14 de agosto de 2018

Capítulo 30

NIC
AURANOS

Não havia tempo a perder. Ele tinha que falar com Cleo imediatamente. Nic vasculhou o castelo até finalmente encontrá-la do lado de fora, no pátio ensolarado, sentada em um banco, cercada de árvores carregadas de frutas e flores perfumadas. Estava tão compenetrada na leitura que não o ouviu se aproximar. Ele olhou por cima do ombro dela e viu que estava imersa em um livro tão antigo que as folhas eram amarelas e quebradiças. Ela passava o dedo sobre a ilustração de um anel com uma grande pedra e o aro parecido com hera retorcida.
— Parece o seu anel — ele disse, surpreso.
Cleo fechou o livro rapidamente e se virou para ele, os olhos arregalados. Depois soltou um suspiro trêmulo.
— Ah, Nic. É você.
Poucas vezes ele a vira tão nervosa. Nic deu uma olhada nos outros quatro guardas que vigiavam a área. Todos estavam encostados nos muros de pedra, imóveis como estátuas, longe o bastante para que os dois não corressem o risco de serem ouvidos.
Os dedos de Cleo apertavam o livro que ela agora segurava junto ao peito. Nic inclinou a cabeça para ler o título: Canção da feiticeira.
Ele não podia se deixar distrair. Tinha algo a dizer e precisava falar antes que fossem interrompidos. A privacidade de um membro da guarda do palácio — mesmo um membro relutante como ele — era fugaz.
— Precisamos fugir deste lugar — Nic sussurrou. — Precisamos ir enquanto podemos, enquanto existe uma chance de partir sem sermos notados. Precisamos partir hoje à noite.
— Não, Nic. — Cleo olhou em seus olhos. — Este é o meu palácio, o meu trono. Não posso partir. Ainda não.
— Tenho pensado nisso todos os dias e cheguei ao meu limite, Cleo. Quando o príncipe voltar… Eu não posso protegê-la de Magnus todas as horas do dia e da noite. E não vou deixar que mate você como fez com Mira.
— Nic. — A dor surgiu nos olhos dela diante da menção de sua amiga perdida. — Sofro pela morte de Mira tanto quando você, mas foi o rei que matou sua irmã. — Ela colocou o livro de lado e segurou as mãos dele. — Magnus poupou a sua vida, e me protegeu em Limeros durante a tentativa de assassinato.
Ele ficou olhando para ela, sem acreditar.
— Está realmente tentando defender o mesmo garoto que assassinou Theon? E que ficou ao lado do pai enquanto conquistavam este reino? Você não está… você não está se apaixonando por ele, está?
Cleo se encolheu como se tivesse levado um tapa.
— Não é nada disso. Eu desprezo Magnus, e isso nunca vai mudar.
Ele engoliu em seco, ignorando o instante de culpa por tê-la acusado de algo tão inconcebível.
— Não sei por que você não gostaria de deixar este lugar e nunca mais olhar para trás.
— Porque foi aqui que passei minha infância e dezesseis anos de felicidade. Aqui estão as lembranças de Emilia e de meu pai, assim como de sua irmã. Este é o meu reino, o nosso reino.
— É diferente agora.
— Sim, você tem razão. É diferente. — Cleo olhou para o livro, pousando a mão sobre a capa. Fez uma longa pausa, depois respirou fundo. — Certo. Você viu o desenho que tem aqui. Viu o anel e como ele se parece com este que estou usando.
Ele franziu a testa. Onde ela estava querendo chegar?
— Vi.
Ela o olhou nos olhos.
— É porque é o mesmo. Meu pai me deu este anel quando estava morrendo. — A voz dela falhou. — Existem poucas informações concretas sobre ele, mas alguns acreditam que é a chave para localizar a Tétrade e canalizar seu poder. É o mesmo anel que a feiticeira Eva possuía, que permitia que tocasse nos cristais sem ser corrompida por seu poder. Preciso encontrar esses cristais, Nic. Preciso da magia deles. Com isso, vou derrotar o rei Gaius e retomar meu reino.
A cabeça dele estava girando.
— Suas palavras… isso é loucura.
— Não, é real. Eu sei que é.
Nic tentou processar tudo o que ela estava dizendo, mas uma coisa se sobressaiu, algo que ele não conseguiu deixar passar.
