14 de agosto de 2018

Capítulo 32

JONAS
PAELSIA

Os rebeldes haviam erguido acampamento a pouco mais de um quilômetro e meio da linha de tendas ao lado da Estrada de Sangue, sem ousar acender uma fogueira. Observavam e esperavam, encolhidos juntos para se aquecer, até o sol começar a surgir entre as montanhas gigantescas. Até o falcão dourado que parecia seguir Jonas a todos os lugares havia se empoleirado na floresta de árvores frágeis e desfolhadas, aguardando com eles.
— O que ela é? — ele sussurrou para si mesmo, olhando para o alto. — O que quer conosco? Comigo?
A ave não respondeu. Em vez disso, voou para longe momentos antes de eles se prepararem para pôr o plano em prática.
Jonas deu a ordem para se moverem e, tão silenciosos quanto sombras, os quarenta e sete rebeldes se espalharam para invadir o acampamento em busca de Magnus e Xanthus. Como não era possível todos eles permanecerem juntos durante o ataque, o plano era se encontrarem num ponto definido, a três horas de viagem dali, antes de a noite cair.
Tinham seus alvos. Conheciam sua missão. Nada os distrairia. E qualquer um que entrasse em seu caminho morreria. Se tudo corresse perfeitamente, ninguém sequer saberia que haviam estado ali. Entretanto, Jonas nunca esperava que tudo corresse bem. Estava preparado para os obstáculos. Assim como seus rebeldes.
Minutos depois de entrarem no acampamento, um alerta soou.
E, então, o caos se instalou.
Levas de guardas começaram a transbordar de suas tendas e postos já de espada na mão. Lysandra encaixava flecha atrás de flecha no arco, soltando-as como um predador escondido nas sombras, a morte silenciosa deixando sua marca precisa na garganta ou no peito.
— Vá agora enquanto pode — ela ordenou a Jonas, enquanto ele lutava com um guarda —, e se encontrar lorde Aron antes de mim, mate-o… e faça doer.
A promessa de sangue — da vingança ansiada por tanto tempo — motivava-o como nada mais faria. Com o antebraço, ele golpeou o guarda na garganta, levando-o ao chão, inconsciente.
— Boa sorte, Lys. Se tudo der errado, vejo você e Brion na eternidade.
— Você acha mesmo que é para lá que vamos? — Ela chegou a rir de leve, mostrando dentes brancos e alinhados, o rosto iluminado pelo brilho dourado da alvorada. Ele estremeceu ao perceber que Brion tinha razão: aquela garota era absolutamente linda. — Vejo você nas terras sombrias, Agallon. Deixe um demônio ou dois para mim.
Ela continuou a fitá-lo por apenas um instante, e em seguida desapareceu sem dizer mais nada.
E Jonas partiu à caça de sua presa no meio da confusão e do turbilhão. Seus principais alvos eram Magnus e o engenheiro da estrada, mas esperava encontrar Aron também. Agora, o lorde tinha tanto a morte de Brion quanto a de Tomas para pagar com sangue.
Deu uma olhada em cada tenda por onde passava, mal combatendo qualquer um que encontrava. E os guardas caíam quase fácil demais. Estavam tão acostumados a dominar escravos fracos e desarmados naquela área isolada que foram pegos de surpresa com um ataque daquela magnitude ao raiar do dia — quase cinquenta rebeldes prontos para fazer o que fosse necessário para obter alguma vantagem sobre o rei que escravizava seus irmãos e irmãs, mães e pais.
Jonas limpou um espirro de sangue do rosto e continuou. Abriu a porta da próxima tenda, e seu olhar recaiu sobre alguém que reconheceu de imediato. Aron Lagaris dormia no chão. O ódio se acendeu dentro dele com a lembrança daquele desgraçado matando seu amigo. Matando seu irmão.
— Encheu a cara na noite passada, não foi? — Jonas rosnou. — Acorde. Quero que você saiba que serei eu a acabar com sua vida.
