13 de agosto de 2018

Capítulo 20

CLEO
AURANOS

Era a manhã do dia do casamento de Cleo.
E seria o dia da morte do rei Gaius.
Por você, Mira. Hoje ele pagará com sangue por seus crimes.
Sua raiva ardia como fogo. Ela teria sua vingança.
No momento, porém, as duas criadas limerianas puxavam tanto seu cabelo que ela tinha vontade de chorar como uma criança, não uma futura rainha.
— Não sei por que não posso simplesmente deixar o cabelo solto — ela resmungou.
— O rei ordenou que fosse trançado assim — Dora explicou com desdém. — E se você continuar se contorcendo, só vai demorar mais.
Cleo tinha de admitir que a interferência do rei nos detalhes havia compensado. Seu cabelo ficou lindo com o penteado de pequenas tranças entrecruzadas, unidas em um padrão intrincado. Ainda assim, ela odiou. Odiava tudo o que tinha a ver com aquele casamento, e passou a odiar ainda mais quando as criadas a ajudaram a vestir o vestido lindo, porém pesado, que Lorenzo havia finalizado para ela. Ele fora pessoalmente ao palácio tirar suas medidas, um dia depois de seu retorno das Terras Selvagens, e quase rastejara pedindo desculpas infinitas por sua costureira ter trabalhado para os rebeldes sem que ele soubesse. A menina havia desaparecido, mas Lorenzo jurou que se descobrisse qualquer coisa sobre seu paradeiro, informaria ao rei.
Na cabeça de Cleo, a costureira era menos uma auxiliar dos rebeldes e mais uma menina ingênua que faria tudo o que um garoto bonito e interessante como Jonas Agallon pedisse.
Jonas
Os cristais bordados no vestido faziam-no brilhar mesmo com a pouca luz dos aposentos de Cleo. E ele pesava quase tanto quanto ela. Helena e Dora apertaram seu espartilho sem dó, fazendo com que perdesse o ar.
Ela tentou não se preocupar com o fato de que, desde que retornara ao palácio, havia uma semana e meia, ela não havia recebido nenhuma confirmação de Jonas a respeito dos planos do ataque rebelde.
Confiava de fato nele?
Atualmente, não tinha outra escolha.
Jonas faria aquilo por Paelsia — para salvar seu povo. Apesar do beijo, ela sabia que ele não estava fazendo aquilo por ela.
Como você riria de mim, Mira. Um beijo de um rebelde paelsiano uma semana e meia atrás, e eu me lembro tão claramente como se tivesse acabado de acontecer. Eu daria tudo para ter você aqui para conversar sobre isso.
Ela se olhou no espelho enquanto as meninas arrumavam seu cabelo. O brilho da pedra roxa de seu anel chamou sua atenção. Saber que o estava usando, oculto mas às vistas de todos, fazia seu coração disparar. Mas não tinha como saber como o dia iria acabar, e aquela era sua posse mais preciosa e importante.
Pelo reflexo, ela vislumbrou Nic, que surgira na porta, taciturno. Ela não o vira sorrir nenhuma vez desde que soubera de Mira. A dor em seu rosto havia estilhaçado o coração de Cleo. Ele sentia que não havia conseguido proteger a irmã quando ela mais precisara. Mas jurou que nunca falharia com Cleo.
Agora, estava parado na porta dos aposentos dela, esperando para acompanhá-la à carruagem que a levaria ao local de seu casamento.
Ao local de seu destino.
Aquele dia entraria para a história. O povo auraniano falaria dele por séculos. Escreveriam livros, comporiam músicas e contariam histórias que passariam de geração em geração sobre o dia em que a princesa Cleiona juntou forças com os rebeldes para derrotar seu inimigo e libertar todo o reino da tirania de um rei — mesmo que esse reino não tivesse se dado conta da extensão do terror que o Rei Sanguinário poderia desencadear.
E a paz reinaria por toda a Mítica por mais um milênio.
A multidão de milhares de pessoas vibrou ao ver Cleo descendo da carruagem quando chegou ao templo. Havia muitos guardas do lado de fora, controlando as massas, mantendo-as afastadas.
