13 de agosto de 2018

Capítulo 18

JONAS
TERRAS SELVAGENS

O mesmo falcão estava de volta, empoleirado nas árvores. A ave não tirava os olhos de Jonas durante a maior parte do dia. Talvez ele estivesse paranoico, principalmente porque não acreditar em lendas… mas, ainda assim. Se fosse uma vigilante, então Jonas esperava que ela aprovasse o plano que ele havia acabado de expor a seus rebeldes, explicando como assassinariam o rei Gaius e o príncipe Magnus no casamento da princesa.
— Vamos ver se entendi — Lysandra foi a primeira a falar quando ele terminou. — Você não vai atacar a Estrada de Sangue, como eu quero, mas acha que pode entrar no casamento real no Templo de Cleiona e matar tanto o rei quanto o príncipe lá dentro.
— Foi o que eu disse, não foi?
— Achei que talvez pudesse ter ouvido mal.
— Algum problema com meu plano?
— Vários problemas, na verdade. — A menina parecia impressionada, como se ele tivesse conseguido surpreendê-la. Ela estava ao lado de Brion, que olhava para Jonas estupefato.
— Mais alguém com problemas? — Jonas olhou em volta para o resto do grupo. Os rebeldes falavam em voz baixa uns com os outros, olhando para ele com expressões que variavam de interesse a surpresa e cautela. — Ou Lysandra é a única que sempre quer se opor a mim em cada decisão que tomo?
— Já fomos quase massacrados pelo rei uma vez. Você quer que ele tenha outra chance de fazer isso? — um garoto chamado Ivan disse. Originalmente, Jonas havia pensado que ele tinha vocação para a liderança, mas Ivan raramente aceitava ordens sem debater e reclamar. Tudo era uma briga com ele. E a coragem que demonstrava com seu tamanho e seus músculos não parecia ir muito além da superfície.
O argumento de Ivan era bom, mas não muito. Nenhum rebelde havia sido morto pelos guardas limerianos na noite em que invadiram o acampamento, o que era ao mesmo tempo um milagre e um alívio. O plano de se espalharem e depois se reencontrarem num local secundário havia dado certo. Jonas vira isso como um sinal de que deveriam continuar lutando.
Sim. No dia do casamento de Cleo.
— Vai funcionar — Jonas disse alto o suficiente para que todos os seus cinquenta rebeldes reunidos à sua volta pudessem escutar. — O rei Gaius vai cair.
— Mostre a ele — Lysandra disse.
Jonas franziu a testa.
— Mostrar o quê?
Brion deu um passo à frente. Ele tinha um pergaminho nas mãos, que desenrolou e segurou para Jonas ver.
Nele, havia o esboço do retrato de um garoto de cabelos escuros e uma proclamação.

JONAS AGALLON
PROCURADO POR SEQUESTRO E ASSASSINATO
LÍDER DOS REBELDES PAELSIANOS QUE SE OPÕEM AO REINADO JUSTO DO GRANDE E NOBRE REI GAIUS SOBRE TODA A MÍTICA
RECOMPENSA DE 10.000 CÊNTIMOS
VIVO OU MORTO

