13 de agosto de 2018

Capítulo 15

CLEO
TERRAS SELVAGENS

Já fazia sete dias que estava cercada por um enxame de rebeldes. Com as roupas elegantes com que chegara, ela se destacava no acampamento como um pavão. Um dia depois, ela havia pedido uma muda de roupas e recebido alguns trapos para vestir. Jonas lhe deu uma túnica a mais e calças largas, presas na cintura apenas por um cordão bem apertado.
Dentre os rebeldes, Cleo havia se aproximado mais daqueles que não olhavam para ela com desprezo simplesmente pelo simples fato de ser da realeza. Entre esses poucos e raros estava Brion, subcomandante de Jonas, e um garoto jovem e magricelo chamado Tarus, que tinha cabelos bem ruivos que a faziam lembrar de Nic.
Nic.
A preocupação a consumia o tempo todo, todos os dias desde que havia sido levada da loja de vestidos. Será que ele estava bem? O que o rei faria com ele? E Mira… ela devia achar que a essa altura Cleo estava morta. Se ao menos conseguisse mandar uma mensagem para ela…
Ela havia perguntado a Jonas se podia mandar uma mensagem. Ele respondeu com um simples “não”. E depois se afastou dela, ignorando seu ultraje.
Naquele momento, Cleo estava com Brion, Tarus e uma das poucas rebeldes do sexo feminino, Onoria, ao redor da fogueira. Os dias em Auranos eram quentes, agradáveis e muito iluminados, mas ali nas Terras Selvagens, a brisa durante a noite parecia tão gelada quanto imaginava que fosse em Limeros.
— Todos os falcões que vemos são vigilantes nos observando — Tarus disse. — Foi o que meu pai me disse.
— Todos os falcões? — Brion zombou. — Não são todos. A maioria são apenas aves, e não há nada mágico nisso.
— Você acredita em magia? — Cleo perguntou, curiosa.
Brion empurrou um longo graveto para a fogueira.
— Depende do dia. Hoje, não muito. Amanhã… quem sabe.
Cleo olhou para cima.
— E aquele falcão? É um vigilante?
Um falcão dourado estava empoleirado em uma das poucas árvores que não tinham uma barraca pendurada nos galhos. Ele parecia muito contente de estar ali em cima, olhando para eles.
Onoria olhou para o alto, tirando longas mechas escuras dos olhos.
— Já reparei nessa ave antes. Ela nunca caça, só fica nos vigiando. Ou melhor: na minha opinião, ela vigia o Jonas.
— Sério? — Cleo disse, agora intrigada.
— Estão vendo? Com certeza é um vigilante, se tem interesse pessoal em nosso líder. — Tarus ficou olhando para cima, admirando o pássaro. — Suas asas são feitas de puro ouro, sabiam disso? Foi o que minha mãe me falou.
Cleo se lembrou de suas horas de pesquisa, assim como das lendas que tinha ouvido a vida toda.
— Ouvi dizer que eles também podem parecer com mortais se quiserem, com a pele dourada e uma beleza jamais vista em nosso mundo.
— Isso eu já não sei. Já vi algumas beldades maravilhosas ao longo da vida. — Brion sorriu. — Você mesma não é tão ruim, princesa. Nem você, Onoria, é claro.
Onoria revirou os olhos.
— Guarde seu charme para alguém que se importe.
Cleo não conseguiu conter o sorriso.
— Posso garantir que não sou uma vigilante. Se fosse, teria fugido de volta para a segurança do Santuário assim que possível.
— É preciso encontrar uma roda para isso — Tarus disse.
Cleo olhou para ele.
— O que você disse?
— Uma roda de pedra. — Ele deu de ombros. — Não sei se é verdade, é só o que minha avó contava.
A família do garoto parecia repleta de contadores de história.
— O que quer dizer com uma roda de pedra? — perguntou Onoria. — Nunca ouvi falar disso.
— É como eles atravessam do mundo mortal para o Santuário, e vice-versa, na forma de falcões. Eles têm essas rodas mágicas de pedra esculpida escondidas aqui e ali. Para nós podem não passar de ruínas, mas, sem as rodas, eles ficam presos aqui.
