13 de agosto de 2018

Capítulo 19

LUCIA
AURANOS

A escuridão tornou-se o mundo de Lucia, e dois pensamentos terríveis ecoavam em sua cabeça, chocando-se um contra o outro repetidas vezes.
Minha mãe acha que sou má.
Minha mãe me quer morta.
Finalmente, depois de muito tempo esperando no vazio sufocante, veio um amanhecer, e ela se viu novamente no familiar prado verde e exuberante, de grama brilhante e árvores cristalinas.
O Santuário.
Ou ao menos uma versão onírica do Santuário. Mas parecia tão real — desde a brisa quente, passando pela grama esmeralda sob seus pés descalços, até a visão da cidade cintilante ao longe, sob o aparentemente infinito céu azul e límpido. Tão real que era difícil saber a diferença.
Lucia sentiu a presença de Ioannes atrás dela, mas não se virou.
— Você me deixou por muito tempo — ela disse em voz baixa.
— Peço desculpas, princesa.
Antes daquele, eles haviam compartilhado quatro sonhos. Sonhos em que caminhavam pelo prado até as rodas de pedra incrustadas de diamantes, conversando sobre tudo. Sobre a infância de Lucia, sobre seu relacionamento com Magnus e as complicações recentes, sobre sua mãe, sobre seu pai, sobre sua magia. Talvez ela tenha falado demais, mas com Ioannes se sentia… à vontade. O que era surpreendente, considerando quem e o que ele era. Um vigilante imortal de dois mil anos de idade.
Ela nunca tinha se sentido daquele jeito antes. Em relação a ninguém. Ele fazia perguntas sobre ela, tantas perguntas. E ela respondia. Mas ele era muito hábil em se esquivar das perguntas que ela fazia sobre ele. Lucia ainda não sabia por que ele a levara para lá, e sua mente ficava enevoada sempre que ia para aquele prado. Apesar de suas melhores intenções, a gravidade do que havia acontecido em sua vida real parecia desaparecer quando ela estava ali.
Morte. Destruição. Profecia. Magia.
Ela precisava de respostas. Talvez ele a estivesse evitando de propósito desde o último sonho — deixando-a à deriva no sono durante todo esse tempo.
Aquela, então, era sua chance de descobrir mais coisas, e ela não se deixaria distrair pela criatura dourada que fazia qualquer outro pensamento escapar de sua mente. Lucia se virou para encará-lo diretamente.
— O que você quer de mim?
O belo rapaz sorriu para ela como se não pudesse conter a expressão em seu rosto.
— É bom ver você também, princesa.
Que sorriso… O olhar dela passou pelos lábios dele antes de voltar para os olhos prateados.
— Minha mãe quer me matar por causa de meus elementia.
O sorriso dele desapareceu.
— Garanto que ela não fará nada disso.
Lucia olhou para a mão e invocou o fogo. A chama se acendeu imediatamente.
— O poder que tenho vai me corromper? Vai me tornar uma pessoa má?
— Os elementia não são bons nem maus. Simplesmente são. O mundo foi criado a partir dos elementos. Eu fui criado a partir dos elementos.
— E você não é mau. — Apesar das chamas, ela sentiu um calafrio quando Ioannes se aproximou.
Outro sorriso.
— O mal é uma escolha que se faz, não um estado natural do ser.
— Sempre?
Ele franziu a sobrancelha.
— Isso preocupa você.
— É claro que sim. — Ela esfregou as mãos, extinguindo o fogo. — Como eu me livro disso?
— Como se livra do quê?
— Da minha magia. E se eu não a quiser? E se eu quiser ser normal?
Ioannes ficou olhando para ela como se não entendesse.
— Você não pode mudar o que você é. Os elementia fazem parte de você.
— Como pode afirmar isso se eu não os tinha até os dezesseis anos? Minha vida era… bem, era monótona e às vezes melancólica, mas não era assim. Eu não era capaz de matar só de pensar em atear fogo a alguém. Eu não era vista com medo e ódio. Não precisava me preocupar em dominar algo sombrio e desagradável que se infiltra pela minha pele como um veneno.
— Não deve pensar em sua magia desse jeito, princesa. Não é uma maldição, é um dom. Um dom que muitos dariam tudo para ter, inclusive muitos imortais.
Ela balançou a cabeça.
— Vigilantes são feitos de magia.
