13 de agosto de 2018

Capítulo 5

JONAS
AURANOS

Pico do Falcão, a maior cidade de Auranos, era um lugar excelente para se observar o verdadeiro significado de ter o Rei Sanguinário no trono.
Era também um excelente local para dois rebeldes semearem um pouco de revolução antes de voltarem para o acampamento nas florestas acidentadas das Terras Selvagens.
— Olhe só para eles — Jonas disse a Brion enquanto caminhavam pela lateral da estrada no coração do vibrante distrito comercial, composto por tavernas reluzentes, pousadas luxuosas e lojas vendendo todo tipo de mercadoria, de flores a joias e roupas. — Agindo como se nada tivesse mudado.
— Os auranianos certamente são… — Brion parou para encontrar a palavra certa. — Adaptáveis?
— Acho que estão mais para ingênuos. É revoltante. — Um garoto mais ou menos da idade deles passou, e Jonas o chamou. — Você mora aqui?
O jovem tinha cabelos loiros. Vestia roupas da mais fina seda, uma túnica cor de esmeralda, com detalhes bordados em dourado.
— Moro — respondeu, franzindo a testa ao olhar para os mantos rasgados e empoeirados dos dois. — Vocês… não são da região, não é?
Jonas cruzou os braços.
— Viemos a Pico do Falcão em busca de informações sobre como o povo desta bela cidade está lidando com o novo rei.
O olhar do garoto passeou pelas pessoas que andavam por ali sem olhar duas vezes, e depois parou num ponto à direita, onde dois soldados uniformizados do rei patrulhavam as transversais.
— Vocês trabalham para o rei Gaius? — ele perguntou.
— Diríamos que somos pesquisadores independentes — Brion respondeu.
O garoto ficou mexendo os pés, com nervosismo.
— Só posso falar por mim mesmo, mas estou mais do que feliz em receber um novo governante em Auranos. Ouvi falar de seu discurso na semana passada e de todas as promessas maravilhosas que ele fez, sobre a construção da estrada e o noivado de seu filho com a princesa Cleiona. Todos estamos muito empolgados com o casamento real no mês que vem.
— Acredita que eles formam um bom par? — Jonas perguntou.
Ele ficou pensativo.
— Eu acho que sim. E, se quer saber, acho que a princesa deveria agradecer à deusa por um noivado tão imponente. Isso mostra que o rei Gaius está disposto a deixar os conflitos de lado em nome de uma transição suave para o seu reinado. Ele coloca seus novos cidadãos em primeiro lugar. E, na verdade, não mudou muita coisa, apesar da… — Novamente seu olhar moveu-se na direção dos soldados de vermelho. — Presença crescente de seus homens.
Não mudou muita coisa. Talvez para alguém que passava sua vida privilegiada com a cabeça enfiada no próprio traseiro. Jonas e Brion haviam conversado com vários moradores da cidade desde sua chegada, no dia anterior, e a maioria havia dado a mesma resposta que aquele tolo. A vida era fácil antes, e eles acreditavam que, se o rei Gaius governasse sem causar problemas, a vida continuaria assim indefinidamente.
— Você está sabendo da crescente presença rebelde em Auranos? — Brion perguntou.
O garoto juntou as sobrancelhas.
— Rebeldes? Não queremos problemas desse tipo.
— Não perguntei se queriam problemas, mas se ouviu falar deles.
— Ouvi falar de alguns grupos rebeldes dispersos, tanto auranianos quanto paelsianos, que estão causando dificuldades. Destruindo propriedades, incitando levantes.
Incitando levantes? Brion e Jonas trocaram um olhar curioso. Tais rumores soavam como se os rebeldes não tivessem objetivos definidos.
Mas tinham. Tudo o que Jonas decidia fazer — fosse destruição de propriedades, caça ilegal para comer ou roubo de suprimentos de armas para prática e proteção — visava criar um grupo mais forte de rebeldes, preparado para sublevar-se totalmente contra o rei quando chegasse a hora. Ele também concentrava grande parte de sua atenção no recrutamento de novos integrantes para o grupo.
O principal motivo da viagem de Jonas a Pico do Falcão era conseguir novos recrutas. Por ser a maior cidade de Auranos e estar localizada a menos de meio dia de viagem da Cidade de Ouro, era uma região importante onde Jonas sabia que precisaria de apoio rebelde. Naquela mesma manhã, Jonas havia convencido uma jovem e bela senhorita de Pico do Falcão a se unir à causa, e a esperar futuras instruções. Os levantes a que aquele garoto se referiu, no entanto, deviam ser obra de outras facções — talvez até mesmo auranianos. Era um bom indício de que nem todos eram tão inúteis como ele.