Ela estampou um sorriso no rosto e acenou para o povo.
Aquilo era bom de se ver. Os rebeldes poderiam usar a grande aglomeração como camuflagem, mesmo com muitos guardas patrulhando a pé e a cavalo.
A Estrada Imperial começava ali no templo e se estendia ao longe, formando uma linha perfeita de pedra cinza junto à paisagem verde. Jonas havia falado sobre pessoas escravizadas e maltratadas em campos de trabalho da estrada em Paelsia, onde a maior parte dos quilômetros seria construída. Mas ali, e ao longo dos trechos por onde passaram de carruagem, ela não havia testemunhado tais atrocidades. Os trabalhadores pareciam limpos e bem descansados; trabalhando duro, mas não ao extremo.
Mas é claro que seria assim. Aquela não era uma região árida e isolada de Paelsia, onde o rei poderia esconder os maus-tratos. Se desejava ser bem recebido por seus novos súditos em Auranos, mostrar a eles evidências tão claras de sua crueldade poderia levar mais gente a se opor a ele e se juntar aos rebeldes. Era apenas mais uma prova de suas mentiras. E apenas mais uma razão pela qual o rei precisava ser detido.
Vários dos antigos membros do conselho de seu pai e suas esposas — nobres importantes, todos eles — aproximavam-se dela assim que saíam de suas carruagens. Teciam elogios e admiravam seu vestido. Apertavam suas mãos enquanto faziam reverências e mesuras diante dela. Cada um lhe desejava o melhor naquele dia, o mais importante de sua vida.
As bochechas de Cleo começaram a doer quando seu sorriso falso se tornou mais difícil de sustentar. Ainda assim, ela permaneceu do lado de fora, perto da multidão, pelo máximo de tempo que pôde.
— Está na hora, vossa alteza — disse um homem alto e imponente de cabelos escuros e olhos verdes. Era Cronus, o capitão da guarda do palácio do rei Gaius. Um homem de quem Cleo desconfiava ao extremo, tanto quanto do próprio rei, já que seguia todas as ordens sem hesitação, independente de seu teor. Se o rei ordenasse que Cronus matasse Cleo com as próprias mãos, ela não tinha dúvida de que ele a massacraria imediatamente. Ele a assustava, mas ela se recusava a deixar o medo transparecer no rosto.
Cleo olhou pela última vez por cima do ombro, examinando a área em busca de qualquer sinal de Jonas. Depois olhou nos olhos de Nic. Ele acenou para ela com a cabeça, tenso. Finalmente, ela pegou o braço dele e Nic a conduziu escadaria acima até o templo, com Cronus logo atrás.
Havia uma segunda estátua enorme da deusa Cleiona bloqueando a visão do salão principal, até que Cleo passou por ela e viu os altos e grossos pilares de mármore ao longo do extenso corredor. Era um espaço enorme, cavernoso, três vezes maior do que o grande salão do palácio. De cada lado, centenas de convidados.
Havia muito poucos guardas de uniformes vermelhos ali. A maioria estava do lado de fora, controlando a multidão.
Ótimo.
— Queria poder salvar você disso, Cleo — Nic sussurrou.
Ela não conseguia responder com o medo e o terror que entalavam sua garganta.
Com um último afago em seu braço, Nic a soltou e assumiu sua posição perto da parede, na parte da frente do templo, sem tirar os olhos dela nem por um instante.
No altar, a quarenta passos de distância, o príncipe Magnus a esperava. Ele estava todo de preto, incluindo um sobretudo formal, grosso, com toques dourados e vermelhos, que devia estar absurdamente quente. O rei estava ao lado dele, junto a um sacerdote limeriano de túnica vermelha, que realizaria a cerimônia. Ali perto estavam os criados do templo, também vestindo túnicas vermelhas. Havia flores brancas e vermelhas por todo lado, além de, literalmente, milhares de velas acesas.
Todos os rostos se voltaram para ela.
— Ande — Cronus comandou.
Cleo ficou tensa.
