13 de agosto de 2018

Capítulo 17


MAGNUS
AURANOS

Magnus se revirou na cama a noite toda. Seus sonhos eram atormentados por imagens de Lucia chorando e implorando que ele a salvasse das sombras que avançavam como garras sobre ela. Ele finalmente a alcançava e a puxava para seus braços.
— Eu amo você — ele sussurrou. — Nunca vou deixar nada lhe fazer mal.
Ele passava os dedos por cabelos longos e sedosos, que inesperadamente passavam de escuros a loiro-claros.
Ele acordou, sentando-se na cama, coberto de suor. Já havia amanhecido.
— Chega — ele resmungou. Estava cheio dos pesadelos. Eles eram tão constantes ultimamente que ele já devia ter se acostumado. Cada sonho terrível parecia girar em torno da perda de Lucia. Sua obsessão contínua pela irmã adotiva o estava enlouquecendo.
Ele precisava sair do palácio, esfriar a cabeça. Nas últimas semanas, o lugar havia se tornado uma prisão para ele. Magnus se levantou e rapidamente vestiu roupas de montaria antes de seguir para o estábulo. Lá, selou um garanhão preto que o tratador alertara ter reputação de selvagem e indomado. Mas ele queria um cavalo que lhe proporcionasse algum desafio — qualquer coisa que tirasse seus problemas da cabeça. Ele montou e saiu sozinho.
Magnus cavalgou arduamente durante horas pelo interior verde de Auranos. Por volta do meio-dia, havia chegado a um trecho isolado das colinas conhecido como Vale Lesturne. Ele continuou rumo a oeste até chegar à costa, ao sul de Pico do Falcão, e apeou para poder andar na beira da praia e olhar o Mar Prateado. O mar estava calmo e azul, as ondas batiam suavemente em seus pés. Era o mesmo mar, mas muito diferente das águas cinzentas e revoltas que ele via do castelo de Limeros no alto do penhasco.
Por quanto tempo ele seria obrigado a permanecer naquela terra? Se Cleo estivesse morta… certamente seria o fim do noivado, e então talvez ele pudesse retornar a Limeros. Ainda assim, não conseguia ficar alegre ao pensar na morte da princesa. Ela não havia pedido aquele destino, assim como Amia e Mira.
Irrelevante. Por que ele gastava seu tempo pensando em coisas que não podia controlar?
E ficar ali parado, olhando para a água, também era uma grande perda de tempo. Além disso, suas botas estavam ficando molhadas.
Sem mais delongas, Magnus montou no cavalo e seguiu em direção ao castelo.
Mais ou menos no meio da tarde, ainda estava algumas horas a sudoeste da Cidade de Ouro quando passou por uma vila e se deu conta de que estava com fome — faminto, na verdade. Depois de hesitar por apenas um instante, entrou na vila. Havia optado por usar um simples manto negro que não revelava facilmente sua identidade. Ele manteve o capuz na cabeça, protegendo totalmente o rosto. E pareceu funcionar. Por baixo do manto, ele via os aldeões andando de um lado para o outro na cidadezinha agitada; ninguém parecia reconhecê-lo. Poucos chegavam a sequer olhar em sua direção.
Ele não estava surpreso. Apenas um punhado de pessoas daquele reino já havia visto o príncipe de perto, ou longe de seu pai infame. Ele podia lidar com isso.
Magnus amarrou o cavalo a um poste em frente a uma taverna cheia, entrou no local escuro e logo se aproximou do atendente do bar. Pediu sidra e um prato de carne e queijos, passando três moedas de prata sobre o balcão como pagamento. O atendente, um homem de barba cheia e sobrancelhas grossas, foi preparar seu pedido. Enquanto esperava, Magnus olhou em volta. Havia mais duas dúzias de pessoas na taverna, comendo e bebendo, rindo e conversando. Ele tentou se lembrar da última vez em que estivera entre homens comuns sem ser reconhecido. Havia sido… nunca.
