13 de agosto de 2018

Capítulo 6


CLEO
AURANOS

Quanto mais a data de seu terrível casamento se aproximava, mais crescia a ansiedade de Cleo. Ela sonhava em fugir — em criar asas como um pássaro e sair voando do palácio, para nunca mais voltar.
Mas, infelizmente, ela era um pássaro preso firme na gaiola. Então em vez de ficar pensando no que a esperava nas semanas seguintes, ela se concentrou no que podia controlar. Conhecimento. Estudos. Rezando para encontrar as respostas de que precisava antes que fosse tarde demais. Ela se viu a caminho da biblioteca do palácio pela segunda vez naquele dia, mas dessa vez encontrou Mira chorando no corredor, em frente às portas altas da biblioteca.
— Mira! — Cleo correu até ela e puxou a menina para seus braços. — O que foi?
Levou um tempo, mas a amiga de Cleo finalmente conseguiu formar palavras.
— Não consigo encontrar meu irmão em lugar nenhum! Eles o mataram, Cleo. Eu sei!
Cleo a levou para mais longe dos guardas limerianos que pareciam se esconder em todas as sombras — instruídos, ela sabia, a ficar de olho na princesa para que não saísse do castelo.
— Nic não está morto — Cleo garantiu a ela, tirando as mãos de Mira de seu rosto molhado de lágrimas.
— Como você sabe?
— Porque se estivesse, Magnus certamente usaria essa informação para me provocar. Para que eu soubesse que Nic foi executado pelo que fez em Paelsia… — Pensar naquilo era como ter uma pá de brasas quentes jogadas sobre o coração. — Ele sabe que eu ficaria arrasada. E não hesitaria em usar isso contra mim. Sei que ainda não conseguimos encontrar Nic, mas ele está vivo, Mira. — Ele precisa estar, ela pensou.
As palavras dela aos poucos foram processadas. Lentamente, Mira retomou o controle e parou de chorar. Ela esfregou os olhos com cansaço, um rastro de raiva agora os iluminando.
— Você está certa. O príncipe celebraria sua dor. Eu o odeio, Cleo. Odeio quando ele vai visitar a princesa Lucia. Ele é um animal.
Cleo mal havia visto o príncipe durante a semana, desde que ele havia decidido manter o terrível noivado. Parecia que ele desejava se relacionar o mínimo possível com Cleo, o que para ela estava ótimo.
— Concordo plenamente. Só tente ficar fora do caminho dele, tudo bem? Como escapou do quarto de Lucia? Parece que não vejo você há séculos.
— A rainha está visitando a filha. Ela me disse para sair e voltar depois. Claro, eu não discuti. Esperava encontrar um rosto amigável neste ninho de cobras. O seu é o primeiro que vejo hoje.
Cleo conteve um sorriso. Era mesmo um ninho de cobras.
— Bem, fico feliz pela oportunidade de vê-la. É a única coisa boa que me aconteceu o dia todo.
Ela ficou com a amiga na extremidade do corredor, passando os olhos pelos grandes retratos de cada membro da família Bellos, que cobriam as paredes de fora da biblioteca. Não conseguia desviar o olhar dos olhos pintados de seu pai.
Sua última lembrança dele era de quando morrera em seus braços devido a um ferimento sofrido durante o ataque ao castelo. Em seus momentos finais, ele havia lhe dado um anel passado de geração em geração na família, um anel que, segundo ele, ajudaria de alguma forma a guiar o caminho até a Tétrade. Ele esperava que, de posse da magia, Cleo seria capaz de destruir o rei Gaius e retomar o trono. Mas morreu antes de conseguir dizer qualquer outra coisa. Cleo acreditava que aquele era o anel que, segundo os rumores, teria pertencido à feiticeira Eva, o anel que lhe permitia tocar a Tétrade sem ser corrompida pelo poder elementar infinito dos cristais perdidos. Cleo havia escondido o anel em seus aposentos, atrás de uma pedra solta na parede, e desde então ia todos os dias à biblioteca, procurar mais informações que pudessem ajudá-la a elaborar o próximo passo. Seu pai havia depositado tanta fé nela, mais do que ela mesma. Cleo não podia decepcioná-lo agora.
Mira tocou o braço dela, agora com os olhos secos.
