13 de agosto de 2018

Capítulo 22

LUCIA
AURANOS

— Minha magia é má?
Foi a primeira coisa que Lucia perguntou quando o pai foi visitá-la antes de sair para o casamento. Ela precisava saber a verdade, e seu pai era conhecido pela sinceridade. Magnus mentiria facilmente para protegê-la. Talvez até já tivesse mentido. E Ioannes… Ela realmente acreditava em alguma coisa que ele dissera? Tinha sido real? Agora que estava acordada, começara a duvidar do que tinha visto. Do que tinha sentido. A ideia de que ele poderia não passar de um sonho representava um enorme peso em seu peito.
— Não, não é má — o rei respondeu, ajoelhando-se ao lado da cama e apertando suas mãos. Ele sorria mais do que ela já tinha visto em anos. — É incrível. É maravilhosa. Você é uma feiticeira, Lucia. Uma bela e poderosa feiticeira. Você foi agraciada pela deusa com um grande dom.
As palavras dele eram tão sinceras que fizeram lágrimas surgirem em seus olhos.
— Não, é uma maldição. Minha mãe acreditava nisso.
— Ela estava errada. Sua mãe estava errada a respeito de muitas coisas. De fato, seus elementia serão um desafio para você, mas você os dominará com facilidade. Tenho uma nova tutora a postos. Estávamos esperando você acordar. Ela virá visitá-la mais tarde para começar as aulas. — Ele se levantou para poder se aproximar e beijar a testa dela. — Saiba de uma coisa: tenho muita sorte de poder chamá-la de filha. Eu não me sentiria assim se tivesse alguma dúvida a seu respeito, Lucia. E não tenho nenhuma.
Lágrimas arderam nos olhos dela diante das belas palavras do pai.
— Controlar esse poder é o seu destino. Ninguém pode evitar o destino. Nem deve tentar, porque isso só traz dor. Aceitá-lo é a única resposta certa. A única que lhe trará paz.
Havia momentos em que sentia dúvidas em relação ao pai, especialmente por sua tendência à crueldade. Ao longo dos anos, Lucia tinha visto como ele tratava os cidadãos de Limeros, os criados, e até o próprio Magnus. Conhecia bem sua reputação.
Mas em suas lembranças, ele nunca tinha sido cruel com ela. Apenas gentil. Apenas motivador.
— Obrigada, pai. — Ela se sentou, ignorando a tontura que acompanhou o movimento brusco, e o abraçou. Ele era a força de que precisava naquele dia.
— Não tem de quê, minha filha. — Ele acariciou o rosto dela. — Agora preciso ir para o templo. Gostaria que você pudesse estar lá hoje, mas é melhor descansar.
O templo. O casamento.
— Pai… Magnus não quer se casar com a princesa.
— Mas vai. Apesar dos protestos iniciais, Magnus sempre acaba fazendo exatamente o que eu mando. — Ele analisou o rosto dela. — Em parte, fiz isso por você, sabia?
Ela franziu a testa.
— Por mim?
— Sei o que Magnus sente por você.
O constrangimento cresceu dentro dela, e seu rosto ficou quente.
— Não sei o que dizer.
— Não precisa dizer nada. Não é sua culpa. É culpa de Magnus. É uma fraqueza vergonhosa da parte dele, que não consegue controlar. E não posso permitir que continue.
— E acha que obrigá-lo a se casar com a princesa Cleiona mudará seus sentimentos?
— Pelo menos será uma distração. E eles partirão para a excursão de casamento assim que o dia amanhecer, o que lhe dará tempo para se concentrar totalmente em sua magia sem se preocupar com o amor não correspondido de seu irmão. — Ele levantou uma sobrancelha. — Você não compartilha os sentimentos de Magnus, não é? Embora eu não aprove o desejo que ele tem por você, caso sentisse o mesmo… tudo seria diferente.
O rosto dela esquentou ainda mais.
— Não, não compartilho. E nunca vou compartilhar. A maneira como ele olha para mim… Queria saber o que dizer a ele, para fazê-lo esquecer esses pensamentos indevidos.
O rei virou levemente a cabeça.
— Sabe o que penso de quem escuta a conversa alheia, meu filho.