— Não deixe Jonas ouvir você falando assim — Brion alertou. — Ele não dá ouvidos a nenhuma bobagem sobre magia ou vigilantes. Acha que os paelsianos são fracos porque se apegam às lendas em vez de encarar os fatos como são.
Rodas de pedra mágicas. Certamente era uma história fascinante. Boba, mas fascinante. Quantas dessas lendas passadas de geração em geração podiam ser verdade? Jonas era ingênuo em desconsiderar aquelas conversas sem um mínimo de reflexão. Cleo havia conhecido uma vigilante exilada sem saber. Ela tinha magia na palma da mão. Às vezes estava mais perto do que qualquer um poderia acreditar.
Como ela desejava estar com seu anel… Havia sido um erro terrível escondê-lo. Era precioso demais para ficar longe dela.
Cleo estava prestes a perguntar a Tarus se ele sabia alguma coisa sobre um objeto assim, ou se sua família havia contado alguma história sobre a Tétrade, quando sentiu algo praticamente queimar a lateral de seu rosto. Ela se virou e viu que Lysandra a encarava do outro lado do acampamento.
— Ela ainda me odeia, não é? — Era um pensamento desanimador. Depois da primeira conversa entre elas, Cleo esperava ter conquistado a menina, pelo menos um pouco. As duas haviam passado por experiências envolvendo perda e dor. Aquilo as unia, mesmo que Lysandra não quisesse reconhecer.
Sendo totalmente sincera, Cleo invejava a atual liberdade da garota. Estar no meio de todos aqueles rebeldes e parecer tão livre e completamente destemida… era bastante incrível.
— Eu acho que a Lys odeia todo mundo — Brion disse, roendo um osso já praticamente limpo que havia sobrado de sua refeição. Onoria riu baixinho do comentário. — Até a mim, se é que dá para acreditar. Mas acho que aos poucos a estou conquistando. Vocês vão ver, logo ela estará loucamente apaixonada por mim. De qualquer forma… não leve para o lado pessoal, princesa.
Ela tentaria ao máximo. Respirou fundo e perguntou o que estava em sua cabeça de verdade.
— Alguma novidade sobre a estrada? O rei interrompeu a construção? O que sabemos sobre os escravos?
Brion se virou para a fogueira.
— A noite está linda, não está?
— Jonas vai mandar outra carta?
— As estrelas, a lua. Realmente incrível.
— É bonito — Tarus concordou. — A única coisa chata são os insetos querendo comer um pedaço da gente. — Para enfatizar, ele deu um tapa no braço para matar um mosquito sedento por sangue.
Cleo ficou gelada.
— Nada aconteceu, não é?
Onoria permaneceu em silêncio e desviou os olhos.
Brion enfiou o graveto de volta na fogueira, remexendo a madeira queimada.
— Não. E, sinceramente, duvido que aconteça.
Ela ficou olhando para ele sem palavras por um instante.
— Eu falei ao Jonas que não ia dar em nada. O rei não quer que eu volte viva. Pelo menos não o suficiente para cumprir as exigências de um rebelde. O casamento é irrelevante para ele, assim como eu.
— Ah, não se preocupe, você não é irrelevante — Tarus disse, o que suscitou um olhar severo de Brion e Onoria. — O quê? Ela não tem o direito de saber?
Cleo sentiu um aperto no peito.
— Saber o quê?
Brion deu de ombros, com a expressão rígida.
— Jonas não quer que eu diga nada a você.
Ela agarrou a manga da túnica dele até o rapaz finalmente olhar para ela.
— Mais um motivo para você me contar.
Ele hesitou apenas mais um instante.
— O rei Gaius enviou equipes de busca atrás de você. Estão percorrendo Auranos e Paelsia de ponta a ponta.
— E?
