13 de agosto de 2018

Capítulo 25

CLEO
AURANOS

Ao amanhecer, Aron estava presente enquanto Cleo se preparava para partir na temida excursão de casamento.
— Que você faça uma viagem segura, princesa — ele disse, acompanhando-a pelos corredores em direção às carruagens que estavam à espera. — Vou liderar o grupo que sairá em busca do assassino da rainha enquanto vocês estiverem fora. O príncipe Magnus se juntará a mim na perseguição assim que voltar, se o rebelde ainda estiver à solta.
Liderar o grupo? Aron?
— Certamente o rei confia muito em suas capacidades como vassalo.
— Ele confia. Mais do que você imagina. — Aron chegou mais perto para dizer algo em confidência. — Não pude deixar de notar que o príncipe saiu dos aposentos nupciais minutos depois de entrar. Já há algum problema em sua alegre união?
— Nenhum. — Ela colocou um sorriso insosso no rosto. — Sentirei sua falta enquanto estiver fora, lorde Aron. Você me diverte muito.
Ele franziu a testa.
— Cleo…
— É princesa Cleiona. Tenha sempre o cuidado de lembrar meu título oficial, principalmente agora que estou muito bem casada com o filho do rei. Agora, se me dá licença…
Ela passou por ele e continuou seguindo em direção à carruagem sem mais delongas.
Que cretino. Ela ficava satisfeita em saber que ele fazia parte da caçada; o fato de Jonas ter sido acusado pelo assassinato da rainha era ridículo. Estavam apenas procurando um motivo para matar o líder rebelde com total apoio de qualquer cidadão que pudesse vê-lo e dedurá-lo, e encontraram esse motivo. Mas com tanta inépcia e Aron “liderando o grupo”, o rebelde certamente continuaria livre para sempre.
Eu o verei de novo, rebelde, ela pensou. Algum dia. Em algum lugar. Até lá, por favor, fique em segurança.
E então a excursão de casamento começou. A programação era que percorressem primeiro Auranos, passando depois por Paelsia e Limeros. De cidade em cidade, as aparições variavam pouco. Cleo e Magnus surgiam diante de uma multidão reunida, geralmente entusiasmada, e depois ouviam graciosamente discursos de prefeitos e canções de bardos. Em uma vila na costa sul de Auranos, um pequeno grupo de crianças encenou uma peça para divertir Cleo e Magnus. As crianças eram adoráveis, e estavam tão empolgadas com a visita real que Cleo tentava ao máximo parecer atenta e animada. Magnus, no entanto, sempre parecia entediado com tudo e já estava impaciente para que a excursão terminasse e ele pudesse se juntar a Aron e os soldados do rei na perseguição a Jonas.
Depois que a peça terminou, eles fizeram uma saudação. Cleo agia como de costume até que uma mulher pegou sua mão e a encarou com preocupação.
— Está bem, princesa? — ela sussurrou de modo que ninguém, exceto Cleo, escutasse.
Um nó imediatamente se formou em sua garganta, mas ela tentou sorrir.
— Sim, é claro. Estou perfeitamente bem. Estou muito grata pela calorosa recepção que sua vila preparou para mim e para o meu… para o príncipe.
Ela não conseguia chamá-lo de marido.
Por toda sua adorada Auranos, a maioria dos cidadãos recebeu o casal real com muita fanfarra, exatamente como o rei havia previsto. Mas em toda multidão sempre havia alguns incrédulos — que ficavam nos cantos e nas sombras, demonstrando medo e desconfiança nos olhos. Cleo percebia que eles tinham consciência de que aquela união não era tão gloriosa ou empolgante quanto acreditavam seus vizinhos. Eles sabiam que não se podia confiar no rei — que suas palavras não passavam de palavras, e suas promessas podiam ser quebradas com a mesma facilidade que se quebra um osso.
Como ela desejava poder garantir a essa pequena, porém notável, porcentagem que um dia mudaria as coisas para melhor — para todos. Mas não, ela precisava desempenhar o papel de jovem princesa apaixonada por seu marido para garantir a própria sobrevivência.
Havia um lado bom. Enquanto estava fora do palácio, ela se deu conta de que teria outra chance, uma chance melhor, de reunir informações sobre o folclore e as lendas locais; ela poderia aprender mais sobre a Tétrade e sobre como seu anel ajudaria a encontrá-la — tudo debaixo do nariz de Magnus.
Essa ideia a aquecia à noite e ajudava a manter o ânimo durante o dia. Ainda assim, apesar de estar cercada de criadas e guardas, sem contar o príncipe mal-humorado e calado, ela logo começou a se sentir desesperadamente solitária.
