13 de agosto de 2018

Capítulo 21

IOANNES
O SANTUÁRIO

Melenia levantou os olhos quando Ioannes entrou em seus aposentos no palácio de cristal. Era um quarto cheio de flores e luz. Uma janela de cristal que ia do chão ao teto dava para a grande cidade lá embaixo, lar de outros imortais.
No meio da janela havia uma rachadura irregular. O forte tremor no mundo mortal havia sido nitidamente sentido ali também. Muitos imortais, na verdade, tinham entrado em pânico, acreditando que seria o fim.
Mas Ioannes sabia que não.
Ele já estava a caminho dos aposentos de Melenia quando tudo aconteceu. Seus passos estavam concentrados e sua mente, limpa. Havia questões que precisavam ser discutidas, e não podiam esperar nem mais um dia.
Ela se levantou na sala de estar, a túnica transparente ondulando sobre suas curvas. Seus olhos eram azuis — um tom forte de safira que ninguém jamais confundiria com os de um mortal.
— Estou feliz por ter vindo — Melenia falou antes que ele dissesse qualquer palavra. Ele estava impressionado com sua beleza, como sempre. Ela estendeu a mão em sua direção quando ele se aproximou. — Pode celebrar comigo mais um sinal de nosso sucesso. Estamos perto agora. Tão perto que posso sentir.
— Sentir o quê?
— Uma doce vitória. Finalmente. — Seu sorriso sumiu quando ela notou que Ioannes não parecia satisfeito. Ela estendeu os braços para colocar as mãos frias sobre o rosto quente dele. Aquela mulher parecia tão pequena e frágil diante dele, mas Ioannes sabia que não era nada disso. Ele nunca havia conhecido alguém mais forte em toda sua existência. E por muito tempo havia admirado aquela força. — O que foi? Você parece tão aflito…
— Eu estou aflito. A princesa acordou de seu sono profundo.
— Entendo. Agora será mais difícil acessar os sonhos dela.
— Não é isso.
Ela o observou atentamente.
— Então o que é? Desabafe comigo, Ioannes. Sabe que pode confiar em mim. Nós compartilhamos todos os nossos segredos, não é?
Os segredos eram tantos que ele já tinha perdido a conta.
— Dois desastres no mundo mortal. O furacão e o terremoto. Está acontecendo exatamente como você disse que aconteceria.
— Sim.
Melenia era uma imortal muito especial, diferente dos outros. Mais poderosa em vários aspectos. Ela podia enxergar muitas coisas que os outros não podiam — o que acontecia ali no Santuário e no mundo mortal. Sua visão era clara e focada, e sempre havia sido.
— E você continua a visitar os sonhos do rei? — ele perguntou.
Dessa vez houve uma pausa antes de ela responder.
— Ultimamente, não. Ele já sabe o que preciso que faça.
Era outro dos muitos segredos de Melenia. Os anciãos não tinham a capacidade de entrar em sonhos de mortais. A tarefa nunca fora fácil para qualquer imortal e sempre drenava magia e força física. Mas para um ancião, era impossível.
Exceto para Melenia.
— Não vai demorar muito para minha estrada ficar pronta — ela disse. Havia alegria em sua voz.
Sim, a estrada dela. Uma estrada que tinha de ser construída o quanto antes pelas mãos dos mortais. Uma estrada que precisava passar por certos lugares ao longo de seu caminho sinuoso.
E, claro, como não era apenas uma estrada, não se podia esquecer de que era preciso uma grande quantidade de sangue derramado.
Sangue — tudo dependia de sangue. Era fundamental. Era mágico. Mesmo quando saía das veias de mortais.
E quando a estrada finalmente estivesse pronta…
— Preciso saber se existe outro jeito — Ioannes disse, sentindo as palavras espessas na garganta.
Melenia franziu a testa.
— Outro jeito?
Ele olhou diretamente para ela, tentando ocultar a dor que sentia em seu peito atrás da espiral dourada. Os outros imortais não sabiam dos planos de Melenia, mas ele sim. Havia concordado com tudo quando foi originalmente recrutado para a causa dela. Tinha certeza de que conseguiria se manter firme.
Agora duvidava de si mesmo.
O entendimento tomou conta dos olhos azuis dela.
— Eu queria que você entrasse em contato com ela. Falasse com ela. Verificasse se ela era mesmo a feiticeira da profecia que Eva lançou há tantos anos. Você fez o que pedi com perfeição.
— Ela é inocente, Melenia.
— Nenhum mortal que vive mais de um dia é inocente.
— Ajude-me a entender. Como tem tanta certeza de que seu plano é o único possível para encontrar a Tétrade? Para nos libertar desta prisão? Como está tão certa disso?
O maxilar dela ficou tenso quando passou por ele e caminhou até o limite de seus aposentos, indicando as paredes ali com um gesto. Gravados na prata e no cristal estavam os símbolos dos elementos — terra, fogo, ar e água. Era seu santuário particular para a Tétrade, igual aos que muitos mortais tinham em sua residência. Eles rezavam para os símbolos, na esperança de obter respostas e orientação pelos longos dias, anos, séculos que haviam se passado sem mudança ou escapatória.
— Porque eles falam comigo — Melenia disse simplesmente, passando os dedos com delicadeza sobre o símbolo triangular do fogo. — Eles me dizem o que fazer. Como encontrá-los. E sua princesa é a chave. Quando minha estrada estiver terminada, o sangue dela será derramado. O sangue todo.