Ela tinha que dar aos rebeldes uma chance de agir. Porque eles agiriam. Tinham de agir.
Ainda assim, por um momento ela não teve certeza se conseguiria mover os pés. Suas pernas se transformaram em gelatina. Mas não havia mais nada que pudesse fazer além de ser forte. Ela faria tudo o que fosse preciso para ajudar Auranos.
E, no momento, precisava caminhar e enfrentar seu destino no altar daquele templo.
Então, pensando em seu pai, em Emilia, em Mira e em Theon, ela caminhou.
Ela já havia ido a casamentos antes, e aquele não era muito diferente, exceto pela escala e grandiosidade. A caminho do altar, ela viu muitos rostos conhecidos que sorriam, demonstrando aprovação, e gravou-os na cabeça como amigos de seu pai que agora recebiam seu inimigo de braços abertos. Covardes, todos eles. Qualquer um que fosse leal a seu pai, leal a Auranos, não estaria sorrindo ao vê-la ser obrigada a se casar com o filho de seu inimigo.
Havia também muitos olhares arrasados voltados para ela, rostos tensos e repletos de compaixão. Ela se esforçou muito para não olhar nos olhos dessas pessoas, com medo de que vissem sua própria dor.
Cleo se lembrava de ter imaginado como seria seu casamento com Theon. Em sua fantasia, o templo estava cheio de alegria e felicidade, e era seu pai que esperava ao lado de Theon no altar. Não o Rei Sanguinário.
Cleo não desperdiçou nenhum olhar com o rei. E nem olhou de relance para o príncipe, embora sentisse seus olhos escuros sobre ela. Ela se concentrou apenas no corredor até o altar e em qualquer pessoa que estivesse em sua visão periférica.
Aron se sentou na frente, com uma expressão difícil de decifrar. Ele parecia irritado, principalmente. E, como sempre, embriagado. Ao lado de Aron, havia um homem que Cleo sabia ser o príncipe Ashur Cortas, do Império Kraeshiano. Ela ficara sabendo de sua chegada para o casamento, como representante de seu pai, o imperador. Nos últimos dias, muitos rumores sobre o importantíssimo convidado haviam corrido pelo palácio, a maioria pela boca das criadas, que estavam empolgadas para ficar perto do solteiro com fama de belo e incrivelmente poderoso vindo do outro lado do mar. Talvez ele também tivesse ido até lá atrás de uma noiva, algumas imaginavam. Outras esperavam que sim.
Tão poucos guardas ali, mas tantos convidados — a maioria dos quais Cleo não reconhecia. Amigos do rei.
Inimigos de Auranos.
Jonas, esta é sua chance. Por favor, não me decepcione.
Finalmente, ela chegou ao altar e parou ao lado do príncipe. A expressão dele era séria; o olhar, vazio.
— Aqui estamos — Magnus disse a ela.
Ela apertou os lábios, sem dizer nada em resposta. Se tudo desse certo, o príncipe Magnus morreria junto com o pai. Ele merecia morrer pelo que havia feito com Theon.
Ainda assim, ela sentia uma pequena pontada de dor por ele ter que pagar tão caro pela lista muito mais longa de crimes de seu pai.
Ele é cruel, ela lembrou a si mesma. Assim como o pai. Uma única lágrima derramada pela morte da mãe não significa nada. Não muda nada!
— Vamos começar — o sacerdote disse. A faixa vermelho-escuro na cintura dele representava o sangue da deusa Valoria e estava presa à túnica vermelho-vivo com dois alfinetes dourados na forma de serpentes entrelaçadas. — Esta união de dois jovens nos laços eternos do matrimônio é também um símbolo da união de Mítica como um reino forte e próspero sob o domínio do nosso grandioso e nobre rei Gaius Damora. Valoria, nossa gloriosa e adorada deusa da terra e da água, que generosamente nos dá força, fé e sabedoria todos os dias de nossas vidas, também concede sua bênção hoje a essa união afortunada.
— Tente conter o entusiasmo, princesa — Magnus murmurou. — Pelo menos até o fim da cerimônia.