— Feitos a partir dela, sim. Mas não podemos utilizá-la com tanta facilidade quanto você.
Lucia caminhou até a borda do prado, os braços cruzados firme diante do peito.
— Para que precisa da minha magia, Ioannes?
Ela precisava saber. Não conseguia pensar em outro motivo para aquele garoto continuar a visitá-la se não quisesse usá-la de alguma maneira.
Garoto, não, ela lembrou a si mesma. Nem perto disso.
— Não há tempo suficiente para explicar. — Ele passou a mão pelos cabelos cor de bronze e voltou a olhar na direção da cidade.
— Não há tempo suficiente antes de quê?
— Não está sentindo? Você está prestes a acordar. E dessa vez vai ficar acordada. Sei disso porque estou usando muita energia para continuar neste sonho com você.
O coração dela acelerou. Ela estava acordando? Finalmente?
Era tudo o que queria. Mas agora… havia muito mais que precisava ser dito. Ela não estava pronta para dizer adeus a Ioannes. Ainda não. Só de pensar, seu coração doía.
— Como verei você de novo? Vai visitar meus sonhos comuns?
— Sim. — Ioannes se aproximou e pegou as mãos dela, tenso. — Tem tanta coisa que quero contar a você. Que eu… preciso contar a você, mesmo que eu tenha jurado segredo.
Tão real… ele parecia tão real. Pele quente, mãos fortes. Ele tinha cheiro de especiarias — exótico e completamente inesquecível.
— Então conte agora, rápido. Diga o precisa dizer. Não me deixe esperando.
— Você confia em mim, princesa?
— Não consigo pensar em nenhum motivo para confiar — ela sussurrou, os olhos presos nos dele.
Ele levantou a sobrancelha.
— Nenhum motivo?
Ela quase sorriu.
— Esses segredos… são segredos sobre mim, não é?
Ele confirmou com a cabeça.
— Preciso saber tudo o que a profecia revelava sobre mim. Só sei que ela dizia que eu me tornaria uma feiticeira capaz de canalizar as quatro partes dos elementia.
— Sim, dizia isso. E você pode.
Ela sentiu uma onda de frustração.
— Mas para que propósito? Eu posso usar a magia, mas não quero.
Ele apertou as mãos dela com mais força.
— Existem mais coisas na profecia de Eva; uma parte mais importante. Mais bem guardada.
— Conte.
— Segundo ela, é você quem nos libertará dessa prisão e nos reunirá com a Tétrade. — Ele olhou na direção da cidade de cristal com preocupação em seu belo rosto. — É você quem vai nos salvar da destruição.
Ela procurou o olhar dele.
— O que quer dizer com destruição?
Ele balançou a cabeça.
— Sem a posse da Tétrade, a magia que existia aqui mil anos atrás está desaparecendo pouco a pouco. Quando acabar, os elementia não existirão mais. Não só no Santuário, mas em todo o mundo. Toda vida é criada pela magia dos elementos. E, sem a magia, não sobra nada. Entende, princesa? Você é a chave para o nosso futuro. Para o futuro de todos.
Ela sacudiu a cabeça.
— É impossível. Eu não sei como fazer isso. Acha que posso ajudar a salvar o mundo?
A expressão dele ficou perturbada.
— Eu não devia ter revelado isso. Ainda não. Ela ficará brava comigo, mas… mas você tem o direito de saber.
— De quem está falando? De sua amiga Phaedra? Aquela que nos interrompeu outro dia?
Ele negou com a cabeça.
— Não. Outra pessoa. Não diga a ninguém o que contei a você, princesa. E não confie em ninguém. Ninguém. Nem naqueles que sentir que são dignos de sua confiança.
— Ioannes… — Ele estava tão cheio de angústia, tão cheio de paixão… e tudo parecia direcionado a ela.
— Eu não deveria sentir nada por você — ele sussurrou, puxando-a para mais perto. Ela não conseguia tirar os olhos dele. — Quando eu a vigiava de longe, havia aquela distância. Aquela objetividade. Agora me falta isso.
Lucia mal podia respirar enquanto o observava, sua pele ficava mais quente onde ele a tocava.
— Você se tornou muito importante para mim — ele continuou, hesitante. — Mais importante do que ouso admitir a mim mesmo. Não entendia como um imortal poderia se apaixonar por um mortal. Não fazia sentido. Achei que eram tolos por abrir mão da eternidade por um punhado de anos no mundo mortal com quem havia aprisionado seu coração. Não penso mais assim. Existem mortais por quem vale a pena sacrificar a eternidade.
