13 de agosto de 2018

Capítulo 8

LYSANDRA
PAELSIA

Lysandra deixou o acampamento rebelde ao anoitecer, levando uma tocha da pilha de suprimentos para impedir que as sombras das Terras Selvagens a envolvessem como um nó. Nas semanas que se passaram desde que sua vila fora atacada, desde a última vez que vira seus pais vivos e falara com Gregor, ela tentara fortalecer sua mente e espírito. E havia funcionado. Mesmo naquela densa floresta que enchia todos — exceto os de alma mais sombria — de terror, ela se sentia ousada e destemida.
Ela se assustou quando ouviu o uivo de alguma fera nas redondezas. Um tremor percorreu seu corpo, e ela segurou a tocha com mais força.
Sim, muito ousada e destemida.
Pelo menos era o que tentava convencer a si mesma.
Ela passou por uma clareira iluminada por uma fogueira, numa área que havia ficado mais escura com o cair do dia. Um trio de garotos arrastava a carcaça de um cervo que acabara de ser abatido.
O acampamento era composto por abrigos desorganizados e redes amarradas às árvores como ninhos de pássaros. Muitos garotos e algumas garotas determinadas agora chamavam aquilo de lar. Um refúgio longe do pulso de ferro do rei Gaius. Durante o dia, os rebeldes saíam em pequenos grupos — caçando, explorando, roubando — para beneficiar os demais, mas à noite ficavam juntos. Era mais seguro ficar em grupos grandes quando se escolhia um lugar tão perigoso e selvagem como lar. E ali eles treinavam em combates corpo a corpo, assim como com espada, adaga e arco, para que pudessem sair e instaurar o caos em Auranos, tentando espalhar notícias sobre as mentiras do rei e influenciar todos os que cruzassem seu caminho a passar para o lado dos rebeldes.
Infelizmente, houve poucas vitórias.
E pior: Jonas se recusava a organizar um ataque rebelde aos campos de trabalho na estrada, temendo a derrota e as perdas. Lysandra já estava cansada de pedir. Mas não tão cansada como estava de sentir a falta de seu irmão, um sentimento tão violento que chegava a doer. Será que Gregor ainda estava vivo? Se ninguém ia lhe ajudar a fazer o que era certo, ela precisava cuidar do assunto com as próprias mãos.
No entanto, não demorou muito até ela se dar conta de que dois rebeldes muito específicos a haviam seguido para fora do acampamento.
Brion estava ofegante quando a alcançou.
— Você anda rápido.
— Não rápido o bastante, aparentemente — ela resmungou.
— Para onde está indo?
— Embora.
— Vai nos deixar?
— Vou.
O rosto dele desabou.
— Lys, não vá. Eu preciso… Hum, quer dizer, nós precisamos de você aqui.
Ela suspirou. O garoto era como um cachorro amigável, sempre ávido por qualquer palavra gentil que ela pudesse dizer. Se tivesse rabo, certamente o abanaria se ela simplesmente olhasse em sua direção. Ela não queria, mas não podia evitar gostar de Brion Radenos.
Mas também havia o outro.
— Está fugindo? — Ela fez uma careta ao ouvir a voz familiar de Jonas. — Sem nem dizer adeus?
Durante uma semana ela havia vivido com os rebeldes, comido com eles em volta da fogueira, caçado com eles, treinado com eles. Jonas praticamente não lhe dirigia a palavra quando podia evitar, porque ela sempre queria falar de suas ideias e planos sobre o que deveria ser o foco da atenção dos rebeldes.
— Adeus — ela disse, olhando para trás e abrindo um sorriso curto e falso ao líder rebelde.
Ela voltou a prestar atenção no caminho à sua frente. Seria uma trilha longa e traiçoeira pelas Terras Selvagens até alcançar seu destino. Assim que chegasse à primeira vila em Paelsia, decidira, encontraria um cavalo.
— Você vai explorar o campo de trabalho da estrada sozinha?
Ela continuou andando.
— Sim, Jonas, é exatamente para onde estou indo, já que se recusa a fazer qualquer coisa para ajudar nosso povo.
