14 de agosto de 2018

Capítulo 31

MAGNUS
PAELSIA

Aron Lagaris havia executado o rebelde sem hesitar. Se não fosse por esta prova concreta de sua impiedade, Magnus poderia ter pensado que ele não passava de um pavão inofensivo.
Mas Aron tinha um curioso gosto por sangue. Não era uma surpresa que o rei o tivesse nomeado seu vassalo. Enxergara no garoto o que Magnus não vira.
Furioso, Magnus não pregou os olhos a noite toda, tentando compreender aquilo tudo. Ainda lhe doía a necessidade de abandonar temporariamente a perseguição a Jonas, mas ele lembrou que a reunião com Xanthus e as novas informações sobre a estrada poderiam lhe render respostas que o aproximariam da Tétrade.
A lua estava alta quando finalmente chegaram ao campo de trabalho da estrada, sujos e exaustos pela jornada de três dias através da paisagem paelsiana empoeirada. As Montanhas Proibidas dominavam o horizonte, compostas por formas irregulares e agourentas, pretas e cinza, com cumes íngremes cobertos de neve, erguendo-se no meio da noite. Entre todos os acampamentos às margens da estrada tortuosa, aquele era o mais isolado de todos, longe de qualquer vila habitada.
O chão ali era seco, rachado, e o pouco de vegetação que restava era amarronzado e ressequido. O ar não era frio como em Limeros, onde a respiração congelava e virava névoa quando se falava, mas havia uma friagem seca que ainda assim penetrava até os ossos de Magnus.
Aquilo o fez sentir falta do clima temperado de Auranos. Tão ensolarado e dourado, cheio de luz e de vida.
Não, espere. O que estava pensando? Não sentia falta daquilo. Não se importava com Auranos. Ansiava pelo dia em que voltaria a Limeros e nunca olharia para trás. Preferia mil vezes os lagos congelados aos jardins floridos.
— Vossa alteza… — Aron disse, forçando a voz como se estivesse repetindo várias vezes para ser ouvido. — Vossa alteza!
Magnus agarrou as rédeas do cavalo com tanta força que elas cortaram o couro de suas luvas.
— O que foi?
— Paisagem pouco acolhedora, não é?
Nesse ponto, eles concordavam.
— Sim, com certeza não é nada acolhedora.
Conversa fiada. Não era seu passatempo favorito.
Se seguissem para o oeste, na direção do Mar Prateado, Paelsia acabaria se tornando mais verde. Era onde os nativos plantavam suas vinhas, aquelas que davam uvas tão perfeitas que eram procuradas por todos os reinos do mundo para a produção de vinho. Todos os reinos exceto Limeros, que proibira substâncias inebriantes por ordem do rei. Ele havia optado por não instaurar tais leis em Auranos ainda. Poderia incitar um levante na região.
Na cidade das tendas, foram cumprimentados por um homem careca, de sorriso largo e pegajoso.
— É uma grande honra. — O homem pegou a mão enluvada de Magnus e a beijou. — Uma verdadeira honra recebê-lo aqui, vossa alteza. — Ele assentiu. — E, lorde Aron, estava ansioso por sua visita.
— Você é Xanthus? — Magnus perguntou.
Os olhos do homem se arregalaram, e ele começou a rir.
— Ah, não. Sou apenas Franco Rossatas, engenheiro-assistente deste canteiro de obras.
— Assistente? Onde está Xanthus?
— Em sua tenda particular, onde passa a maior parte do tempo, vossa alteza. Como chegaram mais tarde do que esperávamos, ele acha melhor falar convosco na primeira luz do dia, pois já se retirou.
A impaciência se acendeu dentro de Magnus ao ouvir algo tão irrelevante.
— Disseram-me que ele me receberia assim que eu chegasse, e agora descubro que preferiu o sono à cortesia? Que recepção é essa? O filho do rei encontra o engenheiro-assistente após uma jornada longa e árdua até aqui?
Franco engoliu em seco.
— Garanto a vossa alteza que informarei Xanthus pessoalmente sobre vosso desagrado. Nesse meio-tempo, se quiser, vossa alteza, permita-me mostrar nossos avanços por aqui no lugar dele.
Por um momento, Magnus pensou em exigir que acordassem aquele dorminhoco estúpido, mas conteve a língua. Para dizer a verdade, também estava muito cansado. Talvez a reunião pudesse esperar até o dia seguinte.
Franco os acompanhou até a estrada, explicando os detalhes e gesticulando enquanto caminhavam. Imensas faixas de floresta, em grande parte sem vida, foram derrubadas para abrir espaço para a estrada. Árvores com troncos largos e quebradiços jaziam por todo o acampamento como gigantes caídos. À esquerda, a paisagem estava repleta de homens suados, de aparência exausta, que trabalhavam duro, mesmo na escuridão.
— Ali adiante, temos homens trabalhando sem parar nas pedras — ele falou —, que formarão uma camada da estrada, tornando-a plana e fácil de trafegar com veículos de rodas.
— Sinceramente, Franco — Aron disse com desprezo. — Essas explicações são desnecessárias. Acha mesmo que o príncipe Magnus é algum aldeão idiota que não entende de construção de estradas?
Franco empalideceu.
— Claro que não, meu senhor. Só quis explicar de uma maneira que… que…