A cada palavra que o sacerdote dizia, ela rapidamente ia perdendo a capacidade de expressar outra coisa além de tensão. A força reunida com dificuldade já começava a falhar, dando lugar ao pânico e a pernas que ameaçavam desmoronar sob seu corpo.
— Tentarei ao máximo — ela rebateu.
O rei apenas observava tudo, com uma expressão indecifrável.
— Não me diga que não está satisfeita por estar aqui — o príncipe falou em voz baixa.
— Tão satisfeita quanto você.
— Deem as mãos — o sacerdote instruiu.
Ela olhou para a mão de Magnus com desgosto.
— Ah, pare com isso — ele disse a ela. — Está partindo meu coração.
Cleo rangeu os dentes.
— Para que eu pudesse fazer isso, você precisaria ter um.
Ele segurou a mão dela. A mão de Magnus era seca e quente, exatamente como ela se lembrava do dia em que ficaram noivos no terraço. Ele segurava a mão dela como se fosse desagradável tocá-la. Ela precisou se esforçar muito para não se afastar dele.
— Repita os votos comigo — o padre disse. — Eu, Magnus Lukas Damora, aceito Cleiona Aurora Bellos como minha esposa e futura rainha. Um laço que começará hoje e durará por toda a eternidade.
O pânico tomou conta dela. Era cedo demais para a cerimônia terminar! Era só isso?
Houve uma pausa, e o príncipe apertou a mão dela com mais força.
— Eu, Magnus Lukas Damora, aceito… — ele suspirou, como se lutasse para continuar falando — … Cleiona Aurora Bellos como minha esposa e futura rainha. Um laço que começará hoje e durará por toda a eternidade.
Cleo começou a tremer. Eternidade. Ah, deusa, me ajude.
O sacerdote acenou positivamente com a cabeça, enfiando a mão em uma tigela de óleo perfumado que segurava. Ele passou um pouco do líquido na testa de Magnus.
E então se virou para ela.
— Repita comigo. Eu, Cleiona Aurora Bellos, aceito Magnus Lukas Damora como meu marido e futuro rei. Um laço que começará hoje e durará por toda a eternidade.
Ela não tinha voz, não tinha palavras. Sua boca estava seca demais e os lábios, ressecados. Aquilo não podia acontecer.
— Repita as palavras — o rei disse em voz baixa, mas com o olhar tão afiado quanto a ponta de uma adaga.
— E-eu, Cleiona Aurora Be-Bellos… — ela gaguejou — aceito…
O som de metal se chocando com metal veio dos fundos. Em seguida, quatro criados do templo que usavam mantos vermelhos tiraram os capuzes e revelaram o rosto.
O coração de Cleo pulou para a garganta ao ver que um deles era o próprio líder rebelde. Jonas a olhou nos olhos por um breve instante antes de atacar, tirando uma espada de baixo da túnica roubada. Cleo voltou sua atenção para os fundos, onde viu os esparsos guardas em uniformes vermelhos caírem sob as lâminas dos rebeldes disfarçados. Alguns gritos assustados e confusos surgiram das testemunhas reunidas.
— Nic! — ela gritou. Se os rebeldes confrontassem Nic em seu uniforme limeriano, não saberiam quem ele era ou o que ele significava para ela. Ele estava correndo perigo. Por que ela não tinha pensado nisso antes? Apesar da promessa de não dizer nada sobre o plano de Jonas, ela poderia tê-lo alertado!
Jonas agarrou Magnus bem quando o príncipe tentava alcançar sua própria arma. Jonas segurou a espada na garganta dele e olhou para o rei.
Tudo aconteceu em um piscar de olhos, mal houve tempo para pensar.
Jonas abriu um leve sorriso e estreitou os olhos.
— Parece que tem o que celebrar, vossa majestade. Assim como nós.
O rei Gaius examinou o grupo de rebeldes, pelo menos vinte rapazes aparentemente perigosos que haviam tomado o templo. Eles estavam à frente dos guardas caídos e bloqueavam a entrada, com armas afiadas nas mãos.
