicado. O como eu vou lhe mostrar.
Ele segurou meu braço e me ajudou a me levantar. Seus olhos se franziram nos cantos quando sorriu e disse:
— Como é bom ver você, Kishan.
— As palavras não podem expressar o que sinto ao vê-lo outra vez, Kadam.
— Sim — murmurou ele, um tanto distraído. — Agora vamos ver o que podemos fazer para salvar a Srta. Kelsey, está bem?
Assenti, completamente assombrado com o fato de meu mentor, amigo e pai substituto haver de alguma forma retornado do mundo dos mortos.

26 comentários:

  1. NOOOOOOOOOOSSSSSA QUE COMEÇOOOOOO <3

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    1. Oooohhhh mmmyyyyyyyvggoooooodddd CRISTO!!! GENTE O SR KADAM

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  2. Nossa ....que saudades desses 2 tigres !!! Amei...muito obrigada Karina!! Amo seu blog...Amo ler!!! *-* *-* *-*

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  3. AAAAAAA MEU CORAÇÃO
    OQ É ISSO?????? S
    Eu já to chorando
    SOCORROOOOOO

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  4. MEU DEUS O QUE ACONTECEU SENHOOOOORRRRRR. COMO ASSIMMMMMMM??????

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  5. Adoro a saga dos tigres. Seu blog é o máximo

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  6. Aaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhh
    Sr Kadam, chorei
    Nossa, como eu sofri com a morte dele

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  7. mds to morrendo aqui, esperei por um tempão, melhor blog
    -Bia Mello

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  8. Yeeeessss!!! Senhor Kadan is a life kkkkkkkk

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  9. eu SABIAAAAAA... sempre sustei a teoria deles serem a mesma pessoa

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  10. oooooooooooooooooh myyyyyyyyyyyy gooddddddd vou morrer!!!!!!!!!!!!!!!!!

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  11. Meu queixo bateu no chão agora, UAUUUUUUUUU, Sr Kadam amooooooo

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  12. Meo Deusssssss. Meu coração não aguenta. Senhor Kadam vivo 😍😍😍😍

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  13. O Kadammmmm, muitas lágrimas expressam como estou agora, meu coração não aguenta😭😭😭😭😭

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  14. Aaaaaaaa chorei aquiii 😭😭😭, Kadam do céu 😭😭 super feliiiz
    Preparando o coração para os próximos capítulos. Aguenta core

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  15. ADOREII!!! Tinha esperança dele voltar.
    Ai ai, vamos em frente. Aguenta coração!

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  16. Es por eso que Kadam y Phet nunca estuvieron "juntos" en ninguno de los libros anteriores.

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  17. o quêeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee? Kandam voltouuuu
    ai eu chorei tanto na morte deleee

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  18. AAAAAAAAA SENHOR KADAM EU TE AMO

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Boa leitura, E SEM SPOILER!