13 de agosto de 2018

Capítulo 3

MAGNUS
AURANOS

O rosto da princesa Cleo estava pálido e seu corpo literalmente tremia de medo diante da fúria do rei Gaius.
E pensar que Magnus acreditava que aquele reino dourado não teria entretenimento de valor.
Sua mãe permanecia em silêncio ao lado do rei, o rosto impassível em meio a todo o drama, como se não tivesse opinião nenhuma sobre línguas cortadas e virgindades perdidas. Em algum lugar por trás daquela expressão nula, ele sabia que a rainha certamente tinha uma opinião a respeito do que seu marido deveria fazer e com quem.
Mas aprendera havia muito tempo a não dizer o que pensava em voz alta.
O rei Gaius se inclinou para a frente para olhar a princesa maculada mais atentamente.
— Seu pai soube da sua perda de inocência vergonhosa antes de morrer?
— Não, vossa majestade — ela soluçou.
Era uma tortura para ela. Para uma princesa, mesmo de um reino derrotado, admitir que fora desonrada antes da noite de núpcias… Bem, simplesmente não acontecia. Ou, pelo menos, não era algo que alguém já tivesse admitido tão abertamente.
O rei balançou a cabeça lentamente.
— O que vamos fazer com você agora?
Magnus notou que os punhos de Cleo estavam fechados ao lado do corpo.
Durante todo o tempo, seus olhos permaneceram secos, e sua expressão, soberba apesar do medo óbvio. Ela não chorou, nem caiu de joelhos e implorou perdão.
O rei Gaius adorava quando as pessoas lhe imploravam misericórdia.
Raramente adiantava alguma coisa, mas ele apreciava mesmo assim.
Esse orgulho será sua ruína, princesa.
— Magnus — o rei disse —, o que acha que devemos fazer agora que essa informação foi revelada? Parece que firmei um compromisso entre você e uma prostituta.
Magnus não conseguiu conter o riso. Cleo olhou feio para ele, um olhar afiado como vidro quebrado, mas sua intenção não fora rir dela.
— Uma prostituta? — ele repetiu. Bem, seu pai havia especificamente pedido sua opinião, o que de fato era algo raro. Por que desperdiçar a oportunidade? — A garota admite ter passado uma noite com lorde Aron, um rapaz com quem pretendia se casar. Talvez desde então tenham se dado conta de que agiram impulsivamente ao ceder a suas… paixões. Sinceramente, não vejo isso como um crime assim como você. Caso não saiba, também não mantive minha castidade.
Falar tão francamente poderia ter vários resultados diferentes — negativos ou positivos. Magnus ignorou o frio na barriga e manteve a expressão mais neutra possível enquanto esperava para descobrir o que aconteceria.
O rei recostou, olhando friamente para ele.
— E quanto à confissão dela de que mentiu para mim?
— Se eu estivesse na posição dela, teria feito a mesma coisa, numa tentativa de recuperar minha reputação.
— Acredita que devo perdoá-la por essa leviandade?
— Isso, é claro, fica a seu critério. — De canto de olho, ele podia ver Cleo o encarando, como se estivesse surpresa por ele sair em sua defesa.
Não era uma defesa. Era uma excelente chance de testar os limites da paciência do rei com seu filho e herdeiro, agora que havia chegado aos dezoito anos. Magnus agora era um homem, então não podia mais agir como um menino e se acovardar diante da possível fúria de seu pai.
— Não — o rei disse. — Quero que você me diga. Diga o que acha que devo fazer, Magnus. Estou curioso para saber.
Havia cautela no tom de voz do rei, como o chocalho de uma cobra momentos antes de dar o bote.
Magnus ignorou.
Durante o anúncio inesperado no terraço, ele se sentiu impulsivo, sem se preocupar com as consequências. Naquela hora, Magnus lançou um olhar estupefato na direção do pai e recebeu um olhar duro em resposta. Um olhar que deixava claro que se ele discutisse aquela decisão, ficaria muito, muito arrependido.
Magnus nunca subestimaria o pai. A cicatriz que marcava seu rosto era um lembrete constante do que havia acontecido quando o contrariou. O rei não via problema em machucar aqueles que mais alegava amar — mesmo que fossem meninos de sete anos de idade.
Seu pai insistia em fazer joguinhos, mas Magnus não era uma peça de xadrez, era o futuro rei de Limeros — e agora de toda a Mítica. Ele também podia entrar no jogo se houvesse chance de vitória.