O calor em seu rosto foi esquecido. Ela percebeu que estava chegando mais perto, tão perto, dele.
— Não devo visitar seus sonhos de novo nunca mais — ele disse, com uma expressão de dor no rosto. — Existem perigos pela frente que não pode compreender. Mas, não… Tem que haver outros modos de conseguir o que é preciso. E se houver, eu vou descobrir. Prometo a você.
Ela não tinha ideia do que ele estava falando, pensava apenas que ele tinha admitido estar se apaixonando por ela. Não tinha?
— Sim, você precisa visitar meus sonhos. Não pode me deixar agora. Você é importante para mim também, Ioannes. Eu… eu preciso de você em minha vida.
A angústia permaneceu em seus olhos prateados. Tão incrivelmente intensos. Tão cheio das respostas de que precisava para perguntas que ainda nem havia feito. Então ele segurou o rosto dela entre as mãos e se inclinou para encostar os lábios nos dela.
Talvez sua intenção fosse um beijo casto, mas logo se tornou tudo menos isso. As mãos dele escorregaram por sua cintura e a puxaram mais para perto, aumentando a intensidade do beijo. Ela tocou o rosto dele, o queixo, e passou os dedos por seus cabelos. Ele tinha gosto de néctar, de mel com especiarias… doce e viciante. Ela queria mais. Suas mãos passaram para as amarras da camisa dele, puxando-as para revelar seu peito nu. Ele tinha uma marca, um espiral de ouro brilhante, sobre o coração.
— O que é isso?
— Um sinal do que eu sou.
Tão lindo. Ele era tão lindo que ela não queria mais acordar. Queria ficar com ele para sempre.
— Eu amo você, Ioannes — ela sussurrou junto aos lábios dele. Ele ficou tenso com aquelas palavras, e Lucia logo se arrependeu de tê-las deixado escapar, mas então a boca dele estava sobre a dela novamente, forte e exigente, roubando ao mesmo tempo seu fôlego e seu coração…
E então a escuridão se espalhou pelo prado, apagando-o de sua visão e arrastando Ioannes para longe dela.
Um grito ficou preso em sua garganta.
Lucia abriu os olhos lentamente e se viu em uma grande cama com dossel, sob lençóis macios de seda branca. Seu olhar estava fixo em uma vela tremeluzente na mesa de cabeceira.
Uma dor estranha e desconhecida apertou seu coração.
Ioannes.
Uma jovem usando um vestido cinza simples cochilava em uma cadeira próxima. Em um instante, os olhos dela se abriram e depois se arregalaram.
— Vossa alteza… está acordada!
— Água — Lucia conseguiu dizer.
A menina correu para pegar água.
— Devo informar o rei imediatamente.
— Ainda não. Por favor, me dê um instante antes de fazer qualquer coisa.
Claro, a menina obedeceu. Ela trouxe água, que Lucia bebeu após uma breve hesitação. Depois a menina buscou frutas, queijo e pão.
— Dois meses — Lucia sussurrou com desalento quando perguntou quanto tempo passou dormindo. — Como sobrevivi por tanto tempo?
— Você conseguiu aceitar uma bebida preparada especialmente para isso, que a sustentou — a menina explicou. — Os curandeiros disseram que foi um pequeno milagre.
Sim, um milagre. Um milagre que permitiu que sua mãe administrasse a poção que a mantinha em sono profundo. Um tremor de raiva percorreu seu corpo, e o copo que ela segurava se estilhaçou.
— Princesa! — a criada gritou, claramente com muito medo de que ela tivesse se machucado, enquanto começava a recolher os cacos de vidro afiados.
Lucia olhou para o sangue em sua mão, inclinando a cabeça enquanto analisava o ferimento dolorido. O Rei Sanguinário era seu pai. Isso fazia dela a Princesa Sanguinária? Seu sangue era de um vermelho tão vivo que quase brilhava.
Gotas escarlate caíram sobre os lençóis branquíssimos. A menina rapidamente envolveu a mão de Lucia com um pano.
Lucia a afastou.
— Não é nada.
— Vou buscar lençóis limpos.
Lucia olhou para ela.
— Não fique tão assustada. Como eu disse, não é nada.
