13 de agosto de 2018

Capítulo 16

RAINHA ALTHEA
AURANOS

Pouco antes do amanhecer, a rainha Althea deixou a segurança do palácio e saiu no ar quente da noite. Ela usava um manto para ocultar sua identidade, como já havia feito algumas vezes. Ninguém adivinharia quem ela era.
A bruxa também usava um manto e a esperava no lugar de sempre. Althea se aproximou, o coração disparado.
Um mal necessário. Só estou fazendo o que devo fazer.
Diziam que as bruxas eram descendentes dos vigilantes exilados. Quando os imortais entravam no mundo mortal, também se tornavam mortais. Podiam procriar com outros mortais e ter filhos, e alguns deles poderiam canalizar pequenas quantidades de magia — pelo menos era o que dizia a lenda.
Aquela bruxa, colocada no calabouço de Limeros por ordem de Sabina, antiga amante do rei, era capaz de mais do que isso. Sabina a considerava uma ameaça desde que sua própria magia havia começado a desaparecer com o passar dos anos.
Mesmo antes de sua família partir para montar o cerco ao palácio auraniano, Althea agira rapidamente e em segredo para libertar aquela bruxa da prisão. Ela encontrou uma mulher fraca e muito magra, que mal conseguia falar, e a escondeu no castelo, deu comida, banho e roupas a ela, e depois ofereceu-lhe a liberdade — por um preço.
Ela deveria ajudar a rainha a descobrir mais sobre os elementia de Lucia. A bruxa concordou, e Althea descobriu a verdadeira profecia sobre Lucia, que Gaius nunca havia lhe contado. Ela ouviu histórias sobre os vigilantes, sobre a Tétrade, sobre Eva, a feiticeira original. Sobre Cleiona e Valoria, que invejavam tanto o poder da irmã, Eva, que a ganância as levou a roubar a Tétrade para si mesmas — ato que resultou em sua total corrupção por um poder tão amplo que não tiveram como controlar. No final, ninguém venceu. Elas destruíram uma à outra.
Como devota da deusa Valoria, Althea ficara surpresa e indignada com tudo aquilo. Ela queria negar que fosse verdade, mas descobriu que, quanto mais aprendia, menos era capaz de negar. A bruxa era uma Vetusta, que havia guardado essas histórias passadas de geração em geração; alguém que adorava os elementos como se eles também fossem deuses e deusas.
Se a bruxa quisesse recuperar seu poder enfraquecido, a magia de sangue era a única opção, e ela teria que sacrificar mais do que um animal.
E a rainha precisava de sua magia.
Nenhum mortal comum seria bom o bastante, a bruxa havia dito. Teria de ser alguém com sangue forte, coração puro e um futuro brilhante. Althea havia encontrado um menino chamado Michol, um dos pretendentes de Lucia. Ele havia visitado o castelo um dia procurando pela princesa, pouco antes de partir com Gaius e Magnus para Auranos. Era tão jovem, tão cheio de vida. A rainha o atraiu para seus aposentos com a promessa de um compromisso com sua bela filha.
Lá, a bruxa estava esperando com sua adaga. O sangue do menino escorreu vermelho e genuíno.
Em vez de suscitar pena, os gritos da morte de Michol só energizaram a rainha e a fortaleceram. O menino precisava ser sacrificado para que Lucia pudesse ser salva das trevas de sua magia. E Lucia precisava ser salva — mesmo que isso acabasse significando sua própria morte.
Qualquer boa mãe teria feito o mesmo.
Althea se lembrava muito bem daquela noite.
A magia cintilava no ar, fazendo a rainha perder o fôlego enquanto os pelos finos de seu braço se eriçavam.
Michol caiu no chão, morto, com o rosto molhado por lágrimas. As mãos da bruxa estavam cobertas com o sangue dele, e ela as pressionou sobre o rosto. Seus olhos brilhavam tanto… como o próprio sol.
— Está funcionando? — a rainha perguntou, protegendo os olhos. — Precisa de mais um? Posso encontrar uma criada.
— Consigo ver — a bruxa disse, com um sorriso de alegria nos lábios. — Consigo ver tudo.
— Então me diga o que preciso saber sobre minha filha.
O quarto brilhava como se estrelas tivessem caído do céu e pairassem no ar, em volta da bruxa e do menino morto.
— Ela não é sua filha — a bruxa sussurrou. — Não, não de sangue.
— Ela é minha filha do coração.
— Ela é muito perigosa. Muitos morrerão por causa de sua magia.
A rainha já sabia que Gaius decidira que Lucia participaria da guerra — que esse fora o único motivo pelo qual a trouxera para o castelo, dezesseis anos antes. Ele queria usar os elementia dela em benefício próprio.
— Conte mais — Althea pediu.
— A feiticeira morrerá — a bruxa disse. — Depois que muitos outros tiverem caído diante dela. Mas isso é muito importante: seu sangue não pode ser derramado na morte. Se isso acontecer, uma enorme dor recairá sobre a própria terra. Dor maior do que esse mundo pode suportar. Sua morte sem sangue é o único jeito de impedir isso.
A rainha sentiu um calafrio pelo corpo.
— Quando ela vai morrer?
— Só posso tocar o futuro agora, não consigo vê-lo com clareza. Mas ela morrerá jovem.
— Ela será corrompida pela magia. — As palavras feriam a garganta da rainha. — E não há nada que possa ser feito para salvá-la. — A verdade era muito mais dura do que ela esperava. Mas, em vez de ter medo, o coração de Althea doía pela menina que considerara sua filha durante dezesseis anos.
