13 de agosto de 2018

Capítulo 23


CLEO
AURANOS

— É realmente notável — o rei disse, alto o bastante para todos ouvirem. Ele estava diante dos convidados no banquete de casamento que havia insistido em oferecer no palácio, conforme já estava planejado, apesar da carnificina que haviam deixado para trás no templo. — Esta jovem ao meu lado teve coragem suficiente para me dizer que queria continuar com a cerimônia e se casar com meu filho, não só diante de um ataque violento e terrível de insurgentes, como depois de o próprio mundo ter tremido sob seus pés. Hoje devemos velar aqueles que perdemos, mas também celebrar juntos, vitoriosos.
Cleo usava um vestido sem sangue. Seu cabelo tinha sido arrumado e o rosto, lavado. Estava sentada de forma rígida entre Magnus e o rei sobre a plataforma, girando o anel de ametista até que certamente deixasse uma marca em seu dedo.
Quando tirou os olhos do prato dourado com uma refeição que não conseguia engolir, notou que os convidados pareciam tão surpresos com os acontecimentos do dia quanto ela. Cinco convidados do casamento haviam sido mortos pelo desabamento no templo antes que pudessem escapar.
Aquelas pessoas, assim como ela, não queriam estar ali.
— Eu recebo esta bela princesa em minha família. E estou ansioso para apresentá-la à princesa Lucia, quando minha filha finalmente estiver bem o bastante para deixar seus aposentos. Apesar das dificuldades, o dia de hoje foi repleto de milagres e bênçãos.
Milagres e bênçãos. Era do que ela precisava para não pular da cadeira e correr gritando pelo salão.
— Vamos brindar o feliz casal. — O rei levantou sua taça, assim como todos sentados às longas mesas de madeira com montanhas de comida e bebida à frente. — A Magnus e Cleo. Que seus dias juntos sejam tão felizes como os que vivi com minha amada, a finada Althea.
— A Magnus e Cleo — os convidados ecoaram imediatamente.
Os dedos de Cleo estavam sem cor segurando o cálice, e quando ela o levou aos lábios descobriu que sua mão estava tremendo. O sabor do vinho doce lhe oferecia um pequeno consolo. Era um sabor tão familiar agora, esse vinho paelsiano. Ele a provocava com a possibilidade de fuga. Talvez naquela noite ela beberia vinho suficiente para se afogar.
Nic a fitou do fundo do salão, onde guardava a entrada. Nenhum convidado tinha permissão de sair até que o rei decidisse que o banquete havia terminado.
Um soluço de choro subiu por sua garganta, mas ela o engoliu com outro gole de vinho. Uma criada estava a postos para encher sua taça quando ficasse vazia, então ela tomou mais uma. E mais uma. Em vez de o mundo ficar melhor, no entanto, ele só parecia mais escuro, com sombras rastejando pelo chão, agarrando seus tornozelos e suas pernas.
Quando o banquete terminou, Cleo não conseguia parar de pensar em Jonas. O que ele devia estar pensando dela agora? Por causa de uma ideia dela, tantos rebeldes haviam sido mortos…
Magnus era uma presença constante, tão perto que ela podia sentir o calor emanando de seu corpo. Ele tinha o cheiro do couro de seu sobretudo e um perfume de sândalo quente e profundo. Não havia trocado uma única palavra com ela desde que saíram do templo. Viajaram na mesma carruagem, mas ele ficou olhando para fora, para a paisagem do caminho de volta. Estava taciturno, frio. Como sempre.
— Ridículo — ela resmungou. — Tudo isso.
— Não poderia concordar mais — Magnus respondeu.
O rosto dela ficou quente. Ela não queria ter falado em voz alta. Havia tomado vinho demais, virando uma taça depois da outra conforme lhe eram servidas. Magnus não bebeu nada além de sidra com especiarias. Ela se deu conta de que estava fazendo uma excelente imitação de Aron, que por sinal estava sentado na mesa da frente e de tempos em tempos lançava olhares embriagados e miseráveis em sua direção.