Um arrepio passou pelo corpo de Ioannes.
Antes, estava preparado para sacrificar Lucia e salvar seu mundo antes que a magia desaparecesse completamente. Havia se comprometido com a causa, assim como alguns poucos imortais escolhidos a dedo por Melenia para fazer parte de seu pequeno exército.
Ela virou as costas ao seu santuário para observar Ioannes, e inclinou a cabeça.
— Eu queria que ela se apaixonasse por você para torná-la mais receptiva, mais influenciável. Mas você também se apaixonou por ela, não foi?
— Não — ele proferiu a palavra amarga, sentindo a falsidade sair de sua boca.
— Você não pode mentir para mim. Conheço a verdade quando a vejo. — Ela suspirou. — Isso complica as coisas.
— Preciso ir até ela.
— Tenho certeza de que acha que sim. — A mão dela permanecia sobre o símbolo do fogo enquanto lançava um olhar inquisidor. — Você não é o único que está apaixonado por uma mortal. Dizem que Phaedra está vigiando um de perto também. Um rebelde.
Seus olhos encontraram os dela.
— Um rebelde?
— Eu não confio nela. Ela vê demais. Sabe demais, assim como Stephanos. Tenho medo de que essa sua amiga esteja se tornando um risco para os meus planos.
Ela disse com leveza, mas uma apreensão começou a consumir as entranhas de Ioannes. Se Phaedra se revelasse um problema para Melenia, ele ficaria profundamente preocupado com ela. Phaedra não omitia seus pensamentos nem suas palavras. Ela falava o que lhe vinha à cabeça e agia de maneira espontânea, sem pensar muito em qualquer risco. Esse comportamento poderia lhe render inimigos. Inimigos poderosos.
Talvez já tivesse rendido.
— Por que seus planos precisam permanecer em segredo? — Ele fez a pergunta que o incomodava havia meses. — Encontrar a Tétrade, romper as correntes que nos mantêm aprisionados dentro do Santuário: isso beneficia a todos nós. Por que não contar a Timotheus ou Danaus sobre a princesa? Sobre a estrada? — Ele hesitou. — Está em busca de mais alguma coisa que eles não aprovariam?
— Não se preocupe com essas coisas. E não se preocupe com a sua princesa.
— Preciso ir até ela — ele disse novamente. — Agora. Não posso esperar.
— Não, você não precisa ir a lugar nenhum. Ainda não. Não até eu estar pronta para encaixar a peça final desse quebra-cabeça.
— A peça final do seu quebra-cabeça é a morte dela.
— Você concordou com isso, Ioannes. Concordou com o que salvaria sua espécie, salvaria o mundo. Quer mesmo mudar de ideia agora?
— O que quero é encontrar outra solução.
— Não existe outra solução. — Ela foi até ele e segurou suas mãos, apertando-as com força. — Eu entendo, de verdade. Entendo o que é amar alguém proibido. Definhar por essa pessoa. Morrer de saudade de seu toque e saber que um futuro juntos é impossível. Sei até onde alguém está disposto a ajudar aquele que ama, mais do que qualquer um.
Os olhos dele encontraram os dela, seu coração se inundando de esperança.
Melenia olhou fixamente para ele com um sorriso frio.
— E sei como é perigoso ter pensamentos assim.
— Melenia…
— Não diga mais nada. Preciso que você retome sua objetividade e sua devoção a mim e à minha causa. A vida da princesa será sacrificada pelo bem da Tétrade. A magia dos cristais é tudo o que importa.
— Preciso falar com ela — as palavras saíram de sua garganta com dificuldade.
— Não, não precisa. — Ela apertou as mãos de Ioannes ainda mais, e ele não teve como se afastar. Sentiu uma sensação de esvaziamento se espalhar por seu corpo. Ela estava drenando sua magia, sua capacidade de mudar de forma, de entrar no sonho dos mortais. De fazer qualquer coisa, exceto respirar e existir.
Era o necessário para mantê-lo longe de Lucia.
Havia uma razão para Melenia ser a mais poderosa dos imortais. Ela era capaz de fazer isso.
— Nem todo amor é eterno — ela sussurrou enquanto ele se enfraquecia e caía de joelhos aos pés dela. — Nem todo amor tem o poder de mudar mundos. O que você sente pela princesa é uma atração passageira, só isso. Acredite em mim, Ioannes. Só estou fazendo isso para ajudá-lo.
Ele havia prometido a Lucia que iria visitá-la em seus sonhos. E tinha ido até ali para tentar encontrar um modo de salvar sua vida.
Em ambas as tarefas, havia falhado.
Ainda assim, ele sabia que Melenia estava dizendo a verdade, que ele estava agindo de maneira irracional e podia acabar se tornando um risco para os planos dela. A vida de uma feiticeira de dezesseis anos não compensava a destruição de tudo e de todos.
Lucia teria que morrer. E um dia, muito em breve, seria ele quem tiraria sua vida.
Não tinha volta.

2 comentários:

  1. Esse Ioannes é cego mesmo! Isso não vai dar certo, lembram que a bruxa disse que se o sangue da Lucia fosse derramado um agrande dor se abateria sobre o mundo?

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  2. TÔ PERDIDA!
    nao sei mais o que pensar, só espero que a lucia nao morra e que o loannes tambem nao
    ASS:JANIELLI

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Boa leitura, E SEM SPOILER!