13 de agosto de 2018

Capítulo 24

LYSANDRA
AURANOS

De madrugada, Jonas e um grupo de vinte voluntários entusiasmados partiram em busca da glória no casamento real, enquanto o resto dos rebeldes permaneceu no acampamento. Lysandra ficou esperando notícias, ocupando-se com caçadas e a confecção de flechas. Vários rebeldes — incluindo Nerissa — haviam sido enviados para tentar descobrir mais informações sobre a estrada. Lysandra ainda estava determinada a encontrar uma fraqueza ali. Algo de que pudesse tirar vantagem. Algo para ajudá-la a encontrar e libertar seu irmão. Algo que lhe desse uma margem de ação caso Jonas falhasse em sua jornada para acabar com a vida do rei.
Muitas horas depois, um terremoto derrubou todo mundo. Brion imediatamente se lançou para proteger Lysandra, assim como havia feito durante o furacão em Paelsia, envolvendo-a com seus braços fortes como se pudesse defendê-la de qualquer perigo. Quando o violento tremor finalmente parou, ela se afastou dele.
— Eu… eu preciso sair para caçar de novo — ela disse.
— Lys…
— Não, só… — Ela olhou em volta e viu que os outros garotos sussurravam uns para os outros e riam, apesar da agitação causada pelo estranho tremor. Os sentimentos de Brion por ela eram de conhecimento geral no acampamento, graças a Jonas. — Só me dê um pouco de espaço, tudo bem?
Ele ficou desanimado.
— É claro. Me desculpe.
Lysandra pegou o arco e se embrenhou na floresta. Por que ela tinha que se irritar justo com o único garoto do acampamento que a tratava melhor do que todos os outros juntos? Aquele que a defendeu diante do melhor amigo quando mais ninguém ficou ao seu lado?
Ela só sabia que não sentia nada além de amizade por Brion — e mesmo isso era frequentemente desafiado.
Ela não tinha tempo para pensar em amizades… nem romances. Não naquele momento. E, com certeza, não ali.
— Idiota — ela murmurou, depois de andar sem rumo pela floresta, não muito longe do acampamento. Folhas e galhos caídos estalavam sob seus pés a cada passo. Ela não tinha certeza a que ou a quem se referia, mas simplesmente dizer a palavra em voz alta parecia ajudar.
Depois do tremor, grande parte das possíveis presas havia se abrigado em esconderijos. Estava quase anoitecendo quando ela finalmente viu um cervo, ao longe. Ela ficou imóvel, prendendo a respiração. Lentamente, apontou a flecha na direção do animal.
Você vai virar uma boa refeição hoje à noite, meu amigo. Fique quieto.
O som de algo pesado atravessando a floresta assustou o cervo, e ele saiu correndo antes que Lysandra tivesse tempo de atirar. Ela praguejou baixinho. Alguém do acampamento devia tê-la seguido.
— É melhor não ser você, Brion — ela resmungou, e se virou na direção do barulho.
Uma figura familiar apareceu em meio à folhagem densa atrás das árvores onde ela estava. Ele tropeçou e caiu, depois se arrastou para recobrar o equilíbrio.
Ela franziu a testa.
— Jonas?
Atrás dele havia um guarda limeriano a cavalo, que saltou da montaria e o agarrou pelos cabelos.
— Achou que eu não fosse pegar você, rebelde?
Jonas não disse nada, mas seus joelhos cederam novamente. Seu rosto estava coberto de sangue e os olhos, vidrados.
O guarda desembainhou a espada e a apontou para a garganta de Jonas.
— Sei quem você é: Jonas Agallon, o assassino da rainha Althea. Se eu levasse sua cabeça para o rei, ganharia uma boa recompensa. Tem algo a dizer sobre isso?
— Ele não tem — Lysandra sussurrou, depois levantou a voz: — Mas eu tenho.
Quando o guarda olhou para trás ao ouvir sua voz, ela soltou a flecha, atingindo o alvo perfeitamente no olho esquerdo. Ele estava morto antes de chegar ao chão. Lysandra rapidamente se aproximou de Jonas, empurrando o corpo do guarda para o lado.