Ele deu outro passo, entrando na tenda, franzindo a testa. Os olhos de Aron estavam abertos e imóveis. A frente da camisa manchada de sangue — sangue que encharcava o chão de terra.
A constatação o atingiu em cheio. Aron já estava morto.
Alguém o agarrou por trás, um braço forte apertando sua garganta.
— Acha que a escória paelsiana pode nos atacar com tanta facilidade e não seremos capazes de matar até o último de vocês? — Era um guarda dos grandes e seu hálito fedia. — Não é bem assim, rebelde.
Jonas ergueu a lâmina da espada, mas o guarda agarrou seu pulso, torcendo-o até quebrar o osso com um estalo. Jonas rugiu de dor e perdeu a concentração por uma fração de segundo.
Foi tudo o que bastou.
O guarda baixou sua própria espada, enterrando-a diretamente no coração de Jonas.
Em seguida, ele puxou a lâmina e empurrou Jonas para a frente, que despencou no chão, a apenas poucos metros de Aron. Ele olhou para cima, arfando, e sua visão girando. O guarda era uma silhueta preta gigante cercada pela luz da manhã.
O homem limpou o sangue das mãos.
— Você realmente achou que poderia nos deter com seu grupinho de selvagens? Matarei mais alguns antes do café da manhã. — Ele riu enquanto deixava a tenda. O peito de Jonas ardia com a dor agonizante e abrasadora. Sua vida sangrou pelo chão da tenda, se esvaindo naquele brilho vermelho, escorrendo pela terra para misturar-se ao de Aron.
— Brion — Jonas sentia a garganta espessa e os olhos queimando. Lembrou-se de sua infância, quando corria pelo vinhedo com Brion, roubando uvas doces e suculentas, e eram perseguidos pelo pai nervoso de Jonas que, ao contrário do filho, aceitava o destino sem lutar, e sempre seguia as regras determinadas pelo chefe Basilius, mesmo que isso significasse não ter comida na mesa. Depois se lembrou de Tomas, sempre rebelde, rindo das suas travessuras. Tomas, que nunca seguiu uma única ordem na vida, a não ser as que dava a si mesmo. E Felicia, sua irmã mandona, que levava as mãos aos quadris, sacudindo a cabeça e avisando que Jonas teria problemas um dia se não entrasse na linha.
Felícia era forte o bastante para sobreviver sem ele. Forte como a mãe fora antes de a doença devastadora tomar conta dela. Jonas ouviu rumores de que a irmã de Cleo morreu de uma enfermidade parecida.
Nunca disse isso a ela. Deveria ter dito.
Imagens da princesa de cabelos dourados passeavam por sua mente. Ele estava novamente na caverna, beijando-a como se não tivesse escolha, confuso com aqueles sentimentos tão incontroláveis por uma garota que costumava desprezar e desejar que estivesse morta. Porém, com o tempo, até mesmo o ódio mais gélido pode se transformar em algo mais caloroso, como uma horrenda lagarta pode se transformar numa linda borboleta.
Via imagens de Lysandra, sorrindo, e sua beleza inesperada naquela manhã era como um soco no estômago. O brilho em seus olhos castanhos quando ficava nervosa e discutia, sempre lhe causando problemas. Mas estava feliz em tê-la aceitado como membro dos rebeldes porque era tão habilidosa, tão determinada, tão imensamente apaixonada que era capaz de acender uma fogueira dentro dele apenas com algumas palavras.
E agora ele morria, encarando os olhos imóveis de Aron Lagaris. Por meses Jonas desejou intensamente se vingar dele, mais do que qualquer outra coisa. E agora o rapaz que odiava mais do que a qualquer outro no mundo não passava de uma casca — uma casca vazia.
A morte não resolvia nada. Era apenas um fim.
E agora seu próprio fim havia chegado.
Ele enxergou uma onda de luz pelo canto da visão embaçada. Alguém havia entrado na tenda. Seus últimos suspiros eram tão fracos que ele pareceria morto a qualquer um, exceto a um curandeiro mais habilidoso.
