15 de julho de 2018

Prólogo

Richard Gansey III havia esquecido quantas vezes haviam lhe dito que ele estava destinado à grandeza.
Ele fora criado para ela; nobreza e determinação codificados em ambos os lados de seu pedigree. O pai de sua mãe havia sido diplomata, um arquiteto de fortunas; o pai de seu pai, arquiteto, um diplomata de estilos. A mãe de sua mãe havia sido tutora dos filhos de princesas europeias. A mãe de seu pai construíra uma escola para garotas com a própria herança. Os Gansey eram cortesãos e reis, e, quando não havia um castelo para convidá-los, eles construíam um. Ele era um rei.
Em eras passadas, o Gansey mais jovem fora picado até a morte por vespas. Em tudo, ele sempre recebera todas as vantagens, e quanto à mortalidade não era diferente. Certa vez uma voz sussurrara em seu ouvido: Você vai viver por causa de Glendower. Alguém na linha ley está morrendo quando não deveria, e assim você vai viver quando não deveria.
Ele havia morrido, mas fracassara em continuar morto.
Ele era um rei.
Sua mãe, a realeza em pessoa, lançara a própria sorte na disputa eleitoral para deputada pela Virgínia, e, de maneira pouco surpreendente, ascendera elegantemente até o topo das pesquisas. Algum dia houvera alguma dúvida? Sim, na realidade, sempre, o tempo todo, pois os Gansey não demandavam favores. Muitas vezes não chegavam nem a pedi-los. Eles os faziam para os outros e silenciosamente esperavam que os outros tomassem a iniciativa de fazê-los para eles.
Duvidar, tudo o que um Gansey fazia era duvidar. Um Gansey chegava bravamente aos confins da escuridão, destino incerto, até que o punho da espada premesse contra uma palma esperançosa. Contudo, alguns meses antes, esse Gansey alcançara a incerteza sombria do futuro, estendera a mão para a promessa de uma espada, mas, em vez disso, sacara um espelho.
A justiça, de uma maneira avessa, parecia justa.
Era 25 de abril, véspera do Dia de São Marcos. Anos antes, Gansey havia lido O grande mistério: as linhas ley do mundo, de Roger Malory. Nele, Malory explicava tediosamente que uma vigília na véspera do Dia de São Marcos sobre a linha ley revelaria os espíritos daqueles que morreriam no ano seguinte. A essa altura, Gansey já tinha visto toda sorte de fenômenos acontecerem próximos ou sobre as linhas ley — uma garota que conseguia ler um livro completamente no escuro desde que estivesse sobre a linha, uma idosa que conseguia levantar uma caixa de frutas com apenas o poder da mente, um trio de trigêmeos tristes nascidos sobre a linha que choravam lágrimas de sangue e sangravam água salgada —, mas nada disso o envolvera. Nada disso dependera dele, ou de sua explicação.
Gansey não sabia por que havia sido salvo.
Ele precisava saber por que havia sido salvo.
Então ele realizou uma vigília de uma noite inteira sobre a linha ley que havia se tornado seu labirinto, tremendo sozinho no estacionamento da Igreja do Sagrado Redentor. Ele não viu nada, não ouviu nada. Na manhã seguinte, ele se agachou ao lado do seu Camaro, cansado a ponto de ficar tonto, e reproduziu o áudio da noite. Na gravação, sua própria voz sussurrou: “Gansey”. Uma pausa. “Isso é tudo.”
Finalmente, estava acontecendo. Ele não era mais meramente um observador nesse mundo: era um participante.
Mesmo então, uma pequena parte de Gansey suspeitava o que ouvir o seu próprio nome realmente significava. Ele o sabia, provavelmente, quando seus amigos vieram em busca de seu carro uma hora depois. Ele o sabia, provavelmente, quando as médiuns da Rua Fox, 300 leram uma carta de tarô para ele. Ele o sabia, provavelmente, quando recontou a história inteira para Roger Malory em pessoa.
Gansey sabia de quem eram as vozes sussurradas ao longo da linha ley na véspera do Dia de São Marcos. Mas ele havia passado muitos anos amarrando os seus temores e não estava pronto para soltar suas correntes ainda.
Foi só quando uma das médiuns da Rua Fox, 300 morreu, só quando a morte se tornou novamente um fato real, que Gansey não pôde mais negar a verdade.
Os cães do Clube de Caça de Aglionby tinham uivado aquele outono: longe, longe, longe.
Ele era um rei.
Havia chegado o ano em que ele morreria.

5 comentários:

  1. cara serio ele nao pode morrer !!!
    ASS:Janielli

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  2. Morango do Nordeste27 de julho de 2018 21:11

    Só esse final de prólogo já me deixou arrepiada "Ele era um rei.
    Havia chegado o ano em que ele morreria"

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  3. Eu nem comecei a ler ainda, mas já sei que vou chorar litros.

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  4. Ruim ou bom saber o ano que a pessoa vai morrer?

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  5. Nãoooooooo!!!!
    Cara se ele morrer eu vou chorar muitooo!!!!!
    Não pode não gente!!!!Ele tem que ter um final feliz💗✌

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Boa leitura, E SEM SPOILER!