30 de julho de 2018

Capítulo 9

AURANOS

— Estou muito feliz em anunciar a todos — o rei Corvin falou à frente do grande salão, para uma multidão de amigos e nobres reunidos no banquete de comemoração — que minha filha mais nova, princesa Cleiona Aurora Bellos, deve se unir em matrimônio ao lorde Aron Lagaris, filho de Sebastien Lagaris, da Encosta dos Anciãos. Espero que possam se juntar a mim na celebração dessa feliz e alegre união. Um brinde à princesa Cleo e ao lorde Aron!
A multidão vibrou. Cleo tentou conter as lágrimas enquanto estava ao lado de seu pai. Não conseguia mais ver o rosto das pessoas, apenas borrões. Mas ela não choraria.
— Sorria, Cleo. — Aron bateu sua taça de vinho na dela ao voltar à mesa, que transbordava com o banquete real. O tim-tim fez a coluna dela enrijecer. — Todos vão pensar que não está animada com esse anúncio.
— Não estou, e você sabe — ela disse entredentes.
— Você vai se acostumar — ele assegurou, mas não parecia se importar muito com o que aconteceria. — Antes que se dê conta, chegará o dia do casamento.
Parecia mais uma ameaça do que uma promessa.
Era oficial. Ela estava oficialmente comprometida.
Depois da conversa desagradável que tivera com Aron em sua quinta algumas semanas antes, levantou o assunto com seu pai, esperando que ele desfizesse o noivado antes do anúncio oficial. Em vez disso, ele disse que era para o bem de Cleo, e que ela precisava acreditar que o pai era capaz de escolher um marido adequado para a filha querida.
O rei, Cleo pensava com um desalento cada vez maior, estava mais empolgado pela ideia de ter Aron como genro — um lorde que supostamente entrara em uma briga para defender a frágil princesa de um camponês paelsiano selvagem — do que ela jamais ficaria.
Desde aquela “conversa”, o rei estivera ocupado demais para falar com Cleo em particular. No entanto, por sorte, também andava ocupado demais para fazer o anúncio. Cada dia que se passava sem a oficialização era um presente. Uma chance de pensar em uma saída.
Mas Cleo não pensou em nada. Não a tempo.
“E cá estamos”, ela pensou com tristeza.
Não conseguia comer nada. Seu estômago não podia segurar um bocado que fosse de vitela, cervo, frango recheado, frutas ou massas doces — para citar apenas uma fração do luxuoso banquete. E recusou-se a tomar um único gole de vinho.
Assim que pôde, escapou do banquete lotado, evitando os olhos de Theon e passando rapidamente pelas hordas de simpatizantes que pareciam empolgados com a perspectiva de um casamento real.
— Que coisa maravilhosa — ela ouviu uma mulher dizer ao passar — ter notícias tão alegres. Espero que o casamento seja na primavera. Mas é uma pena não termos visto a princesa Emilia. É tão triste que ela não esteja se sentindo bem para comparecer.
O coração de Cleo se contraiu com aquelas palavras. Sempre que estivesse sendo egoísta e se preocupasse demais com seus problemas, precisava lembrar: estava acontecendo algo muito mais importante do que seu conflito com Aron.
As tonturas e dores de cabeça de Emilia pioravam cada vez mais. Ela estava de cama, fraca demais para comparecer às refeições. Nenhum curandeiro chamado ao palácio descobrira o que havia de errado com ela. Aconselharam-na a descansar bastante e esperar. Com esperança, seus problemas de saúde desapareceriam mais cedo ou mais tarde.
Com esperança.
Cleo não gostava dessa expressão. Gostava de certezas. Gostava de saber que o dia de amanhã seria agradável, ensolarado e divertido. Gostava de saber que sua família e seus amigos estariam saudáveis e felizes. Qualquer outra coisa era inaceitável. Emilia ficaria boa porque tinha que ficar boa. Se Cleo desejasse muito uma coisa, ela aconteceria. Por que não? Sempre havia sido assim. Decidida, tirou o noivado da cabeça.
Do grande salão, Cleo se dirigiu aos aposentos da irmã. Emilia estava atrás das cortinas transparentes de sua cama com dossel, encostada sobre um monte de travesseiros coloridos, lendo à luz de velas. No canto, sobre um cavalete, estava a pintura mais recente de Emilia: um estudo do céu noturno. Ela se virou com os olhos um pouco vidrados, o rosto pálido e abatido, quando Cleo entrou no quarto.
— Cleo… — ela começou a dizer.
Cleo desatou a chorar, odiando cada lágrima derramada — por si mesma, por Emilia. Lágrimas eram inúteis. Só serviam para fazê-la se sentir fraca e impotente contra aquela correnteza que arrastava todos por onde passava.
Emilia largou o livro, puxou de lado as cortinas da cama e estendeu a mão para a irmã. Cleo cambaleou para a frente, desabando na cama ao lado dela.
— Odeio ver você tão mal — Cleo soluçou.