— Que mesmo um aldeão idiota poderia entender. — Aron pegou uma cigarrilha, acendendo-a numa tocha próxima.
— Não quis desrespeitá-lo, claro. Peço vosso perdão.
Magnus ignorou os dois e olhou na direção da clareira. A área estava cheia de guardas a pé ou montados. Um grupo de escravos paelsianos com o rosto sujo e roupas esfarrapadas passou por onde estavam, carregando pedras pesadas. Aqueles que não fitavam seus superiores com medo lançavam olhares corajosos de ódio.
Era uma imagem muito diferente do grupo de trabalhadores de Auranos.
Magnus observou até eles desaparecerem por trás da tenda mais distante.
— Quando os escravos descansam?
— Descansam? — Franco repetiu. — Quando despencam.
Um garoto passou por eles arrastando uma pedra que tinha metade do seu tamanho, o rosto transfigurado pela dor e pelo sofrimento.
— Quantos já morreram?
— Muitos — Franco disse, irritado. — Os paelsianos deveriam ser um povo forte mas, para ser sincero, fiquei pouco impressionado com o que vi por aqui. São preguiçosos, egoístas e, muitas vezes, apenas o chicote consegue fazê-los se concentrar.
Apesar da eficácia inquestionável, Magnus nunca apreciou o chicote como forma de punição.
— Eu me pergunto como você se sairia com a mesma quantidade de trabalho. Seria forte o bastante para lidar com as pressões da tarefa sem a ameaça de açoitamento?
As sobrancelhas espessas de Franco se ergueram e o rosto enrubesceu.
— Vossa graça, se não fosse pela disciplina, a chance de concluirmos a estrada no prazo que Xanthus está exigindo seria minúscula, especialmente nesta parte que passa por dentro das montanhas.
— E houve algum progresso na busca?
— Busca? — O homem franziu a testa. — Que busca?
— Esqueça.
Parecia que o engenheiro-assistente não sabia do verdadeiro objetivo da estrada além de… servir como uma estrada. Era melhor que tais segredos perigosos permanecessem ocultos.
O olhar de Aron se desviou do rosto suado e gorducho de Franco enquanto voltavam para a tenda do engenheiro. Uma garota bonita também seguia na direção da tenda, os braços cheios de lenha. Tinha cabelos castanho-claros que lhe caíam pelas costas. Por baixo do vestido simples, sua silhueta era magra, porém curvilínea. Ela teve a ousadia de olhar diretamente para Magnus com curiosidade enquanto passava sem dizer uma palavra.
— E quem é essa bela criatura? — Aron perguntou.
Franco olhou para a garota.
— Aquela é minha filha, Eugeneia.
— Peça que venha até aqui. Quero que me apresente.
Franco hesitou, lançando um rápido olhar para Magnus.
O príncipe assentiu, e Franco chamou a garota. Ela soltou a carga pesada, bateu as mãos na frente do vestido para limpá-las, e se juntou a eles quando entraram na tenda de Franco, deixando para trás um pouco do barulho de fora.
— Pois não, meu pai?
— Eugeneia, gostaria que conhecesse nossos ilustres convidados. Estes são o príncipe Magnus Damora e o lorde Aron Lagaris.
A surpresa iluminou o rosto da garota e ela imediatamente fez uma grande mesura.
— Diga-me, Eugeneia — Aron disse, com os olhos animados ao avistar a beleza dela de perto —, como você se sente passando tanto tempo neste acampamento com seu pai?
Ela olhou rapidamente para Franco, e então de volta para Aron.
— Posso ser sincera, lorde Aron?
— Claro.
— Não ligo nem um pouco para tudo isso.
Franco emitiu um grunhido em desaprovação e estendeu o braço como se para puxar a garota para trás. Aron ergueu a mão para impedi-lo.
— Do que você não gosta? — ele quis saber.
Ela fitou o chão por um momento antes de erguer os olhos e encará-lo.
— Meu pai é um engenheiro brilhante por mérito próprio. Incomoda-me que não possa tomar decisões sem a aprovação de Xanthus, mesmo que as decisões dele melhorem as coisas. Não faz sentido ter um homem cruel e ignorante no comando de tudo, sem absolutamente ninguém para discordar dele!
Franco a arrastou para o lado, envolvendo seus ombros com o braço.
— Quieta, garota. Suas opiniões não são necessárias nem apreciadas. Quer insultar nossos convidados?
O rubor se espalhou pelo rosto dela.
— Por favor, me perdoem. Esqueci meus modos por um momento.
— Eu aprecio sua veemência — Aron disse. — É muito raro alguém expressar sua opinião de maneira tão livre. É revigorante, eu acho.
Ela abaixou a cabeça.
— Obrigada, milorde.
— Franco, tenho um pedido — Aron disse, com o olhar ainda fixo na garota.
— Sim?
— Gostaria que sua filha se juntasse a mim para uma ceia em minha tenda.
Magnus revirou os olhos e se afastou.
— Esta noite?
— Quando seria?
Franco pigarreou, parecendo perturbado com o pedido.
— Suponho que esteja tudo bem, então.
— Pai… — Eugeneia começou a falar, em tom desconfiado.
— Você irá com ele. — O queixo gordo de Franco se ergueu quando assentiu. — Lorde Aron foi muito gentil em prestar atenção em você. O mínimo que pode fazer é cear com ele em agradecimento por essa honra.
A garota abaixou a cabeça.
— Sim, é claro.