— Você é Jonas Agallon. — O rei parecia calmo apesar de seu filho estar imobilizado, com a ponta de uma espada apontada para a garganta. — Nos conhecemos quando você acompanhou o chefe Basilius à reunião com o rei Corvin. Parece que faz tanto tempo.
Aquilo só serviu para endurecer ainda mais o olhar de Jonas.
— O que vai acontecer é o seguinte: primeiro, vou matar seu filho. Depois, vou matar você.
O rei Gaius abriu as mãos.
— Parece que nos pegou em grande desvantagem, não é?
O coração de Cleo começou a bater ainda mais rápido, se fosse possível. Ela esticou o pescoço para dar uma olhada geral rápida pelo templo. Vinte rebeldes haviam desarmado e dominado os doze guardas limerianos posicionados dentro do templo instantaneamente, e agora todos estavam mortos ou inconscientes. Mas onde estava Nic?
— Fiquei surpreso com a negligência de sua segurança aqui dentro. Do lado de fora estava muito mais complicado de se locomover e, devo admitir, será difícil escapar, mas estamos preparados para a tarefa, eu acho. — Jonas parecia presunçoso e satisfeito, como um gato faminto que conseguiu encurralar um pombo apetitoso. — Francamente, acho que deveria ter sido mais esperto e escolhido um local menor, menos público, para um evento tão importante. Um lugar que pudesse manter em segredo. Que pena que não pensou nisso.
— Tenho certeza de que teria descoberto o local mesmo assim — o rei disse. — Você é muito bom. Estou extremamente impressionado com suas habilidades. Tenho certeza de que seu povo segue todas as suas ordens à risca com grande admiração.
Para um rei prestes a ser assassinado, ele estava muito calmo e sombrio.
— Pai — Magnus disse entredentes. Um pouco de sangue escorria de sua pele a partir da ponta da espada de Jonas.
— O que você quer? — o rei Gaius perguntou a Jonas novamente, não olhando nem uma vez para o rosto do filho.
— O que eu quero? — Jonas repetiu, descrente. — Exatamente o que acabei de dizer. Quero ver você pagar pelos crimes que cometeu contra o meu povo. Vi sua estrada com meus próprios olhos, vossa majestade. — O título era usado com ironia. — Vi o que autorizou seus guardas a fazer. Pedi que fosse interrompido, mas você ignorou minhas exigências. Foi um erro. Hoje, interromperei a construção da estrada através de sua morte.
— Posso lhe oferecer grandes riquezas.
— Não quero nada além do seu sangue.
O rei Gaius sorriu.
— Então deveria ter sido muito mais rápido para fazê-lo jorrar. Esse foi o seu erro, rebelde.
Uma flecha cortou o ar, atingindo um rebelde ao lado de Jonas no peito. O garoto caiu no chão, contorcendo-se violentamente até seu corpo ficar imóvel.
Cleo observou horrorizada quando metade dos convidados do casamento se levantou dos bancos e investiu contra os rebeldes.
A falta de guardas dentro do templo não passava de uma ilusão. Eles estavam disfarçados como convidados do casamento — eram os rostos que ela não reconheceu. E eles atacavam os rebeldes, agora em menor número, com força total.
Tirando vantagem da distração, Magnus derrubou a espada de Jonas. Depois agarrou o manto dele e o jogou contra um pilar de mármore com tanta força que sua cabeça se chocou contra a superfície dura.
Cleo foi empurrada quando a briga entre um rebelde e um guarda chegou perto demais. Ela saiu do caminho, esforçando-se para se deslocar com a saia longa e pesada do vestido, fazendo parecer que caminhava sobre a lama. Desviou do golpe de uma adaga por poucos centímetros.
— Você matou minha mãe, seu desgraçado — Magnus grunhiu para Jonas. — Vou arrancar seu coração e enfiá-lo pela garganta.
Jonas deteve o punho cerrado do príncipe. Um rebelde próximo foi atingido por uma espada no peito e cambaleou para trás, esbarrando em Magnus e libertando o príncipe das garras de Jonas.
O sangue dos mortos se acumulava no piso de mármore — vermelho-vivo em contraste com o branco. Cleo ficou olhando, sem conseguir processar como tudo rapidamente se transformara em caos.