Foi em Porto Real, onde estavam prestes a embarcar em um navio rumo a Porto do Comércio, em Paelsia, que ela viu Nic parado no cais, perto do enorme navio escuro que emergia das águas como um monstro marinho. Ele usava seu uniforme vermelho, como todos os outros guardas limerianos que acompanhavam Cleo e Magnus na viagem. Seus cabelos cor de cenoura estavam espetados em todas as direções. E ele tinha um sorriso imenso no rosto.
Cleo ficou boquiaberta ao ver seu amigo querido, mas se controlou para não sair correndo e se jogar nos braços dele.
— Algo errado, princesa? — Magnus perguntou.
— É só… Nic. — O coração dela estava acelerado. — Ele está aqui.
— Sim, está.
— Você não está surpreso?
— Não. Fui eu que pedi.
Ela se virou e o encarou com alarme e desconfiança.
— Por quê?
Ele deu de ombros.
— Sua tristeza é palpável há dias, e isso se reflete negativamente em mim. Por alguma razão, você valoriza a presença desse idiota. Então ele nos acompanhará pelo resto da excursão, até eu finalmente voltar ao castelo e partir na jornada que realmente me interessa. Ele pode cuidar de nossa bagagem e limpar a sujeira dos cavalos. Tenho certeza de que encontrarei várias tarefas interessantes para ele.
A descrença tomou conta dos pensamentos dela.
— Você o requisitou aqui só para eu não ficar triste.
Magnus apertou os lábios.
— Preciso conservar a sua parte do combinado enquanto continuamos a alimentar esse povo idiota com as belas mentiras do meu pai. Só isso.
— Obrigada — ela sussurrou, com um nó na garganta ao pensar que ele havia feito algo tão inesperadamente gentil, apesar das palavras duras.
Magnus olhou para ela de soslaio.
— Poupe sua gratidão. Não preciso dela.
Cleo olhou feio na direção dele, mas foi perda de tempo. O príncipe já tinha saído para falar com um guarda perto do navio.
Cleo se aproximou de Nic da maneira mais majestosa possível mas não conseguiu conter o sorriso.
— Você está aqui.
Ele também sorriu, com ênfase demais para parecer profissional.
— Sob ordens reais.
— Bem, fico feliz que esteja recebendo ordens reais.
— Neste caso, tenho que concordar.
Com Nic, a jornada seguiu para Paelsia, e eles passaram por várias vilas e vinícolas — sem jamais se aproximar da Estrada Imperial, Cleo notou. Os pobres aldeões se reuniam para observar em silêncio. A presença de Cleo atraía algumas crianças para fora de casa, que ficavam fascinadas com seus vestidos elegantes e coloridos. O olhar das crianças era repleto de uma esperança ilimitada que faltava aos mais velhos. Perceber isso partiu o coração de Cleo.
Os paelsianos não eram enganados tão facilmente quanto os auranianos por qualquer coisa que o rei dissesse. Aquelas pessoas já tinham visto seus engodos e suas crueldades com os próprios olhos. Essas coisas não podiam ser esquecidas nem perdoadas.
Quando a comitiva deixou a costa rumo ao Porto Negro de Limeros, Cleo estava desanimada por não ter descoberto nada útil sobre o anel, que permanecia firme em seu dedo desde que saíra da Cidade de Ouro. Ela também não tinha ouvido nada além de histórias repetidas sobre a Tétrade. O tempo para encontrar as informações ficava cada vez mais curto a cada dia que passava, e sua ansiedade só aumentava.
Quando chegaram a Limeros, Cleo precisou se enrolar em um manto grosso com acabamento em pele para se aquecer do frio daquela paisagem gélida. Enquanto Auranos tinha um palácio que literalmente brilhava como uma joia sob os raios de sol, o castelo limeriano parecia absorver a luz, que se extinguia assim que entrava em contato com ele. Era grande, preto e sombrio, com torres que se elevavam no céu frio como as garras de um demônio. Apenas as janelas refletiam a luz, parecendo os olhos de uma fera voraz.
O verdadeiro lar de Magnus combinava perfeitamente com ele.
— Isso é tudo? — Magnus perguntou, olhando para os baús que Nic havia descarregado das carruagens.
— Sim, vossa graça. — Era preciso reconhecer que Nic conseguia falar sem parecer sarcástico. O suor cobria sua testa depois de arrastar sozinho todas as arcas para o castelo.
— Ótimo. Agora vá cuidar dos cavalos. Preciso verificar se chegou alguma mensagem do meu pai para mim aqui. — Ele deu meia-volta com as botas de couro preto e saiu andando pelo corredor sem dizer mais nada.