Lucia ficou confusa com as palavras do pai, até que viu Magnus parado na porta do quarto. Ela sentiu um aperto no peito. Quanto ele teria escutado?
— Peço desculpas, pai. Vim apenas me despedir da minha irmã. — O olhar desanimado de Magnus pousou sobre ela.
— Magnus… — ela tentou dizer, mas ele se virou e saiu sem dizer mais nada.
A atenção do rei se voltou para Lucia enquanto ela se acomodava novamente sobre os travesseiros, com um nó se contorcendo no estômago. Ela havia magoado Magnus com suas palavras descuidadas.
Parecia estar sempre magoando o irmão.
— É melhor assim — o rei disse. — No final tudo acaba como deveria ser.
— Claro — ela sussurrou.
Quando seu pai saiu para o casamento, Lucia ficou sozinha com seus pensamentos e arrependimentos até a tutora dos elementia chegar, bem mais tarde.
Seu nome era Domitia, uma bruxa que vivia em uma vila a poucas horas da Cidade de Ouro. Ela tinha um grande sorriso, longos cabelos cor de palha e finas linhas de expressão ao redor dos olhos verdes. Ela tirou Lucia da cama devagar, e logo a tontura passou, e sua força voltou. A poção para dormir finalmente havia deixado seu organismo, o cansaço se dissipou, e Lucia se sentiu pronta para aprender mais sobre sua magia com uma tutora experiente.
— Estou tão contente por poder ajudá-la! — Domitia disse, ou melhor, exclamou animadamente. — O rei foi muito sábio em me escolher.
Se o rei não encontrasse uma utilidade específica para uma mulher acusada de bruxaria — fosse em Limeros ou agora em Auranos —, ela enfrentaria a pena de morte. Domitia explicou brevemente que havia sido capturada em uma varredura recente dos guardas, com base em rumores locais sobre seus dons. Para a sorte dela, o rei estava procurando uma tutora de elementia adequada para sua filha e a libertou do calabouço.
Então era de se esperar que a mulher estivesse tão exageradamente alegre.
— Vamos começar com algo simples, certo? — Domitia disse. — Gostaria que você se concentrasse nessas velas e as acendesse uma por uma. Disseram-me que tem forte domínio da magia de fogo.
A bruxa havia alinhado dez velas de alturas e larguras diferentes em uma mesa próxima.
— Pode-se dizer que sim.
A bruxa não fazia ideia de que Lucia era uma feiticeira. Até onde ela sabia, a filha do rei era só mais uma bruxa comum, salva do calabouço apenas por fazer parte da realeza.
— Eu também posso fazer magia de fogo. Permita-me demonstrar. — A testa da bruxa se enrugou enquanto ela analisava os pavios apagados das velas. Era uma visão divertida vê-la fazendo força, o rosto se enrugando, como se estivesse sentada em um penico.
Lucia continuou observando. Um dos pavios começou a brilhar. A respiração da bruxa ficou acelerada, e uma pequena camada de suor apareceu em sua testa. Finalmente, uma pequena chama passou a dançar sobre a primeira vela.
Domitia soltou o ar com dificuldade.
— Está vendo? É possível.
— Muito impressionante — Lucia disse, embora uma pontada de impaciência tivesse se instalado em seu corpo.
A bruxa assentiu, reconhecendo a magnitude do que havia feito.
— Sua vez, princesa.
O olhar de Lucia se manteve nas velas apagadas.
— Sabe alguma coisa sobre profecias, Domitia?
— Profecias, vossa graça?
— Profecias sobre os elementia.
Domitia franziu os lábios e ficou pensativa.
— É claro, existem muitos rumores sobre isso. É difícil separar o que é real do que é falso.
Lucia precisava determinar se aquela mulher tinha algum valor para ela. Ioannes havia partido, e ainda que a princesa esperasse que ele visitasse seus sonhos em breve, como havia prometido, precisava procurar outras respostas. Ela precisava de um guia habilidoso, com conhecimento sobre o que ela era e o que podia fazer.
— Você diria que é mais hábil do que uma bruxa comum?
Domitia ficou radiante com a pergunta.
