13 de agosto de 2018

Capítulo 14

JONAS
TERRAS SELVAGENS

Quando a princesa Cleo acordou, estava na traseira de uma carroça puxada por um cavalo, sacolejando em alta velocidade pelo campo, com os pulsos amarrados.
Jonas achou melhor imobilizá-la. Ele sabia que ela não ficaria muito feliz com ele quando acordasse. Isso para dizer o mínimo.
— Bem-vinda de volta — Jonas a cumprimentou quando ela abriu os olhos verde-azulados.
Cleo ficou olhando para ele meio sonolenta enquanto o efeito do remédio para dormir passava.
Então a clareza tomou conta de seu olhar.
— Seu animal! — Ela bufou, avançando na direção dele, mesmo amarrada. — Odeio você!
Ele gentilmente a fez sentar de novo.
— Poupe seu fôlego, vossa alteza. Vai acabar se machucando.
Ela olhou freneticamente ao redor.
— Para onde está me levando?
— Lar, doce lar.
— Por que fez isso?
— Foi uma medida desesperada, princesa.
— Você está superestimando meu valor para o príncipe Magnus e o pai dele. Qualquer coisa que tenha pedido será negada!
— Eu pedi para ele interromper a construção da estrada.
Ela ergueu as sobrancelhas.
— Foi um pedido estúpido! Há um milhão de coisas mais importantes para um rebelde exigir de um rei. Você não é muito bom nisso, não é?
Jonas lançou um olhar sombrio para ela. Às vezes esquecia como a língua de Cleo podia ser afiada.
— Por acaso você sabe o que aquela estrada está causando? Quanto sangue paelsiano já encharcou o solo dos campos de trabalho? Quantos morreram no último mês?
Ela ficou boquiaberta.
— Não. Se esses horrores forem verdade… eu sinto muito.
Não era a primeira vez que ela ouvia falar dessas atrocidades — ele as havia mencionado antes, embora não em detalhes, quando a visitara em seus aposentos. Mas ela não tinha visto nenhuma prova. Apesar de seu imponente noivado com o príncipe, Jonas ainda acreditava que ela era uma prisioneira de guerra que pouco sabia sobre o que acontecia do lado de fora dos muros dopalácio.
— O Rei Sanguinário não tem a mão leve para lidar com trabalho escravo. Ele pode ter acalmado a maioria dos auranianos com uma falsa sensação de segurança, mas eu garanto que o mesmo não pode ser dito pelo meu povo. Eu vi com meus próprios olhos o que os guardas do rei têm total permissão para fazer, sem qualquer penalidade ou oposição. E isso deve ser detido a qualquer custo.
A cor de face dela se esvaiu.
— É claro que deve ser detido.
Suas palavras foram inesperadas e repletas de sinceridade. Ele levou um tempo para conseguir falar de novo.
— Parece que concordamos em alguma coisa, no final das contas. Estou chocado.
— Você quer me colocar na mesma categoria que os Damora. Eu não sou como eles. Mas se queria sequestrar alguém com influência naquela família, não devia ter sido eu. Minha morte pelas mãos dos rebeldes seria um verdadeiro presente para o rei, não um problema.
Na loja de vestidos, Jonas havia dito que não pretendia fazer mal a ela, mas não podia culpá-la por pensar o pior. Era a segunda vez que ele a sequestrava. Devia parecer realmente selvagem aos olhos da garota. Ele se aproximou, ignorando o recuo involuntário dela, e começou a soltar as amarras para que suas mãos ficassem livres.
— Acho que teremos que esperar para ver o que acontece, não é, princesa?
Assim que chegaram à borda das Terras Selvagens, a quase cinquenta quilômetros de Pico do Falcão, Jonas agradeceu ao condutor da carroça — um auraniano simpatizante da causa rebelde que ele havia conhecido em sua visita anterior à cidade, no mesmo dia em que recrutou Nerissa como ajudante —, e guiou Cleo pela escuridão da densa floresta.
Ela não correu dele nem lutou. Foi preciso muito pouca pressão em seu braço para mantê-la ao seu lado enquanto seguiam pelo terreno intrincado.