— Você está tentando ser tão forte, mas eu sei, Cleo. Eu sei o quanto você sente a falta dele. Sei o quanto sente a falta de Emilia. Eu também sinto. Não tem problema se você quiser chorar. Estou aqui para apoiá-la.
Cleo engoliu em seco, seu coração se expandindo por saber que tinha uma amiga que entendia sua dor.
— Tento não olhar muito para o rosto deles quando venho aqui. Quando os vejo, eu… — Ela suspirou, trêmula. — É tão estranho. Às vezes não consigo ver nada além da escuridão do meu sofrimento. Outras estou com raiva, tanta raiva por eles terem me deixado para lidar com tudo isso sozinha. Eu sei que parece egoísta, mas não consigo deixar de me sentir assim. Então, está vendo? Não posso me permitir chorar. Se eu chorar novamente, talvez não consiga parar nunca mais.
— Você precisa saber, princesa… — A voz de Aron cortou a conversa das duas com a eficiência de uma faca. — Que o rei deu ordens para que todos esses retratos, exceto o seu, é claro, fossem retirados e substituídos pelos da família Damora.
Cleo se virou e viu mais uma sombra à espreita. Era o que Aron fazia desde que o noivado dos dois havia sido cancelado. Espreitava.
Ela esperava que ele fosse embora, voltasse para a quinta dos pais na Cidade de Ouro, mas parecia que ele havia se mudado definitivamente para o palácio.
— E você fará isso em pessoa? — ela perguntou, distorcendo as palavras dele. — Sei que, como novo cachorrinho do rei, você fará tudo o que ele pedir pela mera promessa de um agrado.
Ele abriu um sorriso duro.
— Não, por que deveria? Sou totalmente capaz de dar ordens. E por que esperar? — Ele fez um sinal para os dois guardas uniformizados que o acompanhavam. Eles foram imediatamente até a parede e começaram a remover os retratos. Mira segurou o braço de Cleo para impedir que ela avançasse sobre eles. Uma onda de fúria cresceu dentro dela.
Cleo olhou feio para ele.
— Como pode fazer isso, Aron?
Lorde Aron, Cleo. Já que agora sou vassalo do rei e não estamos mais comprometidos, seria mais respeitoso começar a usar meu título correto.
É claro. Vassalo do rei. Gaius havia mantido a promessa de conceder esse imponente — porém inútil, na opinião de Cleo — título a Aron. Ele ainda era um “lorde”, só que agora era um título que Aron sentia que merecia, e não algo herdado pela linhagem da família. Todas as pessoas com alguma importância no palácio haviam sido chamadas a se reunir na sala do trono para a cerimônia no dia anterior. Agora Aron usava seu novo título como uma armadura brilhante e protetora contra qualquer coisa que tentasse feri-lo.
Era repugnante. Ele agia como se tivesse nascido com sangue limeriano correndo nas veias. Antes, Cleo teria desconsiderado aquilo como uma mera tática de sobrevivência, necessária contra o inimigo que estava no poder. Mas Aron fazia tudo o que lhe pediam com um sorriso no rosto, como se gostasse de ser um dos cães treinados do Rei Sanguinário.
— Ele o considera um divertimento, sabia? — Ela não conseguia conter seus pensamentos. — Reze para a deusa para se tornar indispensável antes que o divertimento acabe.
— Posso lhe dizer o mesmo, princesa — Aron disse, firme.
— O que vai fazer com os quadros, lorde Aron? — Mira perguntou com uma pitada de sarcasmo. — Vai pendurá-los em seus aposentos?
Houve um tempo em que Mira sentia algo pelo belo lorde, mas não mais. Ela também o via como realmente era. Um oportunista que venderia a alma da própria mãe para um demônio das terras sombrias se isso significasse cair nas graças do rei.
— Eles serão queimados — ele disse simplesmente, e o coração de Cleo se contorceu. Ele deu um sorriso falso. — Ordens do rei.
De certa forma, a ideia horrível de que os retratos de sua família seriam destruídos trouxe uma frieza a ela, uma calma poderosa. Seu ódio agora queimava como gelo, não como fogo.
— Vou me lembrar disso, Aron.
Lorde Aron. — Quando os guardas finalmente arrancaram o retrato de Emilia da parede, Aron fez um sinal de aprovação para eles. — Muito bem. Levem os quadros para fora e deixem perto do estábulo por enquanto. Eles também podem ficar cobertos de sujeira, como aquele amigo idiota de vocês.