Uma figura caiu de joelhos ao seu lado. Uma das mãos mornas repousou sobre a testa de Jonas, e a outra abriu sua boca. Ele não conseguia resistir, não conseguia falar. Nem mesmo piscar.
Algo foi enfiado em sua boca. Pedrinhas.
As pedras esquentaram sobre sua língua até parecerem carvão incandescente. Derretiam como lava, queimando-o, espalhando-se sobre a língua inteira, a boca, descendo pela garganta.
Ele se arqueou no chão enquanto o fogo escorria pelo seu ventre e se espalhava. Era tortura. Em seus últimos momentos de vida, alguém o estava torturando.
Uma mão firme pressionou seu peito para impedir que se curvasse para cima enquanto seu corpo convulsionava.
Como um sol se pondo atrás do horizonte, muito, muito devagar, a dor diminuiu, até se tornar apenas um calor no centro do corpo. Sua respiração ficou mais rápida. O coração palpitava.
Coração? Mas como era possível?
Seu coração havia sido empalado, mas agora parecia forte novamente. Jonas sentia o batimento — rápido, firme e contínuo. Sua visão também clareou aos poucos, ganhando brilho e foco até poder distinguir quem o atormentava.
O cabelo da garota brilhava como platina — ainda mais claro do que o de Cleo. A pele tinha um brilho dourado como a luz do sol e seus olhos eram claros, um tom prateado um pouco mais escuro que seus cabelos. Estava enrolada numa tapeçaria, arrancada da parede daquela própria tenda. Com exceção daquilo, estava nua.
— Estou furiosa com você — ela disse. — O ataque mal começou e já foi assassinado.
A boca dele estava muito seca.
— Estou morto. Esta é a minha entrada nas terras sombrias.
Ela deu um suspiro que pareceu aborrecido.
— Não estamos nas terras sombrias, embora eu tenha certeza de que um dia, em breve, você irá para lá. Se tivesse me atrasado só alguns instantes, essas sementes de uva não teriam feito nada por você.
Jonas examinou o rosto dela, a longa linha da garganta pálida.
— Quem é você? — ele sussurrou.
Ela o olhava fixamente.
— Meu nome é Phaedra.
— Phaedra — ele repetiu, lambendo os lábios ressecados. — Você disse “sementes de uva”? Do que está falando?
— A magia da terra trouxe você de volta do precipício da morte. A magia da terra pode curar ou matar, dependendo de quem a usa. Tem sorte de eu gostar de você.
Ele olhou para si mesmo, abriu a camisa arruinada e limpou o sangue. Tanto sangue, mas nenhuma ferida embaixo. A pele estava curada. Seu corpo estava inteiro novamente, inclusive o pulso que o guarda havia quebrado.
Ela tinha dito magia da terra?
Mas magia… isso não existia. Ele nunca acreditara.
Era impossível. Mas, ainda assim…
Seus olhos se fixaram nos dela.
— Você salvou minha vida.
— Salvei. Tentei resistir, continuar assistindo de longe. Ainda não sei se você será bom para mim… para nós. Ser capturado é uma coisa. Pelo menos há esperança de fuga. Mas morrer… — Ela grunhiu e colocou as mãos nos quadris. — Não consegui resistir. Tive que mudar da minha forma de falcão e agora… bem, agora estou presa aqui. Você tem sorte de eu sempre ter algumas sementes de cura escondidas nas penas para emergências!
Aquela garota era maluca. Completamente maluca.
— Forma de falcão?
— Sim, é isso que os vigilantes podem fazer.
Os olhos dele se arregalaram. Vigilantes?
— Escute — ela disse. — Como não posso mais me transformar, provarei de outra maneira o que sou. Ou melhor, o que eu era até agora.
Ela soltou a tapeçaria que usava para se cobrir. O tecido escorregou dos seios dela, e Jonas a admirou. Não pelos motivos que o faziam admirar os seios de uma garota — embora os de Phaedra fossem os mais belos que já tinha visto. Havia uma marca sobre o coração dela — uma espiral do tamanho da palma da mão — como ouro derretido dançando sobre a pele.