— Odeio ele — Nic bufou.
— Eu também — Cleo concordou.
— A essa altura já tenho minhas dúvidas, pelo tanto que o está abraçando nessa viagem.
A princesa agarrou o braço dele quando estava prestes a se retirar, afundando os dedos até Nic voltar a olhar para ela.
— Qualquer coisa que você pensa ter visto entre nós é apenas fachada. Lembre-se disso.
Os ombros de Nic desabaram.
— Peço desculpas, Cleo. É claro que sei disso. Deve ser muito difícil para você.
— Graças à deusa você está aqui comigo.
Ele ergueu as sobrancelhas.
— Ah, é?
Ela riu, as palavras desagradáveis dele já deixadas de lado.
— Quem mais carregaria meus baús de vestidos tão bem?
Ele riu, e Cleo o puxou para um abraço apertado, nunca mais querendo soltar.
— Estou aqui para o que você precisar, Cleo. Sempre.
Ela assentiu, pressionando o rosto junto ao tecido áspero do uniforme dele.
— Eu sei.
— Você é tão corajosa… tendo que conviver com aquele monstro. Forçada a compartilhar a mesma cama. — Um olhar de ódio cruzou o rosto dele quando se afastou um pouco dela. — Todas as noites, me imagino matando-o para você.
Cleo pegou as mãos de Nic, apertando-as com força.
— Não se preocupe comigo. Sei lidar com o príncipe. — Ela queria contar a ele que não dormia na mesma cama que Magnus e que passava todas as noites sozinha, mas conteve a língua. Ninguém, nem mesmo Nic, poderia saber disso.
— Por favor, vá descansar para poder estar ao meu lado amanhã. Preciso de todo o apoio que puder ter.
— Vou descansar. Assim que cuidar dos cavalos para sua majestade.
— Vejo você amanhã. — Ela ficou na ponta dos pés para beijar o rosto de Nic. No mesma hora ele virou o rosto, e Cleo acabou beijando seus lábios.
Isso lhe rendeu outro sorriso de orelha a orelha.
— Até amanhã, princesa.


Depois de uma noite em claro, ela foi acordada bem cedo por Dora e Helena, que eram tão desrespeitosas com ela ali quanto no castelo auraniano. Elas a ajudaram a se vestir e ficar apresentável. Cleo vestiu um novo manto com acabamento em pele sobre um de seus melhores vestidos novos. O traje inteiro era vermelho, para homenagear a cor oficial de Limeros. A cor do sangue. Provavelmente não era uma coincidência. As mangas do vestido tinham um bordado dourado de serpentes, emblema do reino. Também muito apropriado para um reino que transbordava de cobras.
Do lado de fora do castelo, seguindo os passos de Magnus, ela olhou distraidamente na direção do grupo de nobres que havia se juntado a eles para a apresentação oficial do presente de casamento de lorde Gareth, amigo próximo do rei. À esquerda deles havia um caminho que passava pelos jardins de gelo e entrava em um intrincado labirinto de cercas-vivas cobertas de neve. À direita havia uma grande clareira com um lago congelado comprido e retangular, que seguia na direção do castelo. Belo, mas austero e imaculado. Não havia o menor sinal de calor em nenhuma direção.
— Dizem que isto pertenceu aos próprios vigilantes.
Ela imediatamente voltou a olhar para o lorde Gareth. Finalmente notou o objeto próximo de onde haviam parado, o presente. Era uma roda de pedra esculpida que ultrapassava o ombro de Cleo em altura e projetava-se do solo congelado na entrada dos jardins.
— O que tem a ver com os vigilantes? — ela perguntou, esforçando-se para manter a voz equilibrada.
— Ah, é — Magnus disse. — Por favor, diga. É tudo tão fascinante.
Era raro o príncipe dizer algo que não zombasse de seu interlocutor. Era igualmente raro, Cleo havia percebido, que alguém se desse conta disso tão facilmente quanto ela.
Cleo se lembrou do menino rebelde, Tarus, mencionando rodas de pedra associadas aos vigilantes e ao Santuário. Não podia ser a mesma coisa. Podia?
O lorde careca, mas de aparência distinta, juntou as mãos diante do corpo, balançando-se um pouco, visivelmente satisfeito por ter a atenção total do casal real.
— Os vigilantes nos observam na forma de falcões.
— Uma história infantil que já ouvi mil vezes — Magnus disse com desprezo.
— É mesmo? Ou será verdade? — A chance de debater o assunto parecia agradar o lorde. — A magia é muito real, vossa alteza.
Magnus o observou sem desviar o olhar.
— O que o leva a acreditar nisso?