— Ladrões sanguinários vivem aqui. — Ela não conseguiu conter o tremor em sua voz.
— Com certeza — Jonas respondeu.
— Animais perigosos também.
— Sem dúvida.
Ela lançou um olhar na direção dele.
— É o lugar perfeito para você.
Ele reprimiu uma gargalhada.
— Ah, quantos elogios, vossa alteza. Vai me fazer corar.
— Se considerou isso um elogio, é ainda mais idiota do que eu pensava.
Dessa vez ele não conseguiu conter o sorriso.
— Já fui chamado de coisa muito pior do que idiota.
Alguém da realeza como ela normalmente não passava do limite das árvores para ver como a floresta podia ficar escura, especialmente tão perto do anoitecer. As folhas grossas das árvores altas e imponentes bloqueavam qualquer luz do sol, lançando uma escuridão desalmada ao redor deles, como se estivessem no meio da noite. Cleo tropeçou nas raízes retorcidas, quase caindo.
Jonas apertou seu braço com mais força.
— Não temos tempo para parar, princesa. Não falta muito.
Nem mesmo ele gostaria de se demorar muito naquele lugar sem a proteção de um grupo maior.
Ela puxou as saias para que não arrastassem na lama e nas ervas daninhas e olhou para ele com hostilidade.
Finalmente, chegaram a uma clareira. Havia uma fogueira, emprestando sua luz à escuridão crescente. O cheiro forte de cervo cozido revelou a Jonas que a caçada havia ido bem. Os rebeldes não ficariam com fome naquela noite.
A princesa deu alguns passos em falso novamente quando sombras se aproximaram. Pelo menos três dúzias de rebeldes com roupas rasgadas e cara de poucos amigos se aproximavam. Alguns começaram a escalar as árvores. Cleo olhou para cima e arregalou os olhos quando viu os abrigos improvisados, amarrados com cordas, varetas e pedaços finos de madeira a seis metros de altura, no meio dos galhos grossos.
— É aqui que você vive? — ela perguntou, surpresa.
— Por enquanto.
Cleo cruzou os braços e deu uma olhada no acampamento. Apenas alguns rebeldes olhavam diretamente para ela — alguns com curiosidade, mas a maioria com desconfiança ou desprezo. Não era o lugar mais amigável do mundo para uma princesa, sem dúvida.
Tarus passou correndo na frente deles, sorrindo para Jonas enquanto perseguia um coelho. Aos catorze anos, era um dos rebeldes mais jovens e seu entusiasmo não tinha fim, embora ainda não tivesse habilidades para combate. Jonas o havia levado junto em várias missões de recrutamento. O corpo esguio e o rosto amigável do garoto ajudavam a acalmar qualquer cidadão desconfiado com quem Jonas desejasse falar.
O som das conversas, do zumbido dos insetos e do grito dos pássaros no alto das árvores dava vida à floresta em volta deles.
Não era tão ruim. Pelo menos ele não achava.
Cleo coçou o braço onde havia sido picada por um mosquito, parecendo mais irritada do que temerosa com esse ultraje sofrido. Uma pena. Não era o mais fino dos palácios dourados, nem mesmo uma pousada razoavelmente decente, mas teria que servir. Brion se aproximou.
— Precisa de ajuda por aqui? — ele perguntou, olhando rapidamente para Jonas.
— Não — Jonas respondeu. — Está tudo bem. Vá procurar sua namorada e a deixe fora do meu caminho. Não preciso de mais problemas hoje à noite.
— Você quer dizer a namorada que, dependendo do dia, me odeia tão profundamente quanto odeia você?
— Essa mesmo.
Brion passou pela fogueira, dando um tapa nas costas de um garoto chamado Phineas. Eles riram de alguma coisa enquanto olhavam na direção de Cleo.
— Aquele é o Brion — Jonas disse. — É um amigo muito próximo. Forte, leal, corajoso.
— Bom para ele. — Cleo estreitou os olhos. — Você é o líder deles, não é?
Jonas deu de ombros.
— Faço o meu melhor.