Aquilo era novidade.
Quando seu prato chegou, ele começou a comer. A comida não era intragável, e, para ser sincero, era melhor do que aquilo que estava acostumado a comer no castelo de Limeros.
Ou talvez ele simplesmente estivesse com fome.
Quando estava na metade, um som se sobressaiu no burburinho das conversas na taverna. Era uma mulher chorando baixinho. Ele parou de comer e olhou para trás. Em uma mesa próxima, um homem olhava para ela, segurando seus braços e falando em voz baixa, como se a confortasse.
Uma palavra daquela conversa emotiva se destacou do resto.
— … bruxa…
Ele ficou paralisado, depois se virou para a frente. O atendente do bar passou e Magnus segurou seu braço.
— Quem é a mulher na mesa atrás de mim?
O atendente olhou para onde Magnus apontava.
— Ah, ela? É Basha.
— Por que ela está chorando? Você sabe?
— Sei. Provavelmente não deveria, mas sei.
Magnus passou uma moeda de ouro sobre o balcão.
— Ela é uma bruxa?
O homem ficou tenso, mas seu foco estava na moeda de ouro.
— Não é da minha conta. Nem da sua.
Outra moeda se juntou à primeira. Duas moedas de ouro estavam sobre o balcão, ao lado do prato de comida de Magnus pela metade.
— Considere da sua conta.
O atendente ficou em silêncio por apenas um instante, mas logo pegou as moedas do balcão com um movimento suave.
— A filha de Basha foi levada para o calabouço do rei Gaius alguns dias atrás, acusada de bruxaria.
Magnus se esforçou para manter o rosto inexpressivo, mas a notícia de que seu pai havia começado a prender bruxas em Auranos… Ele não tinha ideia daquilo.
— Ela foi acusada. Mas a mulher realmente é capaz de acessar os elementia?
— Isso eu não sei. Você deveria falar com a própria Basha se está tão interessado. — Ele abriu uma garrafa do claro vinho paelsiano. — Acredite, vai facilitar sua apresentação. É o mínimo que posso fazer pelo meu amigo abastado.
— Muito grato pela sua assistência.
Talvez o dia não tivesse sido uma total perda de tempo, afinal. Uma bruxa versada poderia ser mais capaz de ajudar Lucia do que qualquer curandeiro.
Magnus pegou o vinho e se aproximou da velha senhora sentada próxima a uma lareira acesa apesar do calor do dia. O companheiro estava com os braços em volta dela. A mulher estava aos prantos, olhos vermelhos tanto de tristeza quanto da bebida.
Magnus colocou a garrafa de vinho diante dela.
— Sinto muito, Basha. O atendente me contou sobre os problemas recentes com sua filha.
Ela voltou os olhos cinzentos rapidamente para ele, desconfiada por uma fração de segundo, antes de puxar a garrafa para mais perto, virá-la em seu copo vazio e beber com vontade. Ela secou as lágrimas com o dorso da mão.
— Um cavalheiro entre nós. Que providencial. Por favor, sente-se. Este é Nestor, meu irmão.
Nestor também estava visivelmente embriagado, e deu um sorriso torto para Magnus quando o príncipe se sentou em um banco de madeira bambo.
— Basha quer marcar uma audiência com o rei para pedir a libertação de Domitia. É uma ideia excelente.
— Ah é? — disse Magnus, incapaz de disfarçar a surpresa. — Acha mesmo?
— Damora é um rei cruel só porque precisa. Mas eu ouvi o discurso dele. Gostei do que ele falou sobre a estrada que está construindo para todos nós. Ele é um homem com quem se pode argumentar. Alguém que quer o melhor para todos, não importa que parte da Mítica cada um chame de lar.
Seu pai ficaria tão satisfeito.
— Ela tem habilidades de bruxa ou foi falsamente acusada? — Magnus perguntou.
