13 de agosto de 2018

Capítulo 7

MAGNUS
AURANOS

Mais um dia. Mais um discurso.
Magnus tentou ignorar o calor incessante daquele reino verde e ensolarado que deixava um rastro de suor escorrendo por suas costas, por baixo da roupa escura.
Um olhar para a fileira de guardas do palácio mostrou graus variados de desconforto em todos os rostos. Os uniformes vermelhos de tecido grosso eram feitos para o frio limeriano. Até mesmo a testa da rainha brilhava sob a luz ofuscante do dia quente.
— Hoje oficialmente damos início aos trabalhos aqui no ponto inicial da Estrada Imperial. — O rei Gaius se dirigiu a algumas centenas de pessoas reunidas no Templo de Cleiona, a três horas de carruagem do palácio. — É um prazer compartilhar este momento com todos vocês.
O rei acenou para Magnus, que entendeu a deixa e enfiou no solo a pá que lhe havia sido entregue. A multidão vibrou, e ele passou os olhos pelas pessoas mais próximas.
Nem todos estavam vibrando. Alguns observavam com os olhos apertados e expressões desconfiadas. Muitos sabiam muito bem que a estrada já estava em construção em vários pontos por toda a Mítica. Aquilo era apenas pelo espetáculo.
— Muito bem, vossa graça — Aron disse.
Magnus fez uma careta ao ouvir aquela voz esganiçada. Realmente teria sido muito mais fácil se a língua do rapaz tivesse sido cortada. Assim ele não estaria sempre tentando puxar conversas amigáveis com Magnus como se fossem iguais.
— Você acha?
— Você perfurou a terra com confiança e certeza, o que condiz com sua posição.
— Fico feliz que você pense assim. — Ele olhou diretamente para a fuinha falante. — Por que está aqui mesmo?
Aron pareceu ofendido por um instante, mas se recuperou rapidamente.
— Por vontade do rei. Ele tem sido muito gentil e generoso comigo e, é claro, eu me coloco à disposição para o que ele quiser.
— Certo. Bem, você deveria se colocar à disposição… — Magnus disse, apontando com a cabeça para o rei, cercado de nobres importantes e outros dignitários que haviam comparecido ao evento. — Bem ali.
— Sim, é claro, eu vou. Mas primeiro gostaria de…
Uma voz embriagada gritou na multidão, alto o bastante para se sobrepor à de todos os outros.
— Tolos! Todos vocês! Vocês acreditam nas promessas vazias e aceitam os presentes do Rei Sanguinário sem questionamento? Acham que ele pretende nos unir em um único reino feliz? Mentira! Ele é movido apenas por ganância e sede de poder! Ele precisa ser detido, ou estaremos todos condenados!
Todos ficaram em silêncio.
Magnus olhou na direção do pai para ver se ele tinha escutado.
Ele tinha. Com um gesto do rei, quatro guardas marcharam na direção da multidão, localizaram o homem e o arrastaram para a frente com tanta brutalidade que ele caiu de joelhos à esquerda de onde Magnus havia cavado a terra macia e gramada. Quando tentou se levantar, um guarda o empurrou de volta para o chão. A garrafa vazia que trazia na mão direita caiu.
O rei Gaius se aproximou, acenando para que Magnus e Aron também o fizessem.
O homem usava o que pareciam roupas de corte impecável que haviam se reduzido a farrapos. Um anel cravejado de joias, cheio de sujeira, envolvia seu indicador esquerdo. Seu rosto revelava uma barba escura de algumas semanas, e o cheiro era de alguém que não tomava banho pelo mesmo período. Seus olhos estavam vidrados pela quantidade de vinho que havia consumido, mas fora isso estavam fixados ferozmente naqueles que agora o encaravam.
O rei olhou para o homem.
— Como se chama?