— O que aconteceu? — ela indagou, agarrando-o pela camisa. — Tem mais algum guarda atrás de você?
Sua respiração estava acelerada, mas ele não respondeu. Ao inspecioná-lo, ela viu que estava ferido. Tinha um ferimento profundo na lateral do corpo e, na parte de trás da cabeça, um machucado com muito sangue.
O coração dela ficou apertado.
— Eu falei para você não ir hoje, seu idiota. Quando vai começar a escutar o que digo?
Lysandra cambaleou com o peso dele desabando sobre ela. Olhando para trás para ver se não vinha mais nenhum guarda, ela arrastou Jonas para longe do soldado morto e o colocou perto das raízes de um enorme carvalho, tomando muito cuidado com a cabeça. Rapidamente rasgou a camisa dele para ter uma visão melhor do ferimento.
Ela fez uma careta ao ver a carne dilacerada.
— O que vou fazer com você?
Ela rasgou uma longa faixa de tecido da própria camisa, que estava mais limpa do que a dele, para pressionar contra o ferimento e tentar estancar o sangramento. Ele mesmo poderia cauterizá-lo depois.
Se sobrevivesse.
Não, você vai sobreviver, Jonas, ela pensou. É teimoso demais para morrer hoje.
Um falcão havia pousado sobre eles, no carvalho, e olhava para os dois como se estivesse curioso para ver o que estava acontecendo.
— A menos que vá ajudar — ela disse para a ave —, cuide da própria vida. — Lysandra já havia reparado nela da última vez. Era só mais uma fêmea apaixonada pelo belo líder rebelde. Ela pegou uma pedra e atirou na ave, que bateu as asas e voou.
— Seu famigerado charme parece não ter restrição de espécie, Agallon — ela resmungou.
Jonas grunhiu quando ela usou outro pedaço da camisa para limpar o sangue de seu rosto. Ela ficou com as mãos paralisadas quando ouviu aquilo. Os lábios dele se moveram. Ele estava tentando dizer alguma coisa, mas ela não conseguia distinguir o quê.
Lysandra chegou mais perto.
— O quê?
— Muito ruim… sinto muito… fracassei com você…
Ele abriu os olhos e a encarou. Os olhos dele tinham um tom de castanho que a faziam pensar em canela, sua especiaria favorita, além de manchas douradas em volta da pupila preta — tão preta como seus cílios grossos. Não era a primeira vez que ela notava aquilo.
— Você precisa levantar — ela disse, com a voz de repente rouca. — Vamos. Precisamos sair daqui.
— Você… — ele começou a dizer.
— Sim, está…
Ele a puxou para perto. Perto o bastante para encostar os lábios nos dela.
Lysandra ficou olhando para ele em choque.
— Jonas…
— Cleo… — ele sussurrou.
Ela se afastou completamente dele. A confusão desapareceu e logo foi substituída por uma nova onda de irritação. Então ela voltou a se aproximar e deu um belo tapa no rosto dele.
— Acorde, idiota. Se acha que sou a princesa, então está pior do que eu pensava.
Jonas levantou o corpo e se sentou, levando a mão ao rosto. Ele franziu a testa.
— O guarda… — ele disse.
— Eu o matei. — Lysandra podia ver em seus olhos que ele não se lembrava do que tinha acabado de acontecer. Talvez para Jonas não tivesse passado de um sonho.
— Que bom. — Ele se levantou, depois fez uma careta ao tocar o braço ferido.
— O que aconteceu? Onde estão os outros?
Ele se virou com o olhar mais frio que ela já tinha visto, fazendo seu sangue congelar antes mesmo que dissesse outra palavra.
— Mortos.
— Todos eles?
— Sim.
Ela ficou sem palavras por um instante.
— Droga, Jonas. Eu não devia ter me preocupado em salvar sua pele agora há pouco. Você não merece.
— Tem razão, não mereço. — Ele engoliu em seco, com o maxilar tenso. — Mas agora preciso voltar ao acampamento.
Não havia mais nada a dizer.
Vinte garotos rebeldes haviam se oferecido para ir ao templo com Jonas na esperança de uma vitória gloriosa contra o rei Gaius. Trinta haviam permanecido no acampamento, treinando e planejando.
Somente Jonas havia voltado.