— Acho que deve perdoar a princesa desta vez. E se desculpar com lorde Aron por assustá-lo. O pobre rapaz parece muito perturbado.
O trêmulo lorde Aron estava tão coberto de suor que parecia ter saído para nadar no lago.
O rei ficou olhando para Magnus, incrédulo, por vários longos e pesados minutos. Depois começou a rir, um som denso que vinha do fundo da garganta.
— Meu filho quer que eu perdoe, esqueça e peça desculpas — ele disse a última palavra como se não soubesse seu significado. Provavelmente não sabia. — O que acha, lorde Aron? Devo me desculpar a você?
Aron continuava ajoelhado no chão como se não tivesse energia para se levantar sem ajuda. Magnus notou uma região úmida na virilha da calça, onde ele havia se molhado.
— Não… não, é claro que não, vossa majestade. — Aron conseguiu usar a língua que por pouco não perdera. — Sou eu que tenho que me desculpar por tentar dissuadi-lo de seus planos. É claro que vossa majestade tem razão em todas as coisas.
É isso que o meu pai gosta de ouvir, Magnus pensou.
— Minha decisão — disse o rei. — Sim, minha decisão era unir meu filho e a jovem Cleiona. Mas isso foi antes de saber a verdade sobre ela. Magnus, diga-me, o que deve acontecer agora? Quer manchar sua honra comprometendo-se com um garota assim?
Ah, agora ele havia chegado à inevitável bifurcação na estrada. Muito apropriado, já que estradas andavam tão presentes na mente de seu pai ultimamente.
Uma palavra dele podia romper aquele noivado absurdo e livrá-lo de qualquer compromisso com a princesa, que nem tentava esconder seu ódio infinito por ele. Refletido nos olhos dela estava o momento brutal que havia mudado Magnus para sempre.
Não tanto por Theon Ranus ter sido a primeira pessoa que Magnus matou. O jovem guarda tinha que morrer, porque teria matado Magnus sem hesitar para defender a princesa que amava. Era o fato de Magnus ter assassinado o rapaz pelas costas que o assombraria para sempre. Havia sido o ato de um covarde, não de um príncipe.
— E então, meu filho? — o rei incitou. — Quer romper esse noivado? A decisão é sua.
Até então, seu pai considerava Cleo um símbolo de sua nova e frágil posse de Auranos. Apesar de sua reputação conhecida de rei violento que distribuía punições sem misericórdia, o rei Gaius desejava ser respeitado e admirado por seus novos súditos, não temido, e os estava bajulando com belos discursos e promessas grandiosas de um futuro brilhante. Tais cidadãos seriam muito mais fáceis de controlar — principalmente com o exército limeriano agora disperso pelos três reinos —, e o rei acreditava que isso reprimiria qualquer anarquia, além de alguns poucos e escassos, porém problemáticos, rebeldes.
Apesar do que havia sido revelado sobre a princesa, Magnus acreditava que Cleo continuaria sendo um trunfo valioso durante aquele período delicado de transição. Um pouco de poder dourado para iluminar o caminho escuro à frente.
Poder importava para seu pai. E também importava para Magnus.
Qualquer poder que ele pudesse obter para si não era algo a ser descartado de maneira impensada. E embora ele desejasse voltar para Limeros tão rápido quanto um navio pudesse levá-lo, sabia que era impossível. Seu pai queria ficar naquele palácio dourado.
Enquanto estivesse ali, Magnus precisaria fazer escolhas que lhe servissem no presente e no futuro.
— É uma decisão difícil, pai — Magnus finalmente respondeu. — A princesa Cleiona certamente é uma garota complicada. — Mais do que ele jamais havia imaginado. Talvez ele não fosse o único que sentisse necessidade de usar máscaras todos os dias. — Ela admitiu ter sacrificado sua castidade com esse rapaz. Teve algum outro, princesa?
O rosto de Cleo corou, mas seu olhar brutal dava a entender que era mais por fúria do que constrangimento. Ainda assim, ele achava que era uma pergunta válida. Ela havia declarado que amava o guarda morto — uma declaração que nunca fez a respeito de lorde Aron. Quantos haviam aquecido a cama da princesa auraniana?