Ele respondeu de maneira provocativa:
— Darius Larides, senhor desta terra, ex-noivo de Emilia, finada princesa herdeira de Auranos. Decidi lutar na batalha contra você. E agora minha família está morta por ter se oposto a você, e minha casa está destruída. Não há nada além de dor em meu futuro, mas garanto que o seu lhe reserva a mesma coisa! O povo daqui não vai acreditar em suas mentiras para sempre. Não vai permitir que governe incontestado. Cada vez mais forças rebeldes se reúnem enquanto conversamos. Nós auranianos não somos tão estúpidos e ensimesmados como você pensa.
A expressão do rei era indecifrável. Ele elevou a voz o bastante para ser ouvido por todos que estavam reunidos ali perto.
— O lorde Darius acredita que eu considero todos vocês estúpidos e ensimesmados. Não é verdade. São os mais sábios entre todos os seus conterrâneos por terem vindo até aqui celebrar comigo hoje. Esse lorde bebeu demais e está cheio de uma coragem insensata. Talvez outro dia ele não seria tão destemido a ponto de insultar um rei que só deseja o melhor para o seu reino.
Houve uma pausa tensa.
— Tenho certeza de que posso encontrar um bom lugar para ele no calabouço — Magnus disse, desviando o olhar como se estivesse entediado. — Ele ainda pode ter valor. Deve vir de uma família importante, se era comprometido com a mais velha das irmãs Bellos.
— Você concorda, lorde Aron — o rei perguntou —, com o que meu filho sugere?
Aron franziu a testa, como se estivesse decidindo qual era a resposta certa.
— Eu não sei, vossa graça.
Magnus olhou feio para o garoto inútil. Por que seu pai se dava o trabalho de pedir a opinião dele?
— É difícil — o rei disse, balançando a cabeça. — Mas momentos como este exigem uma afirmação resoluta. Levante-se, lorde Darius.
Puxado com brutalidade pelos guardas, o lorde se levantou. Ele voltou seu olhar de ódio para os três que o encaravam, os braços presos com força atrás do corpo.
— Você retiraria suas palavras? — o rei perguntou calmamente. — E faria um pedido púbico de desculpas pelo que disse aqui, estragando minha cerimônia com suas mentiras e seus insultos?
Magnus olhou para a faca na mão do rei, que refletia a luz do sol.
Lorde Darius também viu. Ele engoliu em seco, mas não baixou os olhos.
— Levem-me para seu calabouço fedorento. Acusem-me de traição. Eu não me importo.
O rei Gaius sorriu devagar.
— É claro que não. Mas lembre-se de uma coisa, lorde Darius, se possível…
— O quê?
— Um rei não aceita ordens de um verme.
O movimento da faca foi tão rápido que Magnus só viu um brilho de metal. No instante seguinte, sangue jorrava da garganta do lorde embriagado, e ele caía no chão.
O rei levantou a arma sobre a cabeça para mostrar à multidão.
— Um sacrifício de sangue adequado à minha estrada, para que vocês vejam com os próprios olhos. Lorde Darius era um inimigo de todos, tanto quanto qualquer rebelde comum. Desejo muito ser um rei benevolente a todos os cidadãos da recém-unificada Mítica, mas não vou tolerar aqueles que se levantarem contra mim.
Magnus observou o sangue escorrer do ferimento aberto na garganta do lorde, empapando o solo. Os olhos de Darius estavam no próprio Magnus, repleto de ódio mesmo quando o último suspiro de vida desaparecia de seu rosto.
— Excelente, vossa majestade — Aron murmurou. — É claro que estava certo. Ele não merecia misericórdia.
É claro que estava certo. Palavras que o próprio príncipe deveria dizer, mas que não chegavam prontamente à sua língua. Apesar do calor do dia, a morte do lorde havia provocado um frio violento dentro dele. Aquilo era errado. Desnecessário. Intolerante. Mas ele certamente nunca admitiria isso em voz alta.