— Nossos amigos… lutaram bravamente, mas fomos derrotados. — Jonas concluiu sombriamente. Ele e Lysandra estavam de volta ao acampamento, e ele relatara o massacre a todos. — Sinto muito. Foi um erro ir até lá, e eu assumo toda a responsabilidade.
O silêncio era afiado como o machado de um carrasco.
Ninguém disse nada, exceto por um ou dois soluços de choro bem baixos. Os rebeldes mais jovens ainda não tinham controle sobre suas emoções — não quando se tratava de sofrimento. Os mais velhos permaneceram rígidos, com a atenção fixa no chão à sua frente. O som dos grilos e do crepitar do fogo era tudo o que se podia ouvir no meio da escuridão crescente.
— Foi culpa sua — Ivan disse. — Foi sua ideia. Seu grande plano que não podia dar errado.
Brion estava diante de Jonas, do outro lado da fogueira.
— Ele não sabia que isso iria acontecer.
— Não sabia. Certo. Mas contou para aquela princesa, não contou? Ela deve ter dedurado tudo ao rei.
— Ela não faria isso — Jonas disse, apoiando a cabeça nas mãos.
— Por que não faria? O que ela tinha a perder com o sangue de rebeldes derramado no dia de seu casamento?
— O que ela tinha a perder? — Jonas vociferou. — Tudo. A vitória teria sido dela também se tivéssemos vencido hoje. Não vencemos. Ela ainda está sendo forçada a ficar com o inimigo, e seu trono de direito ainda pertence ao Rei Sanguinário.
— E você foi o único que sobreviveu. Talvez você tenha dado a dica para o rei para ser favorecido e retirado daqueles cartazes pedindo recompensa.
A expressão de Jonas tornou-se sombria.
— Eu teria preferido oferecer minha garganta ao rei a contar a ele qualquer coisa sobre nossos planos. E você sabe muito bem disso.
Ivan se aproximou de Jonas, quinze centímetros mais alto do que ele.
— Poderia refrescar minha memória sobre por que se considera nosso líder?
Jonas o encarou. Apesar dos ferimentos, olhou fixamente nos olhos do garoto.
— Poderia refrescar minha memória sobre por que se considera um rebelde? Você não tomou nenhuma iniciativa durante semanas, Ivan.
Ivan deu um soco no rosco de Jonas. Ele cambaleou para trás e desabou no chão.
— Você se acha tão bom — Ivan bufou. — Bem, esta foi a prova de que você não é nada. É um inútil, e por causa de seu plano imprudente, vinte dos nossos estão mortos. Acha que vamos continuar seguindo você depois disso?
— Na verdade, sim — Lysandra disse em voz alta. — Nós vamos.
Ivan olhou para ela furioso.
— O que você disse?
Pelo canto do olho, ela viu Jonas se esforçando para ficar de pé.
— Ele fez uma escolha errada indo até o templo hoje? Sim. Mas fez uma escolha. E, se tivesse dado certo, muitos de vocês agora estariam gritando o nome dele a plenos pulmões. Vinte rebeldes morreram hoje; vinte pessoas que estavam dispostas a morrer em nome da mínima chance de deter o rei Gaius e libertar nosso povo da escravidão e da opressão. Valeu a pena? Antes eu achava que não, mas agora estou começando a mudar de ideia. Talvez se mais de nós fôssemos corajosos e loucos o bastante, teríamos ido também. Talvez se estivéssemos todos lá, poderíamos ter vencido.
Ivan olhou para ela com desprezo.
— E o que você sabe? Não passa de uma menina. Sua opinião não tem a mínima importância. Deveria estar cozinhando nossas refeições, e não lutando ao nosso lado.
Dessa vez, foi ela que acertou Ivan com um soco. Não o fez cair com a bunda no chão, mas certamente chamou sua atenção. Ele fez um movimento para revidar — e ela estava pronta para isso —, mas Jonas estava lá, tirando-a do caminho rudemente. Um segundo depois, Brion estava a seu lado.
— Para trás, Ivan — Jonas rugiu, sua expressão era de sofrimento. — A culpa não é dela, é minha. Eu bolei o plano. Eu dei a ordem. E vinte garotos me seguiram até a morte. Você quer bater em alguém? Bata em mim. Isso vale para todos vocês.
