13 de agosto de 2018

Capítulo 12

LUCIA
AURANOS

A magnificência do quarto à sua volta fez Lucia perder o fôlego. Comparado aos seus aposentos austeros no palácio limeriano, aquilo era a própria definição do luxo. O piso e as paredes brilhavam como se fossem metais preciosos. A brisa que vinha da janela aberta do terraço era quente, não fria. A cama com dossel era macia, forrada com tecidos importados coloridos e sedosos, com cobertas de pele bem brancas e tão macias e quentes quanto o pelo de Hana.
Tão estranho — parecia que ela ainda estava sonhando.
Sonhando.
Ioannes
À primeira vista, Lucia pensou que era ele sentado ao lado de sua cama quando acordou. Mas os cabelos de Ioannes eram cor de bronze, não pretos. Seus olhos eram dourados e cheios de alegria, não castanho-escuros e sofridos. Ela esperava que Magnus não tivesse visto a decepção em seus olhos por tê-lo encontrado, em vez do garoto de seus sonhos.
A rainha se sentou na beirada da cama e colocou a mão fria na testa de Lucia.
— Como está se sentindo, minha querida? Com sede?
Lucia fez que sim com a cabeça.
— Eu não me lembro de ter acordado antes. Mas você disse que eu acordei, não é?
— Sim. Duas vezes. Mas foi só por um instante.
— Só por um instante… não assim?
— Não. — A rainha sorriu. — Não assim. Depois você caiu no sono de novo.
O olhar de Lucia se desviou para o terraço, para o céu azul que ela podia ver além dele.
— Quero ver meu pai.
— É claro. Em breve.
A rainha foi pegar um pouco de água para a filha e voltou, levando o cálice prateado aos lábios de Lucia. A água estava deliciosamente fria quando escorreu por sua garganta.
— Obrigada — ela sussurrou.
— Ouvi falar do que você fez. De como usou seus elementia para ajudar Gaius a tomar este lugar. Tomar este reino. — A rainha voltou a se sentar ao lado de Lucia. — Muitas pessoas morreram naquele dia, mas seu pai conseguiu a vitória que desejava.
Lucia engoliu em seco.
— Quantos morreram?
— Inúmeras vidas inocentes foram perdidas. Eu cheguei o mais rápido que pude. Queria estar aqui com minha família, independente do resultado da guerra. Gaius não sabia que eu viria tão rápido. Na verdade, ele ficou bravo por eu ter chegado sem avisar. Mas estou aqui. E cuidei de você todos os dias desde então.
Inúmeras vidas inocentes.
Ela não podia se culpar por isso, dizia a si mesma freneticamente. Seu pai e Magnus estavam em perigo — Limeros inteiro estava em perigo. Ela fez o que era preciso por sua família, por seu reino. Magnus quase tinha morrido diante dela por causa de ferimentos sofridos na batalha. Apenas sua magia da terra o havia curado a tempo. Sem isso, ele estaria morto.
E ela faria novamente — sem pestanejar — se fosse necessário para salvar aqueles que amava.
Não faria?
Seus olhos estavam muito pesados. Ela estava esgotada apesar de estar acordada havia tão pouco tempo. Estava preocupada que pudesse dormir novamente, como sua mãe havia dito.
— Seus elementia são destrutivos, Lucia — a rainha disse suavemente. — Você já provou isso, tanto com o assassinato de Sabina quanto com o horror do que fez aqui.
O estômago de Lucia se revirou.
— Eu não pretendia matar todas aquelas pessoas. E Sabina… — A lembrança das chamas, da amante de seu pai queimando, gritando, fez seu corpo estremecer. — Ela havia colocado uma lâmina no pescoço de Magnus. Eu… não pensei. Eu não queria matá-la, apenas detê-la.
A rainha retirou com cuidado os cabelos longos e pretos do rosto de Lucia.
— Eu sei, minha querida. O que torna tudo ainda pior. Gaius celebra tudo o que você pode fazer, mas há um preço alto a ser pago por um poder tão sombrio. E ele não será forçado a pagar por isso. Você será. E ainda nem se dá conta.