Ele podia ter se recusado a organizar um ataque imediato, mas pelo menos tinha obtido mais informações sobre a localização exata dos pontos de construção da estrada em Paelsia. Muitos que não desejavam se juntar totalmente aos rebeldes às vezes estavam dispostos a sussurrar segredos se não houvesse chance de serem descobertos.
Lysandra pretendia investigar o campo localizado perto do complexo abandonado do chefe Basilius, o local mais próximo de sua vila destruída. Era onde esperava encontrar pessoas conhecidas — aqueles que haviam sobrevivido. Se conseguisse libertar qualquer um deles, ajudar qualquer um deles, precisava tentar. E talvez Gregor estivesse lá. Mas a dolorosa esperança apertava demais seu peito, então afastou o pensamento.
— Não vá, Lysandra — Jonas disse. — Precisamos de você no acampamento.
Isso a fez parar e olhar para ele com desconfiança, afastando um galho de árvore para enxergá-lo melhor em meio à escuridão.
— Você precisa de mim, Jonas?
— Você provou seu valor como rebelde, assim como suas habilidades com o arco e flecha. Não podemos perdê-la.
As palavras dele a surpreenderam, pois tinha a impressão de que ele não dava a mínima para ela.
— Eu vou voltar. — Ela não tinha certeza de que voltaria, mas o pedido inesperado de Jonas arrancou as palavras de seus lábios. — Mas preciso ver com meus próprios olhos o que aconteceu com o povo da minha vila. Não posso esperar nem mais um dia.
— Não posso proteger você se fugir e agir por conta própria.
— Não preciso da sua proteção. — Ela tentou manter a voz firme e controlada, mas a sugestão de que ela era uma menina frágil que precisava de um garoto forte para protegê-la era irritante. — Não se preocupe comigo, Agallon. Gaste seu precioso tempo se preocupando com a princesa Cleo. Talvez ela decida participar do seu próximo esquema que não colocará ninguém em risco de derramar sequer uma gota de sangue.
Ela distorceu as palavras como se fossem uma arma e conseguiu fazer Jonas recuar. Para Lysandra, as decisões dele eram ridículas. Afinal, cada rebelde sabia da possibilidade de perigo ao entrar para o grupo!
Jonas lançou a Brion um olhar fulminante. Lysandra havia aprendido rápido que algumas palavras gentis, um simples toque no braço ou um sorriso fariam Brion comer na mão dela e lhe contar informações secretas. Como a visita clandestina de Jonas à princesa, que só resultou em fracasso.
— Devíamos ir com ela — Brion disse com firmeza, ignorando o olhar feio de Jonas. — Precisamos ver de perto como o rei está tratando nosso povo.
O coração de Lysandra inflou.
— Obrigada, Brion.
Ele a olhou nos olhos e lhe ofereceu um leve sorriso.
— Faço qualquer coisa por você, Lys.
Jonas ficou em silêncio, com uma expressão dura ao encarar os dois.
— Está bem — ele disse finalmente. — Você e Brion esperem aqui enquanto volto ao acampamento e deixo Ivan no comando enquanto estivermos fora. Nós iremos juntos e voltaremos juntos.
Lysandra não sabia ao certo por que a decisão daquele líder rebelde teimoso lhe pareceu uma enorme vitória. Mas foi o que sentiu.
Durante a viagem de dois dias, o trio encontrou um enorme urso negro que apareceu diante deles como um demônio, barrando seu caminho. Brion conseguiu escapar por pouco de suas garras afiadas como navalhas, e Lysandra sentiu o calor de seu bafo no pescoço ao tirar o rapaz do caminho do animal bem a tempo. Depois, também encontraram um pequeno acampamento de foras da lei que, diante da oferta de se juntarem aos rebeldes, desembainharam as adagas e ameaçaram cortar os três em pedacinhos e comê-los no jantar.
Eles encararam aquilo como um não convicto.
Finalmente saíram da floresta e seguiram para o leste de Paelsia — os picos irregulares das Montanhas Proibidas já eram visíveis no horizonte, subindo altos e ameaçadores entre as nuvens cinzentas no céu.
O complexo do chefe Basilius era uma área murada com cabanas de barro ou pedra e casebres. Todos que viviam ali haviam se dispersado após o assassinato do chefe, deixando o local deserto. Havia sido transformado então em um ajuntamento temporário de barracas para os guardas e soldados que inspecionavam a área.
