14 de agosto de 2018

Capítulo 29

LUCIA
AURANOS

A magia ardia sob a pele de Lucia, implorando para ser libertada. Parecia tão aprisionada quanto ela naquele estranho palácio de corredores iluminados e pisos dourados e cintilantes, diferente do escuro e frio castelo limeriano em tantos aspectos. Ela sentia falta de sua verdadeira casa, mais do que jamais achara que fosse possível.
A coelha não estava ajudando em nada.
— Você cresceu tão rápido, Hana. — Ela segurou a pequena bola de pelo macio no alto, para poder olhar o rosto do coelho. O coração do animal batia rápido quando ela o tocava, e o nariz se mexia. Era uma das poucas coisas que conseguiam fazê-la sorrir.
Finalmente, Lucia colocou Hana em seu pequeno cercado no canto de seu quarto e foi para o terraço, observar os campos e as colinas verdes que cercavam a Cidade de Ouro além de suas muralhas cintilantes.
Era tão dolorosamente bonito. Para acentuar a beleza, uma borboleta rosa e roxa voava na brisa quente.
— Argh. — Lucia se virou. Ela não se importava com borboletas. Importava-se com falcões e tinha olhado várias vezes para o céu em busca de um, apenas um! Mas não havia nada.
Cinco longas semanas haviam se passado desde a última vez que vira Ioannes, quando ele prometeu que a visitaria novamente — e quando eles se beijaram com paixão, e ela foi arrancada dos braços dele ao acordar. Se ele era real, por que não tinha ido até ela novamente? Não era só um sonho. Não era. Ela sabia que Ioannes estava em algum lugar lá fora.
Lucia agarrou a grade, que ficou quente com seu toque e logo começou a virar pó devido a uma onda de magia da terra. Ela a soltou imediatamente e limpou as mãos, olhando nervosamente em volta para verificar se alguém tinha visto aquilo. Mas é claro que não havia ninguém ali. Depois de descobrir como Lucia havia aterrorizado a tutora dos elementia, seu pai sugeriu que ela permanecesse sozinha em seus aposentos até que encontrasse outra pessoa para ajudar.
Então foi isso que Lucia fez. Mas depois de tantos dias presa em um espaço tão pequeno, precisava se libertar.
Ela estava curiosa para saber se o rei tinha mandado executar Domitia, já que ela não havia correspondido às suas expectativas. Lucia se enchia de tristeza ao perceber que não se importava com o destino da mulher — fosse a vida ou a morte.
Antes, teria se importado.
A borboleta pousou na beirada de um vaso, e ela a fitou, lutando contra o ímpeto repentino de esmagar sua beleza na palma da mão.
— O que está acontecendo comigo? — ela sussurrou.
Ela estava encerrada naquele quarto havia muito tempo. Precisava de respostas mais do que tudo. No passado, livros sempre haviam lhe fornecido conhecimento. Por que agora seria diferente? Ficara sabendo que a biblioteca do palácio auraniano era insuperável. Talvez lá, diferente da biblioteca de Limeros, que só tinha livros mais didáticos, pudesse encontrar respostas sobre os elementia. Sobre a feiticeira e os vigilantes.
Tomada a decisão, Lucia deixou seus aposentos e circulou pelos corredores, sem olhar para os lados, exceto para pedir informações a um guarda sobre onde ficava o local. A biblioteca situava-se do outro lado do palácio, e os corredores estavam praticamente desertos, com exceção de um ou outro guarda imóvel como uma estátua. Magnus sempre se orgulhara de sua habilidade de se deslocar pelo castelo sem ser visto — como uma sombra. Era um verdadeiro talento que ela havia começado a apreciar recentemente.
Ela então se deu conta de que sentia falta de Magnus. Sentia falta dos dias em que conversavam a tarde toda sobre bardos, livros ou sobre nada, como riam de algumas piadas internas bobas, como o fato de lady Sophia sempre esconder pães doces nos bolsos do vestido durante os jantares do palácio e achar que ninguém percebia. Ela sentia falta da maneira como podia arrancar um sorriso dele, mesmo nos piores dias.
Aquilo lhe havia sido roubado para sempre?
É minha culpa. Devia ter sido mais gentil com ele em meus pensamentos e minhas palavras.
Agora ele estava bravo com ela, e magoado pela rejeição contínua de seu amor. Com sorte, quando Magnus finalmente voltasse da caçada, ela poderia pedir seu perdão e fazê-lo enxergar que eles nunca poderiam ficar juntos, que sua relação fraternal era mais importante do que qualquer outra. Ela precisava dele, e ele precisava dela. Não havia dúvidas de que Lucia precisava consertar o que havia dado tão errado entre os dois.