A multidão ficou em silêncio, observando o rumo dos acontecimentos com confusão, medo ou repulsa. Muitos — mais do que Magnus poderia esperar — olhavam as ações de seu novo rei com respeito. Depois se viraram uns para os outros alarmados quando um tremor retumbou sob seus pés. Magnus sentiu as vibrações através da pá que ainda segurava. A garrafa de vinho vazia de lorde Darius rolou até bater em uma árvore, com força suficiente para quebrar o vidro.
— Pela deusa, o que está acontecendo? — a rainha sussurrou, empalidecendo. Ela se aproximou e agarrou a manga da camisa de Magnus.
Tudo terminou com a mesma rapidez que começou.
O rei ficou olhando para a multidão, com a testa franzida como se estivesse muito concentrado.
— Era disso que ela estava falando, então? — ele murmurou.
— O que você disse, Gaius? — a rainha perguntou, com a voz trêmula.
— Nada de seu interesse. — Ele entregou a faca ensanguentada para um guarda e limpou o sangue que havia espirrado em seu rosto com um pano oferecido por outro. — Venham comigo. Vamos visitar o interior do templo. Decidi que o casamento será realizado aqui.
— Aqui? — Magnus finalmente desviou o olhar do lorde morto, cujos olhos ainda o encaravam levemente com reprovação. — No templo dedicado à arqui-inimiga da deusa Valoria?
— Eu não tinha ideia de que era tão devoto à nossa deusa a ponto de ficar ofendido.
Ele não era, é claro. A maioria dos limerianos era muito devota à sua fé, dedicando dois dias da semana ao silêncio e à oração, mas Magnus achava difícil acreditar com verdadeira paixão em qualquer coisa em sua vida. Ainda assim, o local pareceu uma escolha incomum.
Quanto mais refletia, no entanto, mais se dava conta de que era estratégico. Onde mais a princesa se casaria, se não no lugar que seu povo — até mesmo aqueles que recentemente haviam se distanciado da forte adesão à fé coletiva — considerava o mais sagrado? Os limerianos já estavam sob domínio do rei. Os paelsianos eram muito pobres e oprimidos para serem considerados uma ameaça à coroa, principalmente agora que estavam sendo agrupados para construir a estrada. Mas os auranianos — que começavam a sair de seu repouso coletivo e hedonista — ainda eram uma surpresa.
Trinta degraus de mármore esculpido levavam ao enorme templo. A construção inteira parecia esculpida nesse material, também onipresente no palácio. Fazia Magnus se lembrar do gelo que se estendia diante do castelo limeriano. Pálido, frio, imaculado.
No interior, havia fileiras de pilares de mármore enormes, que iam até o teto. O santuário principal tinha uma estátua de seis metros de altura da deusa Cleiona na entrada, de braços abertos. Esculpidos na palma de suas mãos estavam o símbolo triangular do fogo e o símbolo espiral do ar, elementos que ela incorporava. Seus cabelos eram longos e ondulados; sua expressão, soberba, mas estranhamente cativante. Por um instante, a deusa fez Magnus se lembrar daquela que levava o seu nome, a própria princesa.
A fragrância estonteante de incenso e velas perfumadas pairava no ar. No altar, uma fogueira queimava, representando a eterna magia do fogo de Cleiona. Não havia nada assim em Limeros. O Templo de Valoria era escuro e prático, e estava sempre cheio de fiéis.
Aquele lugar, no entanto… parecia mágico.
Os olhos de Magnus encontraram os de Aron. Havia algo ácido no olhar do lorde.
— Estou muito feliz por você — Aron disse, com a voz tensa. — Que você e a princesa Cleo tenham muitos anos maravilhosos juntos.
— Só posso rezar para ser capaz de fazê-la tão feliz quanto você faria — Magnus respondeu com ironia.
— É claro. — Havia algo na voz de Aron, como se ele desejasse dizer muito mais do que isso. Sabiamente, não disse.
O rei se aproximou.
— Ora, ora. Fico feliz em ver que vocês dois estão se tornando bons amigos.
— Como seria diferente? — Magnus disse. — Temos tanto em comum.
— Vá procurar Cronus — o rei pediu a Aron, referindo-se ao capitão da guarda do palácio —, e peça a ele que prepare as carruagens para nos levar de volta à cidade.
