13 de agosto de 2018

Capítulo 10

CLEO
AURANOS

Cleo apertou o anel de ouro e ametista com tanta força na mão que teve certeza de que ele deixaria uma marca permanente em sua pele. Fechando bem os olhos, tentou sentir algo vindo dele. Qualquer coisa.
Finalmente, abriu a mão para observar a pequena joia. Pertenceu à sua mãe, o pai dela havia dito segundos antes de morrer. Ela sempre acreditou que tinha o poder de ajudar a encontrar a Tétrade. Se puder encontrá-la, terá poder suficiente para retomar este reino daqueles que querem destruir todos nós.
— Estou tentando, pai — ela sussurrou. Lágrimas de frustração e sofrimento fizeram seus olhos arderem. — Mas não sei como. Queria que estivesse aqui. Sinto tanta falta de você e Emilia.
As semanas de pesquisa na biblioteca do palácio não tinham levado a nada.
Talvez ele estivesse errado.
Houve uma pancada forte na porta, e ela rapidamente se virou para esconder o anel atrás da pedra solta na parede. Um instante depois, a porta se abriu e duas jovens criadas entraram, uma de cabelos bem claros, outra de cabelos escuros. Ambas limerianas. Cleo não tinha mais permissão para ter criadas de seu próprio reino.
— Fomos enviadas para ajudá-la a se preparar para a viagem — disse Helena, a de cabelos claros.
— Viagem? — Cleo repetiu. — Para onde estou indo?
— Para Pico do Falcão — a outra, Dora, disse com uma inveja sem tamanho brilhando em seus olhos escuros. — A rainha em pessoa vai acompanhá-la até lá. Você tem uma hora marcada com Lorenzo hoje.
Era um nome que Cleo conhecia bem desde uma época em que as coisas eram mais simples. Um homem famoso, conhecido em Auranos por seu gosto impecável e estilo exemplar, um homem que vestia Cleo e sua irmã desde que eram adolescentes.
A realidade da situação começou a ganhar forma. A rainha Althea iria acompanhar Cleo para a prova de seu vestido de noiva.
Ela sentiu um peso no estômago. A sensação de estar encurralada, de ser obrigada a fazer o que não queria, a dominou. Mas depois se deu conta de que seria a primeira vez que deixaria o palácio desde que fora capturada.
Havia uma chance de Lorenzo ajudá-la em segredo, e seus pensamentos se voltaram novamente para o anel. Pico do Falcão era o lar de muitos intelectuais e artistas — cidadãos bem versados em história e lendas. E se ela pudesse falar com o estilista a sós e recrutá-lo para sua causa…
— Está bem — ela disse, erguendo a cabeça. — Então não vamos deixar a rainha esperando.


— Fiquei sabendo que vai a Pico do Falcão hoje, Cleo.
As palavras escorregadias a fizeram diminuir o passo enquanto caminhava pelo corredor depois de dispensar Helena e Dora assim que as criadas a vestiram em trajes de viagem.
— Lorde Aron… — Cleo se virou e o viu vagando por ali.
Cleo lembrou que já fazia quase um ano desde a última vez que estivera em Pico do Falcão. Ela e alguns amigos passaram uns dias na grande cidade auraniana, aninhada ao longo da costa, sem uma única preocupação além de se divertir. Aron também estivera presente. Na época, ela achou que estivesse apaixonada por ele.
Como os tempos haviam mudado.
— Sei que ainda está brava comigo por ter revelado seu segredo. — Os olhos dele brilhavam com o reflexo da tocha fixada à parede de pedras lisas ao lado.
Ela forçou um sorriso gracioso. Foi preciso fazer um esforço.
— Esses aborrecimentos agora estão no passado. Vamos deixá-los para lá.
Aron a agarrou pelos braços quando ela tentou passar por ele.
— Acha mesmo que desisti tão fácil?
Havia um cheiro forte de vinho em seu hálito. Ele só bebia vinho paelsiano, o que causava uma embriaguez profunda sem chance de ressaca depois. Isso, é claro, tornava mais difícil saber a hora de parar.
— Fácil? Que parte disso tem sido fácil?
— Apesar de tudo, ainda quero você.
Ela se desvencilhou dele, empurrando-o para trás.