— Ficará mais escuro com o passar dos anos — ela disse, melancólica. — Quando minha magia começar a definhar.
Ele não conseguia encontrar voz para falar, mal podia encontrar ar para respirar. Aquilo podia ser verdade?
O falcão — aquele que se empoleirava perto do acampamento todos os dias. Aquele que o seguiu até Paelsia. Aquele que ele tentou ignorar. Era Phaedra? A magia era real? Os vigilantes eram reais?
Isso contrariava tudo em que acreditava. Mas ao ver aquilo, ao vê-la, com seus próprios olhos…
Jonas levou um susto quando sentiu a ponta afiada de uma espada contra sua garganta. E se repreendeu por perder o foco, por ficar extremamente distraído com a marca estranha e rodopiante de Phaedra, uma evidência de magia que tornara seus pensamentos um emaranhado denso e confuso.
Seu coração recém-curado se afundou quando ele ergueu o olhar e encontrou o príncipe Magnus, que entrara na tenda de maneira silenciosa e sorrateira.
— Perdão — o príncipe falou. — Com certeza não queria interromper isso.
Jonas fez uma careta.
— Que coincidência. Estava procurando por você.
— O sentimento é totalmente mútuo, rebelde.
Rebelde. Como seus rebeldes estariam se saindo fora daquela tenda? A preocupação tomou conta dele. Lysandra teria de liderá-los sozinha agora. Ele esperava que ela tivesse sucesso para encontrar Xanthus.
— Acabo de salvar a vida dele e agora você o ameaça? — Phaedra puxou a tapeçaria de volta para se cobrir. — Isso é muito grosseiro.
O rosto do príncipe estava sombrio.
— Você não tem ideia do quanto posso ser grosseiro. Devo demonstrar?
— Tire a espada do pescoço dele imediatamente!
A espada foi apertada com mais força contra a garganta de Jonas. O menor dos movimentos a cortaria. Jonas ainda estava fraco pela perda de sangue, e a cura mágica e violenta havia minado suas forças ainda mais. Ele mal conseguia se mover o bastante para proteger a si mesmo, muito menos a Phaedra.
O olhar de Magnus baixou até a borda da tapeçaria de Phaedra.
— O que disse ao rebelde é verdade? Você é uma vigilante?
— Sou. E você é o filho do Rei Sanguinário, que busca a Tétrade. Ele por um acaso sabe o que encontrará se localizá-la? Você sabe?
Jonas soltou um arquejo involuntário quando a espada de Magnus cortou sua pele e o sangue morno pingou de sua garganta.
— Agradeço muito pela confirmação de que o tesouro existe. — Magnus estreitou os olhos. — Devo admitir que tinha minhas dúvidas. Como exatamente posso encontrá-la?
Ela ergueu uma sobrancelha.
— A magia de sua irmã é igual à de Eva, não é? Ela é a chave para tudo isso.
A expressão de Magnus se tornou sombria.
— Como ela pode localizá-la? E quando? A estrada precisa ser terminada primeiro?
— Perguntas… tantas perguntas. — Ela inclinou a cabeça, examinando-o. — Tudo o que posso dizer é que ela corre perigo. Seus poderes a colocam sob grande risco. Se a magia a sobrecarregar, tudo estará perdido antes que qualquer coisa possa ser encontrada, e eu sei que você não deseja isso. Acredito que Lucia significa mais para você do que qualquer tesouro. E eu sei como ajudá-la. Posso lhe dizer como?
Os olhos dele se estreitaram.
— Fale.
— Existe um anel que foi forjado com magia pura no Santuário para ajudar as feiticeiras originais a controlar a Tétrade e seus próprios elementia. Esse anel está mais próximo do que pode imaginar.
— Conte mais — as palavras dele eram ríspidas e ansiosas agora. — Onde posso encontrá-lo?