A noite se estendeu longa e infinita diante de Magnus assim que se retirou para sua tenda particular. Pensamentos sobre magia, buscas malogradas, a mãe morta, o rebelde assassinado, o vigilante exilado desrespeitoso e a princesa ousada de cabelos dourados enchiam sua mente. Ele se revirou no colchão de palha. Depois de um tempo, decidiu que o ar fresco poderia ajudar a clarear a mente e se levantou.
Começou a caminhar pelo acampamento, passando pelas longas fileiras de tendas de todos os tamanhos. Perguntou-se qual delas pertenceria ao misterioso, “cruel e ignorante” Xanthus. Fogueiras sarapintavam a grande clareira, lançando faíscas para o céu que escurecia. Os guardas noturnos estavam em posição de patrulha, demarcando a área enquanto os outros dormiam. Os uniformes vermelhos eram fáceis de identificar nos arredores iluminados por tochas.
Algo lhe incomodava no pedido de Aron para jantar com Eugeneia. Ele não confiava no garoto, não com uma moça bonita como aquela. Ainda mais a sós.
— Não é da sua conta — ele disse a si mesmo.
Mas isso parecia fazer pouca diferença. Ele havia chegado ao destino que, agora percebia, visava desde que saíra para clarear as ideias.
A tenda de Aron era quase tão grande quanto a de Magnus. As duas eram do tamanho de uma cabana paelsiana, com uma área de estar, uma cama confortável, uma mesa para as refeições. Nada como estar no palácio auraniano, claro, mas Magnus estava acostumado àquele tipo de acomodação modesta.
Ele se aproximou da porta, vislumbrando o interior pela pequena fresta, e viu que Eugeneia já havia chegado e estava sentada à mesa. Pratos e bandejas vazias estavam em um canto. O jantar já havia acabado. Os cabelos dela estavam presos na altura dos ombros num coque trançado, e ela havia trocado o vestido por um modelo mais elegante.
— Você deve estar se sentindo tão honrada neste momento — Aron dizia. — Por estar aqui comigo.
Aron se empoleirou na mesa ao lado dela. Ele comia um pêssego, fatiando-o com uma lâmina prateada adornada. O sumo pingou do queixo e ele o limpou com a manga da camisa.
Ela estava sentada numa cadeira a um braço de distância dele.
— Muito honrada — ela disse, depois de uma pausa.
— No momento em que o rei Gaius me viu, soube que eu estava destinado à grandeza. Não há precedentes da nomeação de um vassalo na minha idade… especialmente por um rei conquistador. — Ele olhou para ela, esperançoso, aguardando uma reação.
— O senhor deve ser muito especial, milorde.
— Quer mais alguma coisa para comer, minha querida?
— Não… não, milorde. Fico muito grata, mas realmente preciso voltar. Está tarde. — Ela olhou para a porta, e Magnus recuou até as sombras para não ser visto.
— Não quero que vá.
— Amanhã o dia começará bem cedo e…
Aron estava sobre ela num instante, erguendo-a da cadeira e pressionando a boca contra a dela.
Ela arfou contra os lábios dele enquanto se desvencilhava.
— Lorde Aron… eu mal o conheço!
— Você me conhece bem o suficiente. Vai passar a noite comigo.
Com o rosto em chamas, ela cruzou os braços diante do peito.
— Não acho que seja uma boa ideia. Meu pai…
— Seu pai daria permissão se eu pedisse. Acha que não? — Aron abriu um sorriso largo, revelando os dentes. — Ele sabe como sou valioso para o rei. Cumpro missões muito importantes para o rei Gaius, tarefas que não são para qualquer um. Resolvo os problemas dele na calada da noite.
— Problemas?
— Pessoas estúpidas e ignorantes que ficam no caminho de seus desejos. Já dei tantas provas de lealdade ao rei Gaius que ele me concederia qualquer coisa que eu desejasse. — O olhar de Aron percorreu a extensão do corpo dela com apreço. — E neste exato momento eu desejo você.
— Preciso ir — Eugeneia virou-se para a porta.
Aron agarrou o braço dela.
— Gosto de garotas que se fazem de difíceis, mas minha paciência tem limite.