— Por que não me disse nada antes?
Ela hesitou.
— Eu não queria colocar você em perigo. E não sabia ao certo o que deveria fazer, em que deveria acreditar. Não completamente. Mas agora eu sei. Este livro confirma o que eu já sabia que era verdade. Meu anel pode me ajudar a destruir o rei Gaius.
Suas entranhas queimavam, mas, apesar das revelações, uma coisa não havia mudado desde que decidira falar com Cleo. Seu objetivo ainda era o mesmo.
— Se alguém souber que você tem esse anel… — Ele pegou a mão dela, sentindo a pedra roxa fria junto à pele. — Nós partiremos hoje à noite e descobriremos juntos.
O olhar dela ficou frio.
— Nic. Por favor, entenda que eu não posso ir embora.
Devia haver um motivo para ela resistir àquele plano, que resolveria tantos problemas. E ele só conseguia pensar em um. E era algo que o torturava.
— Quando você o beijou em Limeros, parecia tão real… parecia que você queria beijá-lo.
Cleo soltou um resmungo de frustração e soltou as mãos dele.
— Eu já disse que tudo o que viu entre nós não passou de encenação.
Ele havia acreditado na época. Mas a imagem de Magnus puxando a princesa para perto e a beijando diante da multidão que vibrava havia funcionado como um veneno de ação demorada injetado sob sua pele. Ele precisava botar para fora. Precisava falar o que estava em seu coração, caso contrário sabia que seria tarde demais.
Nic pegou as mãos dela novamente e se ajoelhou.
— Eu amo você, Cleo. Mais do que tudo no mundo. Eu imploro que você fuja comigo, fuja disso tudo.
Os outros guardas finalmente haviam notado os dois e se aproximavam.
— Está tudo bem, vossa alteza? — um deles perguntou.
— Sim, é claro. Meu amigo só está sendo tolo. — Ela sorriu com doçura na direção deles antes de olhar com severidade para Nic. — Você vai acabar no calabouço se continuar se comportando assim.
A dor surgiu em seu peito como se tivesse sido acertado por uma lâmina afiada. Nic ficou em silêncio por um instante, dilacerado pela decepção. Ele se levantou de novo, o coração pesado no peito.
— Preciso ir. Preciso pensar.
— Nic!
Ele deixou o pátio sem olhar para trás.


— Mais um — Nic fez um sinal para o atendente. Havia perdido a conta de quantas doses já tinha tomado. E pretendia tomar muito mais, para depois desmaiar no duro catre no alojamento dos criados.
— Ela não me ama — ele falou arrastado, virando o copo de líquido ardente. — Que seja. Que nossa morte inevitável seja rápida e indolor aqui no meio do covil de nosso inimigo.
A taverna se chamava A Fera, porque parecia uma enorme criatura preta saindo da terra suja. E também porque tinha fama de causar uma dor de cabeça feroz em seus frequentadores no dia seguinte. No momento, Nic realmente não se importava.
— Parece que você teve um dia ruim. — Havia um leve sotaque exótico naquela voz. — Beber ajuda?
Através da névoa provocada pelo álcool, Nic se surpreendeu ao ver o príncipe Ashur, de Kraeshia, sentando-se ao seu lado. Ele sabia que o príncipe decidira permanecer em Auranos depois do casamento, residindo temporariamente na ala oeste do castelo. Todos os guardas do palácio haviam recebido ordens de ficar de olho naquele belo solteiro — ordens que vieram do próprio rei. Alguns guardas diziam que o rei via o príncipe como uma ameaça ao seu poder. Afinal, o pai de Ashur havia conquistado metade do que conheciam como mundo com a mesma facilidade com que se tira doce de uma criança.
Por um instante, Nic não conseguiu dizer nada.
— É um vinho feito de arroz fermentado, importado de Terrea — ele finalmente respondeu. — E, não, não ajuda. Pelo menos ainda não ajudou. Mas me dê mais um tempo.
— Atendente — o príncipe Ashur chamou. — Outro vinho de arroz fermentado para o meu amigo Nic, e um para mim.
Nic o observou com curiosidade quando o atendente serviu dois copos logo em seguida.
— Você sabe o meu nome.
— Sim, eu sei.
— Como?