— Amigo idiota? — Cleo perguntou em voz baixa. Com cautela.
— Estou muito surpreso por ele ainda estar respirando. Mas ficar com estrume de cavalo até os joelhos é uma punição justa para…
Mas Cleo já estava se afastando pelo longo corredor, levando Mira consigo.
— Cleo? — Mira perguntou, confusa. — Aonde estamos indo?
— Acho que sei onde Nic está.
Os olhos de Mira se arregalaram.
— Então precisamos andar rápido!
Ignorando os guardas que mais pareciam sombras e Aron, que agora as seguiam, Cleo e Mira seguiram rápido pelo castelo. Talvez ela não passasse de uma prisioneira de luxo dentro daquelas paredes, mas era o lar de Cleo, e ela conhecia os corredores labirínticos melhor do que ninguém. Quando crianças, ela e Emilia brincavam de esconde-esconde com as amas — embora as criadas nunca tivessem se divertido muito com as brincadeiras improvisadas.
Elas acabaram no pátio, um espaço murado, porém aberto, no centro do palácio, repleto de jardins de ervas, macieiras e pessegueiros, e arbustos de lilases cheios de flores que perfumavam o ar quente da noite com sua fragrância. A lua estava cheia e brilhante, iluminando o caminho delas pela trilha sinuosa de pedra.
Ninguém tentou impedir Cleo quando ela abriu o portão do pátio, seguiu por um longo corredor e saiu pela lateral leste do castelo, na direção dos estábulos. Mira foi atrás dela. Depois dos estábulos ficava o resto da cidade murada, lar de milhares de cidadãos auranianos. Ali, Cleo estava mais perto da liberdade do que jamais estivera desde que o rei Gaius destruíra seu mundo e tomara o trono de seu pai. Ela não tinha dúvida de que se tentasse atravessar as muralhas externas, seria impedida e arrastada de volta para dentro.
Mas fugir não era seu objetivo naquele momento.
Ao se aproximarem dos estábulos, o fedor de estrume começou a pesar no ar. E então ela o viu.
— Cleo… — Mira sussurrou, depois falou mais alto: — Cleo! Você tem razão. Ele está aqui!
Com o coração na garganta, Cleo acelerou o passo enquanto corriam na direção de Nic. Alguns outros peões do estábulo observavam com interesse. Com os olhos arregalados, Nic viu as duas se aproximarem, depois largou os dois baldes que carregava. O conteúdo se espalhou pelo chão. No entanto, antes que Cleo ou Mira conseguissem chegar mais perto, os guardas agarraram o braço de cada uma para detê-las.
— Tire as mãos de mim! — Cleo lutava contra seu captor. — Nic… Nic! Você está bem?
Nic confirmou enfaticamente com a cabeça.
— Estou bem. Não sabem como estou feliz em ver vocês duas.
— Me solte! — Mira resmungou, lutando contra o guarda que a segurava.
Aron as havia seguido tranquilamente e agora se aproximava, com os braços cruzados diante do peito, uma cigarrilha acesa em uma mão.
— Bem, parece que revelei um segredinho, não é? Acho que não importa. Não vai mudar nada.
— Você acha que não? — Cleo retrucou. — Agora que sei onde Nic está, vou garantir que ele seja dispensado desse trabalho tão baixo!
— Você se confunde com alguém que ainda tem grandes poderes por aqui, princesa.
— E você se confunde com alguém que tem algum poder.
— Trabalhar enterrado até os joelhos em bosta de cavalo é a punição dele. Embora, se me perguntar, acho que ele deveria ser morto pelo que fez com o príncipe Magnus.
A lembrança invadiu sua mente antes que pudesse impedir. O corpo dilacerado de Theon, seus olhos virados para cima, sem enxergar nada. Magnus com sangue no rosto por causa da unhada que Cleo dera nele quando tentou levantá-la. Nic atirando uma pedra para impedi-lo e acertando. Cleo pegando a espada pesada e quase a cravando no peito do príncipe desorientado, mas Nic, temendo as repercussões daquele ato, a detendo. Como havia deixado Magnus desacordado, ele não conseguiria segui-la.
Sinto muito, Theon. Sinto muito… muito mesmo. Eu o levei para a morte e não consegui vingá-lo.