— E está deixando um rastro de corpos massacrados pelo caminho, de todos que se recusam a responder perguntas. Todos mortos para que os outros saibam que o rei está falando sério, que ele quer que você seja encontrada o mais rápido possível. Então ele realmente quer você de volta para se casar com o filho na data marcada, dentro de dez dias? Sim. Ele está disposto a libertar os escravos de sua Estrada de Sangue para isso? Receio que não. — Brion ficou em silêncio e começou a apagar o fogo, chutando terra sobre a fogueira. — Acho que você vai ficar de vez conosco, princesa. Bem-vinda ao seu novo lar.
Cleo ficava mais gelada a cada palavra que ele dizia.
— Não, você está errado. Jonas está errado. Eu não posso ficar aqui.
— Quanto mais males o rei causar por aí, mais os auranianos verão que ele não é tão benevolente e generoso como faz parecer em seus discursos. Finalmente irão perceber que ele é inimigo do reino, e não um rei verdadeiro que deve ser obedecido e respeitado.
Os pensamentos dela se agitaram.
— Talvez. Mas o rei vai despedaçar o reino e matar todo mundo que cruzar seu caminho até me encontrar. Ele quer que todos vejam que sou valiosa para ele, que ele se importa com a princesa de Auranos. Mesmo não dando a mínima para a minha vida, ela serve para fazer as pessoas se comportarem e não causarem problemas para ele. Estou errada?
A expressão de Brion havia perdido todo o humor de antes. Onoria e Tarus observavam, desanimados.
— Infelizmente, não acho que esteja nem um pouco errada.
Com a fogueira apagada e o acampamento na escuridão, Cleo olhou para o alto e viu o brilho das estrelas e uma lua cheia e brilhante atrás da folhagem. Do outro lado do acampamento, em meio às sombras, ela viu Jonas, que falava com Lysandra, com os músculos das costas tensos.
— Jonas! — ela o chamou.
Ele se virou, o luar destacando seu belo rosto — no exato momento em que uma flecha cortou o ar e perfurou seu ombro.
Ele agarrou a flecha e a arrancou, seu olhar de dor agitado enquanto voltava a procurar o dela.
— Corra, Cleo. Corra agora!
Dezenas de guardas com uniformes vermelhos se espalharam pelo acampamento. Cleo olhou em volta procurando uma arma — uma faca, um machado, qualquer coisa que lhe desse alguma proteção e a chance de reagir ao ataque. Mas não havia nada.
Um guarda foi diretamente em sua direção, a espada em punho.
Ela olhou rápido por cima do ombro e viu seus novos amigos rebeldes se espalhando em todas as direções. Então começou a correr, desviando de árvores e arbustos na tentativa de escapar do guarda. Seus sapatos palacianos nada práticos, contrastando nitidamente com as roupas simples, afundavam na terra macia a cada passo.
Mas o guarda era rápido demais. Ele a alcançou com facilidade, a segurou, virou-a de frente para ele, e jogou seu corpo no tronco de uma árvore com tanta força que ela perdeu o fôlego e ficou zonza.
— Me diga, garotinha, onde está a princesa Cleiona?
Quando ela não conseguiu encontrar ar para falar, para responder àquelas perguntas rudes, ele chegou mais perto, encostando a ponta da espada em seu pescoço. Por um instante, Cleo teve muito medo de que ele cortasse sua garganta e a deixasse lá, sangrando até a morte, antes que pudesse revelar sua identidade.
Mas então houve um vislumbre de reconhecimento em seus olhos cruéis e estreitos. Mesmo com os cabelos bem presos em um coque, o rosto sujo e as roupas de uma rebelde paelsiana, será que ele a reconhecera como a princesa que estava procurando?
Uma flecha passou tão perto de seu rosto que ela sentiu o vento antes que ela atingisse o pescoço do guarda. Ele cambaleou para trás, levando as mãos à garganta enquanto o sangue jorrava a cada batida de seu coração. Ele caiu no chão, debatendo-se sobre o musgo e as folhas por mais um tempo, depois ficou imóvel. Antes que Cleo conseguisse raciocinar e retomar o fôlego, Jonas apareceu. O coração dela saltou ao vê-lo.
Ele pegou o braço dela.
— Precisamos ir.
— O acampamento…
Qualquer expressão no rosto dele ficou perdida nas sombras, mas seu tom era firme.
