13 de agosto de 2018

Capítulo 13

IOANNES
O SANTUÁRIO

Phaedra o chamou até o palácio de cristal, e Ioannes não teve escolha exceto ir imediatamente até ela. Ele a encontrou com a preocupação gravada em seu lindo rosto.
— É Stephanos — ela disse.
O nome do adorado mentor de Phaedra o fez se aproximar um pouco mais. Depois que o próprio irmão dela fora exilado do Santuário, vinte anos antes, ela havia se voltado a Stephanos e Ioannes como seus amigos mais próximos naquele mundo.
— O que aconteceu com ele?
— Ele está morrendo. — O manto longo e fluido que ela usava tinha um tom de platina, quase igual ao de seus cabelos.
— Morrendo? — A palavra era tão estranha que parecia falsa em sua língua. Morrer era coisa de mortais, não daqueles que viviam no Santuário.
Ela agarrou na camisa dele e o puxou para mais perto.
— Não querem que muitos saibam, mas preciso de você aqui, para que possa ver com seus próprios olhos. Não há muito tempo.
Ela estava transtornada, e Ioannes sabia que nada que dissesse poderia aliviar sua dor.
— O que pode ser feito? — ele perguntou.
Ela apenas sacudiu a cabeça.
— Nada. Não temos como salvá-lo.
Ele sentiu o coração apertado.
— Leve-me até lá.
Phaedra o levou até o último andar do palácio, para um enorme quarto cercado por uma parede circular de vidro. De resto, ficava a céu aberto — sempre azul e sempre dia, nunca noite. Não havia nada no quarto além de uma plataforma dourada no centro. Nessa plataforma estava Stephanos. Ele estava cercado pelos Três — imortais que formavam o conselho de anciãos que governava aquele mundo. Eram os mais velhos e mais poderosos dos imortais.
— Por que ele está aqui? — o ancião chamado Danaus perguntou em um tom de voz tão desagradável quanto a própria pergunta. Ele era o membro dos Três em quem Ioannes menos confiava, e para quem ele nunca contaria nada a respeito dos sonhos compartilhados com a princesa Lucia, ou da descoberta de que ela era a feiticeira da profecia. Danaus estava sempre se metendo em seus assuntos e tentando saber mais sobre o que Ioannes fazia em suas viagens ao mundo da princesa e sobre a busca interminável pela Tétrade.
O ancião tinha inveja de sua capacidade de se transformar em falcão e entrar no mundo mortal. Desde que a Tétrade fora perdida, os três anciãos não podiam mais assumir a forma de falcão. Apesar de todo o seu poder e sua influência entre os imortais, estavam aprisionados ali havia um milênio.
— Eu quis que ele viesse — Phaedra disse, com o queixo erguido. Ela não se sentia intimidada por nenhum dos anciãos, nem nunca se sentira.
Mas Phaedra não estava ciente de alguns dos segredos que Ioannes conhecia. Se estivesse, talvez sua coragem vacilasse.
— É um assunto particular — Danaus vociferou. — E deve continuar assim.
— Está tudo bem — Stephanos disse com uma voz tão frágil quanto sua aparência. — Não me importo com mais uma testemunha. Pode ficar, Ioannes.
— Obrigado, Stephanos.
O peito de Stephanos se movimentava rapidamente, se esforçando para respirar. Desde a última vez em que Ioannes o vira, seus cabelos escuros haviam se tornado brancos e quebradiços; sua perfeita pele dourada agora estava pálida e profundamente enrugada, como a de um velho.
Um rosto que nunca havia aparentado mais do que vinte e cinco anos mortais agora parecia ter quatro vezes isso.
Ver uma decadência tão repentina e inesperada fez o estômago de Ioannes arder, e tanto pena quanto repulsa faziam uma espiral dentro dele.
Timotheus, uma visão mais agradável, era membro do conselho e mentor do próprio Ioannes. Em aparência, podia ser seu irmão mais velho, mesmo tendo o dobro de sua idade. A ideia de perder um amigo tão sábio, como estava prestes a acontecer com Phaedra, causava-lhe uma dor profunda. Mas Timotheus parecia jovem e forte como sempre. A única coisa que revelava a idade do ancião eram seus olhos dourados, agora tomados por preocupação e sofrimento.
Timotheus acenou com a cabeça na direção dele e sorriu com o canto da boca para mostrar que não compartilhava da postura desagradável de Danaus em relação à sua presença.
E lá também estava o terceiro membro do conselho.
Ioannes sentiu o peso do olhar dela antes de arriscar virar os olhos em sua direção.
A beleza de Melenia, mesmo entre as belas imortais, era lendária. A anciã parecia esculpida em ouro, tinha cabelos claros que caíam até os joelhos em ondas suaves, uma visão da perfeição em todos os sentidos — fisicamente, era a imortal mais magnífica que já existira. Embora parecesse tão jovem quanto os outros membros do conselho, Melenia era a mais velha entre os seus — sua idade era incontável. Infinita.