Seus olhos arderam, mas ela não chorou. Precisava da lembrança de Theon, da recordação de sua força, da confiança que tinha nela, para ajudá-la naquele momento. Lágrimas não ajudariam. Ordens não ajudariam. Aron estava certo, ela não tinha mais nenhum poder. Nenhuma influência.
No entanto…
Ela se virou para Aron — dessa vez com um sorriso.
— Vamos, Aron — ela quase ronronou. — Você já foi nosso amigo. Um bom amigo. Não pode encontrar essa amizade aí dentro novamente? Nem tudo mudou, não é? Mira pensou que o irmão estava morto. Não deixe os dois separados. Por favor.
Aron poderia esperar raiva da parte dela, mas claramente não sabia o que fazer com cordialidade. Ele hesitou por um instante, confuso, e finalmente fez um sinal para o guarda que segurava Mira. Ele a soltou, e ela correu direto para os braços de Nic.
— Nós não conseguíamos encontrar você em lugar nenhum — ela disse, soluçando. — Eu estava tão preocupada com você!
— Ah, Mira. — Nic abraçou a irmã com força, inspirando suavemente o perfume de seus longos cabelos. — Sinceramente? Eu também estava preocupado comigo.
Ela se afastou um pouco do irmão e franziu o nariz.
— Você está fedendo!
Ele riu alto e passou a mão pelo cabelo ruivo e opaco.
— Também estou feliz em ver você, irmã querida.
Dessa vez, Cleo sorriu para Aron com sinceridade.
— Obrigada.
Ele observou os irmãos com um olhar ácido.
— Lembre-se desse favor, Cleo. Você me deve.
Ela se esforçou para manter a expressão agradável.
— É claro, lorde Aron.
Aron sorriu, satisfeito.
Era bom saber que ela podia manipular facilmente aquele tolo quando necessário.
Os guardas acompanharam Cleo de volta a seus aposentos e fecharam a porta. Ela sabia que um deles ficaria posicionado do lado de fora até amanhecer, caso ela pensasse em fugir. Houve ocasiões em que ela descera pela hera no terraço do quarto da irmã para sair do castelo, mas em seu próprio quarto era uma queda direta da janela até o chão, dez metros abaixo.
O rei podia chamá-la de “convidada de honra” em público, mas, naquele momento, ela se sentia totalmente uma prisioneira de guerra. Ela pensou que deveria se considerar sortuda por ter mantido seus próprios aposentos. Durante vários dias após a batalha, eles haviam sido dados a Lucia até que outras acomodações foram encontradas para a princesa enferma.
Ver Nic e Mira reunidos, no entanto, havia dado a Cleo uma ponta de esperança de que as coisas poderiam mudar. Ela repetia para si mesma que estava certa, que Nic estava vivo. Precisava de um bom banho, mas estava vivo.
Se ela ousasse admitir, estava realmente surpresa que Magnus não tivesse exigido a cabeça de Nic. Ele realmente achava que trabalhar nos estábulos era a melhor punição?
— Ele continua sendo uma pessoa horrível — ela sussurrou. — Mas Nic ainda respira. Devo ser grata por isso.
Seus aposentos estavam escuros. A atenção dela se voltou para a parede de pedra perto da penteadeira, o local onde havia escondido o anel de ametista. Suas mãos coçavam para pegá-lo e colocá-lo no dedo. Sentir a frieza do ouro em contato com a pele, o peso da pedra. Ter algo tangível capaz de ajudá-la. Algo ligado à sua família. À história. Aos próprios elementia.
Ela voltaria a procurar informações no dia seguinte. Tinha de haver algo na biblioteca que falasse sobre o anel, ensinasse a usá-lo da maneira correta. Emilia sempre passava horas e horas na biblioteca, lendo tanto por prazer quanto por estudo. E Cleo sempre havia evitado o lugar. Até agora. Ela esperava que entre os milhares de livros que ocupavam as prateleiras da biblioteca estivessem as respostas que buscava.
Ela foi até a janela observar o pátio iluminado pelo luar. Uma brisa quente roçou sua pele.
Foi então que sentiu a presença de mais alguém em seu quarto.
Cleo se virou, examinando as sombras.
— Quem está aí? Apareça!
— Teve uma boa noite, vossa alteza? — A voz grave ecoava pelo quarto, envolvendo-a e paralisando-a com um medo instantâneo familiar.
