13 de agosto de 2018

Capítulo 9

REI GAIUS
O SANTUÁRIO

O rei sentiu sua presença antes que ela se revelasse na sala simples e sem janelas que já havia se tornado um território familiar para ele.
— Você me deixou esperando muito tempo.
Ele nem tentou disfarçar o tom de impaciência em sua voz.
— Peço desculpas, vossa majestade — ela disse com delicadeza. — Por favor, diga-me que fui digna da espera.
Ele deu meia-volta e a examinou dos pés à cabeça. Ela usava um vestido que parecia feito de puro ouro. Pele impecável, longos cabelos dourados, olhos que pareciam safiras perfeitas. Era a mulher mais deslumbrante que ele já havia visto, sem exceção.
Sua última amante fora uma bruxa mortal. Essa era uma deusa imortal. Ou o mais próximo disso que ele já tinha visto.
— Bela Melenia — ele falou. — Eu poderia esperar uma eternidade para ser agraciado com apenas mais um sonho com você.
Parecia impróprio mentir para uma quase-deusa, mas as mulheres sempre reagiam bem a palavras lisonjeiras.
— Mas isso é mais do que apenas um sonho. Muito mais. — Um sorriso surgiu em sua boca exuberante, e o olhar dele demorou-se ali por um instante. Naquela noite, no entanto, sua necessidade de informação estava acima de qualquer outra coisa que pudesse desejar daquela etérea criatura.
— Eu sei que você é real. Que o que me diz é real. Se não soubesse, não teria considerado fazer o que você me pediu.
— É claro que não. — Melenia subiu lentamente a mão pelo braço dele, depois pelo peito. — E você tem feito tudo direitinho com a minha estrada, meu rei. Mas… há um problema.
— Problema?
— O tempo está acabando. Deve agir rápido para terminá-la.
Uma onda de frustração se formou dentro dele, mas o rei não deixou transparecer em seu rosto.
— A estrada está sendo construída pelas mãos de mortais, o máximo deles que consegui reunir. Está sendo feita o mais rápido possível.
Algo brilhou nos olhos azuis dela, algo desagradável, mas logo desapareceu, e um sorriso tomou seus lábios novamente.
— É claro que sim. Recebi de Xanthus alguns relatórios do progresso também. Mas o homem quase não dorme, então às vezes é difícil entrar em contato. O bom é que confio nele cegamente.
Xanthus. O engenheiro responsável por mapear a estrada e liderar a construção. Ele era essencial ao processo, habilidoso, esperto e dedicado. Dedicado a Melenia.
Xanthus era um vigilante exilado que aquela bela imortal tinha sob seu comando. A magia da terra que ele ainda possuía depois de duas décadas vivendo no mundo mortal era fundamental para a construção da Estrada Imperial em aspectos que Melenia ainda não havia revelado.
— Peço desculpas pela minha impaciência — Melenia disse com calma —, mas já esperei tanto… E agora que tudo está começando a se alinhar e estou vendo provas de nossas ações, sei que há apenas uma pequena janela de oportunidade para conseguirmos o que queremos.
— Provas? Que provas você tem?
— Sinais, meu rei. Sinais incríveis de que tudo está se alinhando como deveria. Peças se encaixando exatamente como era para ser. Palavras ditas na hora certa; conexões feitas; sussurros escutados por ouvidos ávidos. — Seu sorriso se abriu para compensar as palavras enigmáticas. — O que pode parecer uma série de coincidências para um imortal não passa do momento perfeito. Um sinal de que tudo está correndo como deveria.
Seu belo sorriso não foi suficiente para abrandar a frustração dele.
— Preciso de mais, Melenia. Conte mais.
Ela passou por ele.
— Farei melhor que isso. Eu vou mostrar, meu rei, o que precisa ver para ser incentivado a acelerar o processo.
Ele se virou e viu uma mesa redonda aparecer sobre o chão de mármore preto no centro da grande sala. Foi até ela e viu o mapa de Mítica na superfície. Era uma imagem familiar, já que havia um mapa idêntico no palácio limeriano.
Melena passou o fino indicador sensualmente ao longo da costa oeste, como se estivesse acariciando um amante.
— É tudo seu. Cada quilômetro. Cada mortal. Mítica pertence a você agora, mesmo sem mais magia do que já tem à sua disposição.
A menção à magia trouxe a atenção dele de volta a seu rosto impecável.
— Quando ela vai acordar?
Ele havia usado a magia de Lucia para derrotar o rei Corvin antes de Melenia se revelar a ele. Antes de atraí-lo para um sonho como esse e explicar quem era e o que queria dele. Precisava da assistência de um mortal poderoso, e entre todos do mundo ela o havia escolhido.
— A jovem feiticeira acordará quando for a hora — Melenia respondeu.
Gaius desceu o punho sobre o mapa.
— Não é bom o bastante. Preciso que ela acorde agora. Uma promessa de magia futura não me convém quando a magia que já tenho em meu poder é inútil.
Muitos se acovardariam diante de sua ira — quer dizer, aqueles que possuíam inteligência e senso de autopreservação.
Melenia era diferente. Ela não temia nada.
— Acha que vou me curvar diante de você e implorar o seu perdão, vossa majestade? — Ela continuou sorrindo, como se ele a divertisse. O rei ficou ao mesmo tempo furioso e intrigado. Nem Sabina havia sido tão ousada. — Eu não me curvo diante de ninguém.
— Os que não se curvam diante de mim acabam mortos.