— Dizem que a feiticeira Eva usava um anel que controlava a batalha de poderes dentro dela. Sem ele, acontece um dilaceramento, trevas contra luz, um equilíbrio que não pode ser contido para sempre. Um lado sempre tentará dominar o outro. As trevas sempre tentarão extinguir a luz. A luz sempre tentará reprimir as trevas. Não existe esperança de controlar isso sem a magia equilibrada do anel.
Finalmente, uma semente de otimismo foi plantada no coração da rainha, trazendo esperança de que aquilo não precisava terminar com mais mortes.
— Onde posso encontrar esse anel?
— Ele foi perdido junto com a Tétrade. — A bruxa sacudiu a cabeça. — Não sei onde encontrá-lo, mas sei que ainda existe.
— Como sabe?
— Eu não sabia antes, mas… — Os olhos dela brilharam. — Eu sei agora. Posso vê-lo, mas não sei onde está. Infelizmente, não há muito tempo para encontrá-lo antes que a menina se perca em seus poderes.
Althea retorceu as mãos.
— Se não pudermos encontrar o anel a tempo, como Lucia pode controlar sua magia?
— Ela deve ser impedida de usar seus elementia. Quanto mais usá-los, mais será consumida por eles.
— Como posso impedi-la?
A bruxa havia sugerido a poção para dormir, e cada lote exigia magia de sangue obtida com três sacrifícios. Ela colocava os mortais em um sono profundo, a bruxa prometeu, um sono que não pode ser explicado. Que não pode ser detectado nem por outra bruxa.
Assim que a poção foi feita, Althea e a bruxa partiram de navio para Auranos e, quando chegaram, descobriram que Lucia havia sido ferida na explosão. A rainha correu para a cama de sua filha e a encontrou cercada por três médicos. Eles haviam coberto os braços pálidos da menina com sanguessugas para drenar qualquer veneno de seu sangue.
Lucia estava tão fraca e confusa que mal conseguia falar, e os curandeiros disseram que ela tinha recuperado a consciência havia poucos instantes. Althea havia chegado bem a tempo. A rainha expulsou os médicos, marcando cada um dos rostos para se lembrar de quem havia testemunhado aquilo. Todos teriam que morrer.
Sem demora, ela colocou a poção em um copo de água e levou aos lábios de Lucia. A menina bebeu. E então caiu em um sono profundo.
Desde então, todos os dias, a rainha visitava o quarto da filha, procurando sinais de que pudesse acordar em breve. A cada sete dias, ela se encontrava em segredo com a bruxa, protegida pela escuridão, para receber outra dose da poção — sabendo muito bem que mais três teriam que dar a vida para pagar por mais uma semana.
Althea havia mentido para Magnus e Lucia. A menina não havia acordado nenhuma vez. Mas quando ela o viu com Lucia, soube que precisava plantar uma semente na cabeça do filho. Magnus não tinha aceitado bem a notícia de que sua irmã voltara a ficar inconsciente, mas não podia alegar que estava surpreso.
O sofrimento gravado no rosto de seu filho assustou até a rainha. O garoto era normalmente tão controlado, tão contido. A condição de Lucia havia acabado com isso. Althea supôs que deveria sentir culpa, mas não sentiu. Tudo o que sentia era a certeza de que o que estava fazendo era legítimo. Era essencial. Mais importante do que tudo.
A rainha havia designado à bruxa a tarefa de encontrar o anel da feiticeira, mas a mulher não havia tido sorte em localizá-lo. Se elas não o encontrassem logo…
Não haveria outra opção além de acabar discretamente com a vida de Lucia.
Isso efetivamente colocaria um fim aos planos de Gaius. Deteria um monstro. E provaria a Althea que ela finalmente havia manifestado uma força de vontade verdadeira contra um marido que acreditava que ela não possuía nenhuma.
Isso acrescentava um fio de doçura a uma decisão amarga.
A bruxa se levantou do banco nos jardins públicos, seu manto cinza mascarando perfeitamente sua identidade. As sombras da noite as envolveram como uma segunda pele. A rainha passou os olhos pela área para ver se não havia nenhuma testemunha, nenhum guarda patrulhando o local.
Não havia ninguém. Ela deu um lento suspiro de alívio.
— A poção está perdendo o efeito — Althea disse, com a voz abafada. — Precisarei usá-la com mais frequência. Mas ela está dormindo novamente, e por enquanto isso é o que importa.
A bruxa enfiou a mão nas dobras do manto.
A rainha se aproximou.
— Você será recompensada, eu prometo. Sou muito grata por tudo o que fez até agora. Saiba que passei a considerá-la uma amiga valiosa.
À direita, ela vislumbrou o contorno de um corpo no chão.
Seu olhar voltou para a figura envolta no manto diante dela.
— Quem é… — ela começou a perguntar, mas não pôde ir em frente.
A ponta afiada de uma adaga afundou em seu peito. Ela arquejou de dor quando seu algoz girou a faca. Um grito morreu em sua garganta, e ela caiu no chão.
O gosto era de fracasso e de morte. Ambos muito amargos. Sem o amor de sua mãe, o destino de Lucia agora estava traçado.
— Sinto muito, minha filha — ela sussurrou em seu último sopro de vida.
Acima dela, a figura envolta pelo manto se virou e seguiu rapidamente na direção do palácio.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!