13 de agosto de 2018

Capítulo 2

CLEO
AURANOS

— Hoje tenho a satisfação de anunciar o noivado e iminente casamento, daqui a quarenta dias, de meu filho, príncipe Magnus Lukas Damora, e a adorada princesa Cleiona Aurora Bellos, de Auranos.
Cleo ficou sem ar.
O mundo virou um borrão diante de seus olhos, e seu ouvido começou a zumbir. Ela sentiu um puxão quando o rei a arrastou para perto, e em seguida algo quente e seco tocou sua mão. Ela olhou e viu Magnus ao seu lado, com o rosto impassível e indecifrável de sempre. Seus cabelos pretos caíam sobre a testa, emoldurando seus olhos castanho-escuros enquanto ele mirava a multidão — uma multidão que vibrava e gritava, como se aquele horror de embrulhar o estômago fosse uma boa notícia.
Finalmente, depois do que pareceu uma eternidade, Magnus soltou a mão dela e se virou para a mãe, que havia segurado o braço dele.
Aron agarrou o pulso de Cleo e a arrastou pelo terraço de volta para o castelo, atrás dos demais. Seu hálito, como sempre, cheirava a vinho e fumaça cáustica de cigarrilha.
— O que acabou de acontecer lá fora? — ele murmurou.
— Eu… eu não sei.
O rosto de Aron estava vermelho como uma beterraba.
— Você sabia que isso ia acontecer? Que ele pretendia romper nosso noivado?
— Não, é claro que não! Eu não tinha ideia até… até… — Pela deusa, o que havia acabado de acontecer? Não podia ser verdade!
— Ele não pode mudar o que já está determinado — Aron estava tão furioso que chegava a cuspir. — Nós devemos ficar juntos, e ponto final! Já estava decidido!
— É claro que sim — ela conseguiu dizer, com muito mais reserva do que sentia. Ela não tinha nenhuma afeição profunda pelo belo porém insosso lorde Aron, mas preferia passar mil anos em sua companhia do que uma hora sozinha com Magnus.
O príncipe sombrio havia matado o primeiro rapaz que ela amara — o atacara pelas costas com uma espada enquanto Theon tentava protegê-la. A lembrança da morte de Theon fez uma nova onda de sofrimento crescer dentro dela, quente e densa o bastante para fazê-la engasgar.
Aprisionada havia semanas no palácio depois de ser capturada, Cleo conhecera as profundezas do desespero e do luto — por Theon; por seu pai; por sua irmã, Emilia. Tudo fora arrancado dela. Tanta tristeza abrira um buraco frio e sem fundo em seu peito, que nunca seria preenchido. Ela poderia se perder em tamanha escuridão se não tivesse cuidado.
— Vou dar um jeito nisso. — O cheiro de vinho no hálito de Aron estava ainda mais forte do que o normal. Ele olhou na direção do rei quando este saiu do terraço. — Vossa majestade, é fundamental que eu fale com o senhor imediatamente!
O rei tinha um sorriso reluzente no rosto, combinando com a coroa dourada incrustada de rubis que os dedos de Cleo coçavam para arrancar de sua cabeça.
Aquela coroa e tudo o que ela representava pertenciam ao seu pai.
Pertenciam a ela.
— Certamente eu ficaria feliz em falar com você sobre qualquer assunto, lorde Aron.
— Em particular, vossa majestade.
O rei Gaius ergueu uma sobrancelha. Um humor sombrio iluminou seu rosto quando ele encarou o jovem lorde que esbravejava diante dele.
— Se você insiste.
Os dois saíram sem demora, deixando Cleo ali sozinha, apoiada na parede fria e lisa enquanto tentava retomar o fôlego e os pensamentos — ambos acelerados.
Magnus foi o próximo a sair do terraço. Ele olhou para ela, sem expressão.
— Parece que meu pai tinha uma surpresinha guardada para nós hoje, não é?
O príncipe era ao mesmo tempo friamente belo, como seu pai traiçoeiro, e imponentemente alto. Cleo tinha visto muitas meninas o observando nas últimas três semanas, os olhos brilhando de interesse. A única coisa que estragava sua beleza era uma cicatriz do lado direito do rosto, um arco que ia do alto da orelha até o canto da boca.
Um gosto amargo subiu até sua garganta ao vê-lo.