— E sob as suas ordens eles irão me matar, até mesmo seu amigo Brion. Ou você prefere fazer com as suas próprias mãos? — Quando ele não respondeu de imediato, ela se virou para olhar diretamente nos olhos dele. — E então?
Ele se aproximou e envolveu o braço dela com os dedos. A garota falava o que bem entendesse, abertamente. Era pior que Lysandra.
— Acho que seria mais inteligente não fazer essas sugestões em voz alta, alteza. Pode dar ideias aos meus rebeldes. Nem todo mundo concorda com a minha decisão de trazer você para cá.
Ela tentou se soltar, mas ele a segurou firme.
— Tire as mãos de mim — ela bufou.
— Isso é apenas uma questão política, princesa. O que fiz hoje e o que farei nos próximos dias é pelo meu povo. Só por ele. — Jonas olhou para a esquerda e xingou baixinho quando viu quem se aproximava rápido.
O cabelo de Lysandra estava solto. Sem a trança, era um emaranhado de cachos escuros. Seus olhos castanhos se fixaram em Cleo.
— Então essa é ela? Sua alteza real?
— É — Jonas disse, já esgotado. Lidar com a teimosa e insistente Lysandra era exaustivo, mesmo nos melhores dias. — Lysandra Barbas, conheça a princesa Cleiona Bellos.
Cleo ficou em silêncio, cautelosa, enquanto a garota a observava dos pés à cabeça.
— Ela ainda está respirando — Lysandra observou.
— Sim, está — Jonas confirmou.
Lysandra deu uma volta ao redor de Cleo, olhando para o seu vestido, suas joias, a ponta de suas sandálias douradas aparecendo sob as saias.
— Será que devemos mandar um dos dedos reais dela para o rei como prova de que está conosco?
— Lysandra — Jonas bufou, cada vez mais bravo. — Cale a boca.
— Isso é um sim?
— Deixe-me adivinhar — Cleo disse, enrugando o rosto. — Esta é uma das rebeldes que não aprovou seu plano de me sequestrar.
— Lysandra tem suas próprias ideias sobre as decisões que eu deveria tomar.
A rebelde olhou novamente para Cleo com reprovação.
— Não entendo direito o propósito de sequestrar uma garota que não serve para nada além de ficar bonita.
— Você nem me conhece — Cleo retrucou —, e já decidiu que me odeia. Seria tão justo quanto eu odiar você sem nunca tê-la visto.
Lysandra revirou os olhos.
— Digamos apenas que odeio toda a realeza da mesma forma. E você é da realeza. Portanto, odeio você. Nada pessoal.
— O que não faz o menor sentido. Nada pessoal? Ódio é uma coisa que eu levo bastante para o lado pessoal. Se eu mereci, é uma coisa. Se não mereci… É uma decisão idiota você disseminar um sentimento tão forte sem pensar.
As sobrancelhas de Lysandra se uniram.
— O rei Gaius incendiou minha vila e escravizou meu povo. Ele matou minha mãe e meu pai. E meu irmão, Gregor, eu não sei onde está. Posso nunca mais vê-lo. — Ela continuou ainda mais furiosa: — Você, por outro lado, não conhece a dor. Você não conhece a luta e o sacrifício. Nasceu em berço de ouro, com um teto dourado sobre a cabeça. Está noiva de um príncipe!
Novamente, Jonas abriu a boca para falar. Aquilo não os estava levando a lugar nenhum e havia atraído a atenção de mais uma dúzia de rebeldes que ouvia a discussão das garotas.
Mas a princesa falou antes. Os olhos de Cleo flamejavam.
— Você acha que não conheço a dor? Talvez seja diferente dos horrores que você presenciou, mas posso garantir que conheço muito bem. Perdi minha irmã adorada para uma doença que nenhum curandeiro conseguiu identificar. Eu mesma encontrei o corpo, inerte na cama, apenas algumas horas antes de o rei Gaius invadir minha casa. Meu pai foi assassinado tentando defender seu reino do inimigo. Ele lutou lado a lado com seus homens em vez de se esconder onde pudesse ficar em segurança. Minha mãe morreu no parto e eu nunca a conheci, mas soube que minha irmã me odiou durante anos por causa disso. Perdi um guarda de confiança, um… um garoto a quem entreguei meu coração, quando ele me defendeu do mesmo príncipe de quem estou noiva contra a vontade. Perdi quase todo mundo que amava neste mundo em tão pouco tempo que mal consigo ficar em pé e conter minha dor. — Ela se esforçou para respirar fundo. — Pense o que quiser de mim. Mas eu juro pela deusa que retomarei meu trono, e o rei Gaius pagará por seus crimes.