Ela desenrolou a bandagem e se concentrou no corte. Sua mão começou a brilhar com uma luz dourada, bela e quente. Um segundo depois, o ferimento estava completamente curado.
Sua mãe esteve errada sobre ela. Ela não era má. Aquilo não era mau. Usar seus elementia, principalmente depois de uma ausência tão longa, parecia certo. Parecia bom.
— Ouvi rumores — a menina sussurrou, impressionada — sobre o que você é capaz de fazer.
A menina perturbava muito mais do que uma simples ratinha deveria.
— Rumores que eu sugiro tirar da cabeça antes que criem dentes afiados e devorem você.
A menina empalideceu.
— Sim, vossa graça.
— Traga o meu irmão aqui. Apenas o meu irmão.
Quando a ratinha saiu apressada, Lucia ficou chocada com a grosseria de suas palavras. Ela normalmente tratava os criados com muito mais gentileza. O que estava acontecendo?
Lucia virou o rosto para a janela do terraço daquele quarto desconhecido. Olhou para o céu azul, coberto de nuvens brancas e macias, e para a paisagem verde ao fundo. Inegavelmente lindo, mas não era a sua casa. Não era a perfeita Limeros, branca e coberta de gelo.
Um falcão dourado pousou na grade do terraço e, ao vê-lo, Lucia se sentou imediatamente, ficando zonza pelo esforço. O falcão a analisou por vários instantes, com a cabeça inclinada.
— Ioannes? — ela sussurrou. — É você?
As portas pesadas do quarto se abriram, batendo na parede, e o pássaro saiu voando de seu poleiro. Lucia virou incomodada para a porta e encontrou Magnus ali parado.
— Lucia… — Ele rapidamente se colocou ao lado dela. — Juro pela deusa, se dormir de novo, ficarei furioso com você!
Apesar do lampejo de irritação por Magnus ter espantado o falcão, era bom vê-lo novamente. Os cabelos escuros haviam crescido o bastante para esconder seus olhos castanhos. Ela não tinha percebido isso no pouco tempo que ficara acordada da última vez.
— Não vou dormir de novo, porque não vou deixar que isso aconteça. Magnus, nossa mãe estava colocando uma poção na minha água. Foi ela que me manteve dormindo esse tempo todo.
Ele a fitou.
— Por que ela faria isso?
— Porque ela acha que sou má. Ela me disse que queria me matar. — Ela estendeu o braço para segurar a mão dele. — Nunca mais quero ver essa mulher de novo, ou não me responsabilizo pelo que poderei fazer para me proteger. Ela sempre me odiou, Magnus. Agora eu sinto exatamente o mesmo em relação a ela.
A chama de cada vela no quarto de repente aumentou quinze centímetros, ardendo tanto quanto as emoções de Lucia. Magnus as observou com cautela antes de voltar os olhos para a irmã.
— Lucia… nossa mãe está morta. Ela foi assassinada por rebeldes há uma semana e meia.
— Morta? — A boca de Lucia ficou seca. Em seguida, as chamas que ela havia invocado com um simples pensamento se extinguiram completamente. Ela esperava sentir algum tipo de reação – sofrimento, tristeza ou… qualquer coisa que fosse. Mas não havia nada.
— Eu vou encontrar o assassino. Juro que vou. E o farei pagar por isso. — A voz de Magnus falhou, e ele se soltou da mão dela para andar de um lado para o outro, mantendo o rosto nas sombras.
— Sinto muito pela sua perda — ela sussurrou.
— Uma perda para todos nós.
Ele sofria pela morte da mãe profundamente. Mas Lucia percebeu que não sentia o mesmo.
Magnus ficou vagando pelo quarto, passando a mão distraído sobre a cicatriz em seu rosto. Ele sempre fazia isso quando estava imerso em seus pensamentos, mesmo sem perceber.
— O corpo de nossa mãe foi encontrado com o de uma bruxa, também assassinada. Provavelmente era essa bruxa que fornecia a poção para dormir. Só não entendo por que ela faria uma coisa dessas. Em que estava pensando?
Então sua mãe se encontrava com bruxas. Para combater fogo com fogo, magia com magia.
— Nunca saberemos ao certo — ela disse. Lucia estendeu o braço para Magnus e ele voltou para o seu lado, pegando sua mão novamente. — Me ajude a levantar. Preciso sair desta cama.
