4 de julho de 2018

Prólogo

ACIMA

Persephone estava parada no topo deserto da montanha, o vestido marfim de babados batendo em torno das pernas, os cachos fartos do cabelo loiro-claro voando atrás de si. Ela parecia transparente, imaterial, algo soprado por entre as rochas e pega por uma delas. O vento era intenso lá em cima, sem árvore alguma para bloqueá-lo. O mundo abaixo tinha um ar gloriosamente outonal.
Adam Parrish estava ao seu lado com as mãos enfiadas nos bolsos das calças cargo manchadas de graxa. Ele parecia cansado, mas seus olhos estavam claros, melhor do que quando ela o vira pela última vez. Como Persephone só estava interessada em coisas importantes, não considerava a própria idade havia muito tempo, mas lhe chamou a atenção quando olhou para o garoto e viu que ele era bastante novo. Aquela expressão bruta, aquela postura jovem e largada dos ombros, o derramamento frenético de energia dentro dele.
Que dia bom está hoje para isso, ela pensou. Estava frio e nublado, sem interferência alguma da força do sol, do calendário lunar ou de uma obra próxima na estrada.
— Este é o caminho dos corpos — ela disse, alinhando o próprio corpo com o caminho invisível. Enquanto o fazia, podia sentir algo dentro de si começando a zunir agradavelmente, uma sensação muito parecida com a satisfação que lhe proporcionava alinhar a lombada de livros em uma prateleira.
— A linha ley — esclareceu Adam.
Ela anuiu serenamente.
— Encontre-a para você.
Ele pisou na linha imediatamente, o rosto virando para mirar ao longo do seu comprimento tão naturalmente quanto uma flor olhando para o sol. Persephone levara um pouco mais de tempo para dominar essa habilidade, mas, diferentemente de seu jovem pupilo, ela não havia feito barganha alguma com florestas sobrenaturais. Ela não era dada a barganhas. Projetos em grupo, de modo geral, não eram com ela.
— O que você está vendo? — ela perguntou.
Os olhos dele pestanejaram, os cílios empoeirados repousando sobre as faces. Como ela era Persephone, e porque era um dia bom para isto, ela podia ver o que ele estava vendo. Não era nada relacionado com a linha ley. Era uma confusão de estatuetas espatifadas sobre o chão de uma mansão adorável. Uma correspondência oficial impressa em um papel de carta do condado. Um amigo tendo uma convulsão aos pés dele.
— Fora de você — Persephone o lembrou suavemente. Ela mesma via tantos eventos e possibilidades ao longo do caminho dos corpos que nenhum acontecimento distinto se destacava. Ela era uma médium muito melhor quando tinha as duas amigas consigo: Calla, para ver o que interessava de suas impressões, e Maura, para contextualizá-las.
Adam parecia ter potencial nesse aspecto, embora fosse novo demais para substituir Maura — não, essa era uma maneira ridícula de colocar a questão, Persephone disse a si mesma, você não substitui amigos. Ela lutou para pensar em uma palavra adequada. Não substituir.
Resgatar. Sim, é claro, era isso que as pessoas faziam com os amigos. Será que Maura precisava ser resgatada?
Se Maura estivesse ali na montanha, Persephone teria sido capaz de dizê-lo. Mas, se Maura estivesse ali na montanha, Persephone não precisaria dizê-lo.
Ela suspirou profundamente.
Ela suspirava muito.
— Eu vejo coisas. — As sobrancelhas de Adam transmitiam concentração ou incerteza. — Mais do que uma coisa. É como... como os animais na Barns. Eu vejo coisas... dormindo.
— Sonhando — concordou Persephone.
Tão logo ele chamara a atenção dela para os adormecidos, estes passaram para o primeiro plano da consciência de Persephone.
— Três — ela acrescentou.
— Três o quê?
— Três em particular — ela murmurou. — Para serem despertados. Ah, não. Não. Dois. Um não deve ser despertado.
Persephone nunca tivera muito jeito com o conceito de certo e errado. Mas, nesse caso, o terceiro adormecido estava definitivamente equivocado.
Por alguns minutos, ela e o garoto — Adam, ela lembrou a si mesma; era tão difícil achar que os nomes dados às pessoas no nascimento fossem coisas importantes — ficaram ali, sentindo o curso da linha ley abaixo dos pés. Persephone tentou, delicadamente e sem sucesso, encontrar o fio brilhante da existência de Maura no emaranhado de energia.
Ao lado dela, Adam estava mais uma vez se retraindo para dentro de si, mais interessado, como sempre, naquilo que permanecia incognoscível para ele: a sua própria mente.
— Para fora de você — Persephone o lembrou.
Adam não abriu os olhos. Suas palavras eram tão baixas que o vento quase as destruiu.
— Minha intenção não é ser grosseiro, senhora, mas não sei por que isso é importante.
Persephone não entendia por que ele achara que uma questão tão razoável como aquela pudesse ser deselegante.
— Quando você era bebê, o que fez valer a pena aprender a falar?
— Com quem eu estou aprendendo a me comunicar?
Ela ficou satisfeita ao perceber que ele havia compreendido imediatamente o conceito.
Persephone respondeu:
— Tudo.


