13 de agosto de 2018

Prólogo

A morte lançou uma grande sombra sobre os quilômetros áridos de Paelsia.
A notícia do assassinato do chefe Basilius se espalhou rapidamente, e vilas de toda a região caíram em luto profundo. Lamentavam a morte de um grande homem — um feiticeiro que podia entrar em contato com a magia e que era considerado um verdadeiro deus por muitos habitantes dessa terra sem religião oficial.
“O que vamos fazer sem ele?” era um brado constante nas semanas que se seguiram. “Estamos perdidos!”
— Sinceramente — Lysandra resmungou para o irmão mais velho, Gregor, enquanto escapuliam do casebre da família no fim da tarde. — Ele nunca mostrou nenhuma magia de verdade. Não passava de conversa fiada! Parece que as pessoas esqueceram que ele cobrava impostos altíssimos. O chefe era um ladrão mentiroso, que vivia com arrogância do alto de seu complexo, fartando-se de vinho e comida enquanto o resto de nós passava fome!
— Quieta — Gregor alertou, mas estava rindo. — Você não pode falar tudo o que pensa, pequena Lys.
— Certamente você tem razão.
— Ainda vai se meter numa encrenca por causa disso.
— Eu sei lidar com encrencas. — Lysandra apontou a flecha para o alvo em uma árvore a vinte passos de distância e atirou. Acertou bem no meio. O orgulho a aqueceu naquela noite fria, e ela olhou de relance para o irmão para ver a reação dele.
— Bela pontaria. — Ele abriu um sorriso e assumiu o lugar dela, empurrando-a com o cotovelo. — Mas a minha é melhor.
Sem esforço, ele partiu a flecha dela em duas. Foi impossível não ficar impressionada. Eles vinham praticando havia meses, em segredo. Ela precisou implorar para que o irmão compartilhasse seus conhecimentos de arco e flecha, mas ele finalmente cedera. Não era comum uma garota aprender a usar armas. A maioria das pessoas acreditava que garotas deveriam apenas limpar, cozinhar e cuidar dos homens.
O que era ridículo. Principalmente porque Lysandra era uma arqueira nata.
— Será que eles vão voltar? — ela perguntou a Gregor em voz baixa, observando a pequena vila ali perto, os telhados de palha, as paredes de barro e pedra. Saía fumaça das chaminés de muitas casas.
O maxilar dele ficou tenso.
— Não sei.
Uma semana antes, representantes do conquistador rei Gaius de aparência importante haviam visitado a vila deles, em busca de voluntários para seguir para o leste e começar a trabalhar em uma estrada que o rei queria construir rapidamente — uma estrada que passaria não só por Paelsia, mas também pelas terras vizinhas, Auranos e Limeros.
Gregor e o pai foram escolhidos para dar as boas-vindas aos homens do rei, e a dupla havia encarado os sorrisos reluzentes e palavras suaves sem se deixar intimidar ou influenciar. A vila havia recusado a oferta.
O Rei Sanguinário achava que agora os governava. Mas estava redondamente enganado. Eles podiam ser pobres, mas tinham orgulho. Ninguém tinha o direito de lhes dizer o que fazer.
Os homens do rei Gaius haviam partido sem discussão.
— Basilius idiota — Lysandra murmurou. — Ele provavelmente confiava no rei, mas nós somos espertos o suficiente para não fazer a mesma coisa. Basilius mereceu ser cortado. Era apenas uma questão de tempo. Fico enjoada só de pensar como ele foi idiota. — Sua próxima flecha desviou do curso. Ela precisava trabalhar mais a concentração. — Me conte mais sobre os rebeldes que pretendem desafiar o rei.
— Por que quer saber? Quer ser uma das poucas garotas a se juntar ao grupo?
— Talvez eu queira.
— Venha, pequena Lys — Gregor riu e a segurou pelo pulso. — Podemos procurar uns coelhos para você treinar a pontaria. Por que desperdiçar flechas em árvores e fôlego com palavras tolas? Não se preocupe com os rebeldes. Se tem alguém que logo se juntará a eles para lutar contra o rei, esse alguém sou eu.
— Não são tolas — ela murmurou.
Mas ele tinha razão — pelo menos no que dizia respeito ao treino de pontaria.
As árvores eram mesmo escassas por ali. A maior parte da região era marrom e seca, com algumas pequenas áreas verdes, onde a mãe deles e outras mulheres plantavam hortas que, a cada ano, davam cada vez menos vegetais e mais lágrimas. A mãe deles não havia parado de chorar desde que ficou sabendo da morte de Basilius.