— Não seja tão ridículo, Aron. Você nunca me quis. Você queria a posição que ganharia ao se casar comigo. Seria uma decisão muito sábia deixar isso de lado agora. Você perdeu.
Todos perdemos… por enquanto.
Aron estreitou os olhos.
— Se é assim, talvez minha atenção se volte para sua amiguinha, Mira. Ela não irá me recusar; não se souber o que é bom para ela. Você ficaria com ciúmes se eu a tivesse como amante?
Ela se esforçou para manter a calma.
— Deixe Mira em paz, seu bêbado cretino.
— Ou o quê?
— Ou, acredite, vou cortar mais do que a sua língua.
Ela não tinha tempo para essas bobagens, por mais perturbadoras que fossem. Cleo se virou e começou a se afastar, mas os passos dele a seguiram. Ela passou rapidamente pela biblioteca, evitando olhar para os retratos dos Damora pendurados no lugar dos de sua família. Com os olhos focados no caminho, ela quase trombou com Magnus quando ele saiu da biblioteca com livros nos braços. Ele passou os olhos por Cleo desinteressado, depois olhou por cima de seu ombro. Ao ver Magnus, Aron quase tropeçou. Ele acenou com a cabeça para o príncipe e continuou andando, passando por eles, até desaparecer no corredor seguinte.
— Parece que está sendo seguida, princesa. O novo vassalo de meu pai não desiste facilmente do amor verdadeiro, não é?
Amor verdadeiro. A ideia era risível.
— Ele vai desistir. Mais cedo ou mais tarde.
Ela olhou para os livros que o príncipe carregava. Ficou surpresa ao ver que todos tinham a ver com magia e lendas — livros que ela mesma já havia folheado e descoberto que não continham respostas úteis.
Ele notou que sua seleção havia atraído a atenção dela.
— É só uma leitura leve para passar os dias tediosos.
Ela olhou dentro de seus olhos castanho-escuros.
— Você acredita em magia?
— Claro que não. Só um tolo acreditaria nessas bobagens. — Ele deu um sorriso desagradável. — Você se importa com o que eu acredito ou deixo de acreditar?
— Achei que você só se importasse com poder e prestígio a qualquer custo. O que mais eu deveria saber?
— Nada. — Ele manteve o sorriso forçado, mas seus olhos eram frios. — Parece que seu outro admirador também está por aqui. Tantos rapazes parecem estar apaixonados por você que vou precisar de um livro para manter o registro de todos.
— Princesa — a voz de Nic a chamou pela esquerda. — Fui enviado para encontrá-la.
Ela desviou a atenção do príncipe odioso. Nic se aproximou dela com calma, mas seu olhar atento estava focado em Magnus.
Ver Nic era sempre um alívio e melhorava seu humor — mesmo na presença do inimigo. Mas hoje sua alegria foi arruinada ao ver as roupas que ele vestia. Roupas não. Uniforme.
Vermelho. Familiar. Odioso. Mas necessário.
Depois de encontrar Nic limpando os estábulos, e na manhã seguinte à visita chocante e indesejável de Jonas Agallon na escuridão de seus aposentos, Cleo havia ido falar diretamente com o rei. Ela não mencionou o rebelde, mas pediu — ou melhor, implorou — para Nic ser transferido para outra parte do palácio. Magnus estava presente e argumentou que Nic deveria permanecer exatamente onde estava por tempo indefinido.
— Você mandou o ex-escudeiro do rei trabalhar nos estábulos e nem me contou? — o rei perguntara, perplexo. — Esse rapaz teria mais valor para mim em qualquer outro lugar.
Cleo ficara surpresa ao saber que Magnus não havia comentado nada com o pai sobre o que Nic havia feito para receber tamanha punição. Assim como optou por não revelar esses detalhes durante aquela conversa. Talvez estivesse envergonhado e constrangido pelo que havia acontecido em Paelsia no dia em que matou Theon.
E deveria estar.
— Há motivos para tudo o que eu faço — foi tudo o que Magnus disse. — Nicolo Cassian merece ficar indefinidamente no meio da sujeira dos cavalos.
— A menos que possa me dar um motivo pertinente, terei que discordar de você.
Magnus ficou de boca fechada, mas lançou um olhar sinistro para Cleo, que estava radiante por dentro com aquela pequena vitória.