— Ah, sim, vossa graça! Tenho capacidade de acessar não só a magia de fogo, mas um pouco de magia de água também. Esses elementos são totalmente opostos e normalmente se anulam. Raramente aparecem na mesma bruxa. Tenho muita sorte de ter essa capacidade.
— Mostre-me sua magia de água — Lucia pediu.
A bruxa secou o suor da testa e atravessou o quarto para encher um cálice com a água de um jarro. Ela se aproximou e o colocou sobre a mesa, ao lado da vela acesa.
— Observe — ela disse, novamente franzindo a testa enquanto analisava a água.
Lucia observou por cima do ombro da bruxa, e depois de um tempo viu a água começar a formar lentamente um redemoinho. Ela esperou, mas a bruxa lhe lançou um olhar triunfante.
— Decepcionante.
A bruxa olhou para ela, em choque.
— Decepcionante? Levei anos para dominar minha magia nesse nível.
— Seu domínio é questionável. — Lucia suspirou. — Receio que, pelo que vi aqui, você não está nem perto de saber o suficiente para me ajudar. Mas agradeço sua visita.
Os olhos da mulher se acenderam de medo muito mais rápido que ela conseguia acender uma vela.
— Peço desculpas, vossa graça, por tê-la decepcionado. Quero ajudar o máximo que puder. É tudo o que me importa.
— É claro que é — Lucia murmurou. — Conhece a tendência que meu pai tem de acabar com a vida das acusadas de bruxaria que não lhe servem a nenhum propósito.
— E ainda assim sua própria filha é uma. — Logo em seguida as bochechas de Domitia começaram a queimar. — Ah, peço desculpas novamente. Não quis ofender. Por favor, me perdoe!
Era esse o tipo de poder que seu pai apreciava tanto? A capacidade de incitar medo em alguém dizendo apenas algumas simples palavras? Lucia ficou preocupada ao se dar conta de que era uma sensação curiosamente agradável.
— Você não precisa ter medo de mim — Lucia disse, com mais gentileza.
Domitia torceu as mãos.
— Eu… eu não tenho. É claro que ouvi histórias perturbadoras sobre o rei, e também sobre o príncipe, mas me garantiram que você era gentil e graciosa. Uma verdadeira princesa, em todos os sentidos da palavra.
— Certamente tentei ser, no passado — Lucia passou os dedos sobre a mesa com as velas. — Mas, ultimamente, devo admitir que estou ficando cada vez mais preocupada.
— Preocupada, vossa graça?
Ah, como ela colocaria em palavras o que sentia? Era difícil compreender totalmente, mas não dava para ignorar o quanto era real.
— Há algo dentro de mim… que tem fome. Só consigo explicar com a imagem de uma fera enjaulada. Eu não a sentia quando estava adormecida, mas agora que acordei, é impossível ignorar.
— Eu não entendo, princesa. Uma fera dentro de você? O que isso significa?
— Todos me dizem que não é maligna. E realmente não parece maligna. Mas uma escuridão está tomando conta — Lucia disse. Enquanto falava, percebia como suas palavras eram verdadeiras. — É como se a própria noite me envolvesse em um abraço que fica mais apertado a cada instante.
O olhar de Domitia se encheu de entendimento. Ela assentiu com a cabeça.
— O que está sentindo é perfeitamente normal para alguém capaz de utilizar qualquer parte dos elementia. Mas não se preocupe. Sem sacrifício de sangue, nossos poderes não podem ser mais destrutivos do que mostrei aqui hoje. — Ela se inclinou para apagar a vela que havia acendido antes. — Agora é a sua vez. Tente acender essa vela, e continuaremos a partir daí. Certo?
A fera obscura dentro dela se revirou com o desprezo de Domitia por suas primeiras palavras de alerta. Pois era isso que eram — um alerta.
— Claro — Lucia disse.
Todos os dez pavios se acenderam de uma só vez, e as chamas se elevaram até o teto. A bruxa ficou boquiaberta e cambaleou para trás, levando a mão trêmula até a boca.
— Mas… mas, princesa… Nunca vi nada assim!
Lucia não pôde deixar de sorrir diante da expressão confusa e aterrorizada da mulher.