— Se eu contar, você soltará Jonas e fará seu pai interromper a construção desta estrada.
— E se você não me contar, eu rasgo a garganta dele agora mesmo.
O pedaço da marca de Phaedra que estava visível na lateral da tapeçaria girava e brilhava.
O cabo da espada começou a incandescer. Magnus a soltou com uma arfada de dor.
— Resposta errada — Phaedra disse. — Talvez você ainda não esteja pronto para receber a minha ajuda. É uma pena. Lembre-se das minhas palavras: um dia você desejará ter sido mais receptivo aos meus conselhos. Jonas, precisamos ir.
Ela se virou para a entrada da tenda, mas a saída estava bloqueada por mais alguém.
Era alto, com cabelos ruivos que caíam até os ombros. Seus olhos tinham cor de cobre. Devia ter pelo menos o dobro da idade de Jonas. Os olhos de Phaedra arregalaram-se ao vê-lo.
— Xanthus.
Ele sorriu para ela.
— Há quanto tempo, Phaedra.
— Muito mesmo.
— Sabia que eu estava aqui, não é?
Ela assentiu devagar.
— Sim.
— Mas não disse a mais ninguém.
— Os outros pensam que você está morto. Se escondeu muito bem durante todos esses anos.
— Mas não de você.
— Não. De mim, não.
— Senti saudades, minha irmã. Muitas.
— Também senti sua falta. Mesmo que eu o tenha odiado por partir. Por fazer o que ela mandou.
A dor surgiu em seus olhos de cobre.
— Nunca quis magoar você.
— Eu sei. — Ela correu para os braços dele, abraçando-o com força. — Você pode me recompensar. Deixe este lugar. Você pode me ajudar… nos ajudar. Precisamos sair deste acampamento com segurança.
Jonas tentou acompanhar o que estava acontecendo, mas estava perdido. Aquele homem — Xanthus. Ele era o engenheiro da estrada que os rebeldes tinham como alvo. Mas era um vigilante também? Irmão de Phaedra? Como tudo aquilo era possível?
— Disseram-me que você viria até aqui — Xanthus disse, ainda abraçando Phaedra.
— Quem disse? — Ela se afastou e olhou para ele, tocando sua face. E então o rosto dela empalideceu. — Ela é maléfica, Xanthus. Por que ninguém consegue ver isso com a mesma clareza que eu?
— Melenia faz o que é necessário para salvar a nós todos — Xanthus disse. — E é agora, Phaedra. Estamos tão perto. — Ele tomou o rosto dela entre as mãos. — E sinto muito. Queria que você pudesse estar aqui quando acontecesse. Temos esperado por tanto tempo.
— Onde mais eu poderei estar? Sacrifiquei minha imortalidade, assim como você. Podemos ficar juntos novamente. Passado é passado. Vamos deixá-lo para trás.
Os olhos de Xanthus se estreitaram.
— Acho que não, minha irmã. Você sabe demais. Recebi instruções muito específicas de Melenia. E estou seguindo as ordens dela… sempre segui. E sempre seguirei.
As mãos dele começaram a reluzir com uma luz dourada, e Phaedra soltou outro suspiro, dessa vez de dor.
— O que está fazendo com ela? — Jonas perguntou. — Tire as mãos dela!
Magnus observava tudo em silêncio, os braços cruzados sobre o peito, a testa franzida.
— Nada pode impedir isto — Xanthus disse. — É melhor assim. Tente se lembrar disso, minha doce irmã. Fiz o que fiz porque é a coisa certa a ser feita.
O brilho cobriu toda a silhueta de Phaedra enquanto Jonas e Magnus observavam, estupefatos com aquela demonstração de magia. Mas que tipo de magia era aquela?
Jonas avançou, agarrando o braço de Xanthus para afastá-lo de Phaedra. Xanthus puxou Jonas pela camisa ensanguentada e o jogou para trás. Ele voou pela tenda e bateu com força na mesa de madeira, quebrando-a.
Phaedra caiu de joelhos, e seus olhos vidrados encontraram os de Jonas no local onde ele se arrastava, a dez passos de distância.