Cleo havia ganhado aquela batalha. Contudo, em vez de remover lama e sujeira de cavalo, Nic havia sido transferido para a guarda do palácio e agora era obrigado a vestir o uniforme do inimigo. A mandíbula de Nic estava tensa, e seu foco não se desviava de Magnus.
— Princesa, está tudo bem?
— Claro que sim — ela disse em voz baixa. — Tanto quanto possível.
Magnus chegou a bufar, achando graça.
— Não se preocupe. Não cometi nenhum insulto à sua bela princesa hoje. Se bem que ainda é cedo.
O olhar de Nic se encheu de ódio.
— Se algum dia sequer pensar em fazer mal a ela, você vai ver só.
— E você deveria ter mais cuidado com o jeito que fala com seus superiores.
Isso soou muito próximo de uma ameaça.
— Não se engane, príncipe Magnus. Não importa o quanto você tente me prejudicar, nunca mais deixarei algo desagradável acontecer a Cleo.
A expressão de Magnus permaneceu irônica.
— Você me diverte, Cassian. Acho que estou contente por não ter pedido sua cabeça.
— Por que não pediu? — Cleo perguntou com curiosidade. — E por que não contou ao rei o que aconteceu naquele dia?
Magnus apertou os lábios.
— Eu achei… desnecessário. Agora, se me dão licença, preciso fazer uma visita à minha irmã. Que sua viagem com a minha mãe seja proveitosa, princesa.
Cleo ficou observando enquanto o príncipe se afastava. O rapaz era um enigma completo para ela.
E ela preferia que continuasse desse jeito.
— Odeio ele — Nic disse entredentes.
— Sério? — Cleo se virou para ele, agora irritada. — Você disfarça tão bem.
— Você espera que eu…
— Não pode dizer essas coisas para ele, não importa o que sinta! Diga para mim em confidência, mas não para ele. Ele ainda pode pedir sua execução pelo mínimo insulto, e você sabe disso!
Nic fez cara feia e olhou para o chão.
— Tem razão. Desculpe, Cleo.
— Não precisa se desculpar. Só estou pedindo para ter mais cuidado. — Ela respirou fundo e soltou o ar lentamente. — Eu me recuso a perder você. Jamais. Entendeu?
— O sentimento é mútuo. — Ele agora estava sorrindo.
— O que foi? — ela perguntou, confusa. Não via graça nenhuma na conversa dos dois.
— Você está diferente. Mais obstinada. Mais… incisiva. — Seu sorriso desapareceu. — Mas essa força surgiu através da dor e da perda. Gostaria de poder levar tudo embora para que você não precisasse mais sofrer.
Cleo sentiu um ímpeto de contar a ele sobre o anel, mas conteve a língua por medo de colocá-lo em risco com tal informação. Continuaria sendo seu segredo… pelo menos até ela descobrir todos os segredos do anel.
— Vamos — ela disse então. — Rumo a Pico do Falcão. Devo insistir que seja meu guarda particular; ficará ao meu lado pelo tempo que estivermos fora.
Isso suscitou mais um sorriso.
— Precisa de tanta proteção para uma simples prova de vestido?
— Acho que sim — ela disse, finalmente encontrando seu próprio sorriso. — Não esqueça que serei obrigada a passar um dia inteiro na companhia da rainha.


— Não conheço muita coisa de Auranos — a rainha disse algumas horas mais tarde, sentada na frente de Cleo em uma carruagem fechada. Havia meia dúzia de guardas montados na frente e atrás delas. Nic estava sentado com o cocheiro, deixando Cleo por conta própria lá dentro.
— É mesmo? — ela se forçou a responder. Dizer que a viagem estava sendo constrangedora, com as duas confinadas e obrigadas a jogar conversa fora sobre o calor da primavera e a envolvente paisagem verde que surgia diante delas, seria amenizar os fatos.
— É claro que Gaius e eu incluímos Auranos em nossa excursão por Mítica depois que nos casamos. O pai de Gaius achou que seria uma ideia excelente para fortalecer as relações entre os reinos. Infelizmente, não durou muito. Exceto por uma curta viagem há dez anos para conhecer sua família, permaneci em Limeros desde então.