— Não, suponho que não.
Os olhos arregalados de Domitia refletiam as chamas tremeluzentes.
— E você faz isso sem o mínimo esforço… É incrível…
— Ah, mas há esforço. Posso garantir. É como um músculo dentro de mim que implora para ser flexionado. Responda-me esta dúvida. É uma pergunta que já fiz a várias pessoas, mas ainda assim a opinião de minha mãe morta permanece, como se um fantasma me assombrasse. Essa magia que possuo é má?
— Má? — Domitia repetiu com a voz trêmula. — Eu não sei.
— Resposta errada. — Lucia estendeu as mãos na direção da bruxa, invocando o ar. A magia envolveu a mulher e a jogou contra a parede, prendendo-a ali como uma borboleta em um quadro.
Domitia disse, ofegante:
— O que está fazendo?
Era uma excelente pergunta. O que Lucia estava fazendo?
Independente do que fosse… a sensação era boa.
O fogo ardia atrás dela — tão quente que suor escorria por suas costas. Quente demais. Ela precisava de algo frio para balancear. Fogo e água eram opostos. A própria bruxa havia dito que frequentemente se anulavam.
Lucia queria saber se era verdade. Ela olhou para o cálice de água que a bruxa havia usado. Com a força do pensamento, retirou a água do recipiente. O líquido viajou pelo ar até onde Lucia estava.
Ela ficou olhando, com a cabeça inclinada, e pensou em sua casa. Em Limeros.
A água congelou no ar, assumindo a forma de uma lança.
A bruxa gritou quando o objeto afiado chegou mais perto dela, perto o bastante para tocar sua garganta. A fera sombria dentro de Lucia aprovava aquilo. Ela tinha uma sede enorme de sangue fresco agora que finalmente havia acordado.
— Terei de dizer ao meu pai, quando ele voltar do casamento do meu irmão, como estou desapontada com sua escolha de tutora.
— Princesa, por favor! — Domitia gritou. — Farei qualquer coisa que pedir! Por favor, não me machuque!
As palavras não tiveram efeito nos ouvidos de Lucia. Em vez disso, ela se concentrou na lâmina de gelo, pressionando-a o bastante para perfurar a pele da bruxa. Uma linha brilhante de sangue vermelho escorreu por sua garganta. Lucia ficou fascinada com aquela visão. Quanto sangue poderia ser derramado antes de a mulher morrer? E esse sacrifício de sangue ajudaria a aumentar ainda mais seu poder?
Ouviu-se um estrondo alto ao redor dela, e o chão começou a tremer. Lucia perdeu o equilíbrio e desabou no chão, machucando o ombro. A lança de gelo caiu e se estilhaçou.
— O que é isso? — Lucia perguntou. — O que está acontecendo?
As velas caíram da mesa, apagando-se antes de chegarem ao chão. Lucia olhou para a bruxa, que levava a mão à garganta ferida e olhava fixamente para a princesa, aterrorizada, até que o terremoto finalmente parou.
O coração de Lucia quase saiu pela boca enquanto a fera que vivia dentro dela se recolhia para sua caverna obscura.
Pela deusa, o que estava pensando? Quase havia matado aquela pobre mulher!
A voz de Domitia estava trêmula.
— O que você é?
Lucia se obrigou a olhar diretamente nos olhos da bruxa.
— Se dá valor à sua vida, não vai revelar a ninguém o que aconteceu aqui.
— Princesa…
— Saia!
Ela não precisou dizer duas vezes. Domitia saiu correndo do quarto sem discutir.
O coração de Lucia batia forte como um trovão.
Foi isso que minha mãe quis dizer. Ela estava certa, e todos os outros estavam errados.
Ela sentiu a verdade no pensamento. E o que mais a assustava naquilo tudo era que uma pequena parte dela não se importava.
Um vislumbre de penas douradas chamou sua atenção quando um falcão saiu voando de seu terraço.
— Ioannes! Volte! — Ela correu até o parapeito de mármore e viu o falcão voar alto no céu azul, até desaparecer de seu campo de visão.
A ponta de esperança que havia se acendido brevemente em seu peito transformou-se em cinzas amargas.

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