— Não tente me convencer de que não sabia nada sobre isso.
— Não estou tentando convencê-la de nada, princesa. Sinceramente, não estou muito interessado no que você pensa de mim ou de qualquer pessoa.
— Não vai acontecer. — A voz dela era baixa, mas firme. — Eu nunca vou me casar com você.
Ele deu de ombros preguiçosamente.
— Explique isso ao meu pai.
— Estou explicando a você.
— Meu pai toma as decisões, e ele gosta que sejam seguidas sem discussão. Sinta-se totalmente à vontade para brigar com ele sobre isso.
O ultraje que ela sentia rapidamente se dissipou, restando apenas a descrença.
— Isso só pode ser um sonho. Não, não um sonho: um pesadelo. Um pesadelo terrível.
Os lábios de Magnus se afinaram.
— Para nós dois, princesa. Não tenha dúvidas quanto a isso.
A rainha Althea se aproximou e segurou as mãos de Cleo. As dela eram secas e quentes, exatamente como as do filho. Parecia que ela estava tentando sorrir, mas a expressão era tão falsa em seu rosto de traços finos como seriam penas em uma cabra.
— Minha querida, é uma honra recebê-la em nossa família. Tenho certeza de que um dia você será uma rainha extraordinária.
Cleo mordeu a língua até quase tirar sangue para não dizer que ela já era rainha. Só que o Rei Sanguinário estava no caminho de seu título de direito.
— Teremos muito trabalho para planejar um casamento adequado para o meu filho — a rainha continuou, ignorando a falta de resposta de Cleo. — E precisamos fazer isso rápido, dada a proximidade da data. Ouvi falar de um estilista exemplar em Pico do Falcão que será perfeito para fazer seu vestido. Iremos até lá em breve. Será bom para o povo ver sua amada princesa dourada andando entre eles novamente. Elevará os espíritos em todo o reino.
Cleo não conseguia encontrar palavras, então nem tentou responder. Ela concordou com a cabeça e baixou os olhos para ocultar a raiva. Por entre os cílios, viu a rainha Althea olhar para Magnus, como se transmitisse algum tipo de mensagem através de seus olhos azul-claros. Depois ela acenou com a cabeça para os dois e seguiu pelo corredor.
— Minha mãe entende muito de moda e beleza — Magnus disse, displicente. — É a paixão dela, da qual ela sempre desejou que minha irmã compartilhasse.
A irmã dele — princesa Lucia. Já havia três semanas que a princesa limeriana estava em coma depois de ter sido ferida na explosão que escancarou a entrada do palácio e possibilitou ao rei Gaius e seu exército uma vitória violenta. Cleo havia notado que a menção à irmã enferma era a única coisa que parecia suscitar um pingo de emoção no olhar grave de Magnus. Muitos curandeiros a haviam examinado, entre eles os maiores e mais bem-sucedidos do reino. Ninguém conseguiu determinar o que havia de errado com ela ou descobrir qualquer ferimento que explicasse sua condição.
Cleo havia sugerido que sua querida amiga Mira Cassian, antiga dama de companhia de sua irmã, fosse designada criada de Lucia, na esperança de que o rei a considerasse útil demais para rebaixá-la a empregada da cozinha.
Felizmente, havia dado certo. Mira contou a Cleo que a princesa levantava de seu repouso como se estivesse em transe, apenas o suficiente para consumir alimentos especialmente triturados para garantir sua sobrevivência, mas nunca ficava totalmente consciente. Era um verdadeiro mistério o que havia acontecido com a princesa de Limeros.
— Vou deixar uma coisa bem clara, príncipe Magnus — Cleo disse com firmeza, esforçando-se para expulsar o tremor de sua voz. — Eu nunca serei forçada a me casar com alguém que eu odeie. E eu odeio você.
Magnus a observou por um instante, como se ela fosse algo que ele pudesse esmagar facilmente sob a sola da bota.
— Muito cuidado com o jeito que fala comigo, princesa Cleiona.
Ela empinou o queixo.
— Ou você vai fazer o quê? Enfiar uma espada em mim quando eu virar as costas, como fez com Theon? Seu covarde fraco!
Em um segundo, ele agarrou o braço dela com força suficiente para fazê-la estremecer e a empurrou contra a parede de pedra. A raiva transpareceu em seu olhar, e também algo inesperado — algo como dor.