O garoto continuou:
— Também ouvi dizer que todos os rebeldes capturados são mortos. Quem em sã consciência desejaria entrar para esses grupos? — Em seguida seu olhar moveu-se com grande alarme entre os dois garotos, como se finalmente tivesse se dado conta de quem eram eles. — Eu, hum, preciso mesmo ir. Espero que aproveitem o resto do dia.
— Ah, nós aproveitaremos — Jonas gritou para ele enquanto o garoto se apressava sem dizer mais nada. — Com certeza aproveitaremos.
— Definitivamente não serve para ser rebelde — Brion murmurou.
— Talvez um dia, mas hoje não. Ele não passou por dificuldades suficientes.
— Ele cheirava a jasmim e frutas cítricas. Quem cheira a jasmim e frutas cítricas?
— Você, com certeza, não — Jonas disse, gargalhando. — Quando foi a última vez que você… — Suas palavras foram desaparecendo quando ele viu um afresco na lateral de uma construção, retratando o belo rosto do rei Gaius. As palavras “FORÇA, FÉ E SABEDORIA”, ideais limerianos, estavam no mosaico abaixo, juntamente com uma palavra em destaque: “JUNTOS”.
— Ele está conseguindo — Jonas resmungou. — O cretino está enganando a todos e tornando-os submissos com discursos impecáveis e belas promessas. Eles não se dão conta de que o rei os destruiria alegremente apenas por um capricho.
— Ei, aonde vai? — Brion gritou enquanto Jonas marchava pela estrada na direção do mural. O artista devia ter acabado de terminar, pois a massa ainda estava úmida. Jonas começou a arrancá-la, borrando o que dava para borrar e destruindo as partes secas com as mãos.
— Jonas, nós precisamos ir — Brion o alertou.
— Eu não vou deixá-lo ganhar. Precisamos mostrar a todos o mentiroso que ele é. — Seus dedos rapidamente começaram a sangrar com o esforço.
— Nós vamos mostrar. Quer dizer, já estamos mostrando. Vamos fazer a diferença. — Brion olhou com nervosismo sobre o ombro, para as pessoas que se reuniam para assistir o vandalismo ao mural do rei. — Lembra aqueles rebeldes auranianos que perderam a cabeça semana passada?
As mãos de Jonas pararam. Ele tinha conseguido destruir completamente o rosto do rei. Era muito gratificante acabar com aquela expressão presunçosa. Ele esperava ansiosamente pelo momento de fazer isso na vida real.
— Lembro.
— Não vamos acabar como eles, certo? E, só para constar, é melhor começarmos a correr.
Jonas deu uma olhada rápida para a direita e viu que vários guardas se aproximavam, as espadas empunhadas.
— Parem! — um deles gritou. — Em nome do rei!
Correr certamente era uma boa sugestão.
— Seu novo rei mente para todos! — Jonas gritou para a multidão enquanto ele e Brion corriam. Uma garota com longos cabelos escuros e olhos castanho-claros olhava para ele com curiosidade, então ele dirigiu as próximas palavras a ela. — O Rei Sanguinário pagará por seus crimes contra Paelsia! Você está do lado de um tirano enganador ou está do meu lado e de meus rebeldes?
Se ele conseguisse convencer apenas uma pessoa naquele dia, teria valido a pena.
Os guardas continuaram atrás de Jonas e Brion enquanto os garotos desciam ruas de pedra, corriam por vielas estreitas, mal conseguindo desviar de carruagens e cavalos dos abastados residentes de Pico do Falcão. A cada curva fechada, Jonas achava que havia despistado os perseguidores, mas os guardas não perdiam o rastro tão fácil.
— Por aqui — Brion disse, agarrando o braço de Jonas e puxando-o por uma rua lateral perto de uma pequena taverna.
Mas não tinha saída. Os dois tiveram que parar abruptamente diante de um muro de pedra que bloqueava o caminho, se viraram e deram de cara com os três guardas armados. Um falcão sobre o telhado da taverna levantou voo.
— Bando de arruaceiros — um guarda rosnou. — Vamos usar vocês dois como exemplo.
— Vão nos prender? — Brion perguntou, esperançoso.
— E dar a vocês a chance de escapar? Não. Só suas cabeças viajarão conosco até o palácio. O resto pode ficar bem aqui para apodrecer. — Ele sorriu, revelando um dente quebrado. Seus conterrâneos riram.
