30 de julho de 2018

Prólogo

Ela nunca havia matado até aquela noite.
— Afaste-se — sua irmã sussurrou.
Jana encostou-se no muro do palacete. Ela olhou atentamente as sombras que a cercavam e depois voltou o olhar para as estrelas que brilhavam como diamantes em contraste com o céu negro.
Apertando os olhos, ela orou para a antiga feiticeira.
— Por favor, Eva, dê-me a magia necessária para encontrá-la.
Quando ela abriu os olhos, foi tomada pelo medo. No galho de uma árvore, a uns dez passos de distância, havia um falcão dourado.
— Eles estão nos observando — sussurrou. — Eles sabem o que fizemos.
Sabina olhou para a ave.
— Precisamos agir. Agora. Não temos tempo a perder.
Sem deixar o falcão ver seu rosto, Jana se afastou da segurança do muro para seguir a irmã até a pesada porta de carvalho e ferro do palacete. Sabina pressionou as mãos contra a porta, canalizando a magia fortalecida pelo sangue que elas haviam derramado antes. Jana notou que as unhas da irmã ainda estavam manchadas de vermelho e estremeceu com a lembrança. As mãos de Sabina começaram a emitir uma luz âmbar; um instante depois, a porta virou serragem. A madeira não fora capaz de barrar a magia da terra.
Sabina olhou para trás com um sorriso vitorioso. De seu nariz escorria sangue.
Ao ver a expressão assustada da irmã, o risinho de Sabina desapareceu. Ela limpou o sangue e entrou na grande casa.
— Não é nada.
Mas não era bem assim. Se usassem muito aquela magia temporariamente aperfeiçoada, poderiam ser prejudicadas. Poderiam morrer se não tomassem cuidado.
Sabina Mallius, no entanto, não costumava ser cautelosa. Naquela mesma noite, ela não titubeou em usar sua beleza para conduzir o homem inocente da taverna até seu destino. Jana, por sua vez, havia hesitado até demais antes de sua lâmina afiada atingir o coração dele. Sabina era forte, impetuosa e destemida. Com o coração na garganta ao acompanhá-la, Jana desejou ser mais parecida com a irmã mais velha. Mas ela sempre fora a mais prudente. A que fazia planos. Aquela que via sinais nas estrelas porque havia estudado o céu noturno a vida toda.
A criança da profecia havia nascido e estava naquele grande e luxuoso palacete, construído com pedras resistentes e madeira, em oposição aos casebres de palha e barro da vila vizinha.
Jana tinha certeza de que era o lugar certo.
Ela era o conhecimento; Sabina era a ação. Juntas eram imbatíveis.
Sabina gritou ao virar em um corredor mais adiante. Jana apertou o passo, com o coração acelerado. No corredor escuro, iluminado apenas por tochas que tremeluziam com luz escassa, um guarda segurava Sabina pelo pescoço.
Jana não pensou. Ela agiu.
Com as mãos estendidas, evocou a magia do ar. O guarda perdeu a força e voou para longe de Sabina, batendo na parede que havia atrás dela com uma força capaz de esmagar seus ossos. Ele caiu no chão, formando um monte desconjuntado.
Uma dor aguda atravessou a cabeça de Jana, forte o bastante para fazê-la chorar. Ela limpou o sangue quente e grosso que escorria do nariz. Sua mão tremia.
Sabina tocou com cautela a garganta ferida:
— Obrigada, minha irmã.
Essa magia renovada ajudou-as a acelerar o passo e a clarear a visão no breu dos corredores estreitos e desconhecidos. Mas não duraria muito.
— Onde está ela? — Sabina perguntou.
— Perto.
— Estou confiando em você.
— A criança está aqui. Sei que está.
Elas deram mais alguns passos pelo corredor escuro.
— Aqui. — Jana parou diante de uma porta destrancada.
Ela abriu a porta e as duas seguiram na direção do berço de madeira com entalhes que havia no quarto. Elas olharam para o bebê, enrolado em um cobertor macio de pelo de coelho. Sua pele era bem branca, com um brilho rosado e saudável nas bochechas rechonchudas. Jana a adorou de imediato. O primeiro sorriso que conseguiu dar em dias brotou em seu rosto.
— Bela menina — ela sussurrou, apoiando-se no berço para pegar a recém-nascida com cuidado.
— Tem certeza de que é ela?
— Tenho.