Basha estreitou os olhos por um instante, depois respondeu:
— Domitia é agraciada pela deusa com dons que vão além deste mundo mortal. Mas é inofensiva. É boa e doce. Não há motivos para ser considerada perigosa.
— Você também é agraciada pela deusa dessa maneira? — Magnus perguntou, com esperança. Ele poderia dar um jeito de soltar a filha de Basha do calabouço se ela se provasse útil, mas ter duas bruxas para ajudar Lucia seria ainda melhor.
— Não, eu não. Não disponho de nada assim.
Ele ficou decepcionado.
— Se sabe que as bruxas são reais, já ouviu falar sobre a lenda da Tétrade?
— Só sei que é uma história que contava para minha filha dormir quando ela era criança. — Basha deu outro grande gole no vinho, depois franziu a testa para ele. — Por que está tão interessado em magia e bruxas? Quem é você?
Magnus foi poupado de responder por uma agitação na porta. Dois homens entraram na taverna, rindo e fazendo barulho.
— Vinho para todos — um deles anunciou ao seguirem na direção do atendente. — Fui indicado como florista oficial do casamento real e quero comemorar minha boa sorte!
Uma saudação animada ressoou pela taverna, e o homem foi recebido com tapinhas nas costas e parabéns — exceto por um homem grisalho sentado no bar.
— Humpf — ele resmungou. Rugas se espalhavam pelo canto dos olhos e por seu rosto inexpressivo. — Vocês são todos tolos de acreditar nessas bobagens românticas. O príncipe de Limeros e a princesa de Auranos são uma combinação feita nas terras sombrias pelo próprio demônio das trevas.
Magnus disfarçou as sobrancelhas erguidas com um grande gole de sidra.
— Eu discordo — o florista disse, sem conter o entusiasmo. — Acho que o rei Gaius está certo. Essa união vai estreitar as relações entre nossos reinos e ajudar a forjar um futuro próspero e brilhante para todos.
— Sim, relações entre reinos… Reinos que atualmente ele controla quase sem resistência, exceto por alguns poucos grupos rebeldes que mal levantaram seus traseiros do chão para se rebelar contra o Rei Sanguinário.
O florista empalideceu.
— Eu lhe aconselho a não falar tão abertamente em público.
O velho bufou.
— Mas se somos governados por um rei tão maravilhoso como vocês acreditam, por que não é permitido falar o que for, onde e quando quiser? Talvez eu já tenha vivido mais e vivenciado mais problemas do que a maioria de vocês, jovens. Reconheço mentiras quando as escuto, e o rei as diz sempre que mexe os lábios. Em uma dúzia de anos, ele reduziu os cidadãos de Limeros a uma massa amedrontada, que não se coloca contra ele nem quebra nenhuma de suas regras por medo de morrer. Acham que ele mudou em questão de meses? — Ele virou o copo com nervosismo. — Não, ele vê que somos numerosos em comparação à sua legião de guardas. Vê que teríamos uma força considerável se algum dia resolvêssemos nos unir contra ele. Então precisa nos manter felizes e quietos. A ignorância é uma característica compartilhada por muitos auranianos; sempre foi. Me enoja até a alma.
O sorriso do florista havia se contraído.
— Sinto muito por não compartilhar da alegria que o resto de nós sente. Sou um dos que nutre grandes expectativas pelo casamento do príncipe Magnus com a princesa Cleiona, e pela futura excursão pelo reino. E sei que a maioria dos auranianos sente o mesmo.
— A princesa atualmente é prisioneira dos rebeldes. Acha mesmo que haverá casamento?
Os olhos do florista ficaram brilhantes, e um silêncio recaiu sobre a taverna.
— Tenho a esperança de que ela será resgatada ilesa.
O velho bufou.