— Se você dá valor à sua vida, princesa, nunca, jamais me chame de covarde novamente. Estou avisando.
Sua expressão exaltada era tão diferente do olhar gélido de sempre que ela ficou confusa. Ele havia ficado furioso ou magoado com suas palavras? Talvez as duas coisas?
— Me solte — ela sussurrou.
Os olhos dele — frios como diamantes negros, desalmados, cruéis — a imobilizaram por mais um instante, até que a soltou de forma tão abrupta que Cleo desabou junto à parede.
Um guarda vestindo o familiar uniforme vermelho limeriano se aproximou.
— Príncipe Magnus, seu pai requisita a presença do senhor e da princesa na sala do trono imediatamente.
Magnus finalmente desviou o olhar dela e se virou para o guarda.
— Muito bem.
O estômago de Cleo ficou embrulhado. Será que Aron havia sido bem-sucedido em sua argumentação contra aquele novo noivado?
Na sala do trono, o rei Gaius havia se instalado na poltrona dourada do pai dela. Esparramados no chão, a seus pés, estavam dois de seus cães horríveis — lébreis enormes e babões que rosnavam sempre que ela se aproximava demais. Para Cleo, pareciam mais demônios das terras sombrias do que cães.
Uma lembrança repentina de sua infância surgiu diante de seus olhos — o pai dela sentado naquele mesmo trono, os braços estendidos para ela, que conseguira escapar da rígida ama para correr direto até ele e subir em seu colo.
Ela rezou para que seus olhos não revelassem o quanto queria vingar a morte de seu pai. Por fora, ela não passava de uma adolescente, de corpo esguio e estatura pequena, nascida e criada com uma vida privilegiada, repleta de excessos e luxo. À primeira vista, ninguém veria Cleo como uma ameaça. Mas ela sabia que era. Seu coração agora batia por um propósito — a única coisa que ajudou a estancar a torrente de luto que se abatera sobre ela.
Vingança.
Cleo sabia que estava viva porque o rei Gaius via alguma vantagem em manter a princesa auraniana a salvo. Ele a usava como representante do que restara da linhagem real da família Bellos em todas as questões que diziam respeito às políticas do rei e seu poder sobre o povo auraniano. Ela era um pardal preso em uma gaiola dourada, levada para fora quando necessário, para mostrar a todos como era bela e bem-comportada.
Então ela seria bela e bem-comportada. Por enquanto.
Mas não para sempre.
— Minha querida — o rei disse quando ela e Magnus se aproximaram. — Você fica mais adorável a cada dia que passa. É impressionante.
E você fica cada vez mais odioso e repugnante.
— Obrigada, majestade — ela disse com o máximo de doçura possível. O rei era um lobo em pele de cordeiro, e ela nunca subestimaria a força de sua mordida.
— Ficou satisfeita com o anúncio-surpresa de hoje? — ele perguntou.
Ela se esforçou para que sua expressão controlada não desabasse.
— Fico muito grata por ter me concedido uma posição tão honrada em seu reino.
O sorriso dele se abriu, mas não condizia nem um pouco com seus olhos castanho-escuros — o mesmo tom dos de Magnus.
— E você, meu filho, certamente também foi pego de surpresa. Foi uma decisão de última hora, para dizer a verdade. Achei que o povo ficaria feliz, e eu estava certo. Todos ficaram.
— Como sempre — Magnus respondeu —, eu acato sua decisão.
O som da voz do príncipe, grave e firme, tão parecida com a do pai, deixou os nervos de Cleo mais à flor da pele do que já estavam.
— Lorde Aron quis falar comigo em particular — o rei disse.
Em particular? Meia dúzia de guardas estavam distribuídos pela sala, com dois do lado de fora da passagem arqueada que levava à sala do trono. Ao lado do rei, em um trono menor, estava a rainha Althea, olhando para a frente, com lábios comedidos que não revelavam emoção alguma. Ela podia muito bem estar dormindo com os olhos abertos.
Aron estava à direita, com os braços cruzados.
— Sim — ele afirmou, arrogante. — Expliquei ao rei que essa mudança é inaceitável. Que o povo espera ansiosamente por nosso casamento. Minha mãe já avançou muito no planejamento da cerimônia. Eu quis falar com o rei para que ele reconsiderasse a decisão de hoje. Existem muitas garotas nobres e bonitas em Auranos que seriam muito mais adequadas ao príncipe Magnus.