— Pois não, vossa majestade. — Aron se curvou e logo se virou para sair correndo do templo.
Magnus não conseguiu conter a curiosidade:
— Por que você o tolera?
— Ele me diverte.
— Certamente uma qualidade digna à indicação de vassalo do rei. Divertimento.
— Ele faz tudo o que eu peço. Talvez possa aprender muita coisa com ele. — Aquilo foi dito com leveza, mas pesava mais como chumbo do que como uma pena.
— Não tenho muita vocação para lamber as botas dos outros.
— Nem para execuções públicas, ao que parece. Não aprovou o que fiz lá fora, não é?
Magnus mediu as palavras que diria a seguir:
— Ele falou mal de você em público. É claro que merecia morrer.
— Fico feliz por concordarmos. Eu realmente acho que era o destino. Um jorro de sangue no ponto inicial da minha estrada é simbólico. Um sacrifício adequado pela oportunidade de encontrar o tesouro supremo.
Finalmente um assunto mais digno de discussão.
— Teve alguma sorte em sua busca?
— Ainda não. Estamos apenas começando, meu filho. A paciência nos fará muito bem em muitas áreas.
Paciência? Não era exatamente algo que seu pai possuía em grande quantidade.
— É claro — Magnus disse em vez disso, caminhando até a parede branca e lisa e passando o dedo sobre a gravação do símbolo do fogo, motivo recorrente em todo o templo. — Está falando de minha impaciência com a recuperação de Lucia também, não está?
— Estou.
— A criada disse que Lucia estava agitada durante o sono ontem, e achou que ela fosse acordar. Mas não acordou, é claro. Mãe, você sabia disso?
A rainha Althea se aproximou.
— Sim, eu estava lá. Já tinha acontecido antes. De tempos em tempos ela se mexe, resmunga como se estivesse sonhando. Depois volta a ficar em silêncio.
— Você a visita com regularidade — o rei disse. Não era uma pergunta, já que ele sabia a resposta. O rei sabia de tudo o que acontecia entre as paredes do palácio.
— Todos os dias. — Ela confirmou com a cabeça. — Eu leio para ela. Lucia parece tão em paz que às vezes me engano e acho que está apenas dormindo. Ainda tenho fé de que ela voltará para nós em breve, de que não está perdida para sempre.
O rei zombou:
— Você soa como se não ressentisse a existência dela desde que foi levada para Limeros.
— Eu não me ressinto dela. — A rainha arrumou os cabelos grisalhos, como se pudesse soltá-los do coque apertado que repuxava sua pele na altura das têmporas. — Eu amo nossa filha como se ela tivesse saído de meu próprio ventre.
O rei Gaius olhou para a esquerda, para um afresco de um grande sol brilhando sobre a Cidade de Ouro e seus habitantes.
— É interessante que tenha sido necessária essa tragédia para trazer à tona seus instintos maternais. Durante dezesseis anos você ignorou Lucia ou a tratou como uma boneca de pano que podia vestir e exibir. Agradeço à deusa por ela ter uma beleza natural, caso contrário você a teria rebaixado ao posto de criada há muito tempo.
De repente, Magnus viu sua mãe se encolher, o que mostrava que as palavras do rei a haviam magoado profundamente. Mas ele não podia discordar totalmente delas.
— Quando acordar, serei diferente com ela — a rainha disse com suavidade. — Reconheço meus erros e desejo consertá-los. Eu me preocupo com Lucia, de verdade. E juro pela deusa que vou provar.
— Esse é o espírito — o rei disse, embora suas palavras tenham sido frias. — Mandei vir um novo curandeiro amanhã. Quero que ela esteja presente no casamento, se for possível.
— E se não puder, eu ficarei ao lado de seu leito.
O rei permaneceu em silêncio por um instante.
— Não. Você vai ao casamento de qualquer jeito.