— Já vi muitas coisas que não podem ser explicadas. Conheci bruxas que tinham dentro de si o dom de usar pequenas partes dos elementia para criar magia no mundo mortal.
Toda a atenção de Cleo estava agora voltada para aquele homem. Era isso. Podia ser ele a pessoa a lhe dizer o que ela mais precisava saber.
— A Tétrade é real? Ouvi histórias sobre cristais elementares, mas podem não passar de lendas.
Ele olhou para ela.
— Acredito que seja verdade. Há rumores de uma profecia que diz que quando a feiticeira renascer, ela mostrará o caminho até a Tétrade.
Cleo ouviu atentamente. Uma feiticeira mostraria o caminho? Havia uma coisa em que ela acreditava mais do que tudo: que o anel que estava usando havia pertencido à feiticeira Eva. O que isso significava?
O céu estava nublado e flocos de neve começavam a cair, salpicando de branco o manto vermelho de Cleo e as roupas dos dignitários ali próximos.
— Conte mais sobre a roda, lorde Gareth — Magnus pediu.
Com o coração acelerado, ela torceu as mãos, sentindo a superfície fria do anel de ametista. Ela olhou na direção de Nic, que estava parado ao lado dos outros guardas, imóveis como estátuas. Seu olhar de desdém estava fixo em Magnus.
O homem foi em direção à roda e deslizou a mão sobre sua curvatura.
— Existem rodas idênticas a essa espalhadas por Mítica. Durante séculos, ninguém entendeu o que eram ou de onde vinham. Só se sabe que são muito antigas e se relacionam de alguma forma com os vigilantes.
— Quantas rodas existem? — Cleo perguntou.
— Doze foram encontradas e documentadas. Todas exatamente iguais, mas em diferentes estados de conservação.
— Como sabe que elas têm algo a ver com os vigilantes? — ela perguntou, ignorando o olhar curioso de Magnus sobre ela.
O lorde manteve a mão sobre a roda enquanto admirava sua superfície esculpida.
— Havia um velho que vivia no norte de Limeros. Perto do fim de seus dias, ele jurou a todos que era um vigilante exilado que havia deixado o Santuário para nunca mais voltar. Uma vez aqui, ele se tornou mortal, envelheceu, ficou senil. Seus filhos, netos e bisnetos ouviam pacientemente suas divagações, mas não davam muita atenção. Ele falou que as rodas estavam aqui por um motivo. Pediu para ser levado até uma delas para poder tocar a imortalidade mais uma vez.
A roda de pedra parecia inócua a ela, algo para que ninguém olharia duas vezes.
— E ele foi levado até a roda?
— Não. Ele morreu antes.
— Provavelmente não passava de um velho que não sabia o que estava dizendo — a expressão de Magnus era totalmente indecifrável. — Agradeço muito pelo raro e generoso presente, lorde Gareth. Com certeza a roda será o destaque deste jardim.
— É um prazer, príncipe Magnus, princesa Cleo. Desejo a vocês muitos anos felizes juntos. — Ele se curvou e se afastou para se juntar aos outros.
— Príncipe Magnus! — Uma mulher de cabelos grisalhos e rosto enrugado o chamou. — Podemos trocar uma palavra? Meu filho ainda não está noivo, e eu estava pensando em sua irmã… bem, podemos conversar?
— Essa excursão podia acabar logo — ele resmungou antes de ir falar com a mulher entusiasmada.
Agora sozinha, Cleo tocou a superfície lisa e fria da grande roda. Mãos habilidosas a haviam criado havia muitos e muitos anos.
É como eles atravessam do mundo mortal para o Santuário, e vice-versa, na forma de falcões, Tarus havia dito. Eles têm essas rodas mágicas de pedra esculpida escondidas aqui e ali. Para nós podem não passar de ruínas, mas, sem as rodas, eles ficam presos aqui.
Mas aquela pedra havia sido retirada de sua localidade original. Será que ainda funcionava?
Depois de um tempo, a pedra, que estava fria como gelo quando Cleo pousou sua mão, começou a esquentar.
Seu coração disparou ao ver o anel começar a brilhar — e algo bem no fundo da pedra roxa, algo que parecia ouro fundido cintilante, começou a girar. A roda logo ficou quente como fogo sob seu toque e um tremor de energia subiu pelo seu braço. O medo tomou conta dela, e Cleo recolheu a mão. A pedra do anel parou de brilhar, mas a princesa ficou encantada com a pequena mancha dourada ainda visível bem no fundo — tão fundo que sentiu que podia cair lá dentro e se perder.
Ela foi acometida por uma onda de tontura e vacilou até as pernas cederem completamente.