NO MEIO

Calla estava espantada com a quantidade de entulho que Maura tinha em seu quarto na Rua Fox, 300, e disse isso a Blue.
Blue não respondeu. Ela separava papéis junto à janela, a cabeça inclinada, pensativa. Desse ângulo, parecia exatamente como sua mãe, compacta, atlética e difícil de derrubar. Ela estava esquisitamente adorável, mesmo com o cabelo escuro preso de qualquer jeito e com uma camiseta que ela atacara com um arado elétrico. Ou talvez por causa disso. Quando é que ela ficara bonita e tão crescida? Sem ficar nem um pouco mais alta? Era isso provavelmente o que acontecia com garotas que viviam somente de iogurte.
— Você viu esses? São realmente bons.
Calla não sabia ao certo o que Blue estava olhando, mas acreditava nela. Blue não era o tipo de garota que fizesse falsos elogios, mesmo para sua mãe. Embora fosse gentil, ela não era boazinha. Uma coisa boa, também, pois pessoas boazinhas deixavam Calla irritada.
— A sua mãe é uma mulher de muitos talentos — ela resmungou. A bagunça sugava anos de sua vida. Calla gostava de coisas nas quais se podia confiar: sistemas de organização, meses com trinta e um dias, batom roxo. Maura gostava do caos. — Me exasperar é um deles.
Calla pegou o travesseiro de Maura. As sensações a tomaram de súbito. Ela sentiu imediatamente onde o travesseiro havia sido obtido, como Maura o dobrava em uma bola debaixo da nuca, o número de lágrimas derramadas na fronha e o conteúdo de cinco anos de sonhos.
A linha especial mediúnica tocou no quarto ao lado. A concentração de Calla se esvaiu.
— Maldição — ela disse.
Ela era psicômetra — seu mero toque podia muitas vezes revelar tanto a origem do objeto quanto os sentimentos do proprietário. Mas aquele travesseiro fora manuseado tantas vezes que continha memórias demais para separar. Se Maura estivesse ali, Calla teria sido capaz de isolar facilmente as memórias úteis.
Mas, se Maura estivesse ali, ela não teria necessidade de fazer isso.
— Blue, venha aqui.
Blue teatralmente pousou a mão aberta sobre o ombro de Calla.
Imediatamente, o talento amplificador natural da garota afiou a capacidade de Calla. Ela viu a esperança de Maura mantendo-a desperta. Sentiu a impressão do queixo sombreado do sr. Cinzento sobre a fronha do travesseiro. Viu o conteúdo do último sonho de Maura: um lago espelhado e um homem distantemente familiar.
Calla fez uma careta.
Artemus. O ex-amante de Maura, há muito desaparecido.
— Alguma coisa? — perguntou Blue.
— Nada útil.
Então Blue retirou imediatamente a mão, consciente de que Calla era capaz de extrair tantos sentimentos de garotas quanto de travesseiros. Mas Calla não precisava de poderes mediúnicos para adivinhar que a expressão sensível e divertida de Blue não batia com o fogo que queimava furiosamente dentro dela. As aulas estavam para começar, o amor estava no ar, e a mãe de Blue havia desaparecido em alguma busca misteriosa mais de um mês antes, deixando para trás seu recentemente adquirido namorado assassino. Blue era um furacão pairando um pouco antes da costa.
Ah, Maura! O estômago de Calla se contorceu. Eu disse para você não ir.
— Toque naquilo — Blue apontou para uma grande tigela divinatória.
Ela estava largada de lado sobre o tapete, intocada desde que Maura a usara.
Calla não dava muito crédito para a divinação, ou para a mágica de espelhos, ou para qualquer coisa que tivesse a ver com bombear o éter misterioso do espaço e do tempo a fim de usá-lo como adubo do outro lado. Tecnicamente, a divinação não era perigosa; era apenas uma meditação em uma superfície espelhada. Mas, na prática, muitas vezes envolvia liberar a alma do corpo. E a alma era uma viajante frágil.
Da última vez em que Calla, Persephone e Maura se meteram com a mágica de espelhos, fizeram a meia-irmã de Maura, Neeve, desaparecer acidentalmente.
Pelo menos Calla nunca gostara de Neeve.
Mas Blue estava certa. A tigela de adivinhação provavelmente continha mais respostas.
— Muito bem. Mas não toque em mim. Não quero deixar isso mais forte do que já é.
Blue ergueu as mãos para cima, como para provar que não tinha nenhuma arma.
Relutantemente, Calla tocou a borda da tigela e a escuridão imediatamente tomou sua visão. Ela estava dormindo, sonhando. Caindo através de uma água escura interminável. Uma versão espelhada dela mesma ascendeu na direção das estrelas. Um metal ferroou sua face. O cabelo grudou no canto da boca.
Onde estava Maura em tudo isso?
Uma voz pouco familiar cantou dentro de sua cabeça, estridente, esquisita e monótona:
Rainhas e reis
Reis e rainhas
Lírio azul, azul lírio
Coroas e pássaros
Espadas e coisas
Lírio azul, azul lírio.
Subitamente, ela se concentrou.
Era Calla novamente.
Agora ela viu o que Maura tinha visto: três adormecidos — um claro, um escuro e um intermediário. O conhecimento de que Artemus estava debaixo da terra. A certeza de que ninguém sairia daquelas cavernas a não ser que fosse buscado. A compreensão de que Blue e seus amigos faziam parte de algo muito maior, algo vasto, que se estendia e despertava lentamente...
— BLUE! — berrou Calla, entendendo o motivo de seus esforços terem sido tão bem-sucedidos.
Com certeza, Blue estava tocando o seu ombro, amplificando tudo.
— Oi.
— Eu disse para você não me tocar.
Blue não parecia arrependida.
— O que você viu?
Calla ainda estava presa àquela outra consciência. Ela não conseguia se livrar da ideia de que estava se preparando para uma luta que, de alguma forma, ela já havia lutado.
E não conseguia lembrar se havia vencido da última vez.


