13 de agosto de 2018

Capítulo 26

REI GAIUS
O SANTUÁRIO

O sonho finalmente chegou, depois de muitas semanas de espera.
— Você disse que eu era imortal — o rei bufou quando sentiu a presença de Melenia. Sem esperar pela resposta, ele se virou e partiu para cima dela, agarrando seus ombros e a sacudindo. — Por que mentiu para mim?
— Eu não menti.
Ele deu um forte tapa na cara dela, e a ardência lhe deixou mais satisfeito do que esperava. Infligir dor sobre aquela linda criatura dourada lhe dava um grande prazer.
Ela levou a mão ao rosto, mas seus olhos não se encheram de lágrimas, como aconteceria com muitas outras. Ele não via nenhuma fraqueza em seu olhar enquanto a encarava.
— Eu não menti — ela repetiu, enunciando cada palavra com cuidado. — E se me bater de novo, será por sua conta e risco, meu rei.
Havia uma ponta de ameaça na afirmação, que apenas um tolo ignoraria. Ele se obrigou a recobrar a calma.
— Quase fui esmagado no Templo de Cleiona durante o terremoto. Senti o gosto amargo da minha própria mortalidade.
— Mas não está morto, está?
Ele não saíra do palácio desde aquele dia. Com a possibilidade de haver rebeldes assassinos escondidos em todas as sombras e a ameaça de desastres naturais inesperados, ele tornara-se extremamente paranoico. Estava perto demais de conquistar tudo o que sempre desejara para correr riscos desnecessários.
Depois do que havia acontecido no templo, sua confiança fora abalada. Ele não confiava mais em Melenia. Houvera um tempo em que ele a considerava tanto uma semelhante intelectual quanto um objeto de desejo. Quando acreditava que ela se tornaria sua rainha, para governar ao seu lado por toda a eternidade. Uma mulher que ele seria capaz de idolatrar. Uma mulher que ele até seria capaz de amar.
Não mais.
Agora tudo o que queria dela eram respostas.
— Quando? — ele grunhiu. — Quando vou colocar as mãos no tesouro que me prometeu durante todos esses meses?
— Quando a estrada estiver pronta.
Era tempo demais para esperar por qualquer prova concreta do que ela havia dito. A paciência dele já estava se esgotando.
— Então Lucia é essencial para encontrar a Tétrade? Ela vai sentir a localização com sua magia? Mais sangue precisará ser derramado para ajudá-la?
— Eu já disse, meu rei. Sangue será derramado. Muito. Sangue é essencial para o nosso plano.
— Conte mais. Conte tudo.
Um sorriso surgiu no canto de sua boca.
— Ah, meu rei, você não está preparado para saber de tudo.
— Estou! — ele insistiu.
— Ainda não. Existem… sacrifícios que precisarão ser feitos. Sacrifícios para os quais não estou convencida de que você esteja preparado.
— Que sacrifícios? — Ele arriscaria qualquer coisa, sacrificaria qualquer coisa para conseguir o que queria. — Diga!
Ela ergueu uma sobrancelha.
— Às vezes eu realmente não sei por que me importo com você. Talvez seja porque você me diverte.
Ele não seria diversão de ninguém.
— Você profetizou que eu governaria o universo com o poder de um deus imortal.
— Foi mesmo, não foi? Há algo curioso sobre as profecias, meu rei. Elas nem sempre são imutáveis. Essa profecia exige que eu o auxilie no que deve ser feito no mundo mortal, como já auxiliei inúmeras vezes. Não faça com que eu me arrependa da minha decisão.
Ele queria matá-la. Esmagá-la com as próprias mãos. Ver a vida se esvair de seus lindos olhos azuis. Vê-la implorar por misericórdia em seu último suspiro. Será que o sangue de um imortal era vermelho? Isso ele também gostaria de descobrir.
Em vez de admitir seus pensamentos sombrios, ele abaixou a cabeça em deferência.
— Minhas profundas desculpas, minha rainha. Você sabe como estou estressado ultimamente. Como estou ansioso por algum progresso. Tem sido um período difícil para todos nós, sobretudo por causa da preocupação com o bem-estar de minha filha. Mas agora ela está acordada e fora de perigo. Sua magia está mais forte do que nunca.
— Fico feliz em ouvir isso. — Ela caminhou em círculos ao redor dele. Pela primeira vez na vida, ele sentiu como se um predador o observasse em busca de fraquezas.
Ele nunca havia se sentido uma presa antes.
— Preciso ir até o campo de trabalho da estrada nas Montanhas Proibidas e falar com Xanthus — ele disse. — Preciso conversar com ele. Quero que me mostre o que está fazendo e garanta que tudo está saindo de acordo com o planejado. Mensagens enviadas via corvos não são suficientes para me acalmar.
— Não, você não deve ir. Deve permanecer aqui.
— Por quê?
Ela franziu a testa, seu rosto perfeito se tornando muito sério.
— Não queria deixá-lo preocupado, mas… se sair do palácio, sua profecia se perderá. Existem inúmeros perigos, e muita gente quer vê-lo morto. Eu lhe prometi a imortalidade, meu rei, mas isso só será possível se ficar em segurança enquanto nossos planos se solidificam.
Ele a encarou em choque por um longo e silencioso minuto. Era exatamente o que temia.
— Então devo ficar aqui trancado, como uma criança que precisa ser protegida de possíveis perigos?
Algo desagradável passou pelos olhos dela.
— O aprisionamento é uma condição com a qual estou muito familiarizada, meu rei. Acredite, seu confinamento será muito mais curto do que tem sido o meu. Se não acredita em minha palavra a esse respeito e quiser saber mais sobre a estrada, pode mandar alguém de confiança em seu lugar para falar com Xanthus.
Mas Gaius não confiava em ninguém.
Ninguém, exceto seus filhos. Exceto seu filho.
— Mandarei Magnus — ele disse, decidido. Odiava ter de ficar preso, mas não duvidava do alerta dela. Sua vida mortal era frágil como a de todo mundo. Estava perto demais de alcançar o que queria para arriscar seu pescoço diante da lâmina de um rebelde. — Quando ele voltar da excursão de casamento e se juntar à caçada pelo líder rebelde, eu o mandarei inspecionar o campo de trabalho da estada nas montanhas e falar com Xanthus. Ele será meu representante oficial.
— Muito bem. Espero que o príncipe prove seu valor nessa expedição. — Melenia sussurrou. — Sei que já teve algumas dificuldades com ele.
— Sou duro porque sei que ele precisa de um pulso firme. Ele está passando por um período difícil da vida. Mas, apesar de alguma resistência, tem dado provas de seu valor repetidas vezes. Ele não vai me decepcionar.
— Sim, mande seu filho descobrir as respostas que lhe trarão tranquilidade. Estamos mais perto do que pensa.
Ele segurou o rosto de Melenia entre as mãos, um toque suave onde antes havia sido rude. Ela não se afastou quando ele a puxou para mais perto para beijá-la. A boca dela era tão doce e quente como seria fora de seus sonhos. Quando tudo aquilo terminasse, quando ele estivesse em posse da Tétrade e fosse um deus imortal livre para ir aonde desejasse, ansiava por descobrir o quão prazeroso seria matar a mulher que agora abraçava.
Àquela altura, já não precisaria de uma rainha para nada.

Um comentário:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!