— Hoje foi um fracasso — Lysandra falou, quebrando o silêncio. — Sinto muito por nossos amigos terem precisado dar a vida. Mas não vai acontecer de novo. Não vamos todos sobreviver para ver o fim dessa guerra. Concordaram com isso ao entrar para a resistência. A cada dia estamos mais fortes, mais habilidosos e mais espertos. E agiremos de maneiras cada vez mais ousadas em relação ao rei, ações que da próxima vez o atingirão e deterão sua Estrada de Sangue para sempre. Iremos atacá-lo até conseguir matá-lo. É o único motivo pelo qual respiramos agora.
— Não quero ter nada a ver com isso — Ivan resmungou, limpando o sangue que escorria do canto da boca.
— Então não queremos ter nada a ver com você — Brion rebateu. — Vá embora. Volte para casa, para sua mãe. Se não quer estar aqui, não queremos você aqui.
— Jonas levará todos vocês à morte — Ivan bufou.
Brion o encarou, inflexível.
— Que seja.
Ivan finalmente virou as costas e, lançando mais um olhar duro para Lysandra, fez exatamente o que sugeriram e deixou o acampamento.
— Mais alguém quer ir embora? — Brion perguntou, levantando a voz. — Ou seguiremos firme até o fim, haja o que houver?
Lentamente, um de cada vez, os rebeldes restantes se manifestaram. Tarus falou primeiro, com a voz hesitante, porém firme:
— Ainda estou dentro!
— Estamos com vocês!
— Até o fim!
Apesar da lealdade reafirmada, aquela reunião jamais poderia ser considerada agradável. Havia sofrimento. Havia tristeza e lágrimas. Mas pelo menos não era o fim, Lysandra pensou. Era um novo começo, um comprometimento com a causa, forjado a partir do sangue e da perda.
Jonas se virou para Lysandra, confuso.
— Nunca imaginei que você me defenderia.
— Não estava defendendo você. — Ela jogou um graveto na fogueira que crepitava, depois balançou a mão ferida e esfregou as articulações dos dedos. — Já faz um tempo que estava querendo dar um soco na cara feia do Ivan.
— Faz mais sentido, na verdade.
Ela respirou fundo e se virou para ele.
— Mas escute uma coisa, Jonas. Você precisa levar meus planos a sério a partir de agora. Precisamos atacar a Estrada de Sangue. Precisamos interromper as obras. Meu destino depende dessa estrada. Meu destino e o de nosso povo.
Ele ficou em silêncio, mas depois assentiu.
— Você está certa. Vou escutar o que diz.
— Não cometa outro erro como o de hoje, Agallon.
Ele rangeu os dentes.
— Vou tentar.
— Tente com bastante afinco, ou teremos problemas, eu e você.
— Entendido. — Ele sustentou o olhar dela por mais um instante, como se procurasse algo mais profundo em seus olhos. Lysandra desviou o olhar primeiro.
Jonas então tocou o ombro de Brion sem dizer nada. A situação estava estranha entre eles havia dias, desde a discussão. Brion não hesitou nem um instante e agarrou Jonas em um abraço de urso. Os olhos escuros e repletos de dor de Jonas se iluminaram de alívio por um breve momento, e em seguida ele se afastou para cuidar dos ferimentos.
— Vocês dois estão bem? — Lysandra perguntou.
Brion deu de ombros.
— Talvez.
— Você é como um irmão para ele.
— O sentimento é mútuo.
— Fiquei feliz por ter brigado com ele aquele dia. — Ela cruzou os braços e olhou diretamente para Brion. — Se tudo estivesse bem entre vocês, você estaria ao lado dele no templo. E poderia ter morrido.
— Boa observação. — Havia algo duro na expressão dele que ela não conseguia decifrar. Não era sofrimento, era… frustração. — Acho que agora estou entendendo melhor as coisas.
— Que coisas?
— A maneira como você olha para mim — Brion deu de ombros. — Não chega nem aos pés de como olha para Jonas. Você está apaixonada por ele.
Ela ficou boquiaberta.
— Vinte dos nossos morreram hoje, e essa é sua observação brilhante da noite? Precisa tirar a cabeça do próprio traseiro e se concentrar no que é importante.
Lysandra se afastou dele com raiva, sem saber como lidar com uma acusação tão estúpida. Ela se deu conta, no entanto, de que não tentara negar.

2 comentários:

  1. Ele deve ser lindo, tá na mira da Cleó, da vigilante, da filha do Basillius, da costureira e da Lys.
    Nossaaaaa... Que coisa não :)

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Boa leitura, E SEM SPOILER!