— Espere — Brion começou a falar —, podemos pensar em algo…
— Matem os dois — o líder dos guardas instruiu, dando um passo para trás.
Jonas agarrou a adaga incrustada de joias que levava na cintura — a mesma adaga que lorde Aron havia usado para tirar a vida de seu irmão —, mas seria de pouco uso contra três espadas afiadas. Ainda assim, se ele fosse morrer naquele dia, levaria pelo menos um daqueles três brutamontes junto. Ele agarrou a adaga com força. Brion segurou outra lâmina na mão enquanto os dois guardas se aproximavam, os corpos volumosos bloqueando a luz do sol.
Então os guardas cambalearam para a frente, com expressões de dor e confusão no rosto. Eles caíram, batendo com força no chão. Nas costas de cada um havia uma flecha profundamente fincada. O terceiro guarda se virou, espada em riste. Ouviu-se um som repugnante, e ele também caiu no chão, com uma flecha saliente na garganta.
Uma garota estava na entrada da viela. Quando ela abaixou o arco, Jonas se deu conta de que era a mesma menina que havia visto antes, no meio da multidão, mas notou que ela usava túnica e calças masculinas. Seu cabelo escuro estava preso em uma grossa trança nas costas.
— Vocês disseram que são rebeldes. É verdade?
Jonas apenas a encarou, embasbacado.
— Quem é você?
— Responda minha pergunta primeiro e talvez eu lhe diga.
Ele trocou um olhar com Brion, cujos olhos estavam arregalados feito dois pires.
— Sim. Somos rebeldes.
— E você mencionou Paelsia. São paelsianos? — Ela passou os olhos por eles. — Bem, isso é óbvio pela maneira como se vestem. Nem juntando os dois há seda suficiente para se passarem por auranianos. Mas me digam uma coisa… vocês são quase mortos todos os dias?
— Nem todos os dias — Brion respondeu.
A menina olhou para trás.
— Precisamos ir. Há muitos guardas na cidade, e eles logo vão se perguntar o que aconteceu com seus amigos, especialmente quando descobrirem que fim levou o mural do Rei Sanguinário. — Ela olhou para Jonas. — Bom trabalho. Meio bagunçado, mas eficiente.
— Fico feliz que tenha aprovado. Agora, quem é você?
Ela prendeu o arco na aljava amarrada às costas e puxou o manto para cobrir os trajes de garoto.
— Meu nome é Lysandra Barbas, e também sou paelsiana. Viajei por Paelsia e Auranos procurando os rebeldes. Parece que finalmente encontrei alguns.
— Precisa de nossa ajuda? — Jonas perguntou.
Ela olhou para ele como se fosse burro.
— Pelo visto vocês precisam da minha ajuda. Vou me juntar ao grupo. Agora vamos, não podemos ficar aqui.
Lysandra deu meia-volta e começou a sair rápido da viela, abandonando os corpos dos guardas sem olhar para trás.
Antes que Jonas se desse conta do que estava fazendo, foi atrás dela, com Brion correndo para acompanhar o ritmo acelerado dos dois.
— Lysandra — Jonas disse. — Tem certeza de que sabe o que está falando? A vida de um rebelde é perigosa e incerta. Você é muito boa com arco e flecha. Incrível, na verdade. Mas estamos acampados nas Terras Selvagens, onde não é seguro nem tranquilo. É um lugar perigoso, mesmo para nós.
Ela se virou para ele com os olhos faiscando.
— Está dizendo isso porque sou menina? Não tem nenhuma garota no grupo?
— Tem algumas — Jonas admitiu.
— Então vou me adaptar.
— Não me entenda mal, somos gratos pela sua interferência lá atrás…
— Interferência? — Ela o interrompeu antes que pudesse completar a frase. — Eu salvei a vida de vocês.
Ela não estava exagerando. Aqueles guardas teriam executado os dois na hora se ela não tivesse aparecido. Ele havia ido a Pico do Falcão em busca de novos recrutas, e Lysandra parecia ter muito potencial. Ainda assim, algo nela o fazia hesitar.
Aquele fogo em seus olhos e em suas palavras não era uma característica de todo paelsiano. A própria irmã de Jonas, Felicia, era uma lutadora, uma guerreira quando necessário, mas a paixão e a disposição de Lysandra para lutar eram raras como diamantes.
Seus instintos lhe diziam — em voz alta, inclusive — que Lysandra Barbas traria problemas.
— Quantos anos você tem? — ele perguntou.