Cleo correu para a porta, mas ele a agarrou antes, segurando seu braço e a pressionando contra a parede.
— Eu vou gritar — ela o alertou.
— Gritar não seria a coisa certa a fazer. — Ele cobriu a boca dela com uma mão e com a outra prendeu seus dois pulsos, impedindo-a de se mexer.
Jonas Agallon tinha o cheiro da floresta — folhas e terra morna.
Ela tentou dar uma joelhada no meio das pernas dele, mas ele conteve o ataque sem esforço.
— Vamos lá, princesa. Não precisa ser assim. Só vim aqui para conversar… A menos que me cause problemas. — Na superfície as palavras dele eram amigáveis, mas as más intenções por trás delas eram inconfundíveis. — Vou tirar a mão agora. Se sua voz for mais alta que um sussurro, juro que vai se arrepender. Entendeu?
Ela fez que sim com a cabeça, desejando manter a calma.
Ele tirou a mão de sua boca, mas não a soltou.
— O que você quer? — Ela manteve a voz baixa e controlada. Por enquanto.
— Só passei para ver como você está.
Ela não conseguiu conter um riso seco.
— Sei.
O rosto de Jonas estava nas sombras; seus olhos escuros a percorreram dos pés à cabeça.
— Da última vez que a vi, você vestia um manto e estava armada com uma adaga.
— Sim, pouco antes de você alertar o príncipe Magnus sobre a minha presença na multidão.
Ele ergueu uma sobrancelha.
— Eu não fiz nada disso.
— E devo acreditar em você? Você já trabalhou com ele antes. Com o próprio rei! Você me sequestrou, me deixou sem comida e água por uma semana, esperando para me entregar ao inimigo.
— Foram três dias, princesa. E você recebeu comida e água. De qualquer forma, meus acordos com o Rei Sanguinário e sua laia chegaram ao fim quando ele enganou meu povo.
— Qualquer pessoa minimamente inteligente teria percebido que ele foi dissimulado desde o início.
Ele olhou feio para ela.
— É fácil dizer isso agora.
Ela havia tocado em um assunto delicado. Talvez ele tenha se sentido um tolo por ajudar o rei Gaius.
— Me solte.
— Não confio em você. Vai tentar fugir e alertar os guardas.
Estimulada pelo sucesso anterior em manipular Aron, ela decidiu tentar a mesma tática com Jonas. Raiva e exigências não funcionariam, isso era certo.
Ela encarou os olhos escuros dele e tratou de colocar alguma dor nos seus.
— Você está me machucando.
Jonas riu baixo, com a voz rouca.
— Falando em dissimulação… Acredite em mim, princesa, eu também não subestimo você.
O olhar dela passou freneticamente pelo quarto, procurando qualquer coisa que pudesse ajudá-la.
— O que devo esperar com você aqui? Houve um tempo em que você tentou me matar.
— Acredite: se eu estivesse aqui para acabar com a sua vida, você já estaria morta. Queria ver com meus próprios olhos o quanto havia sido acolhida por eles agora que está comprometida com o príncipe. Testemunhei o anúncio. Apesar do início conturbado, parece que você foi aceita na família do rei de braços abertos. Que bom para você.
Cleo sentiu náuseas por ele pensar isso; por qualquer pessoa poder pensar isso.
— Você acha que eu celebraria a inclusão em uma família tão cruel?
— Não sei. — Ele a analisou com cuidado. — Talvez.
Jonas acreditava que ela havia se aliado às víboras. A ideia era tão absurda que ela mal conseguia processá-la. O ódio tomou conta de suas palavras seguintes.
— Eu não deveria ter que me defender para alguém como você. O que me importa o que você pensa?
Jonas a pressionou com mais força contra a parede, fazendo-a perder o fôlego.
— Sei que pensa que não passo de um paelsiano selvagem.
Ela se recusou a desviar dos olhos dele.
— Está negando que seja?
— Não sou selvagem, vossa alteza. Sou um rebelde — ele disse como se tivesse orgulho. Como se aquilo fosse impressioná-la.
— Se for verdade, então é apenas uma questão de tempo até sua cabeça ir parar numa estaca, assim como aquelas de seus amigos.
Ele se encolheu com a menção das execuções.
— Pode ser. Mas pelo menos estou tentando mudar as coisas.