— Fiz perguntas sobre você. — O príncipe virou a dose de bebida, fazendo uma careta e unindo as sobrancelhas. — Mas isso é muito ruim.
— O que perguntou sobre mim? Posso… hum, perguntar?
Um cacho cor de ébano se soltou do cabelo preso e caiu sobre a testa do príncipe. Ele o arrumou.
— Sei que é muito amigo da princesa. Vi vocês dois conversando hoje mais cedo no pátio, e não me pareceu uma conversa entre uma princesa e um guarda. Apesar do seu uniforme, acredito que tenha influência e conhecimento no palácio.
— Pois você está errado. — Nic olhou para ele de canto de olho. Talvez o rei tivesse razão em se preocupar. Nic se perguntou, um pouco preocupado, o que o príncipe poderia ter escutado de sua conversa com Cleo. — Onde estão seus guardas pessoais?
Ashur deu de ombros.
— Por aí, eu imagino. Não gosto de muita gente em volta de mim.
— Saiba que a Cidade de Ouro tem seus perigos.
O príncipe olhou para ele achando graça.
— Anotado.
O olhar de Nic pousou sobre as adagas que o príncipe levava de cada lado do cinto de couro. Talvez Ashur pudesse se proteger muito bem sem grandes preocupações.
Cinco… seis… dez doses, e Nic percebeu que restavam poucos filtros na língua que o impediam de falar desrespeitosamente.
— O que quer de mim, vossa graça?
A expressão de divertimento permaneceu no belo rosto do príncipe.
— Conversar.
— Sobre o quê?
Ashur girou a próxima dose no copo.
— Sobre o anel de ametista da princesa Cleo.
Nic ficou imóvel. Até aquele dia, ele nunca havia pensado no anel de Cleo.
— A princesa tem muitas joias. Eu não fico reparando.
— Acho que sabe do que estou falando. Afinal, você é o confidente mais próximo dela. — Ele levantou uma sobrancelha. — Embora talvez não tão próximo quanto gostaria.
O príncipe olhava para Nic como se soubesse mais do que devia. Era perturbador. Novamente, ele se perguntava quanto da conversa com Cleo aquele homem poderia ter ouvido sem ser visto por nenhum deles. Ou ele estaria apenas especulando?
Nic se mexeu com desconforto sobre o assento.
— A princesa não é um assunto que eu gostaria de discutir.
Ashur sorriu gentilmente.
— O amor não correspondido é algo doloroso, não é?
Algo se contorceu no peito de Nic. Ele não estava gostando de como o príncipe parecia conhecê-lo tão bem, parecia enxergar tão fundo dentro de sua alma.
— Demais.
— Diga-me o que sabe sobre a Tétrade. — Ashur apoiou o queixo na mão como se analisasse Nic. — Eu acredito que seja real. E você?
— Não passa de uma lenda boba — ele sussurrou, e seu coração começou a disparar.
Por que o príncipe estava perguntando aquelas coisas?
— Meu pai conquistou muitas terras repletas de riquezas. Ele não acredita que Mítica seja grande o suficiente para conter algo interessante. Mas está errado. Eu acredito que Mítica é a região mais importante que já existiu. Acredito que Mítica seja o portal para toda a magia que está adormecida pelo mundo, incluindo Kraeshia. Portanto, estou aqui para descobrir se essas “lendas bobas” são reais. E uma delas fala sobre um anel um tanto quanto especial.
Nic engoliu a última dose de bebida em um gole rápido.
— Sinto muito, vossa graça, mas se está aqui em Auranos em busca de lendas e magia, ficará extremamente decepcionado. Cleo usa um anel que seu pai lhe deu antes de morrer. Não tem nenhum significado além desse.
— O rei Gaius deve saber sobre a Tétrade — o príncipe Ashur continuou falando, sem perder o ânimo. — E imagino que a queira muito. Sem uma magia poderosa para manter este reino sob seu controle, o rei poderia ser facilmente destruído. Acha que ele sabe disso? Mas o que a Estrada Imperial tem a ver com o resto? Acho que ele tem motivos velados para construí-la, motivos diretamente relacionados à busca pela Tétrade. Muitos homens de seu exército patrulham a estrada, espalhando-se pelos três reinos de Mítica, deixando os castelos tanto de Limeros quanto de Auranos vulneráveis a ataques externos. Me parece a atitude de um rei obcecado com um objetivo muito específico. O que você acha?