Ali, o solo ainda tinha alguma vegetação e restavam algumas folhas nas árvores. Ao sul, a fronteira com as Terras Selvagens ficava a meio dia de viagem. A oeste, na direção do Mar Prateado, ficavam pequenas vilas, incluindo o que sobrara da vila de Lysandra.
Repleta de trabalhadores paelsianos, a estrada do rei cortava o solo como uma ferida aberta. Lysandra achava incrível a rapidez com que estava sendo construída, como se o rei tivesse passado o dedo sobre a paisagem paelsiana empoeirada e o contorno da estrada tivesse aparecido como mágica.
Mas não havia magia ali. Apenas suor. Apenas dor e sangue.
Os três olharam com ódio para o que acontecia diante de si, agachados e escondidos em uma floresta cheia de plantas perenes perto do complexo e do campo de trabalho.
Um rio débil corria pela terra empoeirada paralela à estrada, a única fonte de água potável que a região tinha para oferecer. Depois dele, literalmente milhares de paelsianos formavam uma fila ao longo de um trecho de mais de três quilômetros para trabalhar. Gente de todas as idades — de jovens a velhos. Dois garotos paelsianos trabalhavam com ardor a uns trinta passos de distância dos rebeldes escondidos, serrando um grande tronco de árvore. Outros carregavam pedras pesadas, que haviam sido cuidadosamente esculpidas até ficarem planas, para a frente da estrada, fora do campo de visão de Lysandra, que se espremia junto a uma árvore, cuja seiva na casca deixava um rastro grudento em sua pele.
Sempre que alguém diminuía o passo, ouvia-se o estalar do chicote dos guardas, ferindo brutalmente as costas desnudas.
— Estão vendo? — Lysandra sussurrou. — Eu não estava mentindo. É assim que são as coisas por aqui. É assim que nosso povo está sendo tratado.
— Por que estão sendo maltratados desse jeito? — A voz de Brion estava rouca. — Ninguém consegue trabalhar nesse ritmo sem descansar.
— Para esses guardas, eles não são pessoas. São animais que servem a um propósito. — Lysandra vasculhou a área até ter que contrair os olhos, procurando rostos conhecidos, e principalmente procurando Gregor. Seu olhar finalmente voltou-se para a expressão tensa de Jonas. Ele olhava para a cena à sua frente com repulsa. Sua mão estava sobre a adaga cravejada de joias em sua cintura, como se estivesse louco para usá-la.
— Precisamos de informações — Jonas finalmente disse. — Mas como vamos chegar perto o bastante para falar com alguém sem que os guardas nos vejam?
— Eles mantêm os escravos na linha por intimidação e ameaça. — Brion franziu a testa. — Mas não há correntes, não há muros.
Lysandra não estava mais ouvindo. Ela havia localizado um rosto conhecido, e seu coração começou a bater forte e rápido. Ela esperou até um guarda a cavalo virar as costas, para não vê-la se aproximar, e então saiu da proteção das árvores e se juntou aos trabalhadores paelsianos.
— Vara! — Lysandra correu até a garota, que olhou para ela com os olhos arregalados e assustados. — Você está viva!
— O que você está fazendo aqui? — Vara sussurrou.
A área estava tão cheia quanto uma pequena cidade e em plena atividade. Para todos os lugares que Lysandra olhava, havia pilhas de madeira e pedra altas como casas. Ladeando a estrada havia grandes barracas onde os guardas limerianos podiam fazer intervalos e fugir do sol forte.
Lysandra puxou Vara para trás de uma das barracas para se protegerem de um guarda próximo.
— Onde está Gregor? — Quando a menina não respondeu, ela a sacudiu. — Onde ele está?
— Eu… eu não sei. Não o vi.
O coração de Lysandra se contorceu.
— Quando o viu pela última vez?
— Na vila, quando nos atacaram. — Sua voz falhou, e seus olhos se encheram de lágrimas. — Lysandra, tanta gente morreu!
Era apenas a confirmação do que ela já sabia ser verdade.
— Quantos ainda estão vivos?