— Preciso de ar — Cleo sussurrou depois de um tempo. — Posso me ausentar por um instante?
Será que Magnus esperava que sua esposa sempre pedisse permissão para tudo? Ele seria cruel com ela e controlador desde sua primeira noite juntos?
Primeira noite juntos.
O coração de Cleo começou a acelerar só de pensar. Ela queria permanecer em público pelo maior tempo possível. Não conseguiria lidar com o que viria depois. Não com ele. Nunca com ele.
— Fique à vontade — ele disse, sem se dar o trabalho de olhar diretamente para ela. — Vá tomar seu ar.
Ela deixou a plataforma sem demora. Parecia cambalear ao andar, e a quantidade de vinho que havia consumido durante o banquete tornou-se mais aparente. Aparente até demais. Ainda assim, nem estava perto de ser suficiente.
Ela caminhou com a maior calma possível na direção da passagem arqueada que levava ao corredor… para fugir.
Ou o mais próximo que conseguiria de uma fuga, já que havia um número enorme de guardas vigiando cada um de seus movimentos.
Cleo se apoiou na parede para se equilibrar. Assim que encontrou a saída para um terraço, agarrou as grades e tentou se acalmar.
— Foi uma cerimônia e tanto — uma voz a saudou das sombras, e ela ficou surpresa ao ver que não estava sozinha. O príncipe Ashur também estava tomando ar no terraço.
Ela tentou se recompor.
— Certamente foi.
O príncipe usava um sobretudo azul-escuro com detalhes em dourado. Caía perfeitamente em seu corpo impressionante. Os cabelos negros na altura dos ombros estavam amarrados para trás, mas um longo cacho caía sobre o olho esquerdo.
— Não estaria sendo sincero se dissesse que já fui a um casamento como este antes. Se eu fosse um homem supersticioso, teria receios de voltar ao palácio hoje. Foi muito corajoso de sua parte querer continuar apesar dos acontecimentos desagradáveis.
Cleo soltou uma gargalhada curta, que soou mais como um soluço histérico.
— É, tive muita coragem mesmo.
— Deve estar muito apaixonada pelo príncipe Magnus.
Ela apertou os lábios para evitar que a verdade escapasse. Não conhecia aquele homem. Sabia apenas que o pai dele conseguira seu enorme império conquistando outras terras, massacrando cada uma delas com facilidade. O pai de Cleo certa vez falara sobre o imperador Cortas e como seu império se comparava a Mítica… Era como uma melancia ao lado de uma uva. Na época, ela achou a comparação divertida.
Por que uma melancia se preocuparia com um casamento em uma uva? Para ela, parecia um desperdício do tempo do príncipe.
— Por que está aqui, príncipe Ashur? — ela perguntou, depois se penitenciou por ter sido tão brusca. O vinho tinha conseguido ao mesmo tempo nublar seu bom senso e soltar sua língua.
Felizmente, ele não parecia ofendido pela pergunta. Em vez disso, o exótico príncipe sorriu — um sorriso devastadoramente charmoso que provava por que quase todas as mulheres que cruzavam seu caminho desmaiavam ao vê-lo.
— Tenho uma coisa para você, princesa — ele disse. — Um presente de casamento, só para você. É claro, também dei um presente maior de meu reino para você e o príncipe Magnus, na forma de uma quinta na capital kraeshiana, mas isto… é um pequeno símbolo de amizade. Na minha terra, é algo que se dá a uma noiva na noite de núpcias.
Ele tirou um pequeno pacote do casaco e entregou a ela.
— Guarde isto. Abra quando estiver sozinha. Não agora.
Ela o encarou, confusa. Mas assentiu com a cabeça e guardou o pequeno objeto nas dobras do vestido.
— Muito obrigada, príncipe Ashur.
— Não tem de quê. — Ele se apoiou na grade do terraço, olhando para a extensa paisagem além das muralhas da cidade. À luz da lua, seus olhos pareciam prateados, mas ela não tinha certeza da cor que realmente tinham. — Fale da magia por aqui, princesa.