Naquele mesmo segundo, o templo começou a tremer, levemente no início e depois com cada vez mais violência. O chão se abriu, com um enorme som de rachadura, enquanto vários guardas caíam gritando na fenda irregular. A gigantesca estátua de Cleiona tombou e caiu no chão, esmagando três pessoas.
Todos que estavam em pé foram derrubados. Cleo, ainda agachada no chão, colocou os braços defensivamente sobre a cabeça.
O rei Gaius conseguiu se levantar, ainda que o chão continuasse a tremer terrivelmente. Seu olhar furioso vasculhava o templo, até que pousou sobre Cleo.
O rei não notou o que estava bem atrás dele.
Um pilar de mármore havia se soltado do teto rachado e começava a cair. O rei estava diretamente abaixo.
Mas antes de ser esmagado, Magnus se atirou na direção do rei e o tirou do caminho. O pesado pilar desabou, quebrando-se em centenas de pedaços sobre o solo que ainda tremia.
O príncipe Ashur se levantou, gritando a plenos pulmões.
— Todos para fora do templo. Agora.
As centenas de convidados tentavam desesperadamente fugir do violento e sangrento campo de batalha, correndo para as saídas o mais rápido possível. Vários foram esmagados por outros pilares que caíram pelo caminho.
O mundo estava desmoronando bem diante dos olhos de Cleo.
Um braço a pegou pela cintura, puxando-a para trás do altar quando o violento terremoto finalmente cessou e o mundo parou de tremer.
— Sabe que quase foi morta? — Nic disse.
— Nic! — Ela o abraçou com força. — Graças à deusa você está bem!
— Bem? Eu diria que estamos muito longe de estar bem.
Cleo se arrastou até a lateral do altar de pedra para ver a destruição que se apresentava diante de seus olhos. Jonas estava morto no chão do templo.
Não, por favor, não. Não pode ser!
Não, espere. Dois guardas passaram correndo pelo seu corpo imóvel. Quando foram embora, Jonas começou a se mexer. Cleo o viu recobrar a consciência e se sentar, levantando-se em seguida, com a mão sobre um ferimento na lateral do corpo, onde havia sido atingido por uma lâmina. Seu rosto também estava ensanguentado. Seu olhar, antes desfocado, ficou tenso e percorreu o templo, vendo seus rebeldes mortos, até finalmente encontrar os olhos de Cleo.
Ele estendeu a mão para ela, como se a chamasse para ir com ele. Para fugir com ele enquanto ainda havia tempo de escaparem despercebidos com o resto dos convidados.
Ela negou com a cabeça.
Os dois não conseguiriam escapar. Não com ele ferido e ela usando aquele vestido pesado. Ela precisava ficar — por Nic. Por Auranos.
Mas Jonas ainda podia se salvar. E se quisesse ter alguma chance, deveria sair imediatamente, enquanto não estava na mira dos guardas.
— Vá — ela sussurrou. — Vá agora!
Ele hesitou apenas mais um instante antes de se livrar da túnica vermelha e sair correndo do templo, juntando-se à multidão de convidados que escapava para a luz do dia.
— Cleo — Nic sussurrou, apertando a mão dela com tanta força que chegava a doer. — Isso é ruim. Muito ruim.
Palavras mais verdadeiras nunca haviam sido ditas.
Os rebeldes haviam perdido. E, ah, como tinham perdido.
Todos eles, exceto Jonas, estavam mortos sobre o piso rachado e destruído do templo. Os guardas que vestiam roupas comuns para se misturar aos outros convidados começavam a se aproximar para garantir que os rebeldes mortos estivessem mesmo mortos, enfiando espadas ou lanças nos corpos imóveis, para se certificar de que continuariam assim.
Tantos haviam morrido em tão pouco tempo.
Nic estendeu a mão para ela e a ajudou a ficar em pé. Uma mancha de sangue agora maculava seu belo vestido. Nic olhou alarmado para o borrão e começou a checar se Cleo estava bem.
— Não é meu — ela disse com a voz fraca.