— Esperança. Esperança é para os tolos. Um dia verão como estou certo e vocês estão errados. Quando seus dias dourados desbotarem e o Rei Sanguinário mostrar seu verdadeiro rosto, que se esconde atrás da máscara que usa para apaziguar as massas maleáveis e ignorantes desta terra que costumava ser grandiosa.
O clima na taverna se tornava mais sombrio conforme o homem falava. Magnus tirou os olhos da discussão e se deu conta de que Basha o estava encarando com a testa franzida.
— Já sei quem você me lembra, meu jovem. Parece muito com o príncipe Magnus, filho do rei.
Ela falou alto o bastante para chamar a atenção de outras mesas próximas. Uma dúzia de pares de olhos agora recaíam sobre ele.
— Já me disseram isso antes, mas posso garantir que não sou. — Ele levantou de seu assento à mesa. — Muito obrigado pelas informações que me deu, Basha. — Embora não tenha sido nada de valor. Apenas mais decepção. — Tenha um bom dia.
Ele saiu da taverna sem olhar para os lados, puxando mais o capuz sobre o rosto.
A cabeça de Magnus doía quando ele chegou ao palácio. Já era o fim do dia e o sol estava se pondo. A caminho dos estábulos, ele cruzou com Aron Lagaris.
— Príncipe Magnus — Aron disse. Sua voz parecia diferente, mais forte. Talvez o rapaz estivesse levando seu novo cargo a sério e tivesse parado de beber um balde de vinho por dia. — Por onde andou?
Magnus o encarou.
— Meu pai estranhamente parece gostar de você como seu mais novo vassalo, mas por um acaso ele o designou como meu auxiliar?
— Não.
— Meu guarda pessoal?
— Hum… não.
— Então não é da sua conta onde eu estava.
— Claro que não. — Aron limpou a garganta. — No entanto, devo lhe informar que seu pai queria vê-lo imediatamente, assim que retornasse de… de onde quer que estivesse.
— Ele quer falar comigo agora? Então não devo deixar o rei esperando nem mais um minuto.
Aron fez uma reverência estranha, que Magnus ignorou ao passar por ele. O dia que havia começado com pesadelos e decepções não parecia estar melhorando.
O rei esperava fora da sala do trono, ao lado de seu cão favorito. Ele conversava em voz baixa com Cronus. Assim que viu Magnus, mandou o guarda embora com um gesto.
— O que foi? — Magnus perguntou, franzindo a testa.
O rei cumprimentou o filho com um aceno de cabeça.
— Saiba que a princesa Cleiona foi devolvida para nós.
Era a última coisa que ele esperava ouvir.
— Foi? Como é possível?
— Ela escapou dos rebeldes depois de um ataque ao acampamento deles ontem à noite. Correu para a floresta, escondeu-se de seus raptores, e encontrou meu destacamento de guardas. Está abalada, mas sã e salva.
A notícia o fez sentir um estranho alívio.
— Um milagre.
— É? — O rei apertou os lábios. — Não estou muito certo disso.
— Eu tinha certeza de que a matariam.
— Eu também. Mas mesmo assim não a mataram. Isso me causa certa desconfiança. Uma garota de dezesseis anos, sem nenhum treinamento de sobrevivência, estava nas mãos de rebeldes violentos que vivem nas profundezas das Terras Selvagens. E, ainda assim, escapa com facilidade? Sem nenhum machucado ou arranhão? Agora que sei o nome do líder desse grupo específico de selvagens, fiquei com muitas dúvidas.
— Quem é o líder?
— Jonas Agallon.
Magnus levou um tempo para se lembrar do nome.
— O filho do comerciante de vinho de Paelsia. O que teve o irmão assassinado. Ele era um dos principais homens do chefe Basilius.
— Isso mesmo.
— Quem lhe contou isso? A princesa?
— Não. Na verdade, ela alega que foi mantida isolada durante o cativeiro, sem ver o rosto de nenhum rebelde. Meus guardas não conseguiram encontrar a princesa diretamente, mas durante suas buscas descobriram algumas informações sobre os rebeldes. Essa foi uma delas.