Ele ficou com a boca seca e devolveu o papel casualmente.
— Não se parece em nada comigo.
Lysandra resmungou com repulsa.
— Está vendo com o que estamos lidando aqui? Você está famoso.
— Isso não significa nada. Não impede nada. Além disso, posso ser culpado de sequestro, mas não matei ninguém. — Ainda não, pelo menos.
— Acha que mentiras deterão o rei? Ele quer acabar com você, e ofereceu uma recompensa aos gananciosos auranianos para ajudarem a localizá-lo.
— Por dez mil cêntimos, estou tentado a entregá-lo eu mesmo — Brion disse.
Jonas riu com nervosismo.
— Por dez mil cêntimos, estou tentado a me entregar.
— Não tem graça. — Lysandra olhou feio para os dois.
Ele tinha que concordar, não era. Mas não estava surpreso com a atitude do rei. Na verdade, era um bom sinal de que havia começado a considerar os rebeldes uma ameaça séria. Se Jonas tivesse que ser o rosto — embora mal desenhado — da resistência rebelde, ele assumiria o papel com orgulho.
— Eu achei que você iria gostar de uma proposta como essa, Lys — Jonas disse, tentando apaziguar a raiva que via surgir no rosto dela. — Desde que se juntou a nós, você tem insistido para atacarmos os campos de trabalho da estrada.
— E vi com meus próprios olhos como estamos despreparados para um ataque dessa magnitude. Agora sei que não podemos nos lançar em ataques aleatórios com tão poucas pessoas. Seremos massacrados se não tivermos um plano. Então estou bolando esse plano. Estou tentando descobrir qual ponto da estrada é o mais fraco, onde poderíamos fazer mais diferença.
— Você não pode dizer que é má ideia derrubar o rei, pode? Se ele estiver morto, a construção da estrada será interrompida. Certo?
Ela olhou feio para ele.
— Até aí eu concordo.
— Então não tem problema nenhum.
— Tem, sim. Ele precisa morrer, eu concordo. Mas esse será seu primeiro ato de verdadeira rebelião, além de destruir afrescos com a imagem dele? De repente, acha que se tornou um assassino furtivo, capaz de se esconder em um templo repleto de guardas e chegar perto o bastante para cravar uma lâmina tanto no rei quanto no príncipe, sem ninguém impedir. Mesmo com uma oferta de recompensa por sua captura espalhada por Auranos inteiro?
— Está preocupada com a minha segurança. — Ele forçou um sorriso nada sincero. — Que gentil de sua parte.
— Sei por que está fazendo isso — Lysandra levantou a voz para todos ouvirem. — Nosso líder quer que entremos em um casamento cheio de guardas só para poder salvar sua adorada donzela em perigo.
— Não é nada disso. — As palavras saíram por entre os dentes cerrados de Jonas. — É para livrar Paelsia da tirania do Rei Sanguinário. Para libertar nosso povo. Achei que você desejava isso assim como todos nós, mas agora está tentando dizer qualquer coisa para me dissuadir?
— Não estou dizendo que não seria a melhor coisa do universo ver o rei morrer e pagar por suas atrocidades. Sua morte seria a solução para todos os nossos problemas.
— Então o que está dizendo?
— Estou dizendo que acho que não vai dar certo — ela declarou sem rodeios. — Que infelizmente você está querendo dar um passo maior do que a perna. E não consegue enxergar isso sozinho porque foi cegado por cabelos dourados e olhos azul-esverdeados.
Jonas não havia contado a ninguém sobre o beijo na caverna — nem a Brion. Ainda não tinha certeza do que aquilo significava, se é que significava alguma coisa. Só sabia que ver Cleo ir embora para o acampamento dos guardas foi uma das coisas mais difíceis que já teve que suportar.
Os outros rebeldes murmuravam uns com os outros. Jonas não conseguia ouvir o que estavam dizendo, mas não parecia favorável a ele. Lysandra era como a ponta de uma lâmina que podia dividir aqueles rebeldes justo quando ele precisava que ficassem unidos.
— Chega de briga, vocês dois — Brion resmungou. — Não está ajudando em nada. Nunca ajuda. — Ele enrolou o pergaminho e o jogou na fogueira.