O coração de Lysandra ficava apertado ao ver a mãe tão triste, tão inconsolável, mas tentava argumentar com ela:
— Acredito que criamos nosso próprio destino, cada um de nós — ela havia dito à mãe na noite anterior. — Não importa quem nos lidera.
A resposta foi um olhar triste, cansado e paciente.
— Você é tão ingênua, filha. Rezo para que isso não a desvie de seu caminho.
E agora a mãe orava ao chefe morto pela filha transgressora. O que não era nenhuma surpresa. Lysandra sempre trouxera muito sofrimento à mãe por não ser uma filha adequada que fazia coisas adequadas. Lysandra estava acostumada a não se encaixar no grupo de amigas — elas não conseguiam entender sua fascinação por fazer flechas até surgirem bolhas nos dedos ou continuar fora de casa até o nariz ficar tão vermelho que praticamente brilhava no escuro.
Gregor estendeu o braço para interromper os passos de Lysandra.
— O que foi? — ela perguntou.
— Veja.
Estavam a menos de dois quilômetros da vila. Diante deles havia uma pequena clareira, sem nenhuma vegetação. Estava cercada de arbustos secos e árvores desfolhadas. Uma senhora de idade, que Lysandra reconheceu como Talia, a mais velha da vila, estava parada no centro, com uma carcaça de raposa-vermelha diante de si. A mulher havia drenado o sangue do animal em um copo de madeira. Com esse sangue, desenhava símbolos na terra árida e rachada usando a ponta do dedo.
Lysandra nunca tinha visto nada parecido com aquilo.
— O que Talia está fazendo? O que ela está desenhando?
— Quatro símbolos — Gregor disse em voz baixa. — Sabe o que são?
— Não, o quê?
— Os símbolos dos elementos: fogo, ar, água e terra. — Ele apontou para cada um: um triângulo, uma espiral, duas linhas onduladas empilhadas, e um círculo dentro de outro círculo. Ele engoliu em seco. — Eu não fazia ideia. A anciã da vila… é uma bruxa. Uma Vetusta.
— Espere. Está dizendo que a velha e inofensiva Talia é uma… bruxa? — Lysandra esperou que ele começasse a rir e dissesse que estava apenas brincando. Mas ele estava falando sério. Extremamente sério.
Gregor franziu a testa.
— Eu tinha minhas suspeitas, mas aqui está a prova. Ela manteve em segredo durante todos esses anos. Você sabe o que pode acontecer com as bruxas.
Em Limeros, um dos reinos vizinhos, elas eram queimadas. Enforcadas. Decapitadas. Bruxas eram consideradas más mesmo ali em Paelsia. Má sorte. Uma maldição sobre a terra que a fazia definhar e morrer. Em Limeros, muitos acreditavam que as bruxas haviam amaldiçoado a terra e a transformado em gelo.
Lysandra se lembrou da reação incomum de Talia quando soube que o chefe havia sido assassinado pelo rei Gaius. Ela meneou a cabeça, sombriamente, limpou a poeira da saia e disse três palavras.
— E assim começa.
Todos achavam que a velha era louca, então não deram atenção às suas divagações, mas por algum motivo aquelas palavras repercutiram em Lysandra e lhe causaram um arrepio.
— O quê começa? — Ela segurou o braço da velha. — Do que a senhora está falando?
Talia virou os olhos claros e úmidos para Lysandra.
— O fim, minha querida. O fim está começando.
Demorou um tempo até Lysandra falar de novo com Gregor. Ela sentia seu coração bater forte.
— Como assim, Vetusta?
— É alguém que venera os elementos. É uma religião antiga; quase tão antiga quanto os próprios elementia. E pelo jeito — ele apontou a cabeça para a clareira — Talia está fazendo magia de sangue esta noite.
Lysandra sentiu um calafrio. Magia de sangue.
Ela já tinha ouvido falar disso antes, mas até então nunca havia tido nenhuma prova. Gregor sempre acreditou mais do que ela no que não podia ser visto e raramente era comentado — magia, bruxas, lendas. Lysandra mal ouvia os contadores de história, estava mais interessada em fatos concretos do que em histórias fantásticas. Agora desejava ter prestado mais atenção.
— Qual é o objetivo? — ela perguntou.