A pergunta a pegou de surpresa.
— Magia?
— Mítica tem muita história para tão poucos reinos. Muita mitologia, como os vigilantes… a Tétrade. Realmente fascinante.
— Não passam de histórias bobas contadas para as crianças. — Ela juntou as mãos para cobrir o anel. Havia algo na voz do príncipe… algo que lhe dizia que ele não estava fazendo aquelas perguntas por mera curiosidade.
— Não acredito que pense assim de verdade. — Ele olhou para ela de soslaio. — Não, você me parece o tipo de garota que, apesar da juventude, tem crenças muito específicas.
— Isso só prova como sabe pouco a meu respeito. Pode perguntar a qualquer um. Não tenho interesse em história ou mitologia. Não ligo muito para nada disso, principalmente coisas fantásticas como magia.
O príncipe Ashur olhou para ela fixamente.
— A Tétrade existe?
O coração dela começou a bater mais rápido.
— Por que se importa se existe ou não?
— Essa pergunta só prova como sabe pouco a meu respeito — ele disse, ecoando as palavras dela. — Tudo bem, princesa. Não precisamos discutir isso agora. Mas talvez algum dia, em breve, queira falar mais sobre isso comigo. Pretendo ficar um tempo aqui e explorar. Procuro algumas respostas e não pretendo ir embora sem encontrá-las.
— Desejo-lhe muita sorte em sua busca por respostas — ela disse calmamente.
— Boa noite, princesa. E minhas sinceras congratulações pelo casamento. — Ele a cumprimentou abaixando a cabeça e saiu do terraço.
Cleo esperou até ter certeza de que ele havia saído antes de colocar as mãos sobre as grades do terraço e se inclinar, jogando o peso sobre os pulsos. O príncipe kraeshiano estava ali não só para prestigiar o casamento, mas também para descobrir coisas sobre a Tétrade.
O que só podia significar uma coisa: ele a queria para si.
Mas não poderia tê-la. Ninguém poderia. Se a Tétrade realmente existisse, pertencia a Cleo. Ela tinha o anel que lhe permitiria usá-la — e usaria para recuperar seu reino.
Ela esfregou o anel e depois se obrigou a voltar ao banquete. O rei a olhou com desgosto quando ela se aproximou da plataforma. Ele tinha um curativo na testa, e um pouco do sangue do ferimento empapava a gaze.
— É hora de você subir e se preparar para a noite de núpcias.
A boca dela ficou seca.
— Mas, a festa…
— A festa acabou para você. — Um sorriso odioso tomou conta do rosto dele. O rei levantou a voz para que todos pudessem ouvir. — Gostaria que todos desejassem boa-noite ao noivo e à noiva. Não queremos impedi-los de estar onde sabemos que gostariam de estar.
Alguns riram no meio da multidão, muitos dos quais a essa altura já tinham tomado vinho paelsiano suficiente para esquecer os acontecimentos daquele dia.
— Vá com Cronus — o rei disse a Cleo, agarrando seu braço e puxando-a para mais perto para ouvi-lo sussurrar: — Você será preparada como se fosse uma noiva pura. Ninguém nunca vai saber que sua castidade foi perdida há tempos. Considere-se muito sortuda por eu ainda achar que tem algum valor, apesar dessa enorme falha em seu caráter.
Magnus nem se preocupou em olhar para ela.
Cronus deu um passo à frente.
— Siga-me, princesa.
Não havia espaço para discussão no tom áspero do guarda.
Cleo olhou para os convidados reunidos, que lhe ofereceram sorrisos tensos enquanto ela acompanhava Cronus. A atenção de Nic também estava sobre ela, corpo rígido, um pedido de desculpas em seu olhar torturado por não ter sido capaz de salvá-la do que estava por vir.