— Não sou o tipo de garota que fica com um homem que acabou de conhecer, mesmo que ele seja um lorde importante.
— Na verdade — o apertão no braço se intensificou —, você será exatamente o tipo de garota que eu quiser que seja.
— Não, lorde Aron. Eu sou…
Aron a soltou apenas para lhe dar um tapa forte no lado direito do rosto. Magnus estava tenso, mas permaneceu em silêncio, observando. Aguardando o momento certo.
Eugeneia levou a palma da mão ao rosto, afastando-se de Aron e indo em direção à mesa. Seus olhos arregalados reluziam com lágrimas.
— Por favor, não me machuque.
Aron avançou sobre ela.
— Talvez eu não tenha sido totalmente claro. Escolhi você dentre todas as vagabundas paelsianas lá fora que viriam correndo se tivessem a oportunidade de esquentar minha cama hoje à noite. Não faça eu me arrepender da minha decisão.
Ele a agarrou com força e a puxou para o seu peito. As mãos dele deslizaram pelas laterais do corpo dela, enquanto começava a puxar suas saias.
Mas então ele cambaleou para trás, olhando para baixo e vendo a ponta de uma faca enfiada em sua coxa. Era a adaga que usara para cortar o pêssego — Eugeneia devia tê-la escondido. Magnus ficou impressionado. Não a vira pegá-la.
Aron a encarou com ódio, dor e fúria, enquanto arrancava a lâmina, deixando-a tilintar sobre a mesa. Ele agarrou a garota pela garganta e a pressionou contra a mesa.
O olhar de Magnus pousou um instante sobre a adaga antes de atravessar a distância em poucos passos e apertar o braço de Aron com força.
— Não é uma boa ideia — ele falou.
Aron o encarou de volta.
— A vadia ignorante me cortou.
— Sim, cortou. Solte-a. — A melhor maneira de lidar com aquele bêbado idiota era não ser abertamente severo ou violento. Em vez disso, ele abriu um sorriso para Aron. — Ela é insignificante.
Os olhos dele ardiam.
— Eu a desejo. E sempre consigo o que desejo.
— Posso arrumar muitas garotas para você, muito mais bonitas do que esta aqui. Uma, duas, três ao mesmo tempo. À sua escolha. Esta aqui provou não valer seu esforço. — Magnus encarou Eugeneia. — Não é mesmo?
Ela tremia de medo, mas havia algo de severo em seu olhar. Ódio pelos dois em igual medida.
— Sim, vossa alteza. Não sou boa o suficiente para lorde Aron.
— Então sugiro que vá embora.
Ela se levantou da mesa e correu da tenda. Aron observou-a fugir com um olhar sombrio.
— Quanto você bebeu esta noite? — Magnus perguntou.
Pelo olhar desfocado de Aron e o fedor de seu hálito, o garoto estava mais bêbado do que Magnus jamais tinha visto.
— O suficiente.
— Verdade? Que pena. Eu me juntaria a você em mais uma rodada. — Magnus rasgou uma tira de seda da toalha de mesa. — Deixe-me ajudar com essa ferida. Não parece tão feia.
Aron deixou que ele limpasse a ferida, seu rosto coberto de dor.
— Sabe, eu poderia tomar mais alguma coisa.
— Imaginei que entraríamos num acordo. — Quando ele terminou o curativo, Magnus agarrou um garrafão de vinho. Serviu duas taças e entregou uma a Aron.
Aron tomou tudo em um gole audível.
— Estou envergonhado por vossa alteza ter presenciado aquilo.
Magnus fez um gesto com a mão enquanto tomava um gole do vinho. Ele não costumava se dar esse luxo com frequência; era proibido em Limeros. O vinho era doce, suave e nada desagradável.
— Não fique. Serve apenas para mostrar como as mulheres são voláteis.
— E idiotas também. — Aron já bebia a segunda taça que Magnus havia servido. — Muito obrigado, vossa graça.
— Quanto mais beber, menos a ferida vai doer.
— Espero que esteja certo. — Aron fez uma careta, tocando o curativo com cuidado. — Pensei que vossa alteza ficaria bravo comigo por tentar dormir com a garota.
Dormir? Para Magnus, parecia mais uma tentativa de estupro.
— De forma alguma. — Magnus se esforçou para manter o sorriso. — Era uma garota atraente. Só não era para você.