— Não sei. Você não devia estar aqui! Eles podem capturar você também! — Ela mordeu o lábio inferior, franzindo a testa. — Mas… você é uma boa guerreira. Eu sei disso. Você pode nos ajudar.
— Ajudar vocês? Em quê?
— Na nossa fuga. — Vara assentiu firmemente com a cabeça, mas Lysandra notou um olhar estranho, transtornado em seus olhos. — Já era para ter acontecido. Só estou esperando o sinal. Você é o sinal. Você precisa ser. Está na hora de nos libertarmos.
— Do que você está falando? Existe mesmo um plano de fuga? — O coração de Lysandra ficou aliviado de pensar que seu povo estaria planejando uma revolta ali, mesmo contra tanta oposição armada. Jonas estava certo sobre uma coisa: atacar um lugar com tantos guardas resultaria em muitas, muitas mortes, tanto de rebeldes quanto de escravos. E certamente não havia nenhuma garantia de vitória.
A maioria dos paelsianos aceitava a vida como lhes era apresentada, acreditando que a sorte e o destino eram imutáveis. Jonas era um dos poucos que ela conhecia que tinha algo dentro de si — algo que ia contra essa crença. Aquela certeza reluzia na pele dele, e Lysandra sabia que era aquilo que o destacava como líder. Jonas era um líder. Ele acreditava que o destino não era algo a ser aceito de cabeça baixa, mas desafiado a todo instante.
O fato de Vara também querer se libertar era um sinal de que havia uma chance de os outros fazerem o mesmo.
— Sonhei que seria eu — Vara sussurrou. — Que mataria todos eles.
Ela se virou, e Lysandra se contorceu ao ver os ferimentos vermelhos de chicote nas costas da menina. O que restava de seu vestido estava em farrapos.
Ainda assim, havia algo muito errado no modo como Vara falava.
— É claro que vai. Eles vão morrer pelo que fizeram, isso eu prometo.
Vara olhou por cima do ombro e abriu um grande sorriso para Lysandra, o que lançou um calafrio pelo seu corpo.
— Observe.
— Observe? Observe o quê? Vara, do que está falando?
Pegando uma pedra mediana e irregular do chão, Vara começou a andar na direção de um guarda. O coração de Lysandra passou a bater descontroladamente. O que ela estava fazendo?
— Senhor… — Vara disse.
— O que foi? — O guarda olhou para ela.
Sem pensar duas vezes, ela atirou a pedra no rosto do guarda. Ele soltou um urro de dor, e seu nariz e seus dentes foram esmagados com a força do golpe. Ela se abaixou sobre o homem quando ele caiu no chão e continuou a golpeá-lo com a pedra, repetidas vezes, até seu rosto se reduzir a uma massa vermelha. Lysandra observou de trás da barraca, horrorizada, enquanto outros guardas davam o alarme. Eles correram na direção do ataque, empurrando outros trabalhadores para passar, espadas em punho.
Não houve hesitação quando um guarda atravessou o corpo de Vara com a espada. Ela deu um grito agudo, soltando a pedra ensanguentada ao cair de lado no chão. Morta instantaneamente.
Lysandra cobriu a boca com a mão para não emitir nenhum som, mas um grito sufocado escapou de sua garganta. Outros escravos não fizeram tanto silêncio. Muitos começaram a gemer e gritar ao verem o sangue, o guarda morto, a menina morta.
Um homem mais velho, musculoso e barbudo, rugiu de fúria. Lysandra levou apenas um instante para reconhecê-lo como o pai de Vara. Ele correu na direção dos guardas e arrancou a espada da mão de um deles. Seu golpe foi rápido e brutal, cortando a cabeça do guarda bem ali onde ele estava.
Em poucos instantes, mais de trinta paelsianos se juntaram à briga em uma tentativa de matar a maior quantidade de guardas possível — com pedras, cinzéis, com as próprias mãos e os dentes. Outros escravos ficaram de fora, observando com medo e choque estampados no rosto.
Um enxame de novos guardas se aproximou correndo. Um deles ergueu o braço para dar uma chicotada em um menino, mas logo cambaleou para trás. Com os olhos arregalados, ele olhou para a flecha que perfurara seu peito, logo abaixo do ombro. Seu olhar voltou-se para Lysandra.