— Sim, você pode ficar — ela disse com suavidade. — A menos que prefira sair, Ioannes.
Phaedra apertou a mão dele com mais força. Ela o queria ali, para apoiá-la naquele momento difícil. Se não quisesse, não teria gastado sua magia chamando-o.
— Por que isso está acontecendo? — Ioannes perguntou com um nó na garganta.
Melenia arqueou as sobrancelhas.
— É trágico, mas o que está acontecendo é muito simples. Nossa magia está se esvaindo a ponto de não ser mais capaz de sustentar todos de nossa espécie. Este é o resultado.
— O tornado em Paelsia foi fruto de magia, magia do ar — Phaedra disse. — Eu mesma vi. Estava lá na forma de falcão. Ele drenou poder do Santuário, e isso… tenho certeza de que foi isso que desencadeou a condição de Stephanos. Mas como? Como o que acontece no mundo mortal nos afeta? Achei que não houvesse nenhuma conexão. Acham que tem alguma coisa a ver com a estrada que o rei mortal está construindo em suas terras?
Todos os olhares se voltaram para Phaedra.
— Você está enganada — Melenia disse. — O que está acontecendo com Stephanos é resultado de uma drenagem lenta de nossa magia que vem acontecendo ao longo do tempo. Um desastre natural ocorrido no mundo mortal não tem nada a ver com isso.
Phaedra sacudiu a cabeça.
— Talvez o rei Gaius esteja sendo guiado por alguém que sabe sobre nós, sobre como usar nossa magia em benefício próprio.
— Bobagem — Danaus disse, desdenhando dela. — Nenhum mortal tem qualquer efeito sobre nós, não importa quem seja.
— Tem certeza disso? — Timotheus perguntou.
A expressão de Danaus ficou tensa.
— Tenho.
Timotheus sorriu, mas seus olhos permaneceram sérios.
— Deve ser bom estar sempre certo sobre tudo.
— Não tenha tanta certeza do que diz, Danaus — Melenia falou. — Talvez haja alguma validade na suspeita de Phaedra. Ela sempre foi muito esperta. Precisamos observar com atenção o rei Gaius e suas ações futuras. Ele pode ser uma ameaça.
— Uma ameaça? — Danaus ridicularizou. — Se for verdade, ele será o primeiro mortal que já nos ameaçou.
— De qualquer forma, aqui estamos. — Melenia lançou um olhar na direção de Stephanos, que fechou os olhos enrugados como se estivesse sofrendo uma dor profunda e incomensurável.
— Tudo isso significa — Danaus disse, de mau humor — que nossos patrulheiros devem encontrar a Tétrade para restaurar completamente nossa magia e impedir que todos nós definhemos até a morte.
— Estamos tentando — Ioannes resmungou. Embora, na verdade, ele tenha parado de procurar pelos cristais quando uma princesa de olhos da cor do céu e cabelos negros como o ébano cativou toda a sua atenção.
— Não me parece que estejam tentando com muito afinco.
— Estamos. A busca nunca foi interrompida, nem mesmo muito depois de quando deveria ter sido. A Tétrade não pode ser encontrada.
— Está desistindo? Com tanta coisa em jogo? Quem será o próximo afetado depois de Stephanos? Talvez seja você!
— Silêncio, Danaus. — Um músculo do rosto de Timotheus se contraiu. — Discutirmos entre nós não vai resolver nada.
Ioannes sabia que Timotheus não gostava dos outros membros do conselho; na verdade, mal tolerava os dois. O Santuário era um pequeno enclave, com poucas centenas de imortais obrigados a viver juntos indefinidamente. Apesar de toda sua beleza, era uma prisão, evitável apenas através da renúncia à magia e à imortalidade. E nem todos os residentes se davam bem.
— No mínimo — Timotheus começou a falar —, essa é uma prova absoluta de que nosso mundo está decaindo lentamente para a escuridão, como o sol desaparecendo no horizonte no mundo mortal. Mesmo se a Tétrade voltar para cá amanhã, pode ser tarde demais.
— Sempre pessimista — Melenia disse, seca.
— Realista — Timotheus corrigiu.
Stephanos gritava de dor.
— Chegou a hora — Melenia sussurrou. Ela caminhou na direção de Stephanos, olhando para o seu rosto. — Gostaria que houvesse algo que eu pudesse fazer para salvá-lo, meu caro amigo.
Apesar de suas palavras gentis, ele não a olhava com afeição. Na verdade, era como se ele a estivesse vendo pela primeira vez. Seus olhos se apertaram.
— Acha que seus segredos vão morrer comigo, Melenia?