— Dezessete.
A mesma idade que ele e Brion.
— E onde está sua família? Eles sabem que você está atrás de uma vida perigosa?
— Minha família está morta.
As palavras foram ditas bruscamente e sem emoção, mas, mesmo assim, fizeram Jonas se contorcer.
— Os homens do rei Gaius foram à minha vila recrutar todos para trabalhar em uma estrada que ele começou a construir — ela explicou. — Quando nos recusamos, eles voltaram e queimaram a vila inteira. Mataram quase todos que tentaram fugir. Os que sobreviveram foram escravizados e transportados para um dos campos de trabalho. Até onde sei, só eu consegui escapar.
A estrada do rei Gaius — aquela que ele havia anunciado durante o discurso na semana anterior.
— Quando foi isso?
— Há duas semanas. Mal dormi desde então. Tentei continuar caminhando, procurando. A maioria das pessoas em Paelsia está aceitando sua sorte, seu destino. Eu acho um absurdo. E aqui em Auranos o povo está iludido, achando que o rei Gaius não é tão mau quanto diz sua reputação. Estão errados. Todos eles. Agora que encontrei vocês, posso me juntar ao grupo e ajudar a libertar nossos conterrâneos.
Jonas engoliu em seco, com o peito apertado. Seus pés martelavam o chão enquanto eles continuavam a ganhar distância dos guardas mortos.
— Sinto muito pela sua perda.
— Não sinta. Estou aqui e pronta para lutar contra o Rei Sanguinário. Quero vê-lo sofrer. Quero vê-lo perder sua preciosa coroa e ter seu mundo incendiado enquanto morre gritando. É isso que eu quero.
— É o que todos queremos. Meus rebeldes estão prontos para fazer a diferença, e nós…
— Seus rebeldes? — Lysandra indagou bruscamente. — Está me dizendo que é o líder?
— Do nosso grupo, sim.
— Como você se chama?
— Jonas Agallon.
Ela arregalou os olhos.
— Já ouvi falar de você. Todo mundo em Paelsia sabe o seu nome.
Sim, o assassinato de seu irmão Tomas — o incidente que levou o rei Gaius a declarar guerra contra os auranianos, com os ingênuos paelsianos lutando ao seu lado — tornou o nome deles conhecido na região. Seus dedos roçaram na adaga incrustada de joias que ele guardava apenas para, um dia, usá-la para acabar com a vida do lorde Aron.
Lysandra olhou para Brion.
— E quem é você?
Ele sorriu imediatamente.
— Brion Radenos.
Ela franziu a testa.
— Nunca ouvi falar de você.
O rosto de Brion se fechou.
— Bem, ainda não. Mas também serei famoso um dia.
— Não tenho dúvidas. — Sua atenção se voltou novamente para Jonas. — Qual é o objetivo dos seus rebeldes?
Ele deu uma olhada numa viela, depois passou correndo, mas não havia guardas esperando por eles.
— Estamos recrutando por toda a Paelsia e Auranos. Já somos quase cinquenta. Estamos causando problemas onde podemos, para que o rei saiba da nossa presença e que representamos uma ameaça crescente. Aqui em Auranos, estamos avisando os cidadãos que o rei é um mentiroso e que eles não deviam acreditar tão facilmente em suas promessas.
— Seu grupo não fez nenhum ataque ao próprio rei?
— Ainda não. — A lembrança das cabeças dos três rebeldes sobre lanças o assombrava, fazia seu estômago ficar embrulhado. Ele queria fazer o que fosse preciso para derrotar o rei, mas perder alguém… fazê-los sofrer e morrer sob seu comando… Seria como ver o assassinato de Tomas se repetindo várias vezes, e ser pessoalmente responsável dessa vez.
— Destruir murais e recrutar rebeldes em potencial não derrotará o rei Gaius. — Ela finalmente diminuiu a velocidade e mordeu o lábio inferior, como se estivesse imersa em seus pensamentos. — Ele está escravizando nosso povo para construir a estrada. Nossos irmãos e irmãs paelsianos estão sendo forçados a trabalhar para ele, ou sendo mortos por tentar resistir.
— Eu não sabia disso. — Pensar em tamanha atrocidade o deixava irado. — O rei falou da Estrada Imperial em seu discurso como se fosse transformar toda a Mítica em um único povo, e os auranianos estão lambendo a ideia como se fosse leite oferecido a um gato.