— As mulheres são criaturas das trevas dissimuladas, cuja beleza nos atrai o suficiente para que possam enterrar suas garras em nossa carne. — Um brilho bem-humorado iluminou o olhar de Aron, enquanto ele tomava outro grande gole de vinho. — Por isso elas precisam ter as garras cortadas o mais rápido possível, como vossa alteza fez com Cleo.
— Garras afiadas, realmente. — A menção à princesa, que surgia em sua mente mais do que ele gostaria durante a jornada, fez Magnus virar a taça antes de perceber o que estava fazendo. — Tenho uma curiosidade, lorde Aron.
— Qual é?
— Confesso que não sei muito bem o que fez como vassalo do rei para se provar tão valioso ao meu pai. O que disse mais cedo para Eugeneia… você matou em nome do rei? Além do rebelde naquele dia?
Aron assentiu, com a expressão fechada.
— Matei.
Magnus inclinou-se mais perto e esboçou um sorriso para tranquilizar o rapaz.
— Acredito que conseguimos deixar de lado nossas muitas diferenças e nos tornamos bons amigos durante esta jornada.
As sobrancelhas de Aron ergueram-se.
— Vossa alteza acha mesmo?
— Sim, claro. Gostaria de ser seu amigo. Amigos compartilham segredos. Confiam um no outro para se apoiar em momentos de necessidade.
— Faz muito tempo que tive um amigo assim — Aron falou, melancólico, girando sua taça de vinho.
— Eu também. — Não desde Lucia, quando ela ainda conseguia olhá-lo sem que o nojo maculasse sua opinião. A lembrança dela suscitava uma dor constante em seu peito.
Mesmo parado, o mundo adquiria um brilho que trazia consigo uma ponta de delírio. O vinho paelsiano era muito forte — era capaz de inebriar um homem com apenas uma taça.
Cleo gostava de vinho. Ele a vira beber bastante na noite do casamento, e também durante a viagem. Talvez a ajudasse a tolerar a dor de estar perto de alguém que odiava tanto.
— Minha primeira missão para o rei é a que mais pesa sobre mim — Aron ergueu os olhos para Magnus.
— Conte mais.
Aron se virou de costas, segurando a taça com força.
— O rei me fez jurar segredo.
— Talvez eu possa adivinhar o que ele pediu para você fazer. Se eu estiver correto, prometo perdoá-lo.
Aquela esperança iluminou novamente os olhos de Aron.
— Sério?
— Sério. No fim das contas, tirei a princesa de você. Acredito que lhe deva um favor.
Aron refletiu sobre aquilo.
— Certo. Vossa alteza pode tentar adivinhar, mas duvido que acertará.
Magnus assentiu, então se inclinou e pegou a adaga que Aron havia deixado cair no chão e colocou-a entre eles no tampo de madeira da mesa. As joias incrustadas no cabo reluziam à luz da vela. A lâmina ondulada ainda estava coberta de sangue e do sumo grudento do pêssego.
Aron a encarou como se a visse pela primeira vez.
— Esta adaga é sua? — Magnus perguntou com suavidade.
Houve uma hesitação perceptível antes de ele responder.
— É.
— É idêntica à adaga usada para matar a rainha; evidência usada por meu pai, o rei, para acusar o líder rebelde. Eu achava que fosse um exemplar único, mas parece que você possui uma igual. Quantas adagas desta existem, lorde Aron?
As sobrancelhas de Aron se juntaram.
— Há uma razão para isso, eu garanto.
— Isso não responde a minha pergunta. Quantas destas adagas incrustadas com joias existem? Duas? Uma o rebelde usou para matar a minha mãe, e a outra está em sua coleção pessoal? Ou existem três adagas, Aron? Se eu encontrasse Jonas Agallon, eu descobriria que ele ainda tem a adaga que você cravou na garganta de seu irmão?
Um vento frio se espalhou pela tenda, mas talvez fosse apenas o sangue de Magnus esfriando a cada palavra que proferia.
Lorde Aron podia ter o título de vassalo do rei, mas não era um cavaleiro treinado. Não era um bom lutador. Não tinha capacidade de mentir sobre algo tão importante. Era apenas um rapaz com aspirações de grandeza e um gosto por sangue quando lhe servia.