— Está perdido. Temos um local secundário para o caso de emboscadas. Encontraremos os outros lá amanhã. — Ele a segurou, e os dois começaram a correr.
— Por que você não me contou que havia equipes de busca procurando por mim, matando todo mundo pelo caminho?
— Por que eu contaria? — A camisa dele estava ensopada de sangue, mas o ferimento em seu ombro não parecia atrasá-lo nem um pouco.
— Porque eu tenho o direito de saber!
— Você tem o direito de saber — ele resmungou em tom zombeteiro. — Por quê? Poderia ter feito alguma coisa para impedir?
— Eu poderia ter voltado para o palácio.
— Isso não faz parte do meu plano.
— Eu não me importo! Não posso deixar mais gente inocente morrer.
Jonas parou, apertando o braço dela com força suficiente para causar dor. Ele parecia tão frustrado que por um instante ela pensou que fosse sacudi-la, mas então pareceu se acalmar.
— Muita gente vai morrer, independente do que aconteça, e sejam elas inocentes ou não. O rei Gaius pode já ter roubado seu reino, mas a guerra continua. E vai continuar enquanto ele mantiver sua bunda real sentada naquele trono. Está entendendo?
Cleo ficou com o maxilar tenso quando olhou para ele, agora irritada.
— Não sou nenhuma idiota. Eu entendo.
O olhar dele queimava.
— Ótimo. Agora cale a boca para que eu possa levá-la a um lugar seguro.
Jonas suavizou o aperto no braço dela apenas um pouco enquanto corriam pela floresta.
— Podemos nos esconder aqui. Encontrei essa caverna ontem mesmo.
Cleo foi pega de surpresa quando Jonas a puxou bruscamente para a direita, através de uma cortina de musgos e trepadeiras e do buraco oco de um enorme carvalho. Incrivelmente, ele dava direto em uma caverna de cerca de quatro metros de diâmetro. Era formada pela densidade de galhos e folhas que se arqueava sobre a cabeça dos dois e os protegia tanto dos guardas quanto de qualquer luz que tentasse se esgueirar pela folhagem verde exuberante que os cobria.
Cleo abriu a boca para falar, mas Jonas pressionou as costas dela contra uma parede daquela barreira natural.
— Shhh — Jonas alertou.
Cleo se concentrou em tentar não tremer de frio ou por causa do medo crescente.
Ela podia ver os guardas de onde estavam e prendeu a respiração — o mero som do ar entrando e saindo poderia revelar sua localização. Com as tochas que os guardas carregavam, dava para ver a entrada da caverna claramente através do buraco oco da grande árvore. Uniformes vermelhos passavam pela entrada, e guardas cutucavam plantas e arbustos com suas espadas. Os cavalos bufavam e batiam os cascos no chão.
Eles seriam descobertos a qualquer momento. Jonas a apertou com mais força, revelando sua própria apreensão.
A ponta afiada de uma espada empurrou as trepadeiras e parou a poucos centímetros do rosto de Cleo, e ela abafou um grito com a mão.
— Por aqui — um guarda gritou para os outros, e a espada foi recolhida. — Rápido, eles estão escapando!
Ela soltou um suspiro trêmulo de alívio quando o barulho de seus perseguidores desapareceu ao longe.
Momentos depois, ela levou um susto quando viu uma chama surgir na escuridão. Jonas havia pego uma pederneira no bolso e acendido uma vela que tirara de um saco de pano escondido na caverna.
— Deixe-me ver seu pescoço. — Ele aproximou a vela de Cleo, esfregando o polegar sobre a pele onde o guarda havia encostado a lâmina. — Ótimo. É só um arranhão.
— Apague isso — ela alertou. — Eles vão ver.
— Ninguém vai ver. Eles já foram.
— Está bem. Então me dê a vela. — Ela estendeu a mão. — Preciso ver como está seu ombro.
Jonas se contraiu como se tivesse esquecido que havia sido atingido por uma flecha.
— Preciso estancar o sangramento. — Ele entregou a vela a Cleo, depois puxou a camisa até a metade do peito e do braço. Ela aproximou a chama para enxergar o ferimento e fez cara feia ao ver tanto sangue.