— Não houve mais ninguém. — Cada palavra era um rosnado. E graças ao olhar firme e afiado em seus olhos azuis, ele acreditou.
Ele não falou por um instante, deixando os segundos se tornarem longos e desconfortáveis.
— Assim sendo, não vejo nenhuma razão lógica para o noivado ser rompido.
— Você a aceita? — o rei perguntou.
— Sim. Mas espero que não haja mais nenhuma surpresa no que diz respeito a minha futura esposa.
Cleo ficou boquiaberta, em choque. Talvez ela não tivesse se dado conta de que aquela união desagradável dizia respeito apenas ao poder de Magnus e nada mais.
— A menos que precise de mim para mais alguma coisa, pai — Magnus disse com firmeza —, gostaria de visitar o leito de minha irmã.
— Sim, é claro. — O rei observou Magnus com olhos semicerrados, inquisidores, também parecendo surpreso pelo filho não ter aproveitado a oportunidade de acabar com o inesperado noivado. Magnus se virou e saiu rapidamente da sala do trono, esperando que não tivesse cometido um erro muito grave.


A criada deu um salto quando Magnus entrou pelas portas de madeira dos aposentos de Lucia. Ela olhou para o chão e ficou passando o dedo nervosamente pelos longos cabelos ruivos.
— Perdão, príncipe Magnus. O senhor me assustou.
Ignorando-a, ele entrou no quarto, com a atenção focada inteiramente na garota na cama com dossel. Tão diferentes de sua residência mais austera em Limeros, aqueles cômodos tinham piso de mármore e grossos tapetes de pele. Tapeçarias coloridas retratando belos prados e animais fantásticos — um parecia ser o cruzamento de um coelho com um leão — adornavam as paredes. O sol brilhante chegava em raios suaves pelas portas de vidro que davam para o terraço. As lareiras não estavam constantemente acesas para impedir que o frio entrasse no palácio, pois em Auranos o clima era quente e temperado comparado ao gelo e ao frio de Limeros. Os lençóis eram feitos de seda clara e luxuosa, o que só tornava os cabelos pretos de Lucia muito mais escuros, e seus lábios, muito mais vermelhos.
A beleza de sua irmã sempre o pegava de surpresa.
Sua irmã. Era como ele sempre vira Lucia. Apenas recentemente havia descoberto que ela era adotada — tinha sido roubada de seu berço em Paelsia e levada para o castelo de seu pai para ser criada como a princesa limeriana. Tudo por causa de uma profecia. Uma profecia que dizia que Lucia se tornaria uma feiticeira capaz de utilizar as quatro partes dos elementia: magia do ar, do fogo, da água e da terra.
A confusão de descobrir que ela não era sua irmã de sangue, o alívio por seu desejo anormal por ela não ser um pecado realmente sombrio, e o olhar de desgosto dela quando ele não conseguiu conter sua necessidade de beijá-la — tudo voltou à tona naquele momento.
A esperança radiante havia sido marcada para sempre pela dor cruel. Lucia o amava, mas era o amor de uma irmã pelo irmão mais velho — só isso. Mas não era suficiente. Nunca seria suficiente.
E agora, o pensamento de que ela havia se sacrificado para ajudar o pai e poderia nunca mais acordar…
Ela tinha que acordar.
Seu olhar se desviou para a criada, a garota auraniana que a princesa Cleiona havia insistido que seria perfeita para a tarefa. Suas curvas suaves mostravam que não havia passado por muitas dificuldades, apesar de agora usar o vestido simples de uma criada.
— Como se chama? — ele perguntou.
— Mira Cassian, vossa graça.
Ele apertou os olhos.
— Seu irmão é Nicolo Cassian?
— Sim, vossa graça.
— Em Paelsia, ele atirou uma pedra na minha cabeça e depois me deixou inconsciente com o cabo de uma espada. Ele podia ter me matado.
Um tremor passou pelo corpo dela.
— Estou muito feliz por meu irmão não ter lhe causado nenhum dano permanente, vossa graça. — Ela piscou, olhando nos olhos dele. — Eu não o vejo há semanas. Ele… ele ainda está vivo?
— Certamente merecia morrer pelo que fez, não acha?
Ele não havia compartilhado aquela história com muita gente. Nicolo Cassian havia atacado Magnus para fazê-lo soltar Cleo depois que matara Theon. Era dever de Magnus capturar a princesa e levá-la a Limeros para que o rei pudesse usá-la como moeda de barganha contra seu pai. Ele havia falhado e acordado sozinho, cercado por cadáveres e pela amarga derrota.