Os aposentos para onde Cronus a conduziu haviam sido preparados especialmente para os noivos. Aquele quarto antes era reservado a hóspedes muito importantes de seu pai. Uma imensa cama com quatro colunas estava encostada na parede. Fogo ardia na enorme lareira, e o resto do quarto estava iluminado por centenas de velas tremeluzentes. Pétalas de rosa de todas as cores haviam sido habilmente espalhadas pelo chão, conduzindo até a cama.
As criadas estavam lá e trabalhavam fervorosamente para soltar seus cabelos trançados, vesti-la com uma camisola, dessa vez transparente e esvoaçante, cujo tecido fino lhe deixava pouco recato em que se apegar. Elas esfregaram seus pulsos e seu pescoço com óleos perfumados que tinham o mesmo aroma exageradamente doce das pétalas de rosa.
— Você tem tanta sorte, princesa — Helena disse. — Eu daria a vida da minha irmã mais nova para passar nem que fosse apenas uma noite com o príncipe Magnus. E agora você poderá passar todas as noites com ele.
— E eu daria a vida da minha irmã mais velha — Dora disse, lançando um olhar afiado na direção de Helena.
— Só espero que os rumores não sejam verdadeiros. — Helena olhou para Cleo e deu um sorriso desagradável. — Para o seu bem.
Cleo franziu a testa.
— Que rumores?
— Helena — Dora disse entredentes. — Cuidado com o que vai dizer.
Helena riu com leveza.
— Não acha que a princesa tem o direito de saber que, pelo que dizem, seu novo marido nutre sentimentos proibidos pela princesa Lucia, e ela por ele? Um amor desses entre irmãos… seria um escândalo e tanto se muitos soubessem.
— Perdoe minha irmã — Dora disse, com o rosto corando. — Ela andou bebendo hoje em comemoração ao seu casamento. Não sabe o que está dizendo.
Cleo estreitou os olhos.
— Vou me lembrar da sua tentativa de impedi-la de espalhar mentiras tão desagradáveis. — Cleo nunca admitiria que a informação era muito interessante para ela, fosse verdadeira ou não.
Sem dizer mais nenhuma palavra, as meninas se afastaram dela e saíram do quarto sem deixar rastros. Cronus fechou a porta quando elas passaram. Cleo correu até lá, tentou virar a maçaneta e descobriu que havia sido trancada.
Ela estava aprisionada.
Antes, quando podia andar livremente pelo castelo, ela quase podia se enganar e acreditar que ainda tinha algum poder. Era uma tremenda mentira. Ela não tinha poder algum ali.
Magnus a dominaria. Ele a maltrataria assim como seu pai havia feito.
Enquanto as criadas a estavam preparando para a noite de núpcias, o espelho refletiu o leve hematoma em seu rosto, onde o rei a havia acertado, e outro na garganta, onde quase a estrangulara.
Mas Cleo havia escolhido isso. Ela podia ter fugido com Jonas, mas havia optado por ficar ali. Tinha de haver um motivo para isso… um objetivo maior do que fugir com o rebelde.
Ela correu até o vestido que usara no banquete. Seu anel de ametista brilhava à luz das velas quando ela pegou o presente do príncipe Ashur. Desembrulhou-o com cuidado e viu uma borda inesperada de ouro.
Era uma adaga dourada. Linda, com o cabo artisticamente esculpido e a lâmina encurvada. Ela se lembrou das palavras do príncipe: Na minha terra, é algo que se dá a uma noiva na noite de núpcias. Com um calafrio, reconheceu o propósito: a adaga poderia ser usada por uma noiva infeliz para tirar a própria vida, se sentisse que não havia outra escolha.
Ou… a vida do novo marido.
O som da porta sendo destrancada e se abrindo a fez se apressar para esconder a arma atrás das costas. Um instante depois, Magnus entrou. Seus olhos escuros percorreram o grande quarto, parando nas velas, nas pétalas de rosa e então, finalmente, sobre ela.
Mais uma vez ela se arrependeu de ter tomado tanto vinho. Precisava desesperadamente que seus pensamentos estivessem aguçados, e não turvos.
— Parece que finalmente estamos a sós — ele disse.