Mas não caiu. Alguém estava lá, segurando sua cintura para estabilizá-la. Ela olhou para cima, esperando ver Nic, mas era Magnus.
Suas sobrancelhas escuras estavam unidas.
— Algum problema, princesa?
Um rápido olhar para a multidão reunida mostrou que ninguém a fitava com nada além de preocupação por seu bem-estar. Ninguém imaginava o que ela tinha acabado de ver.
A nobre com quem Magnus estava falando a observava estarrecida.
— Ela está tão pálida. Será que está bem?
— Bem o bastante — Magnus respondeu em poucas palavras. — Agradeço pela preocupação, lady Sophia. Acho que vou fazer uma breve caminhada com a minha… com a princesa, antes do meu discurso, assim ela pode clarear as ideias. Talvez toda essa empolgação seja demais para ela. Não é isso?
— Sim, claro. Eu… preciso clarear as ideias. — Cleo engoliu em seco e olhou para o anel. O redemoinho havia parado, e a estranha mancha de ouro fundido não estava mais visível dentro da pedra.
Nic olhou para ela, tenso e preocupado, quando Magnus a conduziu na direção do labirinto.
O que teria acontecido se ela tivesse sido corajosa o suficiente para manter a mão pressionada junto à roda? Será que ela — uma simples mortal — seria capaz de viajar ao Santuário? Ela teria alguns vislumbres de onde encontrar a Tétrade?
Se não encontrasse as respostas, estaria permitindo que Auranos continuasse dominado pelo punho de ferro do rei Gaius. E estaria decepcionando seu pai.
Como desejava que ele ainda estivesse vivo para orientá-la naquele momento. Às vezes, quando menos esperava — como naquele instante —, o vazio infinito de tudo o que havia perdido a esmagava sem piedade.
— Tem algo errado? — Magnus perguntou. — Você está chateada.
Cleo secou uma lágrima e não se preocupou em olhar diretamente para ele.
— Você se importa?
— Eu acho que uma princesa chorosa não transmite uma imagem muito boa de um casamento feliz.
— Não estou chorando. — Ela lançou um olhar duro a ele. — Talvez você preferisse que eu estivesse.
— Quanta agressividade, princesa. O que eu fiz para merecer isso hoje?
— Está respirando. — As palavras saíram antes que ela as pudesse conter, e então mordeu o lábio inferior. Decidiu mudar de assunto. — Que lugar é este?
— Os terrenos do palácio limeriano, é claro.
— Não, estou perguntando deste lugar. Este labirinto. Por que está aqui?
Ele olhou em volta.
— Está com medo de se perder?
— Não pode responder uma simples pergunta sem criar tanta dificuldade? — Novamente, ela mordeu o lábio inferior e olhou para o chão, combatendo a frustração constante que era lidar com o príncipe.
Magnus bufou.
— Não acho que você seja capaz de fazer perguntas simples. Mas tudo bem. Vou cooperar. Este foi um presente para a minha irmã seis anos atrás. Lorde Psellos queria que seu filho fosse visto com bons olhos para propor um eventual noivado, então mandou construir isto aqui como presente de aniversário. — Os lábios dele se curvaram com a lembrança, o sorriso ajudando a suavizar seus traços rígidos. — Lucia amava este labirinto. Ela desafiava os outros para ver quem percorria mais rápido. Com frequência, tinha que voltar para resgatar alguém que ficava irremediavelmente perdido. Em geral era eu.
A mudança rápida no humor de Magnus ao falar de Lucia era surpreendente. Cleo se lembrou da fofoca sórdida que Dora e Helena haviam contado a ela sobre o príncipe e a irmã.
— Você ama sua irmã?
Ele ficou tenso e não respondeu por um instante.
— Acha que sou incapaz de tal sentimento?
— Mais uma vez está fugindo da resposta, não é?
— Talvez você tenha feito uma pergunta que não mereça resposta.
Ela olhou feio para ele.
— Por um momento, achei…
— O quê, princesa? — Ele a encarou. — Que havia encontrado mais uma evidência do coração que vive questionando?
Como se tal descoberta fosse possível.
— Eu nunca cometeria esse erro. Afinal, você é filho do seu pai.
— Sim. E nunca se esqueça disso. — O maxilar dele ficou tenso. — Está quase na hora do meu discurso. Existem certas expectativas quando se é filho do rei Gaius. Fazer discursos é uma delas. Pelo menos isso colocará um ponto final nessa excursão. Tenho recebido notícias e, pelo que fui informado, lorde Aron não chegou nem perto de capturar o líder rebelde. Eu me juntarei à busca assim que voltar para Auranos.