Quando o suor que brotava da testa de Aron revelou mais do que as palavras poderiam dizer, Magnus continuou:
— Desde que você executou o rebelde, tive minhas suspeitas. Mas eram apenas sussurros no fundo da minha mente. Você não queria que Brion Radenos continuasse a falar, a me convencer de que Jonas não tinha nada a ver com o assassinato da minha mãe. Porque não tinha mesmo, não é? Foi você quem a matou. Você a matou sob ordens do meu pai.
A acusação deixou um gosto amargo na boca, mas ele sentia a verdade.
A dolorosa verdade.
Aron preferiu fitar a adaga a enfrentar o olhar de Magnus.
— Era uma mulher enganadora, fazia de tudo para impedir que o rei alcançasse sua glória plena. Fria e incapaz de amar, ele me disse, mesmo seus próprios filhos. Ela poderia tê-lo destruído. Destruído tudo.
— Então você confessa ser o assassino.
— Sim. Não se pode discutir com o rei.
— Não, não se a pessoa dá valor à vida. — Magnus soltou um suspiro profundo e tentou se recompor, livrar-se da leve embriaguez causada pelo vinho. Deixou a adaga sobre a mesa. — Acredite ou não, eu entendo. Meu pai induz as pessoas a fazerem coisas com as quais não concordam. Ela as manipula em seu próprio proveito e tem tido muito êxito com isso.
Até mesmo com o próprio filho.
— Vossa alteza disse que me perdoaria — Aron falou com a voz nervosa.
— Eu disse, não é? Mas como posso perdoar alguém por algo dessa natureza? Você assassinou minha mãe. — Magnus desembainhou a espada e apontou-a para o rapaz.
Aron agarrou a adaga e segurou-a diante de si.
— Eu me defenderei!
— Pois deveria mesmo.
— O rei me dará proteção contra vossa alteza. Contra qualquer um que quiser me ferir. Ele viu como sou valioso.
— Existe algo no sangue de todos os auranianos para acreditarem tão rápido nas mentiras do meu pai?
Lágrimas escorriam dos olhos de Aron; a visão deixou Magnus enjoado.
— Recomponha-se, seu tolo patético. Essa não é a maneira correta de um vassalo do rei se comportar.
— Perdoe-me, vossa alteza. Sinto tanto, tanto, pelo que fiz.
O fogo que surgira dentro de Magnus ao saber que aquele pavão insosso era o assassino de sua mãe, responsável por ajudar o rei a incriminar outro e a esconder toda a verdade dele, diminuiu um pouco. Matar Aron numa vingança regada a vinho lhe traria tão pouca satisfação quanto esmagar uma barata.
— Retomaremos este assunto com meu pai quando voltarmos ao palácio.
O pai dele tinha muito a explicar. Ele abaixou a espada e se encaminhou para a entrada da tenda.
No reflexo de um cálice de prata, ele viu Aron levantar atrás de si com a adaga em punho.
Magnus se virou. Ele desviou da lâmina com o braço esquerdo e com a mão direita cravou a espada no peito de Aron.
O rapaz ficou lá, empalado, os olhos arregalados, encarando Magnus como se estivesse surpreso. Ver aquela expressão em alguém que havia tentado matá-lo enfureceu o príncipe ainda mais. Ele girou a lâmina, e Aron soltou um grito atormentado, o som de um animal agonizante, antes de a vida finalmente abandonar seus olhos. Com um puxão vigoroso, Magnus arrancou a espada, e o lorde despencou mole no chão.
Magnus permaneceu lá por alguns instantes, em silêncio, encarando o assassino de sua mãe, enquanto o sangue de Aron começava a formar uma poça ao lado da bota esquerda do príncipe. Os olhos vítreos fitavam o teto da tenda.
Como Magnus esperava, não houve vitória verdadeira naquela morte. Apenas o vazio.
Mas agora ele sabia a verdade. Nunca sentira tanto ódio na vida. Ódio pelo homem que sempre venerara, mesmo que não concordasse com todas as suas decisões; um homem que não era fraco, que fazia o que era preciso, que alcançou poder e glória com violência, intimidação, inteligência e força bruta.
No passado, Magnus aspirava ser exatamente como seu pai.
Agora, não mais.