Mas antes que pudesse dizer outra palavra, Stephanos deu mais um grito, e seu corpo frágil se arqueou para cima, estremecendo violentamente. Em seguida uma luz branca e brilhante explodiu a partir dele. Ioannes cambaleou para trás e protegeu os olhos para não ser cegado. O grito de um falcão cortou o ar, e a parede de vidro ao redor deles se estilhaçou em um milhão de cacos de cristal. Tudo diante dele ficou completamente branco enquanto o grito continuava.
Parecia que eles nunca sobreviveriam a um massacre tão violento de imagem e som.
O medo tomou conta de Ioannes, e ele caiu de joelhos com força, levando as mãos aos ouvidos, com um grito se formando dentro de seu peito.
Mas logo tudo ficou em silêncio. A luz sumiu, o som desapareceu. A plataforma dourada ficou vazia. O corpo de Stephanos tinha partido. Havia retornado à essência da magia pura de onde nascera, a magia que sustentava o seu mundo.
Phaedra cambaleou na direção de Ioannes enquanto ele se levantava. Ele estendeu os braços para ela, que desabou junto a ele, tremendo.
— Achei que teríamos mais tempo! — ela chorou.
— Está terminado — Danaus disse a Melenia.
— Sim — ela respondeu com solenidade. — Sentiremos a falta dele.
Timotheus olhou para a bela imortal com curiosidade.
— O que ele quis dizer, Melenia? De que segredos estava falando?
Ela lhe ofereceu um sorriso cansado.
— Sua mente estava se deteriorando mais rápido do que o corpo. Muito triste testemunhar um fim desses para um dos melhores e mais brilhantes entre todos nós.
— Quem será o próximo? — A expressão de Danaus era tensa. — Quem de nós morrerá em seguida?
— A Tétrade ainda existe — Melenia afirmou calmamente. — Se nós existimos, ela também existe. E pode ser encontrada antes que tudo esteja perdido.
— Tem certeza disso?
— Nunca tive tanta certeza. — Ela andou na direção de Ioannes e Phaedra e pegou a mão dos dois. — A perda de Stephanos nos uniu. Seguiremos mais fortes, com confiança e amizade. Certo?
— Claro — Ioannes concordou. Phaedra ficou em silêncio.
— Podem ir agora. E não falem sobre isso com mais ninguém.
Não era preciso dizer duas vezes. Ioannes e Phaedra partiram sem dizer uma palavra. Não voltaram a falar até saírem do palácio, deixarem a cidade e chegarem ao prado preferido de Ioannes. Ele esperava que sua amiga atormentada desmoronasse de sofrimento. Em vez disso, quando se virou para Phaedra, ela o empurrou com muita força. Ele quase caiu para trás, esfregando o peito e olhando para ela, confuso.
— Por que fez isso?
— Por engolir todas as mentiras que saem dos lábios dela.
— De quem?
— Melenia, é claro. De quem mais? A bela aranha em sua teia prateada, contando histórias para enroscar a todos nós. Você ouviu o que ele disse no final! Stephanos queria expor as mentiras dela.
— Ele estava morrendo. Não sabia o que estava dizendo.
— Está tão cego assim pela beleza dela que não consegue enxergar a verdade? Ela é má, Ioannes!
— Devia ter cuidado com o que diz sobre Melenia.
Ela levantou a cabeça.
— Não tenho medo dela.
— Phaedra…
— Ela sabe sobre sua pequena feiticeira? Mais alguém sabe além de mim?
Ioannes ficou paralisado.
— O quê?
— Aquela que você visita em seus sonhos. — Um sorriso tenso apareceu em seus lábios. — Acha que não sei o que você faz quando está aqui sozinho? Você fala dormindo: Lucia… Lucia. Um hábito terrível para alguém que guarda segredos. Está se apaixonando por uma mortal, Ioannes? Outros já seguiram por esse caminho e acabaram perdidos e incapazes de encontrar o caminho de volta para casa.
Ele sabia que Phaedra o estivera observando. Essas perguntas, essas acusações o faziam se sentir exposto, acuado.
— Você não vai contar isso a ninguém.
Ela balançou a cabeça com repulsa.
— Vou embora. Tenho lugares aonde ir, mortais para vigiar. Sonhos para visitar. Você não é único que está vigiando mortais específicos, Ioannes.
— Phaedra, não. Precisamos conversar sobre isso.
Os olhos de Phaedra brilharam.
— Cansei de conversar. Só posso lhe dizer uma coisa: cuidado com Melenia. Nunca confiei nela, mas ultimamente… Desconfio que ela esteja tramando alguma coisa, e acho que sei o que é. E, acredite, se não for esperto, ela irá destruí-lo.
Sem dizer mais nada, ela se virou e começou a correr. Sua figura tremeluziu e se transformou, tomando a forma de um falcão dourado que voou bem alto no límpido céu azul.

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