O fato de Jonas ainda estar livre era um grande alívio. Cleo cruzou os braços, tentando se proteger do frio puxando o manto de pele de raposa para cobrir melhor o pescoço. Por um instante, ficou sem saber o que dizer. Ela não queria discutir sobre Jonas ou os rebeldes. Tópicos perigosos assim poderiam levar a terrenos traiçoeiros. Era melhor se concentrar no presente. Nos deveres iminentes de Magnus como herdeiro da coroa que o rei havia tomado.
— Seu pai é insuperável na arte do discurso.
— É mesmo.
Cleo franziu a testa ao se dar conta de algo muito importante.
— Espere. Você está protelando, não está?
— Protelando?
— Você não me trouxe nesse passeio pelo labirinto para que eu clareasse as ideias, e sim para adiar seu discurso. Oficialmente, é o seu primeiro, não é? Está nervoso?
Magnus ficou olhando para ela.
— Não seja ridícula.
Ele disse uma coisa, mas seu comportamento dizia outra. E de repente ela conseguiu enxergar com clareza — mais claro do que nunca.
— O rei Gaius adora o som da própria voz. Mas você… você é diferente. — E ela que acreditava que pai e filho eram iguais em todos os aspectos.
— Não preciso ficar ouvindo essas bobagens.
Seus passos ganharam velocidade enquanto ele continuava andando pelo labirinto. Cleo já estava completamente perdida. Ela tinha que acompanhar o ritmo dele, ou Magnus a deixaria para trás, congelando até morrer. Ela suspendeu as saias vermelhas para impedir que arrastassem no chão e ficassem úmidas com o gelo.
— Falar em público deveria ser algo natural para você, dada a sua linhagem.
Ele lançou um olhar sinistro para ela por cima do ombro.
— Poupe seu fôlego, princesa. Não preciso de suas palavras de incentivo.
A irritação tomou conta dela, espantando a perplexidade.
— Ótimo. Porque eu não me importo. Espero que faça um papelão. Espero que riam de você. É o que merece.
O olhar ferido diante daquela afirmação a pegou de surpresa.
Cleo achava difícil acreditar que aquele rapaz terrível pudesse ser inseguro com algo tão esperado da realeza. Magnus, sem esforço algum, conseguia intimidar todos que cruzavam seu caminho — sua simples presença, sua altura, sua força, sua posição, seu título, o tom áspero de sua voz… tudo isso garantia que qualquer um com menos poder se acovardasse diante dele.
Ela conseguira encontrar uma fraqueza?
Havia uma abertura na cerca-viva coberta de neve mais adiante. Eles haviam chegado ao fim do labirinto. Cleo deu um suspiro de alívio enquanto passava a mão sobre a superfície do anel. Como se refletisse seu gesto nervoso, Magnus passava os dedos sobre a cicatriz. Ela havia notado que era algo que ele fazia com frequência, embora não se desse conta.
— Isso aconteceu quando sua família visitou meu pai há dez anos. Eu me lembro. — A curiosidade era maior do que ela, por isso Cleo teve que perguntar. — Imagino que tenha sido o ataque de um estranho, e não um acidente?
O olhar que ele lançou a ela não tinha nada de agradável.
— Não foi nem o ataque de um estranho, nem um acidente. Foi uma punição executada pelo meu próprio pai para que eu me lembrasse sempre de meu crime.
Os olhos de Cleo se arregalaram. O próprio pai dele havia feito um corte tão horrível?
— Que crime cometeu quando criança para merecer tamanha punição?
As mãos de Magnus caíram ao lado do corpo, sua expressão ao mesmo tempo severa e melancólica.
— Uma vez na vida, eu queria ter alguma coisa bela, mesmo que significasse que teria de roubá-la. Obviamente, aprendi a lição.
Chocada, Cleo observou quando ele voltou para o meio da multidão reunida.
Muitos lordes e outros homens importantes esperavam para apertar sua mão em sinal de amizade. As palavras confusas de Magnus se repetiam na mente de Cleo enquanto esposas se reuniam em volta dela, desejando-lhe boas-vindas a Limeros e dando os parabéns pelo casamento com o príncipe.
Então eles foram levados de volta ao castelo. Havia uma multidão reunida na praça do palácio, aguardando o discurso de Magnus, vibrando apenas ao ver os dois membros da realeza. Uma figura coberta por um manto se afastou da multidão e começou a se mover rapidamente na direção do grupo de Cleo e Magnus. Era tão sutil que ninguém prestou atenção até que estivesse a dez passos de distância, momento em que puxou a adaga que tinha sob o manto e partiu para o ataque.