Por enquanto, tentava não pensar nessas coisas e se concentrar novamente em seu objetivo. Ela queria pegar todos os livros que pudessem ajudá-la a descobrir mais sobre quem era e o que podia esperar de sua magia. Pegá-los e devorá-los, alimentando-se da sabedoria como se fosse um banquete.
Quando chegou ao seu destino, diminuiu o passo ao ver a enorme sala depois da passagem arqueada. Seu coração parou por um segundo ao ver os livros arrumados em prateleiras da altura de pequenas montanhas. Devia haver dezenas de milhares de livros ali, de todas as formas e tamanhos. Todos os assuntos. Todos oferecendo um conhecimento além de tudo que ela jamais havia sonhado. A luz entrava naquele refúgio por inúmeros vitrais coloridos, dando um aspecto de caleidoscópio, como se a própria biblioteca fosse mágica.
— Ora, princesa Lucia, você saiu de seus aposentos. Finalmente podemos nos conhecer.
A voz quebrou o encanto sob o qual ela estava, e seu olhar se deslocou até a menina parada diante dela, com dois livros debaixo do braço. Lucia a reconheceu imediatamente. Os belos traços, os olhos verde-azulados, os cabelos claros e dourados, que caíam em ondas até a cintura. Ela era vários centímetros mais baixa do que Lucia, mas apesar da baixa estatura tinha um porte altivo, ombros para trás, queixo erguido. Um sorriso curioso tomava conta de seus lábios rosados.
Era a distração que o rei queria para Magnus esquecer sua indesejada atenção por Lucia. A princesa Cleiona era mesmo linda como falavam. E Lucia descobriu imediatamente que a odiava.
No entanto, colocou um sorriso nos lábios, imitando a outra princesa.
— Princesa Cleiona, é uma grande honra.
— Por favor, pode me chamar de Cleo. Afinal, agora somos irmãs, não somos?
Lucia tentou não se contorcer diante da lembrança.
— Então também pode me chamar de Lucia. — Ela balançou a cabeça, ainda impressionada com o local. — Não tenho palavras para descrever o quanto esta biblioteca é incrível. Você teve tanta sorte de tê-la à disposição a vida toda.
Os olhos de Cleo não demonstravam tanto maravilhamento quanto os de Lucia.
— Devo confessar que nunca frequentei este lugar tanto quanto minha irmã. Ela adorava. Sempre estava lendo um livro. Eu não ficaria surpresa se já tivesse lido metade de todo o acervo aqui quando… — Suas palavras falharam, e seu rosto se contraiu quando ela voltou o olhar doloroso para Lucia.
A aversão de Lucia de alguma forma desapareceu e se transformou em empatia por aquela menina que havia perdido tanta coisa. Sua irmã, seu pai, seu reino. Tudo tomado por uma força inimiga, da qual a própria Lucia fazia parte. E, agora, aquela biblioteca pertencia mais a ela do que a Cleo.
— Sua irmã se parecia muito comigo, então — Lucia disse gentilmente. — Eu adoro ler.
— Então vai gostar muito daqui.
— Fico feliz por ter tido a chance de falar com você. — A outra princesa, apesar do novo status como esposa de Magnus, era vigiada atentamente e mantida em uma ala diferente do castelo. Sua prisão podia ser dourada, mas nem por isso era menos segura. Ainda assim, lá estava ela, perambulando desacompanhada, sem nenhum guarda à vista. Será que aquela inimiga de seu pai conseguira cair nas graças do rei depois do sucesso da excursão de casamento?
— E eu fico feliz em ver que você está se sentindo melhor. Todos estavam muito preocupados com você, sem entender por que continuava dormindo por tanto tempo. — Cleo olhava Lucia com curiosidade, como se esperasse que ela fornecesse um motivo por livre e espontânea vontade.
— Foi uma coisa muito estranha. — Lucia meneou a cabeça, voltando a levantar a guarda. — E receio que continuará sendo um mistério para sempre.
— Existem rumores de que você pode ter sido amaldiçoada por uma bruxa. Que estava sob efeito de magia.
Lucia franziu a testa de propósito, como se aquilo lhe parecesse ridículo.
— Magia? Você acredita nessas coisas?
O sorriso de Cleo diminuiu.
— É claro que não. Mas os criados gostam de falar, você sabe. Principalmente quando diz respeito à realeza. Eles gostam de inventar todo tipo de história.
— Com certeza. Mas, não, eu não estava sob efeito de magia, posso garantir. — A mentira pareceu tão natural que não foi preciso esforço algum.