— Me perdoe — ela sussurrou. — Eu fracassei. Gostaria de ter… — Ela deu um último suspiro, e a vida abandonou seus olhos. Um momento depois, a espiral de sua marca se espalhou por seu corpo inteiro, e ela desapareceu num lampejo de luz cintilante.
Xanthus também havia sumido da tenda.
Jonas encarou, em choque, o lugar que a vigilante havia ocupado poucos momentos atrás. E então se encolheu quando a ponta fria e afiada da espada de Magnus tocou a sua garganta.
— Em pé, Agallon.
Jonas se esforçou para ficar de pé e encarou o príncipe com uma fúria desenfreada, o gosto amargo subindo pela garganta.
— Você age como se não tivesse acabado de presenciar um milagre… e uma tragédia.
— Admito, foi uma visão inesperada antes do nascer do sol. — Por trás do tom sarcástico do príncipe, Jonas ouviu um tremor em sua voz. Ver a morte da vigilante (era isso mesmo? Phaedra estava morta?) também abalara Magnus. — Mas eu me recupero rápido. Está na hora de uma viagenzinha até as masmorras do meu pai junto com seus amigos rebeldes. Ele ficará muito satisfeito por eu finalmente tê-lo capturado.
Como ele podia ficar ali parado e fingir que nada daquilo importava? E ignorar que o mundo nunca seria mais o mesmo? Os vigilantes não eram apenas uma lenda. A magia era real. Jonas cambaleava.
— Eu não matei sua mãe.
— Eu sei. Foi Aron Lagaris.
Jonas lançou um olhar para o corpo de Aron, voltando depressa para os olhos de Magnus.
— Ele matou meu irmão e meu melhor amigo.
— E agora está morto. Recebeu o mesmo fim que, originalmente, eu planejava para você. Apesar disso, preciso admitir, planejava fazer você sofrer um pouco mais.
— Era a minha lâmina que deveria ter tirado a vida dele!
Magnus lhe ofereceu um sorriso sutil e mal-humorado.
— Você vai superar.
De repente, um grito veio de fora da tenda. Muitos gritos e lamentos aterrorizados que não soavam mais como os ruídos familiares de uma batalha.
Levou apenas um instante para descobrirem o motivo.
— Fogo! — alguém gritou.
Uma linha de chamas começou a serpentear ao redor da tenda, como se a própria terra estivesse pegando fogo.
Magnus afastou a espada da garganta de Jonas e correu para a entrada da tenda, afastando-a.
Havia um incêndio no acampamento. Chamas laranja e amarelas iluminavam a área, engolindo a luz da aurora sobre as montanhas, queimando as árvores caídas e secas, as pilhas de lenha, as tendas. Guardas e escravos corriam aos berros. Alguns estavam em chamas — labaredas que ficavam douradas, prateadas e com um azul brilhante, sobrenatural. Eles gritavam em agonia enquanto a carne era queimada antes de o fogo, violento e devastador, transformar os corpos em cristal, explodindo em milhões de estilhaços de vidro.
Jonas testemunhou aquelas mortes com descrença. Não era um fogo normal que havia surgido durante a batalha. Era… era uma magia horrível, destrutiva, letal. Magia do fogo.
— O que é isso? — Magnus falou, a voz elevando-se de medo.
Sangue fora derramado na Estrada de Sangue. Três vezes. Três desastres. Um tornado, um terremoto, um incêndio.
O coração recém-curado de Jonas batia depressa. Ele se aproximou do príncipe.
— Acredita em destino, príncipe Magnus? Nunca acreditei antes, mas… você acredita?
— Por que pergunta?
— Curiosidade. — Jonas deu uma cabeçada contra o rosto do príncipe. Ele estivera enfraquecido desde a ressurreição. Levara tempo para recuperar todas as suas forças.
Mas finalmente elas estavam de volta.