— Sei que odeia. Mas esse não é o único motivo de suas lágrimas, é? Nosso pai fez o anúncio?
Cleo apenas concordou com a cabeça, pois tinha a garganta apertada demais para falar.
Emilia apertou sua mão e olhou para a irmã com muita seriedade.
— Ele não está fazendo isso para que você sofra. Ele realmente pensa que Aron seria um bom marido para você.
Não, não seria. Ele seria um péssimo marido. Por que ninguém enxergava aquilo?
— Por que agora? Por que ele não pode esperar dois anos?
— Muitas pessoas, inclusive as que vivem aqui, viram o que aconteceu em Paelsia como um insulto direto a nossos vizinhos. Com o noivado de vocês, o rei está afirmando que aceita Aron e acredita que ele seja nobre e digno de se casar com sua preciosa filha. Os rumores de que Aron agiu para proteger a garota que ama se confirmam. A crise é evitada.
— É tão injusto. — O fato de tudo não passar de uma decisão política parecia tão frio, tão analítico. Para Cleo, um casamento ideal deveria ser fruto de amor, não de interesses políticos.
— Nosso pai é o rei. Tudo o que faz, diz, optou por fazer, é a serviço do reino. Para fortalecer os pontos em que pode se tornar fraco.
Cleo inspirou profundamente.
— Mas eu não quero me casar com Aron.
— Eu sei.
— Então o que devo fazer?
Emilia sorriu.
— Talvez devesse fugir com Nic, como me contou que ele sugeriu.
Cleo quase riu da ideia.
— Não seja ridícula.
— Você sabe que aquele garoto é apaixonado por você, não sabe?
Cleo franziu a testa e encarou a irmã com olhar inquisidor.
— Não é, não. Eu perceberia uma coisa dessas.
Emilia deu de ombros.
— Algumas verdades não são vistas tão facilmente.
Nic com certeza não estava apaixonado por ela. Eram bons amigos — nada além disso. De canto de olho, ela viu Theon passar pela porta aberta do quarto de Emilia, fazendo sua presença ser notada. Ele a havia seguido desde o banquete até a escadaria sinuosa que dava para os aposentos da irmã. Cleo sentiu uma onda estranha de prazer por ele se recusar a deixá-la fugir de sua vista.
Cleo tirou os olhos de Theon e voltou a atenção à irmã. Ela perdeu o ar. Havia sangue escorrendo do nariz de Emilia.
Ao ver a expressão de terror de Cleo, Emilia pegou um lenço de cor creme, já manchado de vermelho, e limpou o sangue, como se não fosse algo inesperado.
Ver aquilo gelou o sangue de Cleo.
— Emilia…
— Sei que está chateada com o noivado — Emilia interrompeu com delicadeza, mudando de assunto. — Então preciso contar uma coisa, Cleo, sobre o meu noivado rompido. Talvez ajude.
Cleo hesitou, surpresa. Ela nunca pensou que saberia a verdade sobre aquilo.
— Conte.
— Na época, fiquei feliz com o noivado. Eu sentia que era o meu dever. Lorde Darius não era terrível. Eu gostava dele. Gostava mesmo. Estava preparada para me casar com ele. Mas nosso pai tinha esperado eu completar dezoito anos para escolher alguém para mim. Não havia pressa como agora.
Os dezoito anos pareciam a uma eternidade de distância. Se Cleo tivesse tanto tempo para lidar com aquilo…
— O que aconteceu?
— Eu me apaixonei por outra pessoa.
— Eu sabia! — Cleo agarrou a mão da irmã. — Quem era?
Emilia umedeceu os lábios pálidos com a ponta da língua e falou, um pouco hesitante.
— Um guarda.
Os olhos de Cleo quase caíram do rosto. Era a última resposta que ela esperava ouvir.
— Não pode estar falando sério.
— Estou. Nunca havia amado alguém tanto quanto o amava. Ele era tão lindo e empolgante, e me fazia sentir mais viva do que nunca. Eu sabia que era errado, que um casamento naqueles moldes nunca seria permitido, mas quando nosso coração embarca numa viagem dessas, tudo o que podemos fazer é aguentar firme. Contei ao nosso pai que não poderia me casar com lorde Darius. Implorei para que ele não me obrigasse. Disse que, se insistisse, eu… eu me mataria.
Cleo sentiu um arrepio ao se lembrar da depressão profunda de sua irmã na época do noivado com o lorde Darius.
— Por favor, não diga uma coisa dessas.
— Era verdade na época. E o nosso pai acreditou que eu fosse capaz. Rompeu o noivado imediatamente, colocando a vida da futura rainha de Auranos acima de um casamento real arranjado. Agora me sinto mal por tê-lo assustado, mas na época não conseguia pensar direito.
— Onde ele está agora? — sussurrou Cleo. — Esse guarda?
Os olhos de Emilia se encheram de lágrimas, que se espalharam por seu rosto pálido.
— Ele se foi.
Aquelas palavras carregavam tanta dor que eram quase palpáveis. Sua irmã estava com seu livro favorito nas mãos, um livro religioso dedicado à deusa Cleiona.
