14 de agosto de 2018

Capítulo 28


JONAS
AURANOS

Brion estava caído no chão.
Jonas não conseguia respirar, não conseguia falar, enquanto observava entre as árvores, aturdido. Era só um sonho. Tinha que ser. Era um pesadelo, e ele acordaria a qualquer momento.
Então sua visão ficou vermelha de ódio, vermelha de raiva. Ele se preparou para atacar, para matar Aron com as próprias mãos, para destroçá-lo até ele se tornar uma pilha de carne sangrenta.
Mas antes que conseguisse ultrapassar a proteção das densas árvores, Lysandra o agarrou e o deteve. Com lágrimas escorrendo pelo rosto, ela segurou o rosto de Jonas para forçá-lo a encará-la e desviar os olhos do melhor amigo morto.
— Jonas, não! É tarde demais — ela sussurrou duramente para ele. — Brion está morto! Se for até lá, vão matar você também!
Tudo havia acontecido numa questão de segundos. O menino que Jonas conhecia desde que ambos ainda mamavam no peito estava caído no chão a trinta passos de distância. Sangue escorria do ferimento em seu peito e empapava a terra. Os olhos sem vida de Brion estavam virados para a floresta, como se procurassem Jonas.
Era como assistir a morte de Tomas novamente — alguém que amava muito havia sido arrancado dele inesperadamente por Aron Lagaris.
— Me solte! — Um grito bruto de sofrimento surgiu em sua garganta, e mais uma vez ele tentou se desvencilhar de Lysandra. Um forte tapa chamou sua atenção, e ele encarou o olhar furioso dela.
— Vão matar você se for até lá — ela grunhiu.
— A culpa é minha. De novo. A culpa é minha. Fui eu que decidi que deveríamos tentar roubar as armas dos guardas. Quando eles nos viram… — A voz de Jonas falhou, e ele jogou os braços sobre o rosto como se, ao bloquear a floresta, ele pudesse bloquear o que havia acontecido. — Brion estava me protegendo para que eu pudesse fugir.
— Ele estava protegendo nós dois. — Lágrimas escorreram pelo rosto dela. — Não é culpa sua. Precisávamos das armas. Nunca poderíamos imaginar…
— Preciso matar Aron Lagaris. Preciso me vingar. — Ele respirou fundo, trêmulo, mantendo a atenção no rosto molhado por lágrimas de Lysandra. Ela ainda não o havia soltado. Era uma âncora para ele… um peso. Se não estivesse ali, ele já estaria lá, lutando. Sangrando. Morrendo. Ele esperava ódio e fogo daquela garota. Em vez disso, Lysandra o abraçou bem forte enquanto compartilhavam o luto.
— Você vai se vingar — ela garantiu a ele. — Assim como eu. Mas não aqui. Não agora.
Jonas achou que ia vomitar. Ele ficava repassando em sua mente a imagem de Brion caindo no chão. Lysandra ainda estava falando. Ele se apegava às palavras dela como se fossem uma tábua de salvação.
— Sabíamos que o príncipe viria nessa direção. Foi ideia do próprio Brion rastrear o progresso deles, Jonas. Você não pode se culpar! Olhe para mim. — Ela segurou o rosto dele novamente, forçando-o a olhar em seus olhos cheios de lágrimas. — Graças a Nerissa, sabemos aonde eles irão em seguida, e por quê. Agora é hora de agir, de uma vez por todas. É agora ou nunca. Você deve ter entendido. Não é?
Ele tentou pensar. Tentou ver além da raiva e do luto.
Um plano começou a se formar — nebuloso no começo, mas cada vez mais claro e forte.
É agora ou nunca, Lysandra tinha dito.
Ela estava certa.
A morte de Brion não seria em vão — Jonas não permitiria. Ela marcaria o momento em que Jonas finalmente conseguiu enxergar com a maior clareza de toda sua vida.
A Estrada de Sangue era a chave para a derrocada do rei.
E era hora de os rebeldes acabarem com isso.