Lysandra a encarou por mais um instante, agora com os olhos cheios de lágrimas.
— Pode ter certeza que vai. — Sem mais uma palavra, ela saiu correndo e desapareceu na escuridão da floresta, seguida por Brion pouco depois.
Cleo havia convencido a menina ou estivera falando sozinha? Jonas não sabia. E também não sabia quanto da bravata de Lysandra era real e quanto era fabricada para fazê-la parecer durona na frente dos outros. Mas a dor em seus olhos sempre que falava de sua vila, de seus pais e de seu irmão perdido… aquilo era real. Ele entendia sua dor, assim como entendia a de Cleo. Para duas garotas tão diferentes, elas tinham muito em comum.
Jonas percebeu que Cleo olhava feio para ele.
— Pois não? — ele perguntou.
Cleo ergueu a cabeça.
— Se decidir me matar quando o rei Gaius se recusar a cumprir suas exigências, saiba que lutarei pela minha vida até meu último suspiro.
— Não duvido disso nem por um instante. — Jonas inclinou a cabeça. — Mas acho que há um certo mal-entendido aqui. Não pretendo matar você. Nem agora, nem mais tarde. Mas se vou usá-la contra os Damora o máximo que puder? Pode apostar que sim.
Ela uniu as sobrancelhas.
— Como?
— Ele a tem como um símbolo de esperança e união para o povo auraniano. Os rebeldes devem fazer o mesmo. Se ele se recusar a cumprir minhas exigências para garantir seu retorno em segurança, você ficará aqui conosco, como uma rebelde. Se a própria princesa dourada preferir ficar conosco diante das mentiras do rei, isso será visto como um sinal muito forte.
Ela ficou boquiaberta e estava prestes a protestar, mas Jonas levantou a mão.
— Eu acredito que ele a quer viva. Mas, é claro, não sou idiota. Ele presume que vamos escolher o caminho da violência se ele não colaborar, e isso também lhe seria útil. Mas qualquer estima que os rebeldes tenham ganhado aos olhos da população seria perdida se você fosse ferida. Mas não pretendo feri-la de modo algum. Você vale mais viva do que morta, tanto para mim quanto para o rei. Então eu sugiro que você se instale, se acomode, e aguarde. Nós vamos alimentá-la e lhe dar um lugar para dormir. Esta floresta tem uma péssima reputação, então é raro alguém em sã consciência se aventurar por aqui.
Cleo o olhou de cima a baixo.
— Isso está óbvio.
Ele sorriu com o canto da boca.
— Sei que meus meios de trazê-la pra cá não foram nada gentis. Mas juro que ninguém irá maltratá-la agora que está aqui. Você está em segurança. E saiba de uma coisa: eu mesmo pretendo enfiar minha lâmina no coração do rei e libertar meu povo de sua tirania. Quando tiver essa chance, você pode ter seu trono de volta. Mas minha preocupação não é com Auranos, e sim Paelsia.
Ele deixou as palavras serem processadas.
Cleo assentiu.
— E eu estou preocupada com o futuro de Auranos e de seus cidadãos.
— Outra coisa que temos em comum: o amor por nossas terras. Isso é bom. Então me diga, princesa, você vai continuar a contestar tudo o que faço? Ou vai ser gentil e cooperar?
Cleo não disse nada por um longo momento. Mas depois olhou bem nos olhos de Jonas, e seu olhar era tão feroz quanto o dele.
— Tudo bem. Vou cooperar. Mas não garanto que serei tão gentil assim.
Ele não conseguiu conter o riso.
— Posso viver com isso.

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