O rei Gaius inclinou a cabeça, observando Aron sem se preocupar em conter o riso, como se ele fosse um macaquinho treinado.
— Claro. E como você se sente em relação a essa mudança abrupta, princesa Cleiona?
A boca dela ficara seca depois de ouvir o breve discurso de Aron, que mais parecia a birra de uma criança quando os brinquedos eram recolhidos na hora de dormir. Aron estava tão acostumado a ter as coisas do seu jeito que seu bom senso fora totalmente prejudicado. No entanto, ela não podia culpá-lo totalmente por tentar salvar o pouco poder que ainda tinha no palácio. Mas, se fosse esperto — e ela sabia que a inteligência não era um dos fortes de Aron —, veria que Cleo não detinha mais nenhum poder por ali, não tinha influência alguma além de ser um fantoche para manter o povo auraniano na linha e ganhar sua confiança.
Ela forçou um sorriso.
— Eu certamente me curvo diante de qualquer decisão que o sábio rei tomar em meu nome. — A falsidade das palavras se contorcia em sua garganta. — É só que… o argumento de Aron pode ter um certo fundamento. O reino já estava empolgado com a ideia de nós dois juntos depois da atitude muito… bem, muito corajosa de Aron para me proteger naquele dia no mercado paelsiano.
Ela estremeceu por dentro ao se lembrar do assassinato de Tomas Agallon, uma atitude que não teve nada a ver com proteção e sim com uma reação exagerada de Aron a um insulto pessoal.
— Garanto que isso foi considerado. — A coroa roubada do rei refletia a luz das tochas e brilhava. — Lorde Aron é muito bem aceito pelo povo auraniano, sem sombra de dúvida. Essa foi uma das razões que me levaram a conceder a ele o título de vassalo do rei.
Aron fez uma profunda reverência.
— E eu fico muito satisfeito com essa honra, vossa majestade.
— Vassalo do rei — Magnus murmurou atrás de Cleo, alto o bastante para apenas ela escutar. — Um título imponente demais para quem nunca esteve em uma batalha. Ridículo.
O rei Gaius observou Cleo atentamente.
— Deseja permanecer noiva de lorde Aron?
Ela quis responder imediatamente que sim — Aron, apesar dos pesares, era mais palatável do que Magnus —, mas parou para refletir. Não era ingênua o bastante para acreditar que tais “desejos” seriam concedidos. Depois de anunciar a data do casamento aos cidadãos, não havia chance alguma de o rei voltar atrás em sua proclamação. Concordar com Aron só a faria ser vista como tola — uma tola ingrata e desrespeitosa.
Cleo baixou a cabeça e observou os cães aos pés do rei como se fosse tímida demais para olhar diretamente em seus olhos.
— Vossa majestade, desejo apenas agradá-lo.
Ele assentiu levemente com a cabeça, como se aquela fosse a resposta correta.
— Então fico satisfeito que você permita que eu tome essa decisão em seu nome.
Aron soltou um resmungo de desgosto.
— Ah, o que é isso, Cleo?!
Ela lhe lançou um olhar cauteloso, alertando-o silenciosamente a tomar cuidado com o que dizia.
— Aron, você precisa entender que o rei sabe o que é certo.
— Mas nós deveríamos ficar juntos — ele choramingou.
— Você encontrará outra noiva, Aron. Mas receio que não possa ser eu.
A raiva brilhou em seus olhos, e ele se virou para encarar o príncipe Magnus.
— É muito importante que uma noiva seja pura até a noite do casamento. Não é?
O rosto de Cleo começou a pegar fogo.
— Aron!
Ele apontou para ela com selvageria.
— Cleo já entregou sua castidade a mim. Ela não é pura!
Fez-se um silêncio mortal.
Cleo lutou para manter o controle, mas sentiu que ele escorregava por entre os dedos. Lá estava seu terrível segredo — até então escondido de todos — exposto como um peixe tirado da água, agitado e viscoso para todo mundo ver.
Ela tinha lembranças enevoadas de uma festa, vinho demais, uma princesa mimada que gostava de se esquecer de tudo e se divertir — e Aron, um lorde belo e popular desejado por todas as suas amigas, que queria estar com ela mais do que qualquer outra pessoa. Quando ficou sóbria, Cleo se deu conta de que havia cometido um erro terrível ao sacrificar sua virgindade com um garoto tão vaidoso e superficial.
