14 de agosto de 2018

Capítulo 34

CLEO
AURANOS

— Meu filho está de volta ao palácio — as palavras do rei apertaram a garganta de Cleo como uma mão gelada, fazendo-a parar de repente no meio do salão. — Tenho certeza de que você aguardava ansiosamente por seu retorno.
Ela se virou devagar e viu o rei Gaius nas sombras, acompanhado de Cronus e de seus horríveis cães de caça.
— Ansiosamente, vossa majestade.
— Ele capturou um grupo de rebeldes que atacou um de meus campos de trabalho. Aqueles que não sucumbiram à sua espada foram trazidos para cá, para serem executados em público.
Jonas. Seu coração foi tomado por medo e expectativa.
— Já me sinto mais segura — ela disse, forçando um sorriso.
— Tenho certeza que sim — o rei a examinou com seus olhos frios de cobra. — Estou de olho em você, princesa.
— Assim como eu estou de olho em vossa majestade — ela respondeu com doçura.
— Lembre-se de uma coisa muito importante. Você não tem nenhum poder aqui, e nunca mais terá. Continuará a viver por um capricho meu, mas posso cancelar essa cortesia a qualquer momento, sem aviso prévio. Exatamente como fiz com sua amiguinha. Qual era o nome dela mesmo? Mira?
O sangue dela gelou.
— Tenha um bom dia, vossa majestade.
Ela continuou a caminhar pelo salão lentamente até virar no próximo corredor. Lá, encostou-se na parede e tentou parar de tremer.
— Ele não vai me derrotar — sussurrou, enxugando as lágrimas com raiva. — Ele pensa que tem poder, mas é só areia escorrendo entre seus dedos. Ele perderá tudo e não lhe restará mais nada.
Mas ela sabia que seus dias estavam contados. A excursão de casamento havia terminado. O brilho do “romance” entre ela e Magnus começava a se extinguir. Seus aliados reduziram-se a dois garotos — um que não conseguia nem olhá-la nos olhos depois de ter sido rejeitado por ela, e outro que podia estar morto ou prestes a ser executado.
Cleo esfregou seu anel, olhando para ele e rezando — embora não para a deusa Cleiona, não depois que descobrira a história daquela vigilante traiçoeira e ambiciosa — para que um caminho em meio à escuridão se abrisse diante dela.
— Por favor. Pai, por favor, me ajude. Não sei o que fazer. Sou uma tola por pensar que tenho alguma chance contra alguém como o rei Gaius?
O livro Canção da feiticeira havia trazido mais esclarecimentos sobre Eva — ela era capaz de usar a magia de todos os quatro elementos tão facilmente quanto respirava. No final do livro havia algumas linhas que ficaram gravadas na memória de Cleo.
Mil anos depois de sua morte, a feiticeira deverá renascer como uma mortal além do véu do Santuário. Uma vez desperta, sua magia revelará o tesouro oculto buscado tanto por mortais quanto imortais.
Eva foi assassinada por suas irmãs gananciosas, Cleiona e Valoria, que roubaram a Tétrade e usaram seu poder para se tornarem deusas.
Isso acontecera havia mil anos.
Uma feiticeira renascida, capaz de dominar todas as quatro partes doselementia com facilidade.
— Há algo estranho naquela garota — a criada Helena conversava com sua irmã dois dias depois de Cleo voltar da excursão de casamento, sem saber queela estava escutando. — A princesa foi instruída por uma bruxa.
— Uma bruxa?
— O próprio rei escolheu uma bruxa para a tarefa, mas acho que agora ela está morta. Eu a vi antes que a levassem embora. Seu rosto estava cheio de medo. Ela sussurrava algo sobre fogo e gelo. Achava que a princesa Lucia era má.
Criadas fofocavam sobre as coisas mais fantásticas. Ainda assim, Lucia havia iluminado a biblioteca…
— Magia — Cleo sussurrou. — Era isso que Lucia estava fazendo aquele dia? Seria a fofoca das criadas verdadeira, dessa vez?
O anel de Eva — o anel da feiticeira — brilhara quando Cleo tocou Lucia. Isso não havia acontecido nenhuma outra vez. Apenas na roda de pedra, que diziam ter alguma conexão com os vigilantes.
Devia haver algo a mais naquela história.
Cleo andou pelos corredores labirínticos, dirigindo-se aos aposentos de Lucia. Ninguém a impediu. Nem ao menos notaram sua presença.