Magnus considerou tudo aquilo.
— Está dizendo que acredita que ela tenha se aliado aos rebeldes?
— Digamos apenas que pretendo ficar de olho nela nos próximos dias, e você deveria fazer o mesmo. Principalmente com a proximidade do casamento.
Um músculo do rosto de Magnus se contorceu.
— Claro. O casamento.
— Algum problema com isso?
— Nenhum. — Ele se virou para observar a insígnia limeriana que agora adornava a parede, composta pela imagem de uma naja e um par de espadas cruzadas. — O fato de ter voltado a tempo para o casamento me leva a acreditar que ela não esteja aliada a esses rebeldes. Acho que ela teria adorado evitar a cerimônia se pudesse, mesmo que isso significasse ficar no meio deles.
— Talvez você tenha razão. Mas ela está de volta. E saiba que estamos esperando um convidado muito importante para o casamento. Hoje de manhã chegou a mensagem de que o príncipe Ashur Cortas, do Império Kraeshiano, estará presente.
O nome era bem conhecido de Magnus.
— Que enorme honra.
— De fato. Fiquei muito surpreso e satisfeito que o príncipe tenha aceitado nosso convite em nome do pai. — O rei disse aquilo com uma rigidez na voz que dava a entender que não era sincero. O Império Kraeshiano ficava do outro lado do Mar Prateado e tinha dez vezes o tamanho de Mítica. O pai do príncipe Ashur, o imperador, era o homem mais importante do mundo.
Não que Magnus fosse dizer isso em voz alta na frente do rei Gaius.
Seu pai ficou em silêncio por um instante.
— Tenho outro assunto muito importante para discutir com você. Por favor, entre. — O rei se virou para a sala do trono e entrou pelas grandes portas de madeira. As garras do cão arranhando o piso de mármore enquanto acompanhava o mestre.
Por favor. Era uma palavra tão pouco usada por seu pai que soava como uma língua estrangeira. Lentamente, ele acompanhou o rei até a sala.
— O que foi? É a Lucia? — Magnus perguntou, com tensão na voz.
— Não. Essa questão infeliz não tem nada a ver com ela.
O medo que havia em seu peito se apaziguou.
— Se não é sobre Lucia, então o que precisa me contar?
O rei olhou para a esquerda e Magnus seguiu a direção de seu olhar. Sobre uma placa de mármore estava a rainha, braços cruzados sobre a barriga. Ela estava totalmente imóvel, em silêncio.
Magnus franziu a testa. Por que ela estaria dormindo na sala do trono?
Ele levou um momento para entender.
— Mãe… — ele tentou dizer, com a respiração cada vez mais ofegante conforme se aproximava.
— Isso é obra dos rebeldes — o rei disse, com a voz baixa e firme. — Eles ficaram irritados por termos nos recusado a atender suas exigências e interromper a construção da Estrada Imperial. Essa é a minha punição.
O rosto da rainha estava pálido, e Magnus podia jurar que ela estava apenas dormindo. Ele estendeu o braço na direção dela, mas cerrou o punho e o trouxe de volta para a lateral do corpo. Havia sangue em seu vestido cinza-claro. Muito. Seu próprio sangue congelou ao ver aquilo.
— Rebeldes — Magnus disse, as palavras vazias em sua garganta. — Como você sabe?
— Esta foi a arma usada. O assassino deixou para trás. — O rei segurava uma adaga com joias incrustadas no cabo e ondulações na lâmina prateada. — Tal evidência nos ajudou a descobrir sua identidade.
O olhar de Magnus passou da arma ornamentada para o rosto do pai.
— Quem é?
— Esta mesma adaga já pertenceu ao lorde Aron. Foi a que ele usou para matar o filho do comerciante de vinho no mercado de Paelsia. O irmão de Jonas Agallon. Foi a última vez que lorde Aron viu a arma.