— Entrando escondido nos meus aposentos e tentando me intimidar? Acho que já aturo minha cota de intimidadores no próprio palácio. Vou dizer mais uma vez: me solte.
Finalmente, Jonas fez o que ela pediu e se afastou. Ele a observou com cuidado, como se esperasse que Cleo corresse imediatamente para a porta e gritasse pelo guarda. Parte dela estava tentada a fazer exatamente isso.
Mas em vez disso, ela o observou com o mesmo cuidado. Não podia negar que, considerando apenas a aparência, Jonas Agallon era muito atraente. Cabelos pretos, olhos escuros, pele bem bronzeada por trabalhar ao ar livre como a maioria dos paelsianos. Corpo alto e musculoso, ombros largos e quadril estreito. Por baixo do manto cinza-escuro que usava, suas roupas simples estavam sujas e rasgadas, mas ele não se portava como nenhum camponês que ela já tivesse visto.
Havia uma arrogância naquele garoto similar à do príncipe Magnus — apesar da criação totalmente diferente. Os olhos de Jonas não eram tão frios e dissimulados quanto os do príncipe, mas ainda assim eram sagazes e perigosos. Parecia que eram capazes de perfurá-la e prendê-la à parede com a mesma facilidade que seu corpo.
Houve um tempo, não muito distante, em que Jonas olhava para ela como se fosse uma criatura odiosa e mimada que precisava morrer. Agora ainda havia muita suspeita em seu olhar, mas também uma ponta de interesse, como se estivesse curioso a respeito de seus planos, agora que ela estava noiva do filho de seu maior inimigo.
— Você se aliou ao rei Gaius? — Jonas perguntou novamente, com palavras ásperas.
Ele era a pessoa mais rude que ela já tinha conhecido. Possivelmente até mais do que o próprio príncipe Magnus.
— Como ousa entrar nos meus aposentos e exigir respostas como essas? Não vou dizer nada.
Os punhos dele se fecharam ao lado do corpo, e seu olhar se intensificou.
— Princesa, você poderia facilitar para mim.
— Ah, sim, é exatamente isso que eu quero fazer. Porque você sempre foi um amigo tão bom para mim.
Seu tom sarcástico arrancou um leve sorriso dos lábios dele.
— Eu poderia ser um bom amigo.
Ela ficou completamente em silêncio por um instante.
— Como?
— Isso depende totalmente de você, vossa alteza.
Jonas usava o título como um insulto, sem nenhum respeito implícito, assim como quando a havia capturado em Paelsia. Isso não havia mudado.
— Fale rápido, ou logo ficará preso no palácio sem chance de escapar. Os guardas começarão a patrulha do pátio em breve, agora que a noite caiu.
Jonas passou os olhos pelo pequeno quarto, parando na cama com dossel.
— Então eu teria que passar a noite aqui, não é? Você ajudaria a me esconder embaixo das suas cobertas?
Ela ignorou o calor que sentiu no rosto diante da sugestão.
— Continue falando bobagens, e seu tempo continuará a se esvair. Fale. Agora.
— Sempre dando ordens. É isso que uma princesa que perdeu seu reino ainda faz, ou a futura esposa do príncipe Magnus? Mandar em mim a faz se sentir poderosa?
— Já chega. — Ela se virou para a porta e abriu a boca como se fosse gritar.
Em um instante, Jonas estava atrás dela, com a mão cobrindo sua boca, o braço atravessado em seu peito para puxá-la com força junto a seu corpo.
— Chame os guardas e eu digo que sou seu amante secreto. O que o príncipe Magnus acharia disso? Ele ficaria com ciúmes?
Ela mordeu a mão dele com tanta força que pôde sentir o gosto de sangue. Ele se afastou, os olhos arregalados de dor mesmo que um sorriso começasse a se formar no canto da boca.
Cleo limpou a boca com o dorso da mão.
— Saiba de uma coisa: eu não me importo com o que o príncipe Magnus pensa, e nunca me importarei. Eu o odeio e odeio seu pai. Não importa o que aconteça comigo, isso nunca vai mudar.
— Você quer destruí-los.
Não era uma pergunta. Cleo ficou apenas olhando para ele, sem piscar. Sem falar. Admitir qualquer coisa para aquele rapaz parecia muito perigoso.
Mas ele não parecia precisar de nenhuma confirmação. Ele assentiu com a cabeça.