8 comentários:

  1. Vo te falar esse magnos me tira do sério ele só mato o Aron pra se defender , já ia embora deixando o assassino da mãe lá =/

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  2. Gente no capitulo anterior eu fiquei cabulada tem gays na historia
    😲😏

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  3. Temos um aliado, senhor Magnus?

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  4. Gosto muito deste livro, porém ele é tão machista assim como retrata?.Já estou no final desse livro e fico um pouco agoniada com isto, entendo que diante da epoca não esperava menos, mas está piorando a cada capitulo!

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    1. Como assim, machista? Acho que ele só falou mal da menina pro Aron perder o interesse nela, e não querer matá-la.. Aliás, tô achando que essa história da Cleo ter perdido a virgindade com o Aron é uma mentira que ele contou para chantageá-la, já que ela tava muito bêbada no dia e não iria lembrar mesmo..

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    2. Machista? Pra mim não. E olha só já que tocou no assunto nos próximos livros entrará uma personagem nova e essa questão do machismo terá muito destaque nos próximos capítulos. Confesso que até me irritou, mas isso por causa da personagem, em compensação tem a Lys ❤️ que é uma baita garota tendo que conquistar seu lugar já a outra lá... Deixa quieto melhor eu não falar mais nada pra não soltar Spoiller e nossa nunca pensei nessa hipótese da Cléo não ter perdido a virgindade com o Aron.

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  5. Todo mundo morre nessa história? Valha-me , Deus

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  6. E a única coisa que eu consigo pensar é no quão p**o o Jonas vai ficar de não ter sido ele a matar o Aron

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Boa leitura, E SEM SPOILER!