Mais do que qualquer outra coisa em seus dezessete anos de vida, Jana tinha certeza absoluta. A criança que ela levava nos braços, aquele bebê lindo e pequeno, com olhos da cor do céu e uma penugem de cabelo que um dia seria negro como a asa de um corvo, era a que a profecia dizia possuir a magia necessária para encontrar a Tétrade — quatro objetos que contêm a fonte de todos os elementia, a magia elementar. Terra e água, fogo e ar.
A magia da criança seria a de uma feiticeira, não de uma bruxa comum como Jana e sua irmã. A primeira em mil anos, desde a existência da própria Eva. Não haveria necessidade de sangue ou morte na magia dessa menina.
Jana havia visto seu nascimento nas estrelas. Encontrar aquela criança era seu destino.
— Largue a minha filha — uma voz resmungou nas sombras. — Não a machuque.
Jana se virou, agarrando a criança junto ao peito. Seus olhos pousaram sobre a adaga que a mulher apontava para elas. A lâmina afiada brilhava sob a luz de velas. O coração de Jana quase saiu do peito. Aquele era o momento que ela temia, que havia orado para não acontecer.
Os olhos de Sabina brilharam:
— Machucá-la? Não é nada disso que pretendemos fazer. Você nem sabe o que ela é, sabe?
A mulher franziu a testa, confusa, mas a fúria endureceu seu olhar:
— Eu vou matar você antes de permitir que saia deste quarto com ela.
— Não — Sabina ergueu as mãos —, não vai.
Os olhos da mãe se arregalaram e ela ficou boquiaberta, sem ar. Ela não conseguia respirar — Sabina estava bloqueando o fluxo de ar em seus pulmões. Jana se virou, contorcendo o rosto de dor. Acabou num instante. A mulher caiu no chão ainda se debatendo, enquanto as irmãs desviavam do corpo e fugiam do quarto.
Jana enrolou seu manto solto ao redor da menina para escondê-la enquanto deixavam o palacete e corriam para a floresta. O nariz de Sabina sangrava profusamente por usar tanta magia destrutiva. O sangue pingava no chão coberto de neve.
— Isso foi demais — Jana sussurrou quando as duas começaram a andar mais devagar. — Foram mortes demais por hoje. Odeio isso.
— Ela não teria nos deixado levar a menina de outra forma. Deixe-me vê-la.
Um tanto relutante, Jana entregou a bebê.
Sabina pegou a criança e examinou seu rosto na escuridão. Ela olhou para Jana e lançou-lhe um sorriso perverso:
— Conseguimos.
Jana sentiu uma empolgação repentina, apesar das dificuldades que haviam enfrentado.
— Conseguimos.
— Você foi incrível. Gostaria de ter visões iguais às suas.
— Só consigo ter essas visões com grande esforço e sacrifício.
— Tudo demanda grande esforço e sacrifício. — A voz de Sabina distorceu-se com um desdém repentino. — Até demais. Mas, para essa criança, um dia a magia virá muito fácil. Tenho inveja dela.
— Vamos criá-la juntas. Nós a educaremos e apoiaremos, e quando chegar a hora de seguir seu destino, caminharemos ao lado dela o tempo todo.
Sabina negou com a cabeça.
— Você, não. Eu fico com ela daqui por diante.
Jana franziu a testa.
— O quê? Sabina, pensei que tínhamos concordado em tomar todas as decisões juntas.
— Mas não desta vez. Tenho outros planos para a criança. — Sua expressão endureceu. — E sinto muito, minha irmã, mas eles não incluem você.
Olhando nos olhos repentinamente frios de Sabina, Jana não sentiu logo no início a ponta afiada da adaga que afundava em seu peito. Ela ficou ofegante quando a dor começou a penetrar.
Elas haviam compartilhado todos os dias, todos os sonhos… todos os segredos. No entanto, pelo visto, nem todos os segredos. Aquilo era algo que Jana nunca poderia prever.
— Por que você me trairia desse jeito? — Conseguiu dizer. — Você é minha irmã...
Sabina limpou o sangue que ainda escorria de seu nariz.
— Por amor.
Quando ela puxou a lâmina, Jana caiu de joelhos no chão congelado.
Sem olhar para trás, Sabina logo se afastou com a criança e foi engolida pela floresta escura.
A visão de Jana foi ficando turva e seu coração desacelerou. Ela observou o momento em que o falcão que havia visto voou para longe… deixando-a lá, para morrer sozinha.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!