O que está pensando, sua idiota?, ela criticou a si mesma enquanto apertava o passo. Acha que a filha do Rei Sanguinário, a irmã de Magnus, pode ser a feiticeira renascida?
Na entrada dos aposentos de Lucia, Cleo ficou paralisada. Ela ouvia as batidas ensurdecedoras de seu coração ao estender o braço e bater na porta. Então esperou.
Mas não houve resposta. Talvez Lucia não estivesse lá.
Pouco antes de ir embora, Cleo ouviu alguma coisa dentro do quarto.
Alguém estava chorando.
Reunindo coragem, Cleo segurou a maçaneta da porta e a girou, empurrando a pesada barreira de carvalho para espiar lá dentro.
A princesa Lucia estava em pé, de frente para a varanda aberta, com seus cabelos negros como penas de corvo descendo pelas costas. Seus ombros balançavam com os soluços — soluços de partir o coração, cheios de dor.
Aquele som fazia o próprio coração de Cleo doer.
Antes que percebesse, ela havia entrado no quarto, se aproximado de Lucia e estendido a mão para tocar seu ombro.
Lucia se virou, os olhos brilhando de surpresa.
Cleo engasgou, e sua respiração foi condensada no ar à sua frente. Estava muito frio no quarto — como nos jardins do palácio limeriano.
— Eu a matei — a voz de Lucia falhou ao dizer as palavras.
O olhar de Cleo baixou para o que a princesa segurava entre os braços. Era um pequeno coelho marrom, coberto de neve e duro como um bloco de gelo.
— O que você fez? — ela sussurrou.
— Eu não tive a intenção. Peguei Hana. Segurá-la me deixa feliz, me faz lembrar da minha casa. E pensei nas esculturas de gelo do Festival de Inverno: sereias, dragões, quimeras… tão frias, tão perfeitas. E… e meus pensamentos… eles foram suficientes para fazer isso. Ela morreu, e a culpa é minha!
Conjurar gelo… era magia da água. Magia da água poderosa.
As lágrimas escorriam pelo rosto de Lucia.
— Que a Deusa me ajude, não consigo controlar isso.
— Você consegue — Cleo disse. Ela ainda segurava o ombro de Lucia quando o anel começou a brilhar como da última vez. Seu coração acelerou. — Você pode controlar isso. Sua magia… é inacreditável.
— É o que papai diz — Lucia falou, com a voz trêmula. — Mas agora todos saberão disso.
— Não, não saberão. Prometo que não contarei a ninguém — Cleo pegou gentilmente o animal congelado das mãos de Lucia e o colocou no chão. E então segurou as mãos da princesa. — Posso ajudá-la.
Lucia engoliu em seco, franzindo a testa.
— Me sinto mais calma com você aqui. Mais controlada.
Claro que sim. Eu tenho o anel que ajuda a controlar sua magia.
Não era uma surpresa que não funcionasse com Cleo a menos que tocasse algum objeto mágico. Ela não tinha uma magia própria a ser dominada.
Ainda não.
— Tivemos um primeiro encontro ruim, Lucia. Sinto muito por isso. Mas quero ser sua amiga. Precisa de alguém em quem possa confiar. E eu também. — Ela não podia perder a coragem agora, quando mais precisava dela. — Sei o que você é e o que pode fazer. Você é uma feiticeira.
Os olhos de Lucia se arregalaram.
— Você sabe?
Então era verdade. Era disso — disso que Cleo precisava. Era o sinal que estava buscando, pelo qual rezava. A peça que faltava no quebra-cabeça. O anel era só metade dela.
A princesa Lucia era a outra.
— Sim, eu sei.
— E não tem medo de mim?
Estou extremamente aterrorizada.
— Não, não tenho medo de você. — Cleo sorriu e puxou aquela garota perigosa para um abraço apertado. — Eu e você… somos irmãs agora. Podemos ajudar uma à outra, se você quiser.
Lucia assentiu, apertando o rosto contra o ombro de Cleo.
— Eu quero.
Aquela princesa era a criatura mais poderosa que existia naquele momento. E a magia de Lucia — auxiliada pelo anel — seria essencial para que Cleo reconquistasse seu trono.
A chave para destruir o Rei Sanguinário era sua própria filha.

2 comentários:

  1. Eitaaaa! O circo tá pegando fogo.. Tô achando que a Lucia vai morrer logo, mas tenho dó dela, coitada, todo mundo quer manipular a menina em proveito próprio...

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    1. De Lúcia eu tenho é raiva. Só espera os próximos capítulos

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Boa leitura, E SEM SPOILER!