— Está dizendo que Jonas Agallon é responsável por isso.
— Acredito que sim. E também acho que, ao deixar a adaga para trás, queria que soubéssemos que foi ele.
Magnus se esforçou para que sua voz não falhasse.
— Vou matá-lo.
— Sem dúvidas o garoto pagará caro por seu crime. — O rei suspirou. — Eu subestimei os rebeldes. Ser tão ousado a ponto de assassinar a rainha… É um crime pelo qual Jonas Agallon pagará muito caro. Ele implorará pela morte muito antes de eu concedê-la.
A mulher que havia dado Magnus à luz dezoito anos antes, que lia histórias para ele e dançava com ele quando era criança. Aquela que secava suas lágrimas… que demonstrara um afeto guardado havia muito tempo naquele dia no templo… Ela havia partido para sempre.
— Aconteceu uma coisa estranha, no entanto — o rei disse, interrompendo o pesado silêncio. — Outro corpo foi encontrado por perto, também esfaqueado. Era uma mulher acusada de bruxaria que mantínhamos no calabouço de Limeros, da qual eu havia me esquecido há muito tempo.
Com dor no coração, Magnus observou as mechas grisalhas que contrastavam imensamente com o tom escuro dos cabelos de sua mãe. Ela não gostava daquilo. Não gostava de parecer mais velha, especialmente quando comparada à amante do rei, que conservava sua beleza por meio da magia.
— Não entendo. A bruxa tinha alguma coisa a ver com os rebeldes?
— Receio que seja um mistério.
— Devo começar a procurar Agallon. — Magnus forçou as palavras a sair. Falar era a última coisa que ele queria fazer naquele momento. — Imediatamente.
— Você poderá se juntar à perseguição assim que voltar da excursão de casamento.
Ele se virou para o pai com fúria nos olhos.
— Minha mãe foi assassinada por um rebelde, e você quer que eu faça uma excursão pelo reino com uma garota que me odeia.
— Isso mesmo. É exatamente o que eu quero. E o que você fará. — O rei observou Magnus com paciência nos olhos escuros. — Sei que amava sua mãe. A perda dela será sentida por muito tempo; toda a Mítica ficará de luto por ela. Mas esse casamento é importante para mim. Ele vai selar meu controle sobre as pessoas deste reino sem mais oposição do que o necessário, enquanto chego mais perto de ter a Tétrade nas mãos. Você entende?
Magnus soltou um suspiro trêmulo.
— Entendo.
— Então vá. E guarde a informação sobre a bruxa para você. Não queremos que surja nenhum rumor sobre a associação da rainha com uma mulher tão baixa.
Magnus franziu a testa diante daquela ideia ridícula. Ele imaginou que os rebeldes teriam alguma ligação com a bruxa, não sua mãe.
— Acha que ela a conhecia?
— Sinceramente, não sei o que pensar nesse momento, nem o que levaria Althea a sair do palácio antes do amanhecer. — O rei olhou para o rosto daquela que fora sua esposa por vinte anos. — Só sei que minha rainha está morta.
Magnus deixou a sala do trono, onde jazia sua mãe, dando passos em falso ao virar no corredor seguinte e entrar em uma alcova vazia — sem guardas ou criados. De repente, ele não conseguia respirar. Não conseguia raciocinar. Cambaleou até a parede e se apoiou com a mão. Uma vontade de chorar subiu por sua garganta, mas ele lutou com todas as forças para se controlar.
Momentos depois, uma voz fria e familiar interrompeu seu luto.
— Príncipe Magnus, suponho que ficará feliz em saber que retornei em segurança. Espero que não tenha sentido muito a minha falta.
Ele não respondeu. Tudo o que queria era um pouco de privacidade.
A princesa Cleo ficou olhando para ele de braços cruzados. Seus cabelos claros estavam soltos, ondulados, caindo sobre ombros até a cintura.