Quando ele abriu a boca para gritar, para apontá-la para os outros guardas como alvo, outra flecha empalou seu olho direito. Ele caiu no chão sem emitir nenhum som.
A primeira flecha havia saído do arco de Lysandra. Seus dedos já calejados ficaram esfolados pela velocidade com que pegou a flecha e a lançou. Mas a segunda…
Brion e Jonas seguiram rapidamente na direção dela. Jonas atirou outra flecha apontada para um guarda que se aproximava, atingindo-o na garganta.
— Pegue-a — Jonas gritou.
Brion não discutiu. Pegou Lysandra e a jogou sobre o ombro. Ela estava tremendo muito e não conseguia pensar direito. Não conseguia ver direito. Ela tentou se soltar, fincando as unhas em suas costas.
— Me solte! Eu preciso ajudar!
— E deixá-la morrer? — Brion retrucou. — De jeito nenhum.
Vara havia dado início àquilo sem pensar. Não havia nenhum plano organizado ou revolta. A garota estava louca. As mortes que havia presenciado na vila e todos os maus-tratos que tinha sofrido ali… a fizeram enlouquecer.
Jonas abriu o caminho, usando sua adaga cravejada de joias, desbravando a passagem por entre os guardas que apareciam em seu caminho, para que os três pudessem voltar para a região coberta de árvores. Uma vez escondidos pelos galhos, Brion finalmente colocou Lysandra de volta no chão.
Ela ficou olhando para o campo, horrorizada. Era impossível contar os corpos que caíam sangrando, dilacerados, cercados por massas de escravos revoltos desordenados e guardas tentando restaurar a ordem. Trinta, quarenta… talvez mais tenham sido massacrados em poucos minutos. O sangue tanto de paelsianos quanto de limerianos era absorvido pelo solo árido.
Era um massacre.
— Você está bem? — Brion estava gritando com ela, mas sua voz parecia a quilômetros de distância. — Lys, escute! Você está bem?
Finalmente, ela olhou para ele, para seus olhos azuis repletos de preocupação.
— Eu estava tentando ajudar — ela disse com a voz fraca.
Alívio passou pelos olhos dele, seguido de raiva.
— Você me deixou preocupado. Não faça mais isso comigo, está ouvindo?
Uma brisa soprou em seu rosto, mas até então o ar estava calmo. Brion também sentiu e olhou para a frente. Uma espécie de rugido se aproximava, tornando-se cada vez mais alto.
— O que é isso? — ele perguntou.
Algo estranho e inesperado se movimentava pela terra, juntando poeira e escombros, madeira e pedras, enquanto ganhava força. Algo que havia surgido do nada, tão de repente que ninguém notou até que se formou completamente. Um tornado. Uma massa cilíndrica que girava na direção do campo de trabalho. O vento foi ficando mais forte, jogando os cabelos de Lysandra para trás, tornando impossível até falar. De todo jeito, o barulho era tão alto que eles não seriam capazes de ouvir um ao outro. Nuvens escuras de tempestade rapidamente se formaram, bloqueando a luz do sol em segundos.
Tanto escravos quanto guardas correram para fugir, mas alguns foram tragados pelo tornado, desaparecendo por um tempo até serem jogados para fora, atingindo o solo como bonecos quebrados.
— Está se aproximando! — Jonas gritou. Brion pegou a mão de Lysandra e eles começaram a correr, mas não foram muito longe antes que a força do vento os derrubasse. Árvores foram arrancadas pela raiz e arremessadas no ar como flechas.
O rugido do tornado era como um trovão — porém mais ensurdecedor. Mais aterrorizante. Lysandra não conseguia recuperar o fôlego, não conseguia pensar. Alguma coisa a chicoteou no rosto, cortando sua bochecha, e ela sentiu o calor de seu sangue. Percebeu que estava agarrada a Brion e Jonas por medo de ser arrastada e levada pelo vento. Por um instante, teve certeza de que isso aconteceria.
Ali perto, uma árvore de quase dez metros foi arrancada da terra e desabou no chão da floresta, errando-os por pouco. Ela ficou encarando a árvore por cima do ombro de Brion, consciente de que poderia tê-los matado esmagados.