E eu mal posso esperar para mandá-la de volta com força total, Cleo pensou.
— Como conheceu o rei Gaius? — ela perguntou, sentindo que devia fazer a sua parte e contribuir com a conversa tensa, como se tivesse algum interesse em saber mais sobre a rainha Althea ou sua família horrível.
— Fui escolhida para ser sua noiva. Meu pai era amigo do rei Davidus, pai de Gaius. Meu pai era rico. Eu era… linda. Parecia a combinação perfeita. — A rainha cruzou as mãos sobre o colo, com a expressão serena. — Casamentos arranjados são uma necessidade da realeza, minha querida.
— Sei disso. — Afinal, havia sido martelado em sua cabeça desde criança.
— Também deve saber que amo muito meu filho. Quero que ele seja feliz, independente da mulher com quem se casar. O fato de Gaius ter decidido que será você, devo admitir, levanta algumas reservas da minha parte.
— Ah, é? — Então elas eram duas, mas o fato de a rainha ter admitido em voz alta era muito interessante.
— Houve momentos… críticos… em meu casamento. — O rosto pálido da rainha ficou tenso. — Mas sempre fiz o certo para manter minha posição de esposa dedicada. Durante quase vinte anos, fiquei ao lado do meu marido tanto em momentos sombrios quanto iluminados. Mesmo quando discordo de suas decisões, de suas ações, nunca disse nada contra ele publicamente. Esse é o comportamento adequado de uma rainha.
— É claro — Cleo concordou, mas as palavras grudavam em sua garganta. Não era como ela se comportaria, se e quando recuperasse seu reino.
— Não sou cega, princesa. Vejo como está sendo difícil para você e, acredite, sou solidária por tudo o que perdeu devido à ânsia de poder do meu marido. Mas preciso que saiba de uma coisa muito importante… e estou falando do fundo do coração e da alma. De uma mulher forçada a um casamento arranjado para outra.
Suas palavras suaves, quase gentis, foram uma grande surpresa.
— O que é?
A rainha Althea se aproximou e segurou as mãos de Cleo.
— Se fizer meu filho sofrer, você está morta. Entendeu, minha querida?
A mulher disse tudo com muita calma, mas era impossível não perceber o peso de tal alerta. Cleo sentiu um calafrio.
— Entendi, vossa alteza.
— Muito bem. — A rainha assentiu e soltou as mãos de Cleo. Ela olhou pela janela. — Ah, que ótimo, chegamos a Pico do Falcão.
Com o coração acelerado por causa da ameaça inesperada, Cleo olhou pela pequena janela e viu a cidade de que se lembrava tão bem, lar de quarenta mil auranianos.
Cleo sempre gostou muito daquele lugar. A cor. A vista. Os cidadãos exuberantes e a música no ar, aonde quer que fossem. A carruagem seguiu pelas ruas de pedras polidas e encaixadas que brilhavam sob o sol forte. As lojas e tavernas que surgiam lado a lado refletiam prata e bronze, com belos telhados de cobre. Grandes árvores, carregadas de flores da estação cor-de-rosa e roxas pontuavam as vias, criando arcos naturais de beleza colorida e perfumada.
Com o rei Gaius no trono, ela esperava que tudo estivesse diferente. Talvez a música fosse silenciada. As cores, atenuadas. Ela esperava ver cortinas fechadas quando a carruagem passasse por pequenas casas ou grandes quintas.
Mas não foi nada disso. A cidade parecia praticamente a mesma desde sua última visita, com uma única diferença. Guardas com uniformes vermelhos tomavam conta da paisagem, como gotas de sangue, misturando-se aos auranianos como se fosse algo normal.
O rei desejava dominar as pessoas, enganá-las fazendo-as acreditar que ele era um bom rei com uma reputação infelizmente injusta. Era mais fácil controlar cidadãos crédulos com medo de perder seu status ou estilo de vida do que os oprimidos, maltratados e motivados a se revoltar contra ele. Então, exceto pela segurança fortalecida, Pico do Falcão parecia exatamente a mesma de sua última visita.
Ela deveria ser grata por isso, por seu povo não estar sofrendo tão terrivelmente quanto esperava, agora que um rei ganancioso ocupava o trono de Auranos.
Em vez disso, um medo frio tomou conta de suas entranhas.