— Muito grave? — ele perguntou, quando viu a reação dela.
— Não o suficiente para matar, obviamente.
Com um movimento rápido, Jonas tirou a camisa de uma vez. O ombro estava coberto de sangue em volta do ferimento. De resto, a luz tremeluzente mostrava uma pele bronzeada e impecável, tão musculosa quanto ela esperava, se fosse capaz de admitir a si mesma.
Cleo imediatamente voltou a olhar para o rosto dele.
— Segure a vela firme, vossa alteza — Jonas disse. — Preciso dar um jeito no buraco no meu ombro, senão continuarei sangrando.
Os olhos dela se arregalaram quando ele puxou a adaga da cintura — prata polida decorada com ouro, uma lâmina curva e afilada, e um cabo incrustado de joias. Ela reconheceu imediatamente a adaga de Aron, a mesma que ele usou para matar o irmão de Jonas.
— O que vai fazer com isso?
— O que precisa ser feito.
— Por que guardou essa arma horrível esse tempo todo?
— Tenho planos para ela. — Ele a segurou sobre a chama, aquecendo a lâmina.
— Você ainda quer matar Aron.
Jonas não respondeu, mas um pouco da dureza em seu olhar desapareceu.
— Meu irmão me ensinou a fazer isso, sabia? Tomas me ensinou tanta coisa… A caçar, a brigar, a colocar um osso quebrado no lugar ou fechar um ferimento. Você não tem ideia de como sinto falta dele.
A dor nos olhos escuros de Jonas passou para os dela. Não importava quem fosse — uma princesa, um camponês, um rebelde ou simplesmente um menino ou uma menina. Todos sofriam quando entes queridos morriam.
O passado era doloroso demais e invocava lembranças daqueles que ela também havia perdido. Cleo queria mudar de assunto.
— Para que esquentar a lâmina?
— Preciso cauterizar a ferida para fechá-la. É meio rudimentar, mas funciona. Ensinei meus rebeldes a fazerem o mesmo quando necessário.
Jonas tirou a faca coberta de joias da chama. Depois de hesitar apenas um instante, ele pressionou o metal quente e vermelho contra o ombro.
O chiado terrível e o odor cáustico de carne queimando reviraram o estômago dela e quase a fizeram derrubar a vela. Cleo se esforçou para segurá-la firme. Jonas estava com a testa coberta de suor, mas não emitiu nenhum som. Ele afastou a adaga do corpo.
— Pronto.
— Isso é primitivo!
Ele olhou para ela, pensativo.
— Você não passou por muitas adversidades na vida, não é?
Imediatamente ela abriu a boca para protestar, mas percebeu que, se fosse ser honesta, não poderia.
— Sinceramente, não. Até pouco tempo atrás, minha vida era um sonho. As preocupações que eu achava que tinha agora parecem incrivelmente insignificantes. Nunca havia parado para pensar naqueles que viviam numa situação pior do que a minha. Sabia que existiam, mas isso não me afetava.
— E agora?
Agora ela via com muito mais clareza do que em toda sua vida. Não podia ficar parada e ver as pessoas sofrendo sem tentar fazer alguma coisa para ajudar.
— No final, meu pai me disse que quando eu me tornasse rainha, teria que fazer um trabalho melhor do que o dele. — A imagem do pai morrendo em seus braços voltou à sua cabeça com uma nitidez agonizante. — Todos esses anos, e Paelsia tão perto… nós podíamos ter amenizado seu sofrimento. Mas não fizemos nada.
Jonas a observava calmamente, em silêncio, seu rosto iluminado pela luz escassa da vela.
— O chefe Basilius não teria aceitado ajuda do rei Corvin. Vi com meus próprios olhos que nosso líder vivia tão bem quanto qualquer rei enquanto deixava seu povo sofrer.
Cleo desviou os olhos.
— Não está certo.
— Não, você tem toda a razão, não está. — Ele ergueu uma sobrancelha. — Mas você acha que vai mudar as coisas, não acha?
Ela não hesitou nem um instante para responder.
— Eu sei que vou.