— Naquele dia, no meio da multidão, eu disse para você se preparar. Chegou a hora, princesa. Preciso da sua ajuda.
A ideia parecia absurda.
— Você precisa da minha ajuda?
— Os rebeldes precisam de informações sobre os Damora. Seus planos, seus esquemas. E essa estrada, a que o rei anunciou no discurso. Sabia que ele está massacrando vilas inteiras e escravizando paelsianos para construí-la o mais rápido possível? Significa algo para ele, essa estrada. Algo importante. Algo além do que qualquer um acredite que possa significar.
Massacrando vilas? Ela sentiu o sangue se esvair de seu rosto.
— O quê?
— É o que quero que descubra. Quero que seja minha espiã.
Por um momento, ela não conseguiu formar palavras.
— O que está pedindo pode custar minha vida.
— O simples ato de respirar pode custar sua vida. E isso vale para todo mundo. Pode ter sido aprisionada aqui, mas recebeu um grande privilégio. O rei subestima a profundidade de seu ódio por ele. Ele não sabe do que você é capaz.
Para retomar seu trono, Cleo de fato pretendia destruir o rei e todos que haviam se aliado a ele. Ela não ficaria parada vendo seu povo — ou qualquer povo de qualquer terra — sendo explorado e escravizado por aquele homem.
Mas será que podia ser espiã de Jonas? Podia passar a ele as informações que buscava, para ajudar a causa rebelde?
Talvez pudesse.
Ela teria que pensar um pouco mais. E não conseguia fazer isso com o rebelde ali em sua presença.
— Preciso considerar minhas opções — ela disse calmamente. Não que tivesse muitas a considerar.
Jonas inclinou a cabeça como se não tivesse escutado direito.
— Princesa, você precisa…
— Eu não preciso fazer nada, não quando se trata de alguma coisa envolvendo você. Você planejou invadir meus aposentos, esperar por mim no escuro, e acha que vou ficar babando com a ideia de trabalharmos juntos para derrotar o rei? Você pode não me subestimar, mas se superestima demais. — Ela não queria dizer não a ele, mas também não podia dizer sim. Ainda não. — Eu não confio em você. Eu nunca confiarei em você, Jonas Agallon.
Ele ficou boquiaberto.
— Está me negando ajuda?
A reação dele foi quase cômica.
— Devo presumir que não é algo a que está acostumado quando pede um favor a uma garota.
Ele franziu a testa.
— Na verdade… não é mesmo.
Ela ouviu um barulho do lado de fora. A qualquer momento a porta poderia se abrir, e um guarda poderia entrar e capturar Jonas.
— Você precisa ir.
Cleo prendeu o ar quando ele agarrou o queixo dela e a puxou para mais perto.
— Você vai me ajudar quando perceber que é o único jeito de ter alguma chance de se tornar rainha.
— Eu serei rainha, não importa o que precise fazer para conseguir. Estou noiva de um príncipe, lembra? Que um dia assumirá o trono.
Ele chegou a rir, mas o som não carregava nenhum humor.
— Não pode acreditar sinceramente que o rei Gaius algum dia irá deixar isso acontecer. Abra os olhos, princesa. Seu casamento é apenas mais uma distração para tentar manter os cidadãos satisfeitos e olhando para outra coisa que não as verdadeiras mentiras gananciosas do rei. E para que ninguém perceba como o exército dele está desfalcado agora que foi distribuído por toda a Mítica. Além disso, você é um risco para a coroa, para o poder do rei e para o direito do príncipe ao trono. Talvez você tenha muito valor para eles, mas esse valor terá vida curta, assim como você, se optar ficar aqui.
Ela mesma já tinha pensado naquilo, mas era chocante ouvir palavras tão frias e duras. Assim que não tivesse mais serventia ao rei como símbolo para o povo auraniano, não havia dúvida de que ele mandaria matá-la discretamente e a descartaria. Ela se manteve em silêncio.
— Entrarei em contato novamente, em breve, vossa alteza. Assim que tiver tido tempo de considerar o que eu disse.
Jonas a soltou e se virou para a janela. O calor de seu toque permaneceu por alguns instantes enquanto ela o observava sair e descer pela parede como se fosse uma das criaturas que, de acordo com as lendas, viviam nos penhascos das Montanhas Proibidas. Ele saltou sem esforço os últimos três metros até o chão e em segundos desapareceu nas sombras.

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