— Fico muito feliz em saber isso. — Cleo ajeitou os livros nos braços.
— O que você está lendo? — Lucia perguntou, inclinando a cabeça para poder ler os títulos dourados gravados nas lombadas de couro. — A história dos Elementia. Minha nossa. Parece uma escolha estranha para alguém que não acredita em magia.
— Sim, não é mesmo? — As articulações dos dedos de Cleo ficaram sem cor onde segurava a borda do grande livro. — Era um dos preferidos de minha irmã. Ler essas coisas me faz sentir que seu espírito está por perto, me orientando.
Aquela conversa estava dando mais trabalho do que Lucia esperava. Houve um tempo, antes da batalha que havia colocado Auranos nas mãos de seu pai, em que Lucia imaginava como seria o encontro delas, esperando que pudessem se tornar boas amigas. Agora ela começava a duvidar dessa possibilidade. Ela se esforçou para ler o título do segundo livro, bem menor, que estava coberto de poeira, como se Cleo o tivesse desenterrado de uma pilha esquecida havia muito tempo, e seu coração começou a bater acelerado.
— Canção da feiticeira. Do que se trata?
Cleo baixou os olhos para o livro.
— É um poema sobre uma poderosa feiticeira que vivia na época das deusas. Seu nome era… bem, igual ao seu nome do meio, Eva. Que coincidência, não?
A garganta de Lucia ficou apertada.
— Sim, muita.
Era daquele livro que precisava.
— Acho melhor deixá-la em paz para procurar seus próprios livros. Eu diria que tem permissão para pegar o que quiser, mas acho que você já sabe, não é?
Havia uma gota ácida naquelas palavras. Lucia gostou disso; gostou de saber que a garota não era tudo o que aparentava — uma princesa educada e perfeitamente equilibrada. Ela usava máscaras, iguais às de Lucia e Magnus.
Seria possível pertencer à realeza e não ter algo assim à disposição? Pensando nisso, Lucia sentiu seu coração suavizar novamente em relação à garota.
— Sei que isso tudo é difícil para você — Lucia disse, tocando o braço de Cleo ao passar por ela. — Eu entendo.
— Entende? — Cleo sorriu, mas seus olhos estavam frios. — Que gentil de sua parte sentir solidariedade pela minha situação.
— Se precisar conversar, por favor, saiba que estou à disposição.
— Eu digo o mesmo.
Algo chamou a atenção de Lucia, e então ela olhou para a mão de Cleo.
— Seu anel. — Ela franziu a testa. — Ele está… brilhando?
Cleo deu um passo para trás, empalidecendo. Ela olhou para o anel, uma delicada filigrana dourada com uma grande pedra roxa que usava no indicador da mão direita. Ela ajeitou os livros para esconder a mão.
— Um efeito da luz, com certeza. Nada além disso.
Que estranho.
— Bem, nesse caso, espero encontrá-la muitas outras vezes daqui em diante.
— Sim. Eu digo o mesmo. Já que agora somos irmãs.
Também era fruto de sua imaginação que aquela palavra tenha soado afiada como uma adaga?
— Sabe quando Magnus vai voltar? — Lucia perguntou.
— Ele não contou a você?
— Não.
— Eu tinha a impressão de que seu irmão compartilhava tudo com você.
Lucia apertou os lábios, preferindo não responder. Houve um tempo em que aquilo seria verdade. Ultimamente, no entanto…
A ideia de que havia perdido a confiança do irmão de repente lhe fez sentir uma dor no fundo do coração.
— Respondendo sua pergunta — Cleo disse —, eu não sei quando ele volta. Só espero que não demore.
— Você sente falta dele?
Cleo continuou sorrindo.
— Por que não sentiria?
Lucia fitou a garota por um instante antes de falar novamente.
— Quem diria que duas pessoas tão diferentes encontrariam o amor em meio a ambiente conflituoso.
O olhar de Cleo se movia continuamente, por Lucia, pelo entorno. Ela estava em alerta, aquela princesa. E Lucia sentiu que havia muito mais por trás daqueles olhos aparentemente inocentes do que qualquer um poderia acreditar.
— Pois é, quem diria? Você tem muita sorte por ter crescido com um irmão mais velho como Magnus.
— Sim. Assim como você tem sorte de poder passar o resto da vida ao lado dele.
— De fato.
Lucia a observou com cuidado, procurando qualquer sinal de falsidade. Seria verdade? Cleo estaria realmente feliz e apaixonada por Magnus, e ele por ela? Impossível.