— Graças à deusa!
— É minha culpa, Nic. Isso… é tudo minha culpa.
— Do que está falando? Não é, não. — Ele a segurou pelos braços. — Você não teve nada a ver com isso.
Ele não sabia do plano porque ela não havia contado. Era a única pessoa em quem Cleo confiava plenamente — e ela não tinha contado nada. Se Nic tivesse morrido durante o ataque, ela nunca se perdoaria.
Havia corpos espalhados sobre poças escarlate por todo o piso de mármore. Olhos vidrados fitavam todas as direções, alguns diretamente para Cleo, como se a culpassem por sua morte.
Magnus se apoiou em um pilar e tocou cuidadosamente o ferimento superficial em sua garganta. Ele parecia exausto, mas seu olhar estava repleto de ultraje. Sua atenção finalmente recaiu sobre ela. Cleo desviou o rosto antes que fosse forçada a olhar em seus olhos.
O rei se aproximou. Havia um corte em sua testa, que fazia o sangue escorrer sobre os seus olhos. Ele limpou com o dorso da mão. Ele quase havia morrido — ela mesma tinha sido testemunha. Quase fora atingido por um pilar, mas seu filho o salvara. E agora tudo o que restava de sua quase morte era um pouco de sangue.
— Você sabia que isso iria acontecer? — Magnus perguntou.
O estômago de Cleo se revirou, e seus dedos se afundaram no braço de Nic como se quisesse pegar um pouco da força do amigo emprestada. Quando ela abriu a boca para negar qualquer envolvimento com o ataque rebelde, o rei respondeu em seu lugar:
— Achei que havia uma grande chance, mas não tinha certeza.
— Mas tomou precauções.
— Claro que sim. Não sou idiota.
— E ainda assim não me disse nada. — As palavras estavam cobertas de veneno. — Não é a primeira vez que me deixa por fora de seus planos, pai.
— Não queria estragar o dia mais do que o necessário. — O rei lançou um olhar para Cleo. — É muito angustiante. — Ele gesticulou para a carnificina diante deles. Ela não conseguia tirar os olhos do fluxo constante de sangue escorrendo pela testa do rei. — Você é, afinal, apenas uma menina de dezesseis anos, acostumada a uma vida muito mais privilegiada e segura. Isso deve ser um choque.
— É, sim — ela sussurrou. — O ataque. O… o terremoto. Acredito que seja um sinal da deusa. O casamento terá de ser adiado. É realmente uma pena.
Quando o dorso da mão dele bateu em seu rosto, a reação de Cleo foi mais de choque do que de dor. Ela levou a mão à bochecha e o encarou com olhos arregalados.
— Acha que vou facilitar tanto para você, sua pirralha dissimulada? — O rei agarrou seu vestido e a puxou para mais perto. Ele olhou para Nic, que tinha avançado para proteger Cleo. — Estou avisando, garoto, não me olhe assim se preza por seus olhos. Eu os arranco de sua cabeça e sirvo para a princesa Cleiona como parte de seu banquete de casamento.
— Mas… mas como podemos continuar? — Cleo gaguejou. — Todo esse sangue! Todos esses corpos! O templo está em ruínas, o teto vai desabar a qualquer momento. Precisamos sair! O casamento não pode…
Ele deu mais um tapa em seu rosto, com mais força dessa vez, e ela mordeu o lábio de dor.
— Eles me subestimaram, aqueles rebeldes. Não têm ideia do quanto calculo cada movimento. Acharam que poderiam entrar aqui com facilidade e me matar. Ninguém pode me matar. — Ainda assim, ele deu uma olhada no pilar caído com nervosismo antes de lançar um olhar furioso para Cleo. O rei agarrou a garganta dela com uma mão e apertou tanto que a princesa começou a engasgar. Ela arranhou o braço dele, mas o rei apertou ainda mais até ela parar de lutar. Manchas pretas tomaram conta de sua visão.
— Pai, pare com isso — Magnus disse.