Quando voltaram ao acampamento do bando, a noite já havia se fechado ao redor deles, e as Terras Selvagens estavam escuras e repletas de barulhos sinistros que pareciam vir de criaturas famintas esperando para devorar qualquer um que cruzasse seu caminho.
Jonas se sentia como uma dessas feras, como se pudesse matar qualquer coisa ou pessoa que aparecesse na sua frente.
— E agora, o que vamos fazer? — Tarus perguntou do meio das sombras, cercado pelos outros. Lysandra havia contado sobre a morte de Brion. A voz de Tarus tremia. — Eles estão nos matando um a um.
— Todo esse tempo — Jonas começou, reunindo o que lhe restava de força para falar alto o bastante para todos ouvirem —, estive procurando uma maneira de atacar o rei. De retomar o poder roubado de Paelsia no momento em que o chefe foi assassinado. Admito que às vezes temi que essa tarefa não pudesse ser realizada. Depois do desastre e da derrota no Templo de Cleiona, tive muitas dúvidas. Duvidei de mim mesmo, duvidei de tudo. Por um instante, permiti que o Rei Sanguinário me vencesse. Ele tem vantagem numérica. Tem guardas e soldados. Tem armas. E enganou tão bem os auranianos que a maioria se assemelha ao gado, esperando estupidamente a hora do abate. E agora, segundo relatos que recebi, o rei se isolou na Cidade de Ouro, deixando os outros lutarem suas batalhas, intocável e a salvo de qualquer perigo.
— Mas que vantagem temos nisso? Como poderemos atingi-lo? — outro garoto perguntou.
— Estávamos procurando um ponto fraco — Jonas disse. — Algo que pudesse ferir o rei. Algo que pudéssemos usar contra ele de modo a atraí-lo para fora do castelo. Antes eu acreditava que pudesse ser a princesa Cleiona. O plano não saiu exatamente como eu esperava. Mas me provou uma coisa: precisamos de alguém que tenha mais importância para o rei.
— Quem? — Tarus perguntou, com os olhos arregalados.
— Amanhã, ao amanhecer, o príncipe Magnus, lorde Aron e um grande grupo de guardas irão partir para as Montanhas Proibidas. Temos informações de que estão indo inspecionar o campo de trabalho da estrada, local que desconhecíamos até muito recentemente.
— Quem lhe contou isso? — Phineas perguntou.
— Uma fonte confiável — Lysandra respondeu. Ela e Jonas trocaram um olhar tenso. Era uma informação que haviam recebido apenas alguns dias antes, e que os levara a espionar o acampamento do príncipe em primeiro lugar. A ex-costureira Nerissa havia assumido o papel de espiã rebelde com muito entusiasmo. Guardas do palácio posicionados perto do rei, depois de um dia duro de trabalho, gostavam de aliviar a alma nos braços de uma menina bonita e muito amigável. Lysandra não aprovava os métodos de Nerissa para obter informações, mas não podia negar seu sucesso; não quando finalmente lhes havia fornecido a chave para o que seria sua vitória definitiva.
— Então vamos sequestrar o príncipe Magnus — um rebelde supôs.
— Sim. — Os olhos de Jonas se estreitaram. — Mas ele não é nosso único alvo. Há mais alguém no campo de trabalho da estrada que, acreditamos, significa tanto para o ganancioso rei quanto aqueles de seu próprio sangue. Um homem chamado Xanthus, que segundo minha fonte é mantido em um grau tão alto de sigilo que fiquei intrigado. Ele é o engenheiro-chefe de toda a estrada, e me garantiram que é essencial para a operação. Ele tem os projetos, ele toma as decisões. Nenhuma pedra é colocada sem sua aprovação. Quaisquer novas instruções ou mudanças partem diretamente dele, com um lacre oficial, aos outros campos de trabalho.
— Como um homem pode ter tanto poder? — Phineas perguntou.
— Eu não sei e, sinceramente, não me importa — Jonas respondeu. Suas palavras pareciam insensatas, mas o plano, não. — Só sei que, sem Xanthus, a construção da estrada para. E o rei investiu muito nessa estrada, tanto ouro quanto tempo. Ele a deseja. Significa muito para ele. Capturar Xanthus e o príncipe Magnus e torná-los reféns nos dará o que queremos: o próprio rei. Ele será atraído para fora de seu palácio dourado e cairá diretamente em nossas mãos.
— É simples — Lysandra assumiu a palavra. — Vamos seguir o príncipe Magnus e seu grupo até a estrada. Vamos esperar que parem para descansar, que tenham uma falsa sensação de segurança, e então atacaremos pouco antes do amanhecer. Vamos localizar Xanthus e o príncipe e levar os dois, matando qualquer um que se meter em nosso caminho. É agora ou nunca. É nossa chance de finalmente fazer a diferença e salvar nosso povo da tirania do rei.
— Mas precisamos da ajuda de todos — Jonas afirmou. — Todos.
— Ainda assim será um banho de sangue — disse outro rebelde que estava ao lado de Phineas, incerto. — Acha que vamos arriscar a vida por isso? Com base em informações da sua “fonte confiável”?
— Sim! — Lysandra virou-se para fixar o olhar exaltado no rebelde. — Nós vamos arriscar a vida, se é isso que precisa ser feito! Eu vi Brion morrer hoje, e ele foi corajoso e forte até o fim. Devemos isso a ele. Espero ter a metade da coragem que ele teve. Estou disposta a morrer se isso significa mostrar ao Rei Sanguinário que não sou nem nunca serei uma de suas escravas!
— Devemos ferir o rei Gaius onde ele certamente sangrará mais — Jonas disse com firmeza —, e então teremos nossa vitória. Vamos lá. Quem está comigo? Quem está com Lysandra?
Um por um, os rebeldes reunidos deram um passo à frente, levantando cada vez mais a voz com força e entusiasmo.
— Eu estou!
— Eu também!
— Sim! Chega de fraqueza, vamos mostrar ao Rei Sanguinário nossa força de uma vez por todas!
De uma vez por todas!

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Boa leitura, E SEM SPOILER!