Cleo tinha certeza de que ele podia ouvir como seu coração estava batendo alto. Magnus se abaixou e pegou uma pétala de rosa vermelha, apertando-a entre os dedos.
— Eles realmente acharam que tudo isso era necessário?
Ela umedeceu os lábios secos com a ponta da língua.
— Você não acha… romântico?
Ele soltou a pétala, que desceu flutuando lentamente até o chão, onde aterrissou como um respingo de sangue.
— Como se eu me importasse com essas baboseiras.
— Muitos homens se preocupariam, na noite de núpcias.
— Com rosas e velas? Não, princesa. A maioria dos homens não dá a mínima para essas coisas. Os homens só estão interessados em uma coisa na noite de núpcias, e acho que você já sabe muito bem o que é.
O coração dela acelerou ainda mais.
Qualquer que fosse a expressão aflita em seu rosto, provocou uma leve risada na garganta de Magnus.
— Esse olhar… tanto desprezo. Você me acha tão feio assim?
A pergunta pegou Cleo de surpresa. Feio? Apesar da cicatriz, ele estava longe de ser feio. Pelo menos fisicamente.
— Muito pior — ela disse com sinceridade.
Ele passou os dedos sobre a cicatriz enquanto a fitava por um instante. Ela agarrou a adaga. Se ele chegasse mais perto, ela a usaria.
— Acredite, princesa, não tenho ilusões a respeito de nada disso. Sei que me odeia e que isso nunca vai mudar.
— E deveria? — As palavras dela saíram ásperas. — Na verdade, não consigo pensar em nenhum motivo pelo qual eu deveria sentir qualquer coisa por você.
— Não, você tem o direito de não sentir nada por mim, como acontece em muitos casamentos arranjados. Mas ódio é um sentimento. O problema com o ódio, no entanto, é que deixa você em desvantagem. Ele obscurece a mente do mesmo jeito que cinco cálices de vinho.
Magnus caminhou na direção da cama, com o olhar fixo nos grossos pilares de mogno. Ele passou o dedo pelos entalhes de cada um deles. Estava agora mais perto dela. Perto demais. Ela não se afastou. Não queria dar a ele a satisfação de ver seu medo, principalmente agora que não havia ninguém por perto para intervir.
— Isso me faz lembrar do meu avô. — O tom de voz de Magnus ficou melancólico. — Ele tinha um livro sobre criaturas marinhas e me contava histórias sobre elas quando eu era criança. Ele lia escondido do meu pai, depois que minha ama me colocava na cama. Meu pai nunca ligou muito para histórias divertidas. Para qualquer divertimento, na verdade. Se não fosse possível aprender alguma coisa concreta em um livro, ele era banido do palácio. Ou queimado. Mas quando meu avô era rei, era diferente.
Cleo não tinha notado os entalhes na cama até então. Peixes e conchas e donzelas do mar com caudas no lugar das pernas, tudo entalhado intrincadamente na madeira escura. Era lindo, e havia sido feito por um artista renomado de Pico do Falcão, a quem seu pai havia encomendado muitas outras lindas peças do castelo.
— Já ouvi falar um pouco do rei Davidus — ela disse, quando Magnus ficou em silêncio. — Ele era diferente do seu pai.
Magnus riu de leve.
— Realmente era. Às vezes fico pensando se minha avó não tinha um demônio como amante, que ajudou a criar meu pai. Meu avô era firme em seu reinado, é claro. Ele não era ingênuo. Mas era gentil, e seu povo o adorava. Não precisava governar o reino com punho de ferro e ameaças de sangue. — Os olhares dos dois se encontraram, e algo passou pelos olhos dele. Parecia sofrimento. — Ele morreu quando eu tinha seis anos. Bebeu algo que não lhe fez bem.
— Alguém o envenenou?
Ainda havia uma dor estranha e inesperada nos olhos dele, mas sua boca formava uma linha dura.
— Não foi “alguém”. Eu o vi colocando o veneno no cálice, esvaziando o conteúdo de um anel oco. Vi quando entregou ao meu avô. Vi meu avô beber.