Magnus se adiantou e estendeu o braço, pegando Cleo pelo tórax e empurrando-a para trás. Ela caiu com força no chão. O homem tentou acertar Magnus com a adaga, atingindo seu braço antes que ele desviasse do golpe. Em seguida o príncipe acertou um soco no estômago do homem.
Os guardas o imobilizaram rapidamente, desarmando-o. Nic estava ao lado de Cleo, ajudando-a se levantar. Ela ficou olhando para Magnus, que agora segurava o braço ferido, com raiva no rosto ao encarar seu agressor.
— Quem é você? — Magnus bufou.
Os guardas arrancaram o capuz. Por um momento insano e assustador, Cleo teve certeza de que seria Jonas.
Mas não era. Era um rapaz não muito mais velho do que Magnus, que ela nunca tinha visto antes.
— Quem sou eu? — ele retrucou. — Sou alguém cuja vila vocês destruíram. Cujo povo vocês escravizaram para trabalhar em sua preciosa estrada. Alguém que enxerga além das mentiras de seu pai e quer ver vocês dois sangrarem até a morte.
— É mesmo? — Magnus deu um passo à frente e analisou o garoto com intensa repulsa. — Parece que não conseguiu o queria.
— Ela não queria que eu tentasse matá-lo — o rapaz tentava lutar contra os guardas que o imobilizavam. — Eu discordei.
— Ela? De quem está falando?
O aspirante a assassino ergueu a cabeça, os olhos frios e repletos de contestação.
— A vigilante que fala comigo em meus sonhos. Que me orienta. Que me dá esperanças de que nem tudo está perdido. Que me diz que o que está perdido nunca deve ser encontrado.
Magnus estreitou o olhar.
— E essa… vigilante… não queria que você tentasse me matar.
— Nós discordamos sobre isso.
— Obviamente.
Girando o anel com nervosismo, Cleo observou a reação de Magnus com atenção. O príncipe alegava não acreditar em magia e zombou do presente de casamento de lorde Gareth. Ainda assim, a menção aos vigilantes fez com que parasse para pensar.
Uma tentativa de assassinato — principalmente tão ousada e pública como aquela — deveria resultar em uma ordem imediata de execução.
Fez-se silêncio enquanto todos esperavam a decisão de Magnus.
— Levem-no para o calabouço — ele finalmente disse. — Mas não para o calabouço daqui. Levem-no para Auranos, onde será interrogado. Enviarei uma mensagem ao meu pai hoje.
— Vossa alteza, tem certeza de que é isso que quer? — um guarda perguntou.
Magnus lançou um olhar cortante na direção do homem.
— Não me questione. Apenas obedeça.
— Sim, vossa alteza.
Apreensiva, Cleo observou o rapaz ser arrastado; uma centena de dúvidas giravam em sua mente. Será que o que ele havia afirmado era real? Ou o garoto era apenas maluco? Por que Magnus queria que ele fosse até Auranos para ser interrogado? O príncipe acreditava no que ele havia dito?
— Vossa alteza — outro guarda disse, aproximando-se. — Peço sinceras desculpas por ele ter conseguido chegar tão perto.
Magnus rangeu os dentes.
— Certifique-se de que isso não aconteça novamente, ou se juntará a ele.
— Sim, vossa alteza. Seu braço…
— Não é nada. Vamos para o terraço.
— Aquele filho da mãe empurrou você — Nic sussurrou para Cleo. — Você está bem?
— Estou. — Mas as dúvidas ainda nublavam seus pensamentos, e não eram apenas sobre as alegações do rapaz. Magnus havia agido instintivamente ao ver a adaga. Ele não a havia empurrado para ser cruel. E sim… para protegê-la.
Cleo estava sem fôlego quando foram levados ao terraço negro que dava para a multidão reunida na praça lá embaixo. A neve ainda caía em flocos leves, cobrindo o chão com uma camada de branco imaculada. O céu estava cor de ardósia. Assim que ela e o príncipe apareceram, a multidão começou a vibrar a plenos pulmões. Tal recepção seria quase agradável antes, mas depois do drama que acabara de acontecer…
Era um lembrete importante de que tudo não passava de mentiras. Uma fina camada de neve que logo derreteria e revelaria a feiura que existia por baixo da beleza.
O príncipe caminhou até o parapeito, erguendo a mão para silenciar o povo. E então começou a falar — confiante, orgulhoso, controlado… pelo menos era o que parecia.
Sua máscara estava perfeitamente no lugar. Ele era o príncipe Magnus, herdeiro do trono. E ele permanecia firme, mesmo logo após uma tentativa de assassinato.
Até mesmo Cleo tinha de admitir que era impressionante. Que ele era impressionante.