— Eu sou raptada por rebeldes, mantida prisioneira por uma semana inteira, escapo apenas graças à minha esperteza, e você não tem nem uma única saudação para me receber?
— Estou avisando, princesa, não estou no clima para bobagens no momento.
— Nem eu, então acho que temos alguma coisa em comum. E eu que pensava que não havia nada. — O olhar dela não tinha nenhum toque de cordialidade, mas um pequeno sorriso moveu os cantos de sua boca.
— Sorrindo? — ele conseguiu dizer. — O que fiz para merecer isso? Ou talvez já tenha ficado sabendo da novidade para ajudar a iluminar seu dia.
— Novidade?
Ele se sentia extremamente cansado.
— A notícia da morte da rainha.
Ela franziu a testa.
— O quê?
— Ela foi assassinada por rebeldes. — Ele observou seu olhar sincero de choque. — Então é isso. Um motivo para você celebrar.
Magnus deu as costas para ela, pronto para encontrar consolo em seus aposentos, mas a princesa agarrou seu braço e o deteve. Ele lançou um olhar sombrio por cima do ombro.
— Eu nunca celebraria a morte, não importa de quem seja — ela disse, com o olhar cheio de raiva e mais alguma coisa. Algo que parecia vagamente compaixão.
— Ah, seja franca, tenho certeza de que você jamais ficaria de luto por nenhum Damora.
— Sei muito bem o que é perder alguém próximo em circunstâncias trágicas.
— Ah, é, temos tanta coisa em comum. Talvez devêssemos nos casar.
Ela o soltou, com amargura no rosto.
— Eu estava tentando ser gentil.
— Não tente, princesa. Não combina com você. Além disso, não preciso e nem quero sua gentileza ou solidariedade. Ambas parecem extremamente falsas vindo de você.
Algo quente e molhado escorreu pelo rosto dele. Ele limpou a lágrima espontânea e virou o rosto, chocado por ela ter visto.
— Eu nunca teria imaginado que você se importava tanto com alguém — ela disse com suavidade.
— Me deixe em paz.
— Com prazer. — Mas agora ela parecia indecisa, como se vê-lo chorando pela mãe morta a tivesse deixado profundamente confusa. — Mas, espere, antes de ir… sinto por incomodá-lo, mas não sei para quem perguntar. Preciso falar com minha amiga. Com Mira. Não consigo encontrá-la em lugar nenhum. Disseram-me que ela não é mais a criada da princesa Lucia. Sabe a quem ela foi designada?
Ele deu cinco passos pelo corredor até que ela o chamou.
— Príncipe Magnus, por favor!
Ele se virou. Naquele momento, não havia nada na expressão de Cleo além da necessidade de uma pequena ajuda. Ela acreditava que ele poderia fazer isso.
— Sinto muito, princesa — ele disse, os olhos fixos nos dela —, mas enquanto você esteve fora, meu pai tirou a vida de sua amiga Mira por escutar uma conversa particular. Eu lamento que ele tenha tomado essa decisão, mas posso garantir que a morte dela foi rápida e indolor.
O horror tomou conta do rosto de Cleo.
O quê?
— Ela foi levada, seu corpo, queimado, e os ossos enterrados no cemitério dos criados. Novamente, sinto muito pela sua perda. Não há nada que possa ser feito para consertar isso.
O som do choro cheio de sofrimento de Cleo o perseguiu até seus aposentos.

3 comentários:

  1. Mais uma vez eu digo!
    RANÇO do rei !!! R-A-N-Ç-O
    RANÇO.

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  2. "Ele passava os dedos por cabelos longos e sedosos, que inesperadamente passavam de escuros a loiro-claros." Hummm, sugestivo...

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  3. Sonhando com Cleó, príncipe Magnus?
    Rei safado, matou a rainha e a bruxa.
    Aff homem odioso.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!