Cleo ficou em silêncio, ouvindo.
— E quando meu pai percebeu que eu tinha visto tudo, sorriu como se eu devesse aprovar. Eu não entendi na época, mas agora entendo. Meu pai fará o que for preciso para se livrar de alguém que esteja em seu caminho. Nada mudou. Nada nunca mudará. Entenda isso, princesa, e sua vida será muito mais fácil.
O que era aquilo? Um alerta? Magnus estava tentando ajudá-la?
— Você não acha que eu seja uma ameaça, não é? — ela perguntou com cuidado.
Ele se aproximou mais dela — muito mais. Ela segurou a faca atrás do corpo com tanta força que o cabo afundou dolorosamente na palma de sua mão.
— Não importa o que eu acho — Magnus respondeu. — Não existe magia por trás de um pensamento, a menos que seja de uma bruxa.
— Então você faz tudo o que ele manda, quando ele manda.
— Isso mesmo. E continuarei fazendo.
— Ele pretende me matar, não é? — Só de pensar, mais medo saía de seu esconderijo. Mas junto a ele havia uma raiva efervescente.
Magnus franziu um pouco a testa.
— Está paranoica? Não é o comportamento típico de uma recém-casada.
Cleo olhou feio para ele.
— Não me subestime. Sei o que estão planejando.
— Sabe? — Ele inclinou a cabeça. — Acho totalmente impossível de acreditar. Afinal, quem poderia espionar para você se foi. Você foi esperta em posicionar Mira de um modo que poderia ter lhe rendido informações valiosas.
A dor apertou seu peito diante da menção à sua amiga morta. Ela não havia sugerido que Mira fosse criada de Lucia para poder espionar, e sim porque achou que poderia ajudá-la a sobreviver.
— E agora ela está morta por sua causa! — Foi preciso se controlar muito para não tirar a faca de trás das costas e enfiar no peito dele.
A expressão de Magnus se fechou diante da acusação.
— Não, eu a defendi. Ou pelo menos tentei. Meu pai age antes de pensar, principalmente quando se trata de criados enxeridos. Eu teria poupado a vida dela.
— Você é um mentiroso!
— Não estou mentindo. Não a esse respeito. Sua amiga Mira estava caminhando sobre o fio da navalha só de estar no mesmo cômodo que um Damora, e pagou um preço alto por isso. Assim como seu guarda em Paelsia.
Lágrimas escorreram espontaneamente dos olhos de Cleo quando ele mencionou Theon.
— Nunca mais fale dele.
— Nunca pedirei seu perdão pelo que fiz. — Magnus desviou os olhos. — Mas sei que agi movido pelo pânico e pela covardia naquele dia. Por isso, e só por isso, me envergonho de meus atos.
Uma lágrima quente desceu pelo rosto dela.
— Minha família está morta. Meu reino foi roubado de mim. Meus amigos estão morrendo pelas mãos de sua família.
— E você ainda está viva apenas por nossa misericórdia.
— Misericordioso é um adjetivo que eu jamais usaria para descrever qualquer um de vocês. E não acredito em uma palavra do que disse sobre seu avô. Se ele tinha o seu sangue, então era tirano e violento também. Limerianos são tão frios quanto o reino que governam. Não é de se estranhar que seu coração seja feito de gelo.
Isso rendeu o esboço de um sorriso desagradável.
— Antes você dizia que eu não tinha coração. Esse é definitivamente um avanço, princesa. — Ele a examinou. — Agora, chega de história. O que vamos fazer a respeito do problema que você me apresenta nesta noite fatídica?
— O quê…? — Cleo não conseguiu dizer mais do que isso antes que Magnus agarrasse suas mãos e a virasse com brutalidade. Ela soltou um grito quando ele arrancou a adaga de suas mãos e depois a empurrou, fazendo-a cambalear para trás e cair sobre a cama. Ela encarou Magnus horrorizada enquanto ele inspecionava a lâmina dourada.
O príncipe lançou um olhar gelado na direção dela.
