5 de julho de 2018

Epílogo

A questão não era que Piper ficara inconsciente durante horas. Nos filmes de ação do tipo que Colin sempre odiara e ela sempre amara, os heróis sempre nocauteavam capangas em vez de atirar neles. Era como você podia dizer quem era o herói. Vilões atiravam em detetives; heróis os nocauteavam com um soco na cabeça. Então, algumas horas depois, eles se recuperavam e seguiam a vida. No entanto Piper tinha lido um post em um blog que mostrava que isso não era realmente possível, pois, se você ficasse inconsciente por mais do que um minuto ou dois, era porque havia tido uma lesão cerebral. E o post fora escrito por um médico, ou por alguém que disse que era médico, ou alguém casado com um profissional de medicina, então Piper achou que provavelmente era verdade. Mais verdadeiro que aqueles filmes de ação, de qualquer maneira.
Enquanto seguia deitada ali na caverna, Piper pensou a respeito de todos os bandidos com lesões cerebrais em Hollywood, poupados por heróis impetuosos que achavam que isso seria mais generoso que matá-los.
Ela não estivera realmente inconsciente durante horas, mas ficou deitada no chão durante horas ou dias. Piper caía e voltava do sono. De tempos em tempos, ouvia outro gemido dentro da caverna. Morris, talvez, ou apenas sua própria voz. Às vezes, ela abria bem os olhos e achava que era chegado o momento de se levantar, provavelmente, mas então parecia trabalhoso demais e continuava deitada.
Finalmente, no entanto, ela parou de apertar o botão de soneca da caverna e se recompôs. Isso era ridículo. Piper se sentou, a cabeça latejando, e deixou que os olhos se ajustassem. Ela não tinha bem certeza de onde vinha a luz. Lembrou subitamente que Colin tinha se mandado, deixando-a para morrer naquela caverna, que fora ideia dele em primeiro lugar. Típico. Ele estava sempre fazendo coisas para si mesmo e fingindo que era para os dois.
Subitamente, Piper percebeu de onde vinha a luz: uma lamparina, do tipo antigo, como as usadas por mineradores. E havia mãos dadas do outro lado dela. Belas mãos, rechonchudas. Ligadas a braços. Ligados a um corpo. Era uma mulher. Ela estava olhando para Piper com o olhar fixo e determinado.
— Você é real? — perguntou Piper.
A mulher anuiu serenamente. No entanto, Piper não considerou o gesto uma garantia de realidade. Aquele não parecia o tipo de lugar onde mulheres apareceriam ao acaso.
— Você está paralisada? — perguntou a mulher gentilmente.
— Não — disse Piper. Então fez uma pausa. — Sim. Não.
Uma das pernas não estava obedecendo, mas isso não contava como paralisia. Ela achava que talvez estivesse quebrada. Piper começava a achar que a situação não era tão boa assim.
— Nós podemos consertar isso — disse a mulher. — Se o despertarmos.
Ambas olharam para a porta da tumba.
— Se o despertarmos, ele nos concederá um favor — acrescentou a mulher. — Nós estamos em três, mas por pouco. Não resta muito tempo.
Ela gesticulou vagamente na direção dos gemidos de Morris.
Piper, que estava interessada em seu próprio bem-estar acima de todas as outras pessoas, suspeitou no mesmo instante.
— Por que você simplesmente não o despertou sozinha, então?
— Seria solitário ser uma rainha sozinha — disse a mulher. — Teria sido melhor com três, mas dois é o suficiente. Dois é menos estável que três, mas melhor que um.
Piper era uma pessoa extremamente desinteressada na matemática de magias. Agora que começava a pensar a respeito, sua perna realmente doía.
E também estava vazando. Ela estava ficando brava com tudo ali.
— Ok, tudo bem. Tudo bem.
A mulher ergueu a lamparina e ajudou Piper a ficar de pé, com dificuldade. Piper disse uma palavra que normalmente a fazia se sentir melhor, mas não nesse caso. Pelo menos agora ela acreditava que a outra mulher era real; ela estava comprimindo as costelas de Piper no esforço de ajudá-la a ficar de pé.
— E quem é você, mesmo?
— Meu nome é Neeve.
Enquanto elas avançavam mancando até a porta, Piper observou:
— Mas que nome estúpido, não?
— Assim como Piper — respondeu Neeve calmamente.
No fim, não houve realmente nenhuma cerimônia. Elas apenas colocaram as mãos na porta e a empurraram. Ela não parecia mágica, somente um pedaço de madeira.
A tumba já estava iluminada por dentro. Era uma quantidade de luz similar à proporcionada pela lamparina que Neeve tinha a seus pés. Era, na realidade, a mesma quantidade exata de luz, refletida de volta para elas.
As duas entraram caminhando com dificuldade. Havia um caixão erguido, a tampa já aberta.
O adormecido não era humano. Piper não sabia por que imaginara que seria. Em vez disso, era pequeno, escuro, reluzente e com mais pernas do que ela havia esperado. Era poderoso.
— Precisamos despertá-lo ao mesmo tempo para conseguir o fa... — disse Neeve.
Piper estendeu o braço e o tocou antes que Neeve pudesse se mexer.
— Acorde.

6 comentários:

  1. Mas olha que bela porcaria. Parabéns pra Neeve, a criatura mais sacana da história desse livro.

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  2. NOSSA! PARABÉNS, VIU???!!! UAU! VOCÊS SÃO REALMENTE MUITO ÚTEIS!!!

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  3. que ódio dessa mulher, tanta coisa pra fazer, tipo ser útil, e ela vai la e faz uma asneira dessa

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  4. Ah pessoa qe mais merecia morrer e o assassino de aluguel deixa viva, não era hora de ser cavalheiro, pessimo timing!
    E a Neeve, gente? Da onde surgiu essa criatura? Jabavé!

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  5. devia simplesmente ter dado um tiro na cabeça dela gente!!!!

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Boa leitura, E SEM SPOILER!