Isso não vai durar.
Quanto tempo demoraria até que tudo mudasse, e o povo dali, inocente e frágil devido a gerações de vida luxuosa, sentisse a dor causada pelo domínio do Rei Sanguinário? Ou até que aqueles que não aceitavam o novo rei tão fácil causassem efervescência suficiente para desencadear a fúria dele contra os inocentes, e não apenas contra os rebeldes? Era um pensamento perturbador.
A carruagem parou em frente à loja de vestidos de que Cleo se lembrava tão bem. Havia uma multidão de centenas de cidadãos reunidos, uma explosão de cores de boas-vindas e saudações amigáveis.
— Princesa Cleo! — Um grupo de garotas a chamou. — Amamos você!
As vozes em uníssono causaram um nó em sua garganta. Ela acenou da janela na direção delas e tentou abrir um sorriso.
Nic saltou da frente da carruagem para abrir a porta e ajudar a rainha, e depois a própria Cleo, a descer.
— Aqui estamos — ele disse, com meio sorriso no rosto.
— Aqui estamos.
Ele baixou a voz para a rainha não escutar.
— Está pronta?
— Acho que devo agir como se estivesse.
— Um alerta: não olhe para a esquerda se não quiser botar o café da manhã para fora.
É claro que, com um aviso desses, ela teve que olhar para a esquerda. Lá, dois artistas trabalhavam ardorosamente em um mural na lateral de uma taverna popular: um afresco que se parecia muito com um retrato de Magnus. Ela estremeceu.
— Como eles podem aceitar isso tão fácil? — ela sussurrou. — São mesmo tão ingênuos?
— Nem todos — Nic respondeu, com o maxilar tenso. — Mas acho que a maioria tem medo demais para enxergar a verdade.
Um homem conhecido saiu da loja diante delas e correu com entusiasmo na direção de Cleo e da rainha. A túnica que usava era do tom de roxo mais intenso que Cleo já tinha visto. Lembrava-a de uvas sendo esmagadas no dia de sol mais brilhante do verão. Ele era completamente careca, e suas grandes orelhas cintilavam com brincos de argolas douradas.
Ele se curvou tanto que parecia doloroso.
— Rainha Althea, vossa encantadora majestade. Sou Lorenzo Tavera. Estou profundamente honrado em recebê-la em minha humilde loja.
A loja à qual ele se referia nunca poderia ser descrita sinceramente como humilde. Era praticamente do tamanho da enorme quinta da família de Aron na cidade do palácio, tinha três andares e era recoberta de vitrais cintilantes contornados com prata e ouro.
— Fico feliz em estar aqui — ela respondeu. — Disseram-me que você é o melhor estilista deste e de qualquer outro reino.
— Modéstia à parte, disseram a verdade, vossa alteza.
A rainha estendeu a mão, e Lorenzo beijou seu anel com um estalo.
— E, princesa Cleiona, fico feliz em vê-la novamente. — Lorenzo apertou sua mão. Apesar da jovialidade em seu tom de voz, seu olhar tinha uma pitada de luto e solidariedade.
Ela engoliu em seco.
— Eu também, Lorenzo.
— É um privilégio enorme fazer seu vestido de noiva.
— Assim como será um enorme privilégio vesti-lo.
Ele acenou com a cabeça de leve, depois desviou o olhar dela e se voltou para a rainha, abrindo um grande sorriso.
— Vamos entrar, vossa majestade. Tenho algo muito especial para lhe mostrar.
A rainha levantou uma sobrancelha, intrigada.
— Para me mostrar? É mesmo?
— Sim. Por favor, venham comigo.
Lá dentro, dezenas de criadas e costureiras, alinhadas, seis de cada lado, aguardavam obedientemente de cabeça baixa. A enorme loja estava repleta de rolos de seda, cetim, jacquard e renda até onde a vista alcançava.
— Estive trabalhando muito em um vestido adequado a uma rainha de vossa alta estima. — Lorenzo foi até um manequim que estava envolvido em um magnífico vestido azul-violeta. Era bordado com fios de ouro e contas de pedras brilhantes. — Acredito que tenha sido bem-sucedido. O que acha, vossa majestade?