Parecia durar uma eternidade, mas finalmente o tornado foi desacelerando cada vez mais até desaparecer completamente pouco antes de alcançá-los. O barulho estrondoso se reduziu a nada. Mais alguns momentos de uma estranha quietude se passaram até que os pássaros recomeçaram a gorjear, e os insetos, a zumbir. Gritos podiam ser ouvidos no campo, a uns cem passos de distância, o de todos cambaleavam após o desastre.
Dois guardas os viram em meio às árvores caídas e saíram em disparada do resto do pandemônio. Eles correram para a floresta, espadas na mão.
— Precisamos ir — Jonas resmungou. — Agora.
Segurando o arco com firmeza, Lysandra se levantou, trêmula, e adentrou a floresta atrás de Brion e Jonas, botas afundando na terra solta e nas raízes emaranhadas.
— Parem em nome do rei! — um guarda gritou.
Um galho atingiu o rosto de Lysandra e ela sentiu o gosto férrico de seu próprio sangue enquanto o atirava de lado. Eles não podiam diminuir o passo. Depois do que havia acontecido na estrada, os guardas cortariam a garganta dos três imediatamente, deduzindo que eram escravos que haviam escapado durante o desastre.
Os gritos dos guardas se extinguiram, mas os três continuaram correndo o quanto puderam até finalmente diminuírem a velocidade.
— O que aconteceu? — Brion disse com a expressão tensa. — O que acabou de acontecer lá atrás?
Lysandra notou que estava tremendo.
— Qual parte?
— Tudo. Aquele tornado…
— Uma coincidência — Jonas disse. Ele estava sem fôlego, mas continuou andando rápido.
— É muito estranho para ser coincidência. — Brion coçou a parte de trás da cabeça. — Baldes de sangue derramado resultam em algo assim? Do nada? Minha avó costumava contar umas histórias… sobre bruxas, sobre magia de sangue…
Lysandra o encarou com os olhos arregalados.
— Eu vi uma bruxa assim pouco antes de minha vila ser atacada. Ela estava usando magia de sangue para tentar ver o futuro, eu acho. Meu irmão disse que ela era uma Vetusta, alguém que cultuava os elementos. Ela… ela está morta agora. Assim como muitos outros.
— Não acredito em magia — Jonas disse, com firmeza. — A crença na magia foi o que manteve nosso povo inerte durante séculos, o que os impede de contra-atacar como deveriam. Eu só acredito no que posso ver com meus próprios olhos. O clima paelsiano nunca foi previsível. E isso explica tudo. Mas quanto ao campo de trabalho… agora vi o que o rei fez. Você estava certa, Lysandra.
Depois do que ela vivenciou, a confirmação de Jonas não era de grande consolo.
— Enquanto o rei viver, a estrada continuará a ser construída, e nosso povo morrerá todos os dias.
— Precisamos de algo para usar contra o rei. — Jonas franziu a testa. — Algo que tenha valor para ele e que possa ajudar a transferir algum poder para os nossos rebeldes. Algo que nos dê a chance de atingi-lo, retardá-lo, para que tenhamos a chance de detê-lo completamente. — Ele ficou em silêncio por um instante, mas logo seus olhos castanhos encontraram os dela. — Eu sei o quê.
Ela o encarou por um instante.
— O quê?
— Não o quê. Quem. A princesa Cleiona.
— Ela de novo? O que tem ela dessa vez?
— Não, escute. Não acho que ela sempre será um trunfo para o rei, mas no momento ela é, principalmente no que diz respeito a seu novo domínio sobre Auranos. Se ela não tivesse valor para ele, se não representasse algo muito importante, já estaria morta. Isso a torna valiosa para nós. — Ele apertou os lábios. — Depois do que vi hoje, estou disposto a fazer o que for preciso para libertar nosso povo dessa tirania.
— Você pretende assassinar a princesa para mandar uma mensagem ao rei — Lysandra disse, quase sem fôlego.
— Jonas… — Brion parecia desconfortável com a proposta. — Tem certeza de que quer fazer uma coisa dessas?
— Não estou planejando assassiná-la. — Jonas alternou o olhar entre os dois. — Estou planejando sequestrá-la.

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