— Você é muito jovem, e um tanto ingênua. Talvez ingênua demais para ser rainha.
Ela estreitou os olhos.
— Está me insultando, rebelde?
Ele riu.
— Quando nos encontramos pela primeira vez você me chamou de selvagem. Agora ganhei o título levemente mais respeitável de rebelde.
Em um momento ele zombava dela, no outro parecia tão sincero e verdadeiro.
— Quando nos encontramos pela primeira vez você era um selvagem.
— Isso é completamente discutível.
— O fato de você ter guardado essa arma por tanto tempo me faz imaginar o quanto realmente mudou.
— Parece que teremos que concordar em discordar. — Ele vestiu a camisa de novo, mas não amarrou os cordões que ficavam sobre o peito nu.
— Acho que sim.
— Vamos ter que passar a noite aqui. — Jonas olhou através da camuflagem que cobria a entrada da caverna, o maxilar tenso. — Espero que meus amigos tenham conseguido escapar.
— Também espero. — Cleo não queria que nenhum deles morresse, nem mesmo a nada amigável Lysandra. A menina só agia daquele jeito por causa de sua dor. Havia perdido tanta coisa. Como todos eles.
Jonas se virou.
— Você precisa do seu sono de beleza, princesa. Ficarei vigiando.
— Jonas, espere.
Quando ele olhou de volta, ela tirou o cordão que prendia seus longos cabelos e os deixou cair em cascata sobre os ombros. Os olhos escuros dele acompanharam a queda dos cabelos dourados até a sua cintura como se estivesse hipnotizado.
— Eu preciso voltar.
Jonas rapidamente voltou a olhá-la nos olhos.
— Voltar para onde? Para o acampamento? Não será possível, vossa alteza. Os soldados ficarão vigiando por dias. Nós vamos para o outro lugar assim que amanhecer.
— Não… Não foi isso que eu quis dizer. Preciso voltar para o palácio.
Ele lhe lançou um olhar incrédulo.
— Não pode estar falando sério.
— Estou.
— Então vou deixar uma coisa bem clara, princesa. Você não vai voltar para o palácio. Sem chance. Entendeu?
Cleo começou a andar de um lado para o outro naquele espaço limitado, com o coração acelerado.
— O rei não vai concordar com nenhuma exigência que os rebeldes fizerem para me libertar, mas ele ainda me quer de volta para o casamento com seu filho. A estrada continuará a ser construída, e me manter aqui não terá nenhum efeito. Quanto mais tempo me mantiver como refém, mais gente vai morrer!
— Achei que já tivesse explicado, princesa, que durante a guerra as pessoas morrem. É assim que as coisas são.
— Mas seu plano não está funcionando. Não está vendo? Me manter em seu acampamento não serve para nada além de dar ao rei Gaius permissão total para matar. Minha ausência no palácio não resolveu nada para mim nem para vocês, só está criando mais problemas. É melhor eu encontrar a equipe de busca e… — Ela tentou imaginar o que poderia fazer para acabar com aquilo sem mais derramamento de sangue. — Eu direi que fugi durante o ataque. Foi por isso que soltei o cabelo; eles vão me reconhecer imediatamente, mesmo com essas roupas. Vão me levar de volta.
— E depois o quê? — Seu tom de voz ficou mais severo. — Nada mudou.
— Nada vai mudar se continuarmos neste caminho.
Jonas ficou olhando para Cleo como se, sinceramente, não conseguisse entender por que ela insistia em discutir sobre isso.
— Viver na floresta é muito duro para você? É muito assustador morar no meio das Terras Selvagens com todos nós? Você precisa voltar para sua vida luxuosa? Para seu amado noivo, príncipe Magnus?
O rosto dela corou.
— Eu o desprezo tanto quanto desprezo o pai dele.
— Palavras, princesa. Como posso acreditar nelas? Talvez você esteja tão comprometida com seu iminente casamento real que está repensando a derrota do rei Gaius se isso significar se juntar a mim e viver longe dos luxos. Afinal, sua estrada para se tornar rainha se bifurcou em dois caminhos, não é? Um é sozinha, como herdeira do trono de Auranos; o outro é nos braços do Príncipe Sanguinário, quando ele assumir o lugar do pai.