— É divino — a rainha disse. Seu rosto normalmente sem expressão ficou levemente rosado, e as palavras saíram abafadas. — Lindo. Essa é minha cor preferida. Sabia disso?
Lorenzo sorriu.
— Talvez.
Aquele tom vibrante era o preferido da rainha? Cleo nunca a viu vestindo nada que não fosse preto, cinza ou um tom sutil de verde-escuro. Como Magnus e o pai não usavam nada além de preto, ela havia imaginado que era algum estranho costume limeriano, em contraste com os uniformes vermelhos como sangue.
Os olhos da rainha se estreitaram com desconfiança.
— Com quem andou falando sobre mim para obter uma informação tão pessoal?
A cautela brilhou nos olhos de Lorenzo.
— Soube por meio de minhas correspondências com o rei. Eu perguntei. Ele respondeu.
— Que estranho — ela murmurou. — Eu não tinha ideia de que Gaius sabia qual é a minha cor preferida. — Ela se virou novamente para o vestido. — Eu gostaria de experimentá-lo.
— É claro, vossa majestade. Eu mesmo cuidarei disso. — Havia uma camada fina de suor na testa de Lorenzo depois de chegar tão perto de ofender uma mulher tão poderosa. — Princesa, se não se importar, pode ir com minha costureira até o provador. Estarei lá assim que puder.
Uma bela jovem se aproximou, fazendo uma reverência diante dela.
— Eu sou Nerissa — ela disse. — Por favor, vossa graça, siga-me.
Cleo olhou para a rainha, mas a atenção da mulher estava totalmente fixa no lindo vestido e nada mais. Nic ficou ao seu lado quando Cleo começou a seguir a criada.
— Eu vou com você — ele disse quando ela o olhou com curiosidade. — Pediu para eu ser seu guarda pessoal hoje, lembra?
— É a prova de um vestido — Cleo disse. — O que significa que terei de me despir.
— Será um sacrifício para mim, concordo. — Novamente aquele agradável sorriso surgiu em seus lábios. — Mas tentarei manter o foco.
Ela abafou uma gargalhada.
— Você vai esperar do lado de fora até eu terminar.
— Mas, princesa…
— Nic, por favor. Faça o que estou pedindo. Não crie confusão.
Ele parou de andar e baixou a cabeça.
— Como quiser, vossa alteza.
Cleo precisava do menor número de pessoas possível na sala. Quando Lorenzo entrasse, ela mandaria a criada sair para poder falar com ele em particular e pedir ajuda em segredo.
Nerissa a levou até o grande provador, e fechou a porta, deixando Nic do lado de fora. Lá dentro havia uma confusão de rolos de tecido e vestidos em andamento. Em um manequim no centro da sala estava o vestido de noiva de Cleo. Era feito de seda e renda, em tons de dourado e marfim. Tinha pequenas pérolas, safiras e diamantes bordados em espirais de flores no corpete. As mangas translúcidas e esvoaçantes pareciam leves como o ar.
O vestido era tão lindo que ela perdeu o fôlego.
— Nerissa… Lorenzo se superou completamente.
Não houve resposta.
Ela se virou.
— Nerissa?
A menina não estava lá. Só então Cleo notou como estava escuro. A luz do sol entrava pela janela e iluminava o vestido, mas não os cantos da sala cavernosa.
— Seduzida por vestidos bonitos, vossa alteza? — uma voz disse das sombras. — Por que não estou surpreso?
O coração dela começou a bater com força.
— Você.
— Eu avisei que nos veríamos logo.
Jonas Agallon permaneceu nas sombras no canto da sala, onde devia estar desde a chegada dela. Cleo não havia notado. O que era uma surpresa, já que agora não via mais nada além dele. Jonas usava calças de couro bege, botas de couro preto e uma túnica marrom simples com um pequeno rasgo na manga. Quando ele chegou preocupantemente perto dela, seu cheiro não era de terra e suor, como ela esperava, mas um odor nítido de floresta, o mesmo que tinha quando invadiu seus aposentos.
Ela passou os olhos pela sala novamente, o mais rápido que pôde.
— O que você fez com Nerissa?
— Nerissa deu uma ajudinha para mim e meus rebeldes. É uma daquelas meninas que você mencionou antes, que diz sim para tudo o que peço em vez de dificultar as coisas. Pode aprender muito com ela.
— Estou surpresa por colocá-la em risco. Tem mais de dez guardas na sala ao lado, alertas para qualquer atividade rebelde.
Era um exagero, mas ele não precisava saber. O rei levava a sério a ameaça de um ataque externo, mas mesmo assim havia mandado poucos guardas para acompanhar essa viagem.
Jonas não pareceu alarmado com a ameaça dos guardas. Ele tocou a manga do vestido de noiva, roçando o fino tecido entre os dedos.
— Chegou a pensar na minha proposta?
Ela estreitou os olhos.
— É disso que se trata? Outra tentativa de me cortejar para que eu colabore com a causa rebelde?
— Acredite, princesa, eu nunca a cortejaria. É muito trabalho para pouca recompensa. — Um sorriso se esboçou em seus lábios. — Então aqui está você, pronta para experimentar o vestido que usará em seu casamento com o príncipe Magnus. Logo será um deles de verdade.
— Um vestido não me transforma em noiva, assim como algumas ameaças vazias não me tornam uma rebelde.
Seu sorriso se desfez.
— A língua de uma cobra. É, acho que vai se encaixar bem entre os Damora.
— O que você quer, de uma vez por todas? Fale logo e vá embora. Não tenho paciência para jogos inúteis.
— Estou perguntando mais uma vez. Vai me ajudar a destruir o rei?
Sem se dar conta, ela havia se aproximado do rebelde — mais perto do que era confortável. Ela não podia gritar, não podia elevar a voz para além de um sussurro ríspido. Eles estavam quase se tocando. Ela se obrigou a não dar um passo trêmulo para trás e revelar que aquela proximidade a perturbava.
Ela havia pensado muito desde a última vez que o vira. Talvez fosse uma oportunidade que lhe servisse bem. Ela havia colocado muita esperança na ideia de que o anel a conduziria a respostas que podiam nunca chegar.
Seu estômago se revirou de nervoso.
— Se eu ajudar você, como posso saber que terei algum benefício?
Jonas juntou as sobrancelhas.
— Se me ajudar, acredito que teremos mais chances de derrotar o rei que atualmente ocupa o seu trono. Me parece um benefício e tanto.
Ela torceu as mãos.
— Não sei.
— Não é uma resposta útil para nenhum de nós dois.
— Quais são os planos dos rebeldes para derrubar o rei Gaius?
— Não posso dizer.
Alguém bateu na porta, depois tentou virar a maçaneta. A porta estava trancada.
— Princesa? — Era Nic. — Está tudo bem aí dentro?
Jonas praguejou em voz baixa.
— Acho que posso contar parte de meu plano, de meu plano imediato. Se você tivesse sido mais cordata da última vez que conversamos, não teríamos chegado a esse ponto.
Ela desviou os olhos da porta de madeira.
— O quê? Fale logo. Eles vão entrar a qualquer momento.
— Preocupada com minha segurança?
— Não, com a minha. Se me encontrarem sozinha em uma sala com um rebelde…
— Isso estragaria seu compromisso com o príncipe, não é?
— E nos custaria a vida. Você precisa ir enquanto ainda há tempo.
— Você vem comigo.
Ele devia estar louco.
— Não farei nada disso.
Jonas balançou a cabeça.
— Sinto muito, vossa alteza, mas realmente devia ter dito sim da última vez que conversamos. Teria ajudado a evitar isto.
Um medo cresceu em seu peito com o olhar sinistro que acompanhou a expressão dele. Ela se virou para a porta e abriu a boca para gritar por ajuda. Nic golpeava a porta, tentando arrombá-la.
Jonas estava atrás dela, apertando suas costas contra o peito. Uma mão cobria sua boca — ele segurava um pano com um cheiro estranho. Um cheiro forte de ervas.
— Você pode não acreditar — ele disse no ouvido dela —, mas não pretendo lhe fazer mal.
Ela já tinha sentido aquele cheiro — um curandeiro havia usado aquilo para induzir seu sono quando ela quebrou o tornozelo na infância. Para evitar a dor, e para ele conseguir colocar o osso quebrado no lugar, havia administrado aquele poderoso preparado.
Ela tentou gritar, mas se deu conta de que não tinha voz. A escuridão recaiu sobre ela.

Um comentário:

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