— E aqui estamos — Magnus disse, em alto e bom tom, com a respiração condensando no ar congelante —, depois de muita luta e conflito. Não foi um caminho fácil, mas para conquistar grandes mudanças é preciso muita força e bravura. A estrada do meu pai, que irá terminar no Templo de Valoria, representa essa mudança: a união de três terras. Ao meu lado está outro grande símbolo de mudança deste reino. A princesa Cleiona é a garota mais corajosa que conheço; uma pessoa que enfrentou muitas dificuldades em um curto período e superou todas elas com incrível força e graça. Sinto-me honrado por agora estar ao lado dela.
Ele se virou rapidamente para ela, mas a expressão em seus olhos era dura e indecifrável. Cleo retribuiu o olhar. As palavras eram tão belas que ela quase pôde se enganar e pensar que vinham do coração.
— Estou certo de que para cada dia de felicidade que eu e a princesa compartilharmos, o reino também se beneficiará.
Ah, ele era cômico. E sabia disso. Agora ela via uma pontinha de humor em seus olhos, por ser capaz de se referir àquela união forçada como o caminho para a felicidade suprema no amor.
Uma vibração estrondosamente alta acompanhou o fim do discurso. Os ombros de Magnus relaxaram um pouco — quase não daria para notar se ela não estivesse prestando atenção. O olhar dela se voltou para o rasgo na camisa dele e o ferimento que ainda sangrava, pingando de seu braço até o chão.
Vermelho. Da cor de Limeros.
A multidão havia começado a entoar algo, mas por um instante ela não conseguiu entender.
— O que eles estão dizendo? — ela perguntou.
O maxilar de Magnus ficou tenso.
— Um beijo — disse lorde Gareth, que estava mais atrás, na sombra. Como um dos amigos mais próximos do rei, ele havia sido convidado para se juntar a eles no terraço durante o discurso. Também havia vários guardas ali, incluindo Nic. — A multidão quer que o casal real demonstre seu amor com um beijo.
Magnus virou de costas para a multidão.
— Não estou interessado em demonstrações públicas irrelevantes.
— Talvez não. Mas eles gostariam mesmo assim.
— UM BEIJO! UM BEIJO! — a multidão entoava.
— Quer dizer… — o conselheiro continuou, ironicamente. — Não seria o primeiro, seria? Que diferença faz uma concessão tão pequena para satisfazer a ávida multidão?
— Não sei… — Cleo começou a dizer, sentindo o estômago embrulhar só de pensar na ideia. Até onde estava disposta a ir para parecer agradável? — Sinceramente, me parece uma má…
Magnus pegou o braço dela com firmeza e a virou. Antes que pudesse dizer outra palavra, ele colocou a mão em sua nuca, puxou-a para mais perto e a beijou.
Todos os músculos de seu corpo se enrijeceram. Ela se sentia como um pássaro preso na armadilha de um caçador. Suas asas gritavam para que saísse voando o mais rápido possível. Mas ele a segurava firme, com a boca junto à dela, suave, mas exigindo uma resposta.
Ela agarrou a camisa dele. Era muita coisa para lidar — Cleo não tinha certeza se o estava empurrando ou puxando para mais perto. Como um mergulho em águas profundas, ela não tinha ideia de qual direção a levaria à superfície e qual a puxaria mais para o fundo, para as profundezas onde certamente iria se afogar.
E por um instante, apenas um instante, ela percebeu que parecia não importar. O calor do corpo dele próximo ao dela em um dia tão frio, o agora familiar perfume de sândalo, o ardor de sua boca junto à dela… tudo fazia sua cabeça girar e a lógica desaparecer.
Quando ele se afastou, parecia que seus lábios estavam pegando fogo, um fogo que continuava a queimar tanto quanto as chamas que agora tomavam conta de seu rosto.
Magnus se inclinou para sussurrar no ouvido dela, a respiração quente junto à sua pele já corada.
— Não se preocupe, princesa. Foi o primeiro e o último.
— Ótimo. — Cleo se soltou dele e saiu do terraço, passando por Nic com tanta pressa que tropeçou na barra do vestido. O som do povo vibrando logo se tornou um eco distante em seus ouvidos.

4 comentários:

  1. Respostas
    1. kkkkkkkkkk.. Engraçado que ele não contou nem pra Lucia sobre a cicatriz, mas contou pra Cléo.

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  2. Kkkkkkkkk
    Magnus causando grandes emoções. Ela não sentiu esse calor todo com o Jonas.
    Será que ele tem uma chance?
    Ele merece ser amado também. Até agora o povo só o despreza e tem medo ou ódio dele.
    Snif, snif, quero ele feliz

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Boa leitura, E SEM SPOILER!