Nic agora trabalhava nos estábulos, enterrado até o joelho na sujeira dos cavalos, sem permissão para entrar no castelo. O garoto deveria ser eternamente grato por Magnus não ter exigido que pagasse com a vida.
Ele virou as costas para Mira e se concentrou em Lucia. Não ouviu a porta se abrir, mas não demorou muito até a sombra de seu pai recair sobre ele.
— Ficou bravo comigo pelo anúncio que fiz hoje — o rei disse. Não era uma pergunta.
Magnus rangeu os dentes e ponderou a resposta antes de falar.
— Fiquei… surpreso. A garota me odeia, e eu só sinto apatia por ela.
— Não há necessidade de que o amor, ou mesmo a afeição, desempenhem qualquer papel em um casamento. É uma união apenas por necessidade, por estratégia política.
— Sei disso.
— Vamos encontrar uma amante que lhe proporcione todo o prazer que faltar em seu casamento. Uma cortesã, talvez.
— Talvez — Magnus consentiu.
— Ou talvez prefira uma criadinha bonita para satisfazer suas necessidades. — O rei olhou na direção de Mira, que astutamente permaneceu nos fundos do quarto, com os ouvidos fora de alcance. — Falando em criadinhas bonitas, lembra-se daquela criada da cozinha que nos causou algumas dificuldades em casa? Aquela com tendência para espionar. Qual era o nome dela? Amia?
Amia havia sido um flerte casual de Magnus, assim como um par de ouvidos atentos para as fofocas do palácio. Ela teria feito de tudo pelo príncipe. Tamanha lealdade lhe rendera tortura e chicotadas, mas ainda assim ela não revelou sua ligação com ele. Mas por que seu pai se daria o trabalho de lembrar o nome dela?
— Acho que lembro. O que tem ela?
— Ela fugiu do castelo. Deve ter achado que eu não notaria, mas notei.
Ela tinha fugido porque Magnus a havia mandado para longe, com moedas suficientes para iniciar uma nova vida em outro lugar.
— É mesmo?
O rei se abaixou para tirar os cabelos escuros do rosto de Lucia.
— Mandei uns homens atrás dela. Recebi a notícia de que a encontraram com facilidade, com um saco de ouro roubado de nós. Claro que a executaram imediatamente. — Ele voltou sua atenção para Magnus com um pequeno sorriso no rosto. — Achei que gostaria de saber.
Magnus ignorou a pontada de dor repentina em seu peito. Mediu as palavras antes de dizer:
— Foi… um fim merecido para uma ladra.
— Fico feliz por estarmos de acordo.
Amia havia sido ingênua e tola — uma menina que não tinha o coração duro o bastante para sobreviver à aspereza do palácio limeriano. Mas ela não merecia morrer. Magnus esperou o sofrimento surgir, mas sentiu apenas uma frieza escorregando pela pele. Parte dele esperava por aquilo desde que a carruagem de Amia partira do castelo, mas ele tinha esperanças. Devia ter imaginado. Seu pai nunca permitiria que alguém em posse de segredos comprometedores sobre ele fugisse.
O destino da garota havia sido selado no momento em que seu caminho cruzou com o dos Damora. Aquilo não passava de uma confirmação. Ainda assim, Magnus ficou irritado por seu pai dizer aquilo tão casualmente, quando a morte de Amia era tudo menos casual. O rei o estava testando, procurando fraquezas em seu herdeiro.
O rei o testava o tempo todo.
Eles ficaram em silêncio por um instante; Lucia era o ponto focal entre os dois.
— Preciso que ela acorde — o rei disse, com o maxilar tenso.
— Ela já não fez demais por você?
— A magia dela é a chave para encontrar a Tétrade.
— E quem disse isso? — Sua impaciência crescente com as decisões que o pai havia tomado naquele dia tornou suas palavras mais cortantes do que o normal. — Uma bruxa qualquer que precisava de prata? Ou talvez um falcão tenha pousado em seu ombro e sussurrado…
A força da mão do pai contra seu rosto marcado pela cicatriz o pegou totalmente de surpresa. Ele colocou a palma da mão sobre a bochecha e ficou olhando para o rei.