Ele fez o que ela pediu, servindo de apoio. Mas assim que seu peso recaiu sobre as pernas, ela viu que não tinha forças para ficar em pé sozinha.
— Receio que ainda não seja possível — ele disse, ajudando-a a voltar para a cama. — Você precisa descansar.
— Estive descansando por dois meses!
Um sorriso cansado apareceu nos cantos da boca dele, embora seus olhos sombrios estivessem repletos de luto.
— Terá de esperar alguns dias. Você não vai a lugar nenhum hoje. É uma pena, realmente. Se fosse qualquer outro dia, eu poderia ficar aqui até o cair da noite e inteirá-la de tudo o que aconteceu nesse período. Por exemplo, como me sinto aprisionado em Auranos. Sempre claro e ensolarado e encantadoramente verde… e eu realmente não poderia odiar mais este lugar. Tudo o que queria era me juntar à perseguição do rebelde que matou nossa mãe. Mas terei de esperar.
— Esperar o quê?
Magnus se levantou da cama e apoiou o braço em sua estrutura.
— Até eu voltar.
— Aonde você vai?
Ele franziu o cenho. Era como se não quisesse dizer seus pensamentos em voz alta.
— Magnus, me diga, o que há de errado?
— Hoje é um dia importante, Lucia. Acho até irônico que, entre todos os dias, justo hoje você finalmente voltou para nós. Para mim.
— O que tem hoje?
— É o dia do meu casamento.
Ela ficou boquiaberta e se esforçou para se sentar em meio às almofadas e travesseiros que a cercavam.
— O quê? Com quem vai se casar?
Ele cerrou os dentes.
— Com a princesa Cleiona Bellos.
Lucia não conseguia acreditar no que estava ouvindo.
— Foi arranjado.
Magnus olhou para ela.
— Ah, não. Imagine. Desde que ajudei a tomar o reino de seu pai e destruir sua vida, não consegui me conter e me apaixonei perdidamente por ela. Sim, é obvio que foi arranjado.
Seu irmão, comprometido com a princesa Cleiona — a princesa dourada de Auranos!
— E você não está satisfeito.
Magnus esfregou a testa como se só pensar naquilo já fosse doloroso.
— Satisfeito por estar prestes a me casar com uma garota que me odeia? E por quem não sinto nada? Tudo para ajudar os planos políticos do nosso pai? Diria que “não satisfeito” é um eufemismo para como me sinto.
Ela conseguia entender por que uma união tão estranha fazia sentido, apesar da surpresa inicial. Mas parecia totalmente errado.
— Ele pode ser o rei e seu pai, mas não é seu mestre e senhor, e você não é um escravo dele. Recuse-se a casar com ela.
Ele a observou por um longo momento.
— Você quer que eu me recuse?
— Isso não tem nada a ver comigo, Magnus. É a sua vida, o seu futuro.
Pela expressão súbita de tristeza, Lucia soube que aquela não era a reposta que ele esperava.
Ela se encolheu por dentro com a lembrança de Magnus admitindo seu desejo profundo por ela e dando-lhe um beijo que ela não queria e não havia retribuído.
— Nada mudou entre nós, Magnus — ela sussurrou. — Por favor, entenda isso.
— Eu entendo.
— Tem certeza?
— Sim — ele sibilou.
Eles podiam não ter o mesmo sangue, mas, para Lucia, ele era seu irmão em todos os sentidos. Sentir qualquer outra coisa por Magnus era impossível. Quando ele a beijara, ela havia sentido apenas repulsa.
Mas quando Ioannes a beijou…
— Não chore — Magnus disse, estendendo a mão para secar gentilmente as lágrimas de seu rosto, lágrimas que ela se surpreendeu por estar derramando. — Devo me casar com a princesa. Não tenho escolha.
— Então lhe desejo tudo de bom, meu irmão.
Ela não pôde deixar de notar que sua escolha de palavras o fez se encolher. Ela o havia decepcionado, mas não podia fazer nada sobre isso. Não amava Magnus como ele gostaria. E nunca amaria.
Lucia afastou as mãos dele e se virou novamente para o terraço, procurando qualquer sinal do falcão dourado que estivera ali antes, desejando desesperadamente que Ioannes a visitasse logo e pudesse guiá-la. E pudesse ficar com ela.
De alguma forma, de algum jeito.

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