— Fique quieto, moleque. Preciso que a princesa aprenda algumas coisas importantes. — Seu olhar frio a atravessou como a própria morte, arrastando-a para as profundezas da escuridão. — Se algum dia subestimar meu desejo de manter esse trono, minha cara, vai se arrepender amargamente. Considere o dia de hoje apenas uma pequena amostra.
Ela tentou falar, mas a mão que a estrangulava torceu sua garganta ainda mais.
Cronus havia se aproximado, espada em punho, apontada na direção de Nic para mantê-lo afastado.
Magnus andava em círculos, nervoso.
— Pai, isso não é necessário. Está matando a garota.
— Já mandei você ficar quieto. Não me obrigue a dizer de novo. — Um sorriso sinistro logo apareceu nos cantos da boca do rei ao olhar para ela. — Sabe o que todos dirão a respeito de hoje? Que viram um lindo casamento ser interrompido por rebeldes sem coração. Que eles quiseram impedi-la de trocar os votos com meu filho. Que eles fracassaram, e nós vencemos. Que o amor verdadeiro vence tudo, até mesmo o tremor do mundo, não importa o que a oposição faça. As pessoas encontrarão consolo nessas histórias nos meses e anos difíceis que estão por vir. Acha que eu casaria meu filho com uma vadia confessa como você por algum outro motivo? Eles vão devorar essa história e pedir mais. Vão organizar caravanas para vê-la em sua viagem pelo meu reino. Vão idolatrar você e Magnus como deuses, porque são tolos e ingênuos. E isso é exatamente o que eu quero. Quanto mais atenção derem a vocês, menos pensarão no que estou fazendo e em meus motivos.
O rei finalmente a soltou, e ela tentou respirar, levando as mãos à garganta ferida. Nic ficou ali, com os punhos cerrados ao lado do corpo, tremendo. Se ele tivesse ameaçado avançar para cima do rei, Cleo sabia que teria morrido. Assim como os amigos de Jonas e os rebeldes haviam morrido naquele dia.
Não havia esperança na morte, apenas um fim.
O rei empurrou Cleo para perto de Magnus.
— Continue — ele ordenou.
O sacerdote estava lá, com um rastro de sangue no rosto para combinar com a túnica vermelha.
— Mãos… — A voz dele tremeu. — Segure a mão dela.
Magnus pegou a mão de Cleo. Ela olhou para ele, mas não encontrou seu olhar. Os olhos dele estavam virados para a frente, o maxilar tenso.
— Repita comigo — o sacerdote disse depois de um instante. — Eu, Cleiona Aurora Bellos, aceito Magnus Lukas Damora como meu marido e futuro rei. Um laço que começará hoje e durará por toda a eternidade.
A garganta dela parecia fechada, o rosto ardia, as bochechas estavam molhadas de lágrimas. Para todo lugar que olhava, via sangue, morte e desespero.
— Repita. — O tom de voz do rei foi grave e perigoso. — Ou vai assistir enquanto corto seu amigo em pedacinhos. Primeiro vou cortar os dedos dos pés, depois os próprios pés. Depois os dedos das mãos e as mãos. Vou dar cada pedaço para os meus cachorros comerem enquanto ele implora por uma misericórdia que nunca virá. Meus cachorros adoram carne fresca. — Os olhos dele estavam cheios de fúria. — Repita.
— Eu, Cleiona Aurora Bellos — ela falou com a voz engasgada —, aceito Magnus Lukas Damora como meu marido e futuro rei. Um laço que começará hoje e durará por toda a eternidade.
O sacerdote ungiu sua testa com o óleo perfumado. Apesar de ele ser de Limeros, ela jurou ter visto piedade em seus olhos.
— Assim sendo, e como deve ser, desse dia em diante, até a morte e depois dela. Vocês estão casados. São marido e mulher. Está feito.
Está feito.

2 comentários:

  1. Esse Gaius é tão odioso! Que raiva dele!! Coitada da Cleo, ô menina que sofre!!

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  2. Coitado de todos que atravessam o caminho dele, isso sim.
    Cleo muita força pra você, vai precisar.
    Que ódio desse rei. Quando Magnus descobrir que o pai matou a rainha...ele vai enfrenta lo.

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