Naquele exato momento, os olhos de Talia se voltaram diretamente para eles, como os de um falcão, distinguindo-os na pouca luz do anoitecer.
— É tarde demais — ela disse, alto o bastante para eles escutarem. — Não consigo evocar magia suficiente para nos proteger. Só consigo ver as sombras do que está por vir. Não tenho poder para detê-los.
— Talia! — A voz de Lysandra soou incerta ao chamar a mulher. — O que está fazendo? Saia daí, isso não é certo.
— Você precisa fazer uma coisa por mim, Lysandra Barbas.
Lysandra olhou para Gregor, confusa, e voltou a olhar para Talia.
— O que quer que eu faça?
Talia estendeu as mãos cobertas de sangue ao lado do corpo, arregalando cada vez mais os olhos, como se tivesse visto algo amedrontador ao seu redor. Algo realmente terrível.
— Corra!
No mesmo instante, uma enorme flecha flamejante cortou o ar e acertou Talia bem no centro do peito. Ela cambaleou e caiu no chão. Suas roupas pegaram fogo antes que Lysandra conseguisse entender o que estava acontecendo.
Lysandra agarrou o braço de Gregor.
— Ela está morta!
Ele ergueu a cabeça rapidamente e olhou na direção de onde tinha vindo a flecha, depois puxou Lysandra para o lado a tempo de desviar da outra flecha apontada diretamente para eles, que acabou acertando uma árvore.
— Temia que isso fosse acontecer.
— Isso o quê? — Lysandra vislumbrou uma figura a uns cinquenta passos de distância, armada com arco e flecha. — Ele a matou! Gregor, ele a matou! Quem é ele?
A figura havia localizado os dois e começado a persegui-los. Gregor praguejou alto e a agarrou pelo pulso.
— Vamos, precisamos correr!
Ela não discutiu. De mãos dadas, correram de volta para a vila o mais rápido possível.
Estava em chamas.
O caos havia se instalado rapidamente pelo local. Gritos horrorizados de medo e dor cortavam o ar — gritos de moribundos. Vários homens de uniforme vermelho galopavam pelas ruas, segurando tochas usadas sem piedade para incendiar cada casebre. Moradores corriam das casas em chamas, tentando escapar de uma morte tórrida. Na outra mão, os guardas levavam espadas afiadas e golpeavam muitos, atravessando carne e osso.
— Gregor! — Lysandra gritou quando fizeram uma parada abrupta, escondendo-se dos soldados atrás de um casebre de pedra. — O rei Gaius… Isso é obra dele! Ele está matando todo mundo!
— Nós dissemos não a ele. Ele não gostou da resposta. — Gregor a segurou pelos braços, olhando-a fixamente nos olhos. — Lysandra, irmãzinha. Você precisa ir. Precisa fugir daqui.
O fogo aquecia o ar, transformando o anoitecer em uma claridade aterrorizante ao seu redor.
— Do que você está falando? Eu não posso ir!
— Lys…
— Preciso encontrar a mamãe! — Ela se soltou de Gregor e correu para a vila, desviando dos obstáculos no caminho. Ela parou do lado de fora de sua casa, agora engolida pelo fogo.
O corpo de sua mãe estava perto da entrada. O de seu pai estava a apenas dez passos de distância, caído em uma poça de sangue.
Antes que ela pudesse absorver totalmente o horror daquilo, Gregor a alcançou. Ele a agarrou e jogou sobre o ombro, correndo para fora dos limites da vila antes de deixá-la cair desajeitadamente no chão. Ele jogou o arco e algumas flechas para ela.
— Eles estão mortos — ela sussurrou. Seu coração parecia uma pedra que havia caído sobre o estômago.
— Eu estava prestando atenção enquanto corria. Os guardas do rei estão reunindo todos os sobreviventes para obrigá-los a trabalhar na estrada. — A voz dele falhou. — Preciso voltar para ajudar os outros. Vá… Encontre os rebeldes. Faça o que puder para impedir que isso aconteça em outros lugares, Lys. Você entendeu?
Ela sacudiu a cabeça, os olhos queimando por causa da fumaça e das lágrimas de ódio.
— Não, eu não vou deixar você! Você é tudo o que me resta!
Gregor segurou o queixo dela com força.
— Venha comigo — ele resmungou — e eu mesmo cravo uma flecha no seu coração para livrá-la do destino dos nossos amigos e vizinhos.
E então se virou e correu de volta para a vila.
Tudo o que Lys podia fazer era vê-lo partir.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!