Ser vista agora como uma princesa desgraçada em uma terra que valorizava a pureza como a virtude mais importante de uma noiva podia significar sua derradeira queda. Ela perderia o pouco poder que lhe restava no palácio.
Restava apenas uma opção para se salvar daquela situação.
— Aron — ela disse da maneira mais seca que conseguiu. — Quase sinto pena de você por precisar mentir a esse extremo. Não consegue simplesmente aceitar a derrota com elegância?
Os olhos dele se arregalaram tanto que ela conseguiu ver a parte branca em volta de suas íris.
— Não é mentira! Você me quis tanto quanto eu quis você! Precisa admitir que essa é a verdade e agradecer por eu ainda querê-la!
O rei Gaius se encostou no trono e olhou para eles, com as mãos unidas.
— Parece que temos um desentendimento aqui. A verdade é muito importante para mim; a coisa mais importante de todas. Mentiras não são toleradas. Princesa, está dizendo que este rapaz mentiria sobre algo tão importante?
— Sim — ela disse sem hesitação e lançou ao rei um olhar perspicaz. — Ele está mentindo.
— Cleo! —Aron vociferou, ultrajado.
— Então — o rei disse —, não tenho outra escolha além de acreditar em você. — Ele olhou rapidamente para Magnus. — Diga-me, meu filho, o que costumamos fazer em Limeros com quem mente para o rei?
O rosto de Magnus estava indecifrável como sempre, os braços cruzados diante do peito.
— A penalidade por mentir é ter a língua cortada.
O rei assentiu, depois fez um gesto para os guardas.
Dois guardas deram um passo à frente e agarraram os braços de Aron com força. Ele perdeu o ar e seu rosto encheu-se de medo.
— Vossa majestade não pode fazer isso! Não estou mentindo! Nunca mentiria para o senhor; obedeço suas ordens em todos os sentidos. O senhor é meu rei agora! Por favor, acredite em mim!
O rei não disse nada, mas fez um sinal com a cabeça para outro guarda, que se aproximou tirando uma adaga da bainha em sua cintura.
Aron foi obrigado a ficar de joelhos. Um quarto guarda segurou seu maxilar, agarrou um punhado de cabelo, e abriu a boca dele à força. O guarda usou uma pinça de metal para puxar sua língua para fora, e Aron soltou um grito sufocado de terror.
Cleo assistia a tudo isso completamente em choque.
Ela odiava Aron. Odiava ter compartilhado seu corpo com ele — consolando-se apenas com o fato de que estava bêbada demais para se lembrar de muita coisa do ato em si. Odiava-o por ter matado Tomas Agallon e não sentir um pingo de remorso. Odiava que Aron fosse tão insensível a ponto de não entender por que tudo aquilo era indigno para ela.
Ele merecia ser punido de muitas maneiras. De verdade.
Mas não por isso.
Ele havia dito a verdade ao rei.
No entanto… admitir que ela havia mentido…
Ó, deusa Cleiona… Cleo raramente rezava para a divindade auraniana de quem recebera o nome, mas certamente abriria uma exceção dessa vez. Por favor, por favor, me ajude.
Ela podia deixar aquilo acontecer sem protestar. Poderia ser seu segredo até o dia de sua morte. Ninguém nunca mais acreditaria em Aron depois daquela punição.
Seus punhos estavam tão apertados que as unhas cravavam dolorosamente na palma das mãos enquanto ela via a adaga se aproximar da boca de Aron. Ele soltou um guincho aterrorizado.
— Pare! — Cleo gritou, deixando a palavra escapar antes mesmo de se dar conta. Ela tremia dos pés à cabeça, o coração batendo tão forte que sacudia seu corpo todo. — Não faça isso! Por favor, não! Ele não mentiu. Ele… estava dizendo a verdade! Ficamos juntos uma única vez. Eu entreguei minha castidade a ele conscientemente e sem reservas!
O guarda que segurava a adaga ficou paralisado, com a borda da lâmina pressionando a língua rosada e contorcida de Aron.
— Bem — o rei Gaius disse com suavidade, mas Cleo nunca tinha ouvido tanta ameaça na voz de alguém. — Isso certamente muda as coisas, não é?

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