O garoto parecia viver para discutir com ela.
— Você não se lembra, Jonas? Você mesmo me disse que isso nunca aconteceria. Eles me matariam antes que eu me tornasse rainha, de qualquer jeito. Acha que isso mudou de repente?
Ele hesitou.
— Não sei.
— Exatamente. Você não sabe. Além dos que estão sendo massacrados pelos homens do rei, tenho amigos no castelo que correm perigo sem minha presença lá. E… tenho outra coisa muito valiosa para a qual não posso simplesmente virar as costas.
— O que é?
— Não posso dizer. — O anel era um segredo que ela se recusava a compartilhar com qualquer um. De repente desejou estar com ele naquele momento.
Jonas olhou feio para ela.
— Princesa, você é uma…
Mas então ele ficou paralisado, pegou a vela para apagar a chama, e a empurrou contra a parede.
Foi quando ela ouviu o que ele havia ouvido — vozes do lado de fora da segurança da caverna. Os guardas haviam voltado para dar mais uma olhada na área. Seu coração batia tão alto que ela estava certa de que acabaria revelando a localização deles. Os dois ficaram assim pelo que pareceram horas, quietos e imóveis como estátuas de mármore. Encostada ao corpo dele, Cleo sentiu seu cheiro novamente, folhas e ar fresco.
— Acho que eles foram embora — ele finalmente disse.
— Talvez eu devesse ter gritado. Eles poderiam ter me resgatado de você.
Jonas abafou o riso.
— Eu sou bom, mas não tenho certeza de que conseguiria enfrentar uma dúzia de guardas para salvar não só o meu pescoço, mas o seu também.
Ele era tão incrivelmente irritante!
— Às vezes eu realmente odeio você.
Finalmente, Jonas se afastou dela um pouco.
— O sentimento é totalmente mútuo, vossa alteza.
Ele ainda estava perto demais; a princesa sentia seu hálito quente junto ao rosto. Ela não conseguia organizar os pensamentos.
— Jonas, por favor, você poderia ao menos considerar…
Mas antes que pudesse dizer outra palavra, a boca dele tomou a dela.
Foi tão inesperado que ela nem teve a chance de pensar em empurrá-lo. O corpo dele a pressionava com firmeza junto à parede áspera da caverna. As mãos escorregavam por sua cintura para puxá-la para mais perto.
E de uma hora para a outra, com sua proximidade, com seu beijo, ele conseguiu tomar todos os sentidos de Cleo. Ele era a fumaça da fogueira, era as folhas e o musgo e a própria noite.
Não havia nada suave no beijo do rebelde, nada doce ou gentil. Era diferente de tudo o que ela já tinha experimentado, e tão perigoso — tão fatal quanto o beijo de uma flecha.
Finalmente ele se afastou, apenas um pouco, os olhos escuros vidrados como se estivesse meio embriagado.
— Princesa… — Ele segurou o rosto dela entre as mãos, ofegante.
Ela sentia os lábios machucados.
— Pelo jeito é assim que os paelsianos demonstram raiva e frustração?
Ele riu, o som desconfortável.
— Normalmente, não. Nem é a resposta típica para alguém que acaba de dizer que odeia você.
— Eu… eu não odeio você.
Seus olhos escuros encararam os dela.
— Eu também não odeio você.
Ela poderia se perder facilmente naqueles olhos, mas não podia. Não agora. Não com tanta coisa em risco.
— Eu preciso voltar, Jonas. E você precisa encontrar seus amigos e garantir que estão bem.
— Então ele ganha? — ele resmungou. — O rei derrama mais sangue e consegue exatamente o que quer?
— Desta vez, sim. — Ela esfregou distraidamente a mão, desejando poder sentir o anel. Ele poderia lhe dar a força de que precisava para enfrentar o que viria.
— E você se casa com o príncipe para que o Rei Sanguinário possa distrair as massas com uma cerimônia reluzente. Não gosto nada disso.
Distração. Cerimônia reluzente.