Apesar da bebida, a boca de Nic estava seca.
— Não tenho ideia de como responder a tais afirmações.
— Tem certeza? Acho que você tem muito mais a dizer do que se dá conta. — Ashur se aproximou mais, o olhar preso em Nic. Os olhos do príncipe, que se destacavam contra a pele escura, eram de um azul-claro acinzentado, como a superfície do próprio Mar Prateado.
O coração de Nic batia tão alto e rápido que ele não conseguia mais escutar o burburinho da taverna.
— Desejo-lhe uma noite muito agradável. Boa noite, príncipe Ashur.
Ele deixou o local e começou a caminhar pelo labirinto de prédios e ruas de paralelepípedos até encontrar o caminho de volta para o palácio. No entanto, logo se viu desesperadamente perdido. Dez… onze… quinze doses de bebida. Quantas ele havia tomado?
— Ah, Nic — ele murmurou. — Isso não é bom. Isso não é nada bom.
Principalmente quando percebeu que alguém o seguia.
Ele continuou caminhando rápido enquanto dedos longos e sombrios pareciam alcançá-lo. Ele manteve uma mão na cintura, preparado para desembainhar a espada caso se tratasse de algum agressor. A cidade tinha sua cota de ladrões e gatunos prontos para matar se corressem o risco de ser pegos. O rei Gaius era famoso por maltratar os prisioneiros, e ninguém queria ir parar no calabouço já lotado.
Nic virou na próxima esquina e teve de parar ao descobrir que era uma viela sem saída.
— Perdido? — a voz do príncipe Ashur surgiu bem atrás dele.
Tenso, ele se virou devagar.
— Talvez um pouco.
O príncipe o observou dos pés à cabeça.
— Talvez eu possa ajudar.
Ele continuava sem guardas pessoais. O príncipe caminhava sem proteção pelas ruas de uma cidade potencialmente letal.
Será que tinha percebido que Nic havia mentido? O que ele estaria disposto a fazer para descobrir a verdade sobre o anel de Cleo? E até que ponto Nic poderia guardar esse segredo?
— Não vou revelar nada — Nic disse com a voz rouca. — Não me importa o que vai fazer comigo.
Ashur riu.
— Você parece um pouco paranoico. É efeito do vinho de Terrea? Eu sugeriria se ater aos clássicos paelsianos de agora em diante.
A leveza da resposta não tranquilizou Nic nem um pouco. Seu instinto de sobrevivência, embora prejudicado pela bebida, não parava de soar um alarme cada vez mais alto. As duas adagas que o príncipe carregava voltaram a chamar sua atenção.
— Você quer respostas que não posso lhe dar — Nic disse, incomodado pelo modo como suas palavras saíam arrastadas. — Respostas para perguntas que eu nem entendo.
Ashur se aproximou.
— Você está com medo de mim.
Nic cambaleou um pouco para trás.
— Por que você me seguiu pelas ruas? Não posso ajudá-lo. Me deixe em paz.
— Não posso fazer isso. Ainda não. Primeiro, realmente preciso saber de uma coisa muito importante.
O príncipe se aproximou ainda mais. Antes que Nic conseguisse pegar a espada para se proteger do ataque, Ashur segurou seu rosto entre as mãos e o beijou.
Nic ficou lá parado, paralisado.
Não era isso que ele esperava. Não mesmo.
O príncipe agarrou a camisa de Nic, puxando-o para mais perto e intensificando o beijo até que Nic finalmente se surpreendeu correspondendo. Assim que o fez, o príncipe se afastou.
Nic ficou olhando para ele, atordoado.
— Está vendo? — Ashur disse, sorrindo. — Prova de que existem mais coisas na vida além de beber até se entorpecer por causa de uma princesa que o considera apenas um amigo. E o mundo não se resume a este pequeno reino conturbado e seu governante ganancioso, mesmo que Mítica seja tão valiosa quanto acho que é.
— Vossa graça… — Nic começou a dizer.
— Vamos conversar novamente em breve, eu prometo. — Ashur disse, inclinando-se para lhe dar outro beijo rápido, que Nic não tentou impedir. — E você vai me ajudar a encontrar as respostas de que preciso. Sei que vai.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!