— Pretendia usar esta pequena adaga contra mim, princesa? Eu, que fui extremamente cordial com você esta noite.
Ela não conseguia tirar os olhos da arma. Vislumbres de Magnus usando-a contra ela como punição a cegavam para qualquer outra coisa.
Ele ficou andando de um lado para o outro, como um predador que encurralara sua presa.
— Quem lhe deu isso?
Ela mordeu a língua para não dizer uma palavra.
Magnus olhou para a lâmina novamente.
— Esta é uma adaga nupcial ornamentada de Kraeshia. Que presente generoso do príncipe Ashur. Espero que tenha agradecido por isso. — Quando ela não respondeu, ele continuou. — Sem palavras, princesa? Justo você que sempre tem algo cortante a dizer. Talvez agora que tirei sua arma afiada, não haja mais nenhum corte hoje à noite.
Ele guardou a adaga no casaco e se aproximou mais um passo dela.
Cleo desceu da cama e tentou colocar um pouco mais de distância entre os dois, conseguindo apenas se afastar para um canto sem saída.
— Fique longe de mim!
Ele a observou, parecendo se divertir.
— O que é isso? Um coelho assustado tentando se esconder do lobo? Sinto muito se acho difícil de engolir essa sua fachada de inocência.
— Você não vai me tocar esta noite. — Ela tentou parecer forte. — Nem nunca.
Em um instante Magnus estava na frente dela, agarrando seus braços para empurrá-la contra a parede dura de pedra. Ele abaixou o rosto na altura do dela, até ficarem olhos nos olhos. Ele pressionou o corpo contra o dela, prendendo-a no lugar, sem a possibilidade de escapar.
— Ah, veja só. Estou tocando você. — O olhar dele percorreu o rosto dela, parando por um instante sobre o hematoma em seu rosto. Ele franziu a testa quando seus olhos, novamente, encontraram os dela. — Nem pense em dizer o que eu posso e não posso fazer, princesa. Qualquer poder que você imagina ter aqui é só o que eu permito que tenha. Por favor, lembre-se disso.
— Me solte.
— Ainda não.
Ele não a estava machucando, mas Cleo não podia se mexer e mal conseguia recobrar o fôlego.
Magnus falou bem devagar e muito claramente.
— Está vendo? Você está à minha mercê. — Ele se aproximou ainda mais para poder sussurrar. — O que eu quiser fazer com você, seja infligir dor ou prazer, eu farei quando quiser e da maneira que quiser. Tenha consciência disso.
De repente, Cleo não conseguia mais respirar.
Ele a apertou com mais força, as palavras quentes junto ao seu ouvido.
— Meu pai quis essa união, não eu. Mas é o que devo fazer para manter minha posição como seu herdeiro. Um dia, tudo o que meu pai tem será meu: seu reino, seu exército, seu poder. Não arriscarei isso por nada nem ninguém. Mas vamos deixar uma coisa bem clara entre nós: preferiria compartilhar meu corpo com uma fera das Terras Selvagens do que com você. Creio que as garras seriam muito menos afiadas.
Magnus a soltou e deu um passo para trás. Ela recobrou o fôlego rapidamente enquanto o encarava, em choque.
— Eu podia mandar executar você por isto. — Ele tocou a adaga sob o casaco. — Sabe disso, não sabe?
Cleo simplesmente confirmou com a cabeça, ainda sustentando seu olhar. Desviar os olhos agora só mostraria suas fraquezas.
— Se dá valor à sua vida e à de seu único amigo, Nic, vai se comportar como uma esposa devota e apaixonada em nossa viagem por este reino esquecido pela deusa, que começa amanhã. Vai se portar muito bem diante das massas sem cérebro que optaram por acreditar nas mentiras de meu pai sobre nós. Está me entendendo?
Ela assentiu.
— Sim.
Magnus se virou para sair. Antes de fechar e trancar a porta, fez uma pausa longa o bastante para dizer uma última coisa:
— E, se alguém perguntar, esta noite superou todas as suas fantasias mais loucas a meu respeito.

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