Cleo pegou o braço dele e olhou em seus olhos. Aquelas palavras faiscavam outro plano em sua mente, como o atrito entre duas pedras.
— O casamento.
— O que tem ele?
— O Templo de Cleiona. É lá que vai ser. Meu pai me levou até lá quando eu era criança e me deixou explorar tudo. Eu costumava olhar para a estátua da deusa, maravilhada por ter o nome de um ser tão incrível e mágico. Eu e minha irmã… nós brincávamos de esconde-esconde, assim como no palácio. Mas havia ainda mais lugares para se esconder no templo. Poderia ser a oportunidade perfeita para a causa rebelde, uma chance de chegar perto do rei. Mais perto do que qualquer um poderia chegar em um dia normal. Ele pretende usar meu casamento como distração, mas também estará distraído nesse dia!
Jonas não disse nada por um longo tempo.
— O que está sugerindo, princesa… pode funcionar.
— Será perigoso.
O princípio de um sorriso apareceu em seus lábios.
— Eu não faria nada que não fosse.
— Espere… não. Não! — Que sugestão horrível ela havia acabado de fazer! O que estava pensando? — Vai haver muitos guardas… é arriscado demais. Não vale a pena.
— Você não pode retirar o que disse com tanta facilidade. É… é uma ideia incrível. Eu mesmo deveria ter pensado nisso. É claro, o casamento! O Templo de Cleiona… A multidão do lado de fora, distraindo os guardas. Lá dentro… é a oportunidade perfeita para assassinar o rei e o príncipe. Acabando com o rei e seu herdeiro, assumimos o controle. Paelsia fica livre da opressão. E você teria seu trono de volta ao cair da noite.
Ela mal conseguia respirar.
Assassinar o rei e o príncipe.
Bem, é claro, Magnus também teria que morrer. Ele era o próximo na linha de sucessão ao trono.
— Acha mesmo que pode dar certo?
Seu sorriso se abriu.
— Sim, eu acho.
— Você é louco.
— Ei, a sugestão foi sua, vossa alteza. Talvez nós dois sejamos loucos. — Ele olhou para ela dos pés à cabeça. — Tanta impiedade em uma embalagem tão pequena. Quem poderia adivinhar?
Era um plano realmente louco. Mas que outra opção eles tinham? Às vezes, para recobrar a sanidade, era preciso reconhecer e aceitar a loucura.
— Farei o que for preciso para ter meu trono de volta — ela disse.
Naquele momento, cada palavra era sincera.
— Então estamos de acordo. É hora de meus rebeldes tomarem uma ação decisiva, mesmo que envolva muito risco. Eu estarei em seu casamento, com ou sem convite. E o rei e o príncipe cairão sob minha lâmina. — Ele ergueu uma sobrancelha. — A única questão é: posso confiar que não contará nada sobre esse plano?
O coração dela disparou como uma criatura selvagem.
— Juro pela alma do meu pai e da minha irmã que não direi nada.
Ele assentiu com a cabeça.
— Então acho que é hora de você voltar para o palácio.
Em silêncio, eles saíram da caverna e caminharam pela floresta escura até encontrar o acampamento dos guardas. Eles haviam acendido uma grande fogueira — a luz e o cheiro eram perceptíveis à distância. Não havia motivo para se esconder de predadores quando aqueles homens eram as piores e mais perigosas criaturas da floresta no momento.
Pelo canto do olho, ela viu um falcão — seria o mesmo de antes? — pousar sobre uma árvore próxima.
Jonas fez Cleo parar.
— Continuo não gostando disso.
— Eu também não gosto. Mas preciso ir.
Quando os olhos deles se encontraram, Cleo se lembrou nitidamente do beijo. Seus lábios ainda formigavam por causa dele. Eles ficaram parados por um instante, sem dizer nada.
— Esteja pronta no dia de seu casamento — ele disse. — Dentro de dez dias, tudo mudará para sempre. Entende o que estou dizendo?
Ela confirmou.
— Entendo.
Jonas acariciou a mão dela e finalmente a deixou ir. Com um último olhar, ela se virou e caminhou decidida até o acampamento dos guardas.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!