— Sou imortal; a primeira de minha espécie. Vivo há mais de quatro mil anos. Vi este mundo mudar e evoluir desde seu início. Vi o nascimento de reis mortais e suas inevitáveis mortes tantas vezes que já se tornou tedioso. Mas isso foi antes de você. Posso contar um segredo, o motivo de ter recorrido a você em primeiro lugar com meus planos? Não foi apenas uma agradável coincidência, meu rei.
— Você disse que a estrada levaria à Tétrade, que sua localização me seria revelada nas Montanhas Proibidas e que Xanthus me manteria informado sobre tudo. — A frustração se acumulou dentro dele, vertiginosa como lava. — Mas não recebi notícias de nada que tenha sido encontrado nas montanhas até agora. Nenhuma pista, nenhum sinal. Onde devemos procurar? Preciso de mais provas de que está me dizendo a verdade, Melenia.
— E eu preciso que você confie em mim.
— Não confio em ninguém.
— Ninguém? Nem mesmo em seu filho, que acredita ser tão parecido com você?
— Ele ainda é jovem. Tem muito mais a me provar antes de conquistar totalmente minha confiança.
— E ainda assim contou a ele sobre mim.
— Contei apenas que tenho uma nova conselheira. Ele não está pronto para acreditar em mais nada. Ainda não. Mas se existe alguém para quem eu contaria sobre você, sobre tudo, seria ele.
Aquela bela imortal devia ter espiões escutando as conversas particulares dele. Sua espécie podia assumir a forma de falcão para observar os mortais. Mas não a própria Melenia. Ela estava aprisionada no santuário, como todos os vigilantes mais velhos. Ela não tinha como sair, não tinha nenhum contato com o mundo mortal, exceto em sonhos como aqueles.
— Sua filha adotiva vai acordar, mas não agora. Ela é essencial para o meu plano, para o seu futuro. Para a sua… profecia.
Ele ficou imóvel.
— Minha profecia?
Melenia assentiu, com um toque frio e suave na linha do maxilar dele.
— Sim. Eu vi com meus próprios olhos, então sei que é verdade.
— Que profecia?
Quando ela respondeu apenas com um sorriso dissimulado, ele a pegou pelos braços com força suficiente para fazer qualquer mulher normal se acovardar.
— Diga-me — ele esbravejou.
— Solte-me e eu direi, meu rei.
O desejo de machucá-la, de lhe causar dor e forçá-la a falar a verdade era forte, mas ele sabia que não ajudaria em nada. Ela parecia tão delicada em estatura, como se seus ossos fossem se quebrar como galhos secos com a mínima pressão. Mas ela não era delicada — muito pelo contrário. Ele precisava se lembrar disso. Se a maltratasse, com insultos ou ações, ela poderia nunca mais falar com ele.
Ele não estava disposto a correr esse risco. Ainda não.
Então a soltou.
— A profecia diz que um dia haverá um rei mortal que governará todo este reino. — Ela passou a mão sobre o mapa de Mítica novamente. — Um rei que descobrirá uma magia tão grande que o transformará em um deus imortal. E que ele governará este reino tendo uma deusa como sua rainha. E que eles, por sua vez, dominarão tudo, este mundo e tudo o que existe além dele, e todos, mortais ou imortais, irão se curvar diante deles. É você, meu rei. E eu serei sua rainha.
As linhas brilhantes do mapa de Mítica se alastraram, descendo pela mesa e correndo pelo piso de mármore negro como linhas de fogo, iluminando as bordas de outras terras, outros reinos e impérios além do mar e depois dele. Gaius seguiu a trilha até ela desaparecer na escuridão que os cercava.
— Tudo isso — ele sussurrou.
— Você está destinado a ser um deus imortal. Ninguém jamais teve tanto poder quanto você terá. O próprio universo se encolherá de medo diante de você.
Ele assentiu lentamente. As palavras dela eram mel, tão doces e tão verdadeiras. Elas alimentavam algo em seu íntimo, que estava faminto havia muito tempo.
— Eu sabia. Sabia que estava destinado à grandeza.
— Sim. Então agora entende que deve aumentar a velocidade da construção da estrada para podermos encontrar essa magia. O sangue derramado em Auranos, em Paelsia, o efeito que teve sobre os elementos… é o primeiro sinal pelo qual eu esperava.
— De quê?
— De que está funcionando. — Seus olhos praticamente brilhavam, assim como o mapa infinito que os cercava naquele mar de sombras. — Vamos encontrá-la, juntos.
— A Tétrade. — Ele sentiu a boca seca. Poderia mesmo estar tão perto? — Você sabe onde os cristais estão escondidos.
— A localização esteve protegida esse tempo todo dos outros de minha espécie. Mas chegou a hora. Aqui, agora. E estou certa de que é você quem trará tudo à vida.
A respiração dele estava acelerada, o coração batia mais forte do que jamais batera. Ele queria aquilo mais que tudo.
— Estou preparado para fazer o que for preciso.
Ela assentiu com a cabeça.
— Sangue é essencial para tudo isso. Ele deve continuar sendo derramado. Muitos vão morrer, muitos terão que morrer para nosso sucesso.
— Então muitos morrerão… minha rainha. Quantos forem necessários.
— Espero que esteja falando sério.
— Estou.
Melenia havia contado tudo o que ele precisava saber, tudo que ele já sabia em certa medida. Ele havia nascido para uma grandeza ainda maior do que a que já havia conquistado. Havia nascido para ser um deus imortal, o rei mais poderoso que o universo já conheceu. Tudo e todos se curvariam diante dele.
Para sempre.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!