Ele agarrou a espada de Magnus, golpeou o rosto do príncipe com o cotovelo e acertou em cheio seu nariz. O sangue esguichava, e Magnus urrava de dor. Jonas afastou a espada de Magnus e se preparou para partir a garganta do príncipe.
Mas Magnus também era rápido, e bloqueou o golpe com o antebraço. Àquela altura, a tenda já fora engolida pelas chamas. O fogo chegava perto dos dois, chamuscando-os.
Jonas girou a espada e atingiu Magnus na barriga com o cabo, ouvindo um grunhido satisfatório de dor. Mas antes que conseguisse atacar novamente, Magnus agarrou um tufo de cabelo de Jonas, arrancando-o pela raiz e acertando uma joelhada em seu peito. E então conseguiu arrancar a espada dele.
— Precisamos sair daqui ou iremos morrer — Magnus rosnou.
— Vim aqui preparado para morrer hoje. Na verdade, já morri uma vez.
Jonas pulou para cima de Magnus e jogou ambos para o fundo da tenda. Enquanto caíam, Jonas se virou de modo que a cabeça de Magnus batesse contra a quina da mesa em chamas. A pancada foi forte o bastante para atordoar o príncipe, e ele ajoelhou no chão, tentando respirar, com a espada na mão.
Ainda assim, Magnus agarrou Jonas antes que ele pudesse escapar.
— Tenho uma masmorra só para você, rebelde — ele prometeu.
Cinco guardas se aproximaram da tenda em chamas, gritando o nome de Magnus.
— Aqui! — ele gritou para os guardas. — Tenho um prisioneiro!
— Errado — Jonas grunhiu, usando suas últimas forças para se livrar das mãos do príncipe, arrancando sua espada novamente. Ele desferiu um golpe, mas Magnus rolou no chão a tempo de se esquivar.
Jonas praguejou enquanto via os guardas se aproximando da entrada da tenda em chamas.
— Capturem-no! — Magnus gritou.
— Talvez em outra oportunidade, vossa alteza. — Ele tinha ido até lá para prender Magnus, mas se demorasse mais um instante, aconteceria o contrário.
Sem perder tempo, ele rasgou a lateral da tenda e irrompeu no caos lá fora, se abaixando e se escondendo para não ser visto por nenhum guarda através das chamas mágicas que se espalhavam ao redor deles.
À direita, ele avistou um homem velho e careca, junto a uma garota, encolhidos, longe da carnificina, olhando em volta com medo e confusão.
Naquele momento, todas as tendas eram consumidas pelo fogo. O campo de trabalho da estrada havia se tornado um inferno.
Espalhados pelo chão estavam corpos queimando — guardas ou rebeldes, o sangue escorria pela estrada como se ela fosse uma tela violenta e feroz. Alguns haviam assumido a forma estranha de cristal após serem tocados pelo fogo, e acabaram quebrados e estilhaçados sobre a terra.
Onde está Lysandra? Foi seu primeiro pensamento coerente.
Ele apertou os olhos para encontrá-la, para encontrar qualquer rebelde, mas não via ninguém além daqueles que jaziam mortos no chão. Não conseguia contar. Não tinha certeza de quantos haviam caído.
O corpo de uma garota de cabelos longos e escuros estava em seu caminho, uma flecha perfurando seu coração. Ele perdeu completamente o ar ao vê-la.
— Não. Por favor, não. — Ele se agachou, tirando o cabelo do rosto da garota. Mas não era Lysandra. Era Onoria.
Uma perda… uma perda terrível para todos eles. Onoria era uma rebelde corajosa e inteligente.
Depois de fechar os olhos dela, Jonas levantou rapidamente e se escondeu atrás de uma tenda. Não podia ficar ali. Se ficasse, seria morto, pelo fogo que continuava a crescer ou por algum guarda.
— Lys — ele sussurrou. — Onde você está? Droga. Onde?
Ela tinha de estar viva. Lysandra Barbas não podia morrer aquela noite.
Não, ele decidiu, resoluto. Ela estava viva.
E se estivesse, ele a encontraria.

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