— Nunca zombe de mim, Magnus — o rei esbravejou. — E nunca mais me faça parecer um tolo na frente dos outros como fez hoje. Está me ouvindo?
— Estou — ele respondeu entredentes.
O pai não batia nele havia algum tempo, mas fora uma prática comum em sua juventude. Como a naja, emblema oficial de Limeros, o rei Gaius atacava com violência e malícia quando irritado ou desafiado.
Magnus lutou contra o ímpeto de sair daquele quarto pois sabia que isso o faria parecer fraco.
— Recebi essa informação de minha mais nova conselheira real — o rei disse finalmente. Ele foi para o lado oposto da cama de Lucia, com a atenção novamente fixa em seu rosto pacífico.
— Quem é?
— Não é da sua conta.
— Deixe-me adivinhar. Essa conselheira misteriosa também sugeriu que a construção da estrada passasse por dentro das Montanhas Proibidas?
Isso rendeu a Magnus um olhar que retomava certo respeito. Ele havia feito a pergunta certa.
— Sim, ela sugeriu.
Então a nova conselheira de seu pai era uma mulher. Não foi uma surpresa muito grande para Magnus. A última conselheira de confiança do rei havia sido sua amante de longa data — uma bruxa bela e traiçoeira que atendia pelo nome de Sabina.
— Realmente acredita que a Tétrade é real?
— Acredito.
A Tétrade era uma lenda — Magnus nunca achou que fosse mais do que isso. Quatro cristais contendo a essência dos elementia, perdidos milhares de anos atrás. Possuí-los conferiria ao detentor poder absoluto — o poder de um deus. Magnus estava tentado a acreditar que seu pai estava louco, mas não havia nenhuma loucura em seu olhar firme. Estava claro e focado, se não obcecado. O rei realmente acreditava na Tétrade e na existência dos vigilantes. Até pouco tempo antes, Magnus não compartilhava dessa crença. Mas a prova da magia, dos elementia, estava deitada naquela cama. Ele havia visto com os próprios olhos. E se a profecia sobre uma feiticeira podia ser real, a Tétrade também.
— Vou deixá-lo tomando conta de sua irmã. Informe-me imediatamente se ela acordar. — O rei então saiu dos aposentos de Lucia, deixando Magnus sozinho com a princesa adormecida e seus próprios pensamentos atormentados.
A magia dela é a chave.
Ele ficou em silêncio por um tempo, com o olhar focado no terraço e na radiante tarde ensolarada. Oliveiras em vasos balançavam graciosamente na brisa quente. Ele podia ouvir o gorjear dos pássaros e sentir o cheiro doce das flores.
Magnus odiava aquele lugar.
Preferia mil vezes a neve e o gelo, as características mais conhecidas de Limeros. Ele gostava do frio. Era simples. Era perfeito e puro.
Mas era naquela terra dourada que seu pai acreditava ser possível iniciar a busca pela essência da magia elementar, e não em Limeros. E se aquela bela garota que dormia diante de seus olhos era a chave para encontrá-la, Magnus não podia ignorar a informação.
Com a Tétrade em mãos, ele e Lucia seriam verdadeiramente iguais, em todos os sentidos. Ele não ousava ter mais esperanças — de que talvez a posse da Tétrade fizesse Lucia olhar para ele de outra forma. Em vez disso, refletiu que se conseguisse encontrar aquele tesouro perdido, provaria seu valor ao rei e conquistaria o respeito de seu pai de uma vez por todas.
— Acorde, Lucia — ele pediu. — Encontraremos a Tétrade juntos, eu e você.
Seu olhar recaiu, alarmado, em Mira, que havia se aproximado para encher um cálice de água. Ela olhou para ele e pareceu chocada com o olhar frio que recebeu.
— Vossa alteza?
— Tenha muito cuidado — ele alertou em voz baixa. — Orelhas muito ávidas por escutar segredos correm o risco de serem cortadas.
Com o rosto muito vermelho, ela se virou e voltou rápido para o outro lado do quarto. Uma criada não tinha voz em seu próprio destino. Mas o filho de um rei… bem, era uma questão totalmente diferente.
O rei queria a Tétrade para obter seu poder eterno e absoluto. Esse podia ser o teste definitivo para seu filho e herdeiro.
Se realmente existisse, Magnus decidiu, agarrando os cobertores aveludados de Lucia, seria ele quem a encontraria.

Um comentário:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!