ABAIXO

Maura Sargent tinha o sentimento inconveniente de que o tempo parara.
Não que ele tivesse parado, exatamente. Apenas que havia cessado de avançar da maneira que ela passara a considerar “a maneira normal”. Minutos empilhando-se sobre minutos para formar horas, e então dias e semanas.
Ela começava a suspeitar de que o mesmo minuto podia estar se repetindo sem parar.
Isso talvez incomodasse algumas pessoas. Outras, talvez, nem tivessem notado. Mas Maura não era qualquer pessoa. Ela começara a sonhar o futuro aos catorze anos. Falara com seu primeiro espírito aos dezesseis. Usara sua visão remota para ver o outro lado do mundo aos dezenove. Tempo e espaço eram banheiras onde Maura se esbaldava.
Então ela sabia que havia coisas impossíveis no mundo, mas não acreditava que uma caverna onde o tempo parava era uma delas. Ela estava ali há uma hora? Duas? Um dia? Quatro dias? Vinte anos? As pilhas de sua lanterna não haviam acabado.
Mas, se o tempo não está passando aqui, elas nunca vão acabar, não é?
Ela examinava do chão ao teto com a lanterna enquanto seguia rastejando pelo túnel. Maura não queria bater a cabeça, mas também não queria cair em uma fenda profunda. Ela já pisara em várias poças, e suas botas surradas estavam encharcadas e frias.
A pior parte era o tédio. A infância pobre na Virgínia Ocidental havia deixado Maura com um forte sentimento de autoconfiança, grande tolerância ao desconforto e um aguçado senso de humor negro.
Mas aquela monotonia.
Era impossível contar uma piada quando se estava sozinha.
A única indicação que Maura tinha de que o tempo poderia estar indo para algum lugar era que às vezes ela esquecia quem estava procurando lá embaixo.
O objetivo é Artemus, ela se lembrava. Dezessete anos antes, ela deixara Calla convencê-la de que ele havia simplesmente ido embora. Talvez ela tenha desejado acreditar nisso. No fundo, ela sabia que ele fazia parte de algo maior. Sabia que ela fazia parte de algo maior.
Provavelmente.
Até o momento, a única coisa que ela encontrara naquele túnel era dúvida. Aquele não era o tipo de lugar que Artemus, que adorava o sol, teria escolhido. Maura tinha a impressão de que era o tipo de lugar em que alguém como Artemus morreria. Ela estava começando a se sentir mal a respeito do bilhete que havia deixado. Nele, se lia:

Glendower está debaixo da terra. E eu também estou.

À época, ela se sentira bastante cheia de si; o bilhete tinha a intenção de enraivecer e inspirar, dependendo de quem o lesse. É claro, ela o havia escrito pensando que estaria de volta no dia seguinte.
Ela o reformulou agora em sua cabeça:

Entrando em cavernas atemporais para procurar ex-namorado. Se parecer que vou perder a formatura da Blue, enviem ajuda.
P.S.: Torta não é uma refeição.

Ela continuou caminhando. Estava absolutamente escuro à frente e absolutamente escuro atrás. O facho de sua lanterna iluminava detalhes: estalactites pontudas no teto acidentado. Água brilhava nas paredes. Mas ela não estava perdida, pois sempre houvera apenas uma opção: mais fundo e mais fundo.
Ela não estava com medo ainda. Era preciso muito para aterrorizar alguém que brincava no tempo e no espaço como em uma banheira.
Usando uma estalagmite lisa como lama para firmar a mão, Maura se esgueirou através da passagem estreita. A cena do outro lado era confusa. O teto era cravejado; o chão era cravejado; era interminável; era impossível. Então uma gota minúscula de água provocou pequenas ondulações através da imagem, momentaneamente arruinando a ilusão. Era um lago subterrâneo. A superfície escura espelhava as estalactites douradas no teto, fazendo parecer como se um número igual de estalagmites irrompesse do leito do lago.
O fundo real do lago estava escondido. Ele podia ter cinco centímetros, meio metro, uma profundidade infinita.
Ah. Então ali estava ele, finalmente. Ela havia sonhado com isso. Maura ainda não estava realmente com medo, mas seu coração batia descompassado.
Eu poderia simplesmente ir para casa. Eu sei o caminho.
Mas, se o sr. Cinzento estivera disposto a arriscar a vida pelo que queria, certamente ela poderia ser tão corajosa quanto ele. Maura se perguntou se ele estaria vivo. E ficou surpresa ao perceber como queria desesperadamente que ele estivesse.
Ela reformulou o bilhete em sua cabeça.

Entrando em cavernas atemporais para procurar ex-namorado. Se parecer que vou perder a formatura da Blue, enviem ajuda.
P.S.: Torta não é uma refeição.
P.P.S.: Não se esqueçam de levar o carro para trocar o óleo.
P.P.P.S.: Procurem por mim no fundo de um lago espelhado.

Uma voz sussurrou em seu ouvido. Alguém do futuro, ou do passado. Alguém morto, ou vivo, ou dormindo. Não era realmente um sussurro, percebeu Maura. Era apenas uma voz rouca. A voz de alguém que estivera chamando por um longo tempo sem resposta.
Maura era uma boa ouvinte.
— O que você disse? — ela perguntou.
A voz sussurrou novamente:
— Encontre-me.
Não era Artemus. Era outra pessoa que havia se perdido, ou que estava a caminho de se perder, ou que iria se perder. Naquelas cavernas, o tempo não era uma linha, era um lago espelhado.

P.P.P.P.S.: Não despertem o terceiro adormecido.

Um comentário:

  1. Rainhas e reis
    Reis e rainhas
    (Gansey)
    Lírio azul, azul lírio
    (Blue)
    Coroas e pássaros
    (Adam)
    Espadas e coisas
    (Ronan)
    Lírio azul, azul lírio.

    Claro que eu não sei interpretar isso, apenas achei que dava pra associar com eles

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Boa leitura, E SEM SPOILER!