A rainha ficou remexendo a manga de seu manto verde-escuro. Ela franziu tanto a testa que linhas profundas apareceram entre as sobrancelhas.
— Não confio na garota Bellos, Gaius. Tem alguma coisa nos olhos daquela menina, algo obscuro e astuto. Tenho medo do que ela pretende fazer conosco. Do que pode fazer com Lucia ou com Magnus.
Aquilo fez Magnus rir.
— Mãe, não se preocupe comigo. Posso lidar com a princesa, mesmo se houver uma sombra de vingança dentro dela. Não passa de uma menina.
— Ela nos odeia.
— É claro que odeia — o rei disse gentilmente. — Eu tomei seu trono, o trono de seu pai, o trono de sua irmã. Tomei pela força e pelo sangue. E não me desculpo por nada.
— Encontre outra noiva para Magnus — a rainha pediu. — Posso pensar em várias que seriam mais adequadas a ele. Por quem nosso filho poderia se apaixonar com o tempo.
— Apaixonar? Se Magnus quer amor, pode encontrá-lo em uma amante, como eu fiz. Não em uma esposa rabugenta.
A rainha empalideceu ao ouvir aquilo.
— Tudo o que falo é de coração.
— Guarde minhas palavras, Althea… — Uma frieza tomou conta do tom de voz do rei. — Tudo o que acontecer de hoje em diante, para o bem ou para o mal, deve acontecer por decisão minha. Porque é adequado a mim. E estou avisando, não passe por cima de mim, ou…
— Ou o quê? — Ela ergueu a cabeça e olhou diretamente nos olhos dele. — Vai passar uma lâmina pelo meu pescoço também? É assim que silencia todas as vozes que se opõem a você?
A fúria invadiu o olhar do rei, e ele deu um passo ameaçador na direção dela, com os punhos cerrados ao lado do corpo.
Magnus entrou no meio dos dois e forçou um sorriso.
— Os humores estão se agitando com o calor do dia. Talvez seja hora de irmos embora.
Os olhos irados do rei se fixaram nele e lentamente esfriaram. Ainda havia uma mancha de sangue em seu rosto, bem debaixo do olho esquerdo.
— Sim. Está na hora. Encontrem-me do lado de fora quando estiverem prontos.
Ele deu as costas para os dois e, com um guarda de cada lado, saiu do templo cavernoso e voltou para a luz radiante do dia.
— Temos que ir — a voz da rainha ficou tensa enquanto seguia na mesma direção.
Magnus colocou a mão sobre o ombro dela antes que desse mais do que alguns passos. Virou-a para si e levantou seu queixo para que seus olhos cheios de lágrimas encontrassem os seus. A dor que ele viu chegou ao seu peito e apertou seu coração.
— Não me lembro da última vez que a vi chorar.
Ela empurrou a mão dele.
— E não deveria estar vendo agora.
— Ele não lida bem com discussões. Você sabe disso.
— Ele lida com discussões como sempre lidou. Com um punho de aço e um coração esculpido em gelo. — Ela analisou o rosto dele. — Você não quer esse casamento, não é, meu filho?
— O que eu quero é irrelevante, mãe.
Sempre é.
Ela ficou em silêncio por um instante.
— Sabe que amo você, não sabe?
Magnus desejava permanecer impassível diante desse sentimentalismo inesperado. A mulher que estava à sua frente havia sido fria e distante por tanto tempo que ele havia esquecido que podia ser diferente.
— De onde veio isso, mãe? Está mesmo tão preocupada com o fato de que estou sendo obrigado a aceitar um casamento sem amor para fortalecer o poder de meu pai neste reino instável? Ou tem a ver com alguma outra coisa? A situação de Lucia, talvez?
A expressão da rainha se fechou quando ela deu um longo e trêmulo suspiro.
— Foi um ano difícil para todos nós. Tantas perdas. Tanta morte.
— É, sei que está de coração partido porque a amante do rei foi incinerada.
Um músculo de seu rosto se contorceu.