As palavras de sua mãe a confundiam.
— Você chama de poder sombrio? Os elementia são magia natural… dos elementos que criaram o próprio universo. Não é sombrio.
— É, sim, quando esse poder é usado para destruir. Para matar. E é para isso que Gaius quer você; é tudo o que ele quer de você. — A expressão dela endureceu. — A busca infinita dele pelo poder supremo. Mas a que custo?
— Ele é o rei. Todo rei busca poder. — Lucia umedeceu os lábios secos com a língua. — Você não precisa ter medo de mim, mãe. Apesar das nossas diferenças no passado, juro pela deusa que nunca lhe faria mal.
A rainha sorriu sem achar graça e levou o cálice aos lábios de Lucia para que bebesse mais um pouco de água fria e reconfortante.
— Logo chegará um tempo em que você não perceberá quem está machucando com a sua magia, Lucia. Em que não terá mais nenhum controle sobre ela. Quando o mal tomar conta de você completamente.
— Eu não sou má! — Mesmo que quase sempre só tivesse ouvido palavras severas daquela mulher em seus dezesseis anos de vida, raramente havia sido ferida por elas como estava sendo naquele momento.
A rainha colocou o cálice vazio sobre a mesa de cabeceira de ébano esculpido e se virou para segurar as mãos de Lucia.
— Eu procurei respostas para as perguntas que ninguém fez. Você não sabe o que virá, o que esperar. Você tem tantos elementia dentro de si que, agora que foram despertados, só vão aumentar, como um vulcão efervescente, pronto para entrar em erupção. E quando essa erupção acontecer…
Lucia tentou controlar seus pensamentos desenfreados.
— O quê? O que vai acontecer?
A rainha tinha olheiras escuras sob os olhos, dando a entender que não dormia havia algum tempo.
— Eu não vou deixá-lo destruir você em benefício próprio.
— Mãe, por favor…
O maxilar dela ficou tenso, e ela soltou as mãos de Lucia.
— Ele acha que sou fraca, que fico parada vendo-o tramar suas obscuridades sem opinar nem julgar. Que não passo de uma esposa dedicada e sem importância. Mas está errado. Eu vejo meu propósito agora, Lucia. É impedi-lo de todas as maneiras que puder. Ele não se dá conta do que deseja fazer com o mundo. Ele acha que pode controlar o incontrolável.
Lucia percebeu que estava tremendo.
— Preciso levantar. — Alarmada, mas ainda muito cansada, ela se esforçou para sair da cama, mas a rainha segurou seu ombro para mantê-la deitada.
— Preciso matá-la — a rainha sussurrou. — Para salvá-la do que temo que vá acontecer no futuro. Para acabar com isso enquanto ainda está no início. Mas não posso. Ainda não. Quando olho para você, vejo o bebê pequeno e lindo que me foi entregue dezesseis anos atrás. Eu odiava você, e amava você.
Lucia ficou olhando para a rainha, horrorizada com suas palavras.
— Agora — a rainha continuou —, apenas o amor permanece. O amor é a única coisa que importa no final. O que eu fiz foi por amor, Lucia.
Uma onda de tontura tomou conta dela, e Lucia olhou diretamente para o cálice de prata.
— A água…
— É uma poção muito poderosa. — A rainha tocou o recipiente, passando o dedo pela borda cintilante. — Indetectável pelo sabor. Durma, minha querida. A escuridão não vai tocá-la em seus sonhos. Durma em paz. E quando eu finalmente encontrar forças para acabar com sua vida, prometo ser gentil.
Uma poção. Uma poção para dormir…
— Durma agora, minha querida. — A voz da rainha era calma.
Lucia olhou para o terraço e viu a ponta dourada da asa de um falcão.
— Ioannes — ela sussurrou, enquanto os luxuosos aposentos ao seu redor desapareciam.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!