— Isso não tem nada a ver com a princesa — Jonas bufou, mas sabia que, pelo menos em parte, era mentira. Afinal, a ideia havia sido de Cleo, e ele ainda acreditava que era muito boa. — E eu não vou agir às cegas. A informação de Nerissa foi muito útil. Ela ouviu de pelo menos dois guardas que a maior parte da segurança do casamento ficará do lado de fora, para controlar a multidão. Do lado de dentro, estarão os convidados, os criados do templo, o sacerdote. Um punhado de guardas, no máximo. Posso nos colocar lá dentro para fazermos o que é preciso.
Lysandra cruzou os braços diante do peito.
— Como Nerissa conseguiu essa informação? Ah, espere, deixe-me adivinhar. Ela seduziu os guardas? Aquela menina tem alguma outra habilidade?
Sedução era a especialidade de Nerissa. E agora que nunca mais poderia colocar os pés em Pico do Falcão novamente, depois de ter auxiliado Jonas com o sequestro de Cleo, estava ávida para provar que podia ajudar os rebeldes. Na verdade, Nerissa havia manifestado grande interesse em seduzir o próprio Jonas. Embora ele tivesse recusado suas atenções, ficava muito feliz em poder utilizar a habilidade dela de outras formas.
— Brion — Jonas sussurrou. — Que tal me ajudar aqui?
— Nerissa não me seduziu — Brion disse. — Bem, pelo menos ainda não. Acho que vai acontecer mais cedo ou mais tarde. Tenho a impressão de que ela tem uma lista.
— Brion.
O amigo soltou um grande suspiro.
— Veja, Jonas, sei que você quer fazer isso. Que depois de tanto tempo sem nenhuma ação mais ousada, está louco para explorar qualquer oportunidade. Mas… não sei. Acho que Lys pode estar certa desta vez. É muito arriscado fazer isso agora. Você enxerga isso, não é?
Jonas ficou olhando para o amigo como se o visse pela primeira vez.
— É claro que é arriscado. Mas se der certo, valerá por tudo.
— E se não der… não valerá nada. E você estará morto.
— Está tomando partido dela.
A paciência estava se esgotando no olhar de Brion.
— Não é uma questão de tomar partido. É uma tentativa de ver a situação com clareza.
— Você costumava ser o primeiro a comprar uma briga. O que aconteceu? — O mau humor e a frustração aumentavam cada vez mais e, com eles, a falta de tato. — Ah, espere. Eu sei o que aconteceu. Lysandra aconteceu.
Qualquer cordialidade restante desapareceu do rosto de Brion.
— Isso é golpe baixo.
— Você não pensa direito quando se trata dela. Desculpe dizer, mas tomar o partido dela não vai fazê-la se apaixonar por você. Então devia parar de segui-la como um cachorrinho.
Ele finalmente olhou diretamente para o amigo, justo quando o punho de Brion o acertou bem no meio do rosto. Jonas cambaleou para trás.
— Se eu quisesse sua opinião — Brion vociferou. — Bateria em você até arrancá-la.
Jonas passou a mão sob o nariz.
— Me bata de novo e teremos um problema.
Dessa vez, Brion empurrou Jonas com tanta força que ele bateu no tronco de uma árvore.
Agora os rebeldes se manifestavam muito mais do que antes.
— Vamos, Jonas! Não deixe ele fazer isso.
— Acabe com ele, Brion!
— Vá para cima dele! Quero ver mais sangue!
Os paelsianos sempre gostaram de uma boa briga.
— Pare com isso — Jonas resmungou enquanto Brion se aproximava com os punhos cerrados.
— Ou o quê?
— Ou eu faço você parar.
Brion tinha a tendência de começar uma briga por qualquer coisa, mas nunca havia lutado contra Jonas. Apesar do alerta, Brion continuou se aproximando, mas Jonas estava pronto dessa vez. Ele deu um soco no estômago de Brion, depois no queixo, jogando o amigo para trás e o derrubando no chão. Lysandra correu para o lado do garoto, olhando feio para Jonas.
— Continuo achando que ela está certa e você está errado — Brion conseguiu resmungar. — Fique à vontade para ir atrás do rei no casamento, mas será por sua conta e risco.
Jonas se virou para os outros rebeldes, furioso por seu melhor amigo — alguém que ele considerava um irmão — ter se recusado a ficar ao seu lado naquela decisão.
— Vocês conhecem meu plano. Com ou sem ajuda, estarei no casamento real em quatro dias. Eu mesmo irei assassinar o rei Gaius. Recebo de braços abertos qualquer voluntário que queira se juntar a mim. Depois disso, não seremos colocados em pergaminhos como procurados; seremos considerados heróis. Pensem nisso.
Então ele virou as costas para todos e adentrou a escuridão da floresta densa para esfriar a cabeça.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!