— Não sofro pela morte de Sabina, nem passo muito tempo perturbada pela maneira como morreu. Só me preocupo neste mundo com você e com Lucia. Vocês são tudo o que me importa.
Suas raras palavras de afeição o deixaram confuso.
— Não sei o que espera que eu diga, mãe. Meu pai quer que eu me case com a garota Bellos e, se realmente chegar a isso, eu o farei sem discutir. Irá fortalecer minha posição no reino. — E o faria ganhar a confiança total de seu pai no que dizia respeito à estrada e à busca secreta pela Tétrade.
A rainha Althea observou o rosto de Magnus.
— É isso que passou a desejar, meu filho? Poder?
— É o que sempre desejei.
Ela apertou os lábios.
— Mentiroso.
A palavra foi como um tapa.
— Sou o príncipe herdeiro, mãe, caso tenha esquecido. Herdeiro do trono de Limeros, e agora de toda Mítica. Por que eu não desejaria isso, e ainda mais?
— Seu pai é um homem cruel que procura um tesouro que nem existe. A obsessão dele beira a loucura.
— Ele é movido pelo que mais deseja e está focado nisso. E eu a aconselharia a não chamar o rei de louco. Ele não lidaria bem com essa declaração.
Agora que o rei havia saído, ela não parecia preocupada. Parecia mais confiante em suas palavras.
— Você vai contar a ele?
O maxilar de Magnus ficou tenso.
— Não. Mas quando insulta o rei, está me insultando também. Meu pai e eu… nós somos muitos parecidos. Faremos o que for preciso para conseguir o que desejamos, e acabaremos com quem entrar em nosso caminho, seja quem for. Sem consciência nem remorso.
Essa afirmação ousada finalmente colocou um leve sorriso no rosto dela, o que imediatamente fez dez anos desaparecerem num passe de mágica.
Magnus a observou com cuidado.
— Falei algo engraçado?
O olhar dela estava suave, mais suave do que ele jamais tinha visto nos últimos anos.
— Na aparência, sim, você é tão belo quanto Gaius, sem sombra de dúvida. Mas é aí que terminam as semelhanças. Ah, Magnus, meu filho, você não é como ele. E nunca será.
Ele recuou como se ela o tivesse golpeado.
— Você está errada.
— Acha que estou falando isso para insultá-lo? Pelo contrário.
— Eu matei, mãe. Muitos homens. E os vi sofrer e sangrar e morrer diante dos meus olhos no campo de batalha para tomar o palácio auraniano. E até massacrei alguém que não merecia minha lâmina, que agiu com coragem e bravura. Eu o feri com o medo de um covarde. — As palavras pareciam vidro quebrado em sua garganta. — Fiquei parado enquanto meu pai mandava torturar uma garota inocente e não disse uma palavra para salvá-la. Agora ela está morta, e a culpa é minha. — Ele desviou o olhar, escondendo sua fraqueza. — Meu coração é esculpido em gelo, assim como disse que é o do rei.
A rainha se aproximou e levou a mão à lateral de seu rosto, o lado com a cicatriz. Ela o acariciou como fazia quando ele era um menino, e seu peito começou a doer.
— Você não é como Gaius. Ele é um monstro de coração frio e alma obscura. Você cometeu erros, sim. E eu não tenho dúvidas de que, assim como qualquer outra pessoa que viva e respire, ainda cometerá muitos outros na vida. Mas isso não muda quem você é lá no fundo. Você tem um coração bom, Magnus. E não pode fazer nada para mudar isso.
Os olhos dele ardiam quando ela afastou a mão.
— Precisamos nos juntar ao meu pai lá fora. Esta conversa acabou.

4 comentários:

  1. A rainha me surpreendeu.

    j.

    ResponderExcluir
  2. Magnus não é mau. Ele está fazendo o que é preciso para sobreviver ao pai, só isso.

    ResponderExcluir
  3. Ele vai ter que matar o pai e ser um rei bem melhor, assim espero, mas prefiro que o rei seja morto por outras maos.

    ResponderExcluir

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!