— Ele pode ser difícil — Lucia alertou. — Mal-humorado. Temperamental. Briguento.
— E quem não é, de vez em quando?
— Mas também é muito generoso. — Lucia arqueou as sobrancelhas. — Afinal, ele perdoou sua infeliz e vergonhosa perda da castidade para o lorde Aron Lagaris, não é?
Cleo piscou, surpresa, o único sinal de que as palavras de Lucia a haviam atingido como um tapa inesperado. Lucia ficou um pouco feliz com isso, mas sabia que era insignificante.
Durante a ausência de Magnus por causa da excursão de casamento, o rei havia colocado Lucia por dentro de muitos fatos interessantes. Tudo o que havia perdido enquanto dormia.
O sorriso da princesa se desfez.
— Como você mesma disse, tenho muita sorte.
— Sinto muito por dizer isso tão diretamente, mas, como você sabe, os criados comentam. — Não havia motivos para Cleo saber que o rei havia contado alguma coisa. Era sempre mais fácil colocar a culpa de tudo nos criados.
— Sim. — Cleo lentamente colocou um novo sorriso no rosto. — Também ouvi algumas coisas. Sobre você.
— Ah, é? Como o quê?
— Certamente não passa de uma mentira. Diferente de algumas pessoas, prefiro fazer meus próprios julgamentos e não acreditar tão facilmente em fofocas de criados.
Lucia ficou furiosa com aquele insulto ardiloso.
— O que você andou ouvindo?
Cleo se aproximou, como se estivesse pronta para falar em confidência.
— Ouvi dizer que você e Magnus tinham um relacionamento repugnante antes de virem para Auranos. Que você está apaixonada pelo seu próprio irmão.
Lucia ficou boquiaberta.
— Isso não é verdade!
— É claro que não. Como eu disse, faço meus próprios julgamentos. Mas, apesar das inclinações inapropriadas e anormais que tal atração de sua parte indicaria, eu entenderia. Magnus é muito bonito. Você não acha? — Um sorriso zombeteiro fez os cantos da boca da garota se curvarem, como se soubesse que estava irritando Lucia e forçando os limites de sua paciência.
E estava. A magia de Lucia rugia e se agitava em sua jaula. Ela não estava apaixonada por Magnus e desprezava tal acusação. Como Cleo se sentiria ao saber que, na verdade, era Magnus que sentia um amor anormal e repugnante por ela?
Mas será que isso havia mudado? Aquela menina havia seduzido Magnus e o tirado de Lucia para sempre? Ele estava pronto para ser dela — agora e sempre. Ela não o queria no âmbito romântico, mas também não queria perdê-lo para aquela princesa insignificante.
Irracional. Estou sendo irracional.
No momento, não importava. A magia de fogo estava chegando à superfície, e sua mente a acessava mesmo sem permissão. As tochas apagadas nas paredes da biblioteca pegaram fogo e começaram a queimar com ardor. Uma rachadura começou a se formar em um grande vitral, até que ele se estilhaçou, fazendo cacos de vidro se espalharem sobre o chão liso.
Cleo virou a cabeça rapidamente na direção da janela quebrada e das tochas, arregalando os olhos de choque.
— O que está acontecendo? É outro terremoto? — Ela olhou para Lucia, que agora estava com os punhos cerrados, tentando com toda sua força se acalmar antes que algo realmente terrível acontecesse.
Antes que ela ateasse fogo à esposa de seu irmão e escutasse seus gritos agonizantes.
Uma clareza repentina atingiu Lucia com a força de um soco no estômago, e ela respirou fundo. Não estava certo. Aquela não era ela. Algo a estava fazendo agir de maneira irracional e violenta. Eram seus elementia. Eles a haviam tomado pelo pescoço, como um mestre e seu animal de estimação preferido, controlando-a, comandando-a.
As chamas voltaram a uma altura normal, ainda acesas mas agora brilhando de maneira inofensiva conforme acrescentavam mais luz à sala já iluminada.
— Não é nada — Lucia ecoou as palavras anteriores de Cleo enquanto passava pela princesa assustada para adentrar a biblioteca. Ela tinha uma pesquisa a fazer. Não deixaria aquela menina idiota continuar a distraí-la. O vidro quebrado estalava sob as solas de couro de seus sapatos. — Um efeito da luz, com certeza. Nada além disso.

3 comentários:

  1. kkkkk gente, que confusão, a Lucia com ciúmes, quem diria.. E quem diria que a Cleo aprenderia a se defender assim, ela mudou muito desde o primeiro livro!

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Boa leitura, E SEM SPOILER!