— Os auranianos são idiotas. — Ela olhou ao redor. Eles haviam chegado à lateral de uma rua agitada, longe da multidão. Um mercado de frutas movimentado ficava a cinquenta passos de distância. — Eles merecem um rei como esse, mas os paelsianos não. O que mais ele disse no discurso? — Ela olhou para Brion em busca de informação.
— Ele anunciou o noivado do príncipe Magnus com a princesa Cleiona — Brion contou.
Os olhos dela se arregalaram.
— Então a princesa dourada vai se unir ao inimigo para não correr o risco de perder um único dia de sua vida luxuosa?
— Não — Jonas disse em voz baixa.
— Não o quê?
— A princesa não vai se unir ao inimigo. O noivado não foi… não pode ter sido ideia dela. A família Damora destruiu sua vida, matou seu pai e roubou seu trono.
— E agora ela está sendo recebida nessa nova família, com um telhado dourado sobre a cabeça e criadas para lhe servir café da manhã na cama e atender a todas as suas necessidades.
— Eu discordo.
— Pode discordar, mas isso não muda nada. Eu não dou a mínima para a princesa Cleiona. Eu me preocupo com o meu povo: meu irmão, as pessoas da minha vila, e todos os paelsianos que foram escravizados. Precisamos arquitetar um ataque à estrada imediatamente! Se querem mostrar ao rei que somos uma ameaça, como disse, que somos uma força com a qual ele deve se preocupar, esse é o caminho. Nós vamos libertar os escravos e destruir todo o progresso que já foi feito.
— Nós? — Jonas repetiu.
As bochechas dela coraram por sua veemência.
— Sim, nós.
— Você faria o favor de me dar um instante para discutir algumas coisas com Brion? — Ele apontou a cabeça para uma fileira de bancas de frutas. — Encontramos você ali em um minuto.
— Você vai me levar para o acampamento rebelde? — ela insistiu.
Ele não falou por um momento, apenas analisou aquela gata selvagem que havia salvado sua vida e demonstrado habilidades notáveis como arqueira. Queria pedir para ela ir embora e não lhe causar mais problemas — já que estava claro que era uma pessoa difícil de lidar. Mas não podia. Precisava de rebeldes apaixonados pela causa, não importava quem fossem.
— Sim, vou.
Ela finalmente sorriu, uma expressão brilhante e atraente que iluminou todo seu rosto.
— Fico feliz em saber. Vamos fazer a diferença. Espere e verá.
Sem mais nenhum comentário, Lysandra se virou e caminhou rápido até o mercado. Quando ela se afastou o suficiente, Jonas se virou para Brion.
Brion o olhou nos olhos.
— Aquela garota…
— Eu sei. Ela é complicada.
O amigo abriu um grande sorriso.
— Acho que estou apaixonado!
Jonas não conseguiu conter o riso.
— Ah, não. Não faça isso, Brion. Não se apaixone por ela. Ela só vai trazer problemas.
— Espero que sim. Gosto de problemas quando têm aquela carinha. — Brion ficou sério. — O que acha do plano de atacar a estrada?
Jonas sacudiu a cabeça, pensando nos rebeldes mortos, sangue escorrendo pelas estacas de madeira na praça do palácio.
— Agora é muito perigoso. Não posso correr o risco de perder nenhum de nós até sabermos que temos chance de lutar. O que ela está propondo significaria muitas mortes.
O maxilar de Brion ficou tenso.
— Você tem razão.
— Mas eu realmente preciso de mais informações. Sobre a estrada, sobre os planos do rei… Quanto mais soubermos, mais poderemos fazer para impedi-lo. E quando encontrarmos essa fraqueza, vamos explorá-la. — Um fogo novo havia se acendido sob sua pele ao pensar nos paelsianos escravizados. — Juro que vou derrubá-lo, Brion. Mas, no momento, estamos completamente cegos e surdos em relação a seus planos, a menos que ele anuncie tudo em um discurso. Preciso de olhos e ouvidos naquele palácio.
— Alguns espiões seriam cruciais. Concordo. Mas o que os impediria de serem descobertos e terem a cabeça enfiada em uma estaca?
— Um bom espião teria que ser indetectável. Um guarda ou alguém fingindo ser um guarda limeriano.
Brion sacudiu a cabeça.
— Mais uma vez, cabeça na estaca. Seria uma missão suicida com a vitória do rei Gaius tão recente. Sinto muito.
Jonas ficou refletindo sobre aquilo. Uma ideia que esteve em gestação desde o dia da derrocada de Auranos se estabeleceu.
— Então teria que ser alguém que já está no palácio. Alguém próximo do rei e do príncipe...

2 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!