— Tiro minhas forças da leitura sobre a força dela — sussurrou Emilia, olhando para a capa estampada em ouro. — Ela fez o que precisava ser feito para proteger Auranos, arriscando a própria vida para manter o reino a salvo dos perigos exteriores. Minha fé é tudo o que tenho para enfrentar esses tempos obscuros. Sei que sua fé tem um tom mais prático.
Apesar de ter recebido o nome da deusa, Cleo não sabia muito sobre religião, e não era a única. Muitos no reino haviam se afastado do que antes era considerado uma parte importante da vida auraniana. Anos atrás, o rei abrandara a regra de que houvesse um dia dedicado apenas a orações. Seus súditos podiam usar seu tempo como bem entendessem.
Cleo deu de ombros.
— Acho que tenho dificuldade para acreditar em coisas que não posso ver.
— Gostaria que você desse uma chance e aprendesse mais do que já sabe. Cleiona era tão corajosa e forte. Foi por isso que nossa mãe insistiu que você tivesse o nome dela. Ela havia perdido um bebê antes de você, e lhe disseram que não poderia ter outro. Você foi um milagre. Tudo o que ela fez foi rezar por sua pequena e preciosa vida. Ela queria tanto que você sobrevivesse. Insistiu que tivesse o nome da deusa na esperança de que isso lhe desse força para sobreviver. Foi seu último desejo.
— Eu queria que nós duas tivéssemos sobrevivido. — Cleo ficou sem voz. Apesar de toda a riqueza do rei, sua amada rainha havia morrido no parto, e ele não pôde fazer nada para evitar.
— Eu também, mas fico muito feliz por você estar aqui.
— Sabe que eu faria qualquer coisa por você, não é? — A voz de Cleo enfatizou as palavras. — Amo você mais do que tudo no mundo.
— Eu sei. E amo você também. — Mais sangue escorreu do nariz de Emilia, e ela o limpou.
— O que posso fazer para ajudá-la?
— Nada. — Emilia piscou, com tristeza no rosto. — Estou morrendo, Cleo.
— Emilia! Não diga isso. — Um soluço de choro tomou conta do peito de Cleo. Era o seu maior medo dito em voz alta pela primeira vez.
Emilia apertou sua mão.
— É verdade. Você precisa se preparar para o que está por vir. Deve superar a tempestade e sair dela mais forte do que antes.
— Pare com isso. — A voz de Cleo tremeu. — Não diga essas coisas. Você não está morrendo.
— Estou. Sei que estou. Quando o homem que eu amava morreu dois meses atrás, rezei para Cleiona me levar também. Minhas preces estão sendo atendidas.
O rosto de Emilia se contraiu de sofrimento e as lágrimas escorreram pelo seu rosto.
Lágrimas coloridas de vermelho. Mais sangue.
Cleo ficou boquiaberta. Sua irmã estava apaixonada por um guarda que havia morrido há dois meses.
— Era o pai de Theon, não era?
Emilia ficou sem ar e olhou para Cleo com surpresa antes de começar a chorar ainda mais.
Cleo tinha adivinhado. Sua irmã havia se apaixonado pelo guarda pessoal do rei, que foi jogado do cavalo e encontrou a morte. Uma tragédia. Cleo já sentia muito pela perda de Theon, mas ela não imaginava que a morte do pai dele também atingira sua irmã.
— Sinto muito. — Ela abraçou Emilia enquanto as lágrimas tingidas de sangue da irmã ensopavam o ombro de seu vestido. Era raro que sua irmã ficasse tão emotiva. Ela costumava esconder as lágrimas, até de Cleo. Emilia sempre fora equilibrada e perfeita, esperta e sofisticada, enquanto Cleo lutava para se comportar da melhor forma possível. Emilia era sempre a rocha, confortando Cleo quando ela estava chateada com alguma intriga à toa ou brigas insignificantes com uma amiga. Ou com a perda de sua inocência para Aron.
— Você é a mesma que era ontem e anteontem — ela a havia tranquilizado. — Nada mudou. Não mesmo. Esqueça o que a está perturbando. Não se arrependa de nada, mas aprenda com os erros que cometeu. Amanhã será um dia melhor, eu juro.
— Sinto muito por ele ter partido — Cleo murmurou junto aos cabelos da irmã. — Queria que tudo fosse diferente. Mas, por favor, não diga que rezou para morrer. Não pode dizer nada assim.
— Pensei que fosse morrer com a dor quando soube da morte dele. Foi como se eu tivesse perdido meu marido, não apenas meu amante. — Emilia respirou fundo, trêmula. — Mesmo não podendo nem sonhar em nos casarmos de verdade, duas semanas antes de morrer ele cavalgou comigo para o Vale Lesturne, a poucas horas da cidade. Passamos o dia juntos, fazendo juras de amor e devoção com a natureza como testemunha. Eu me comprometi para sempre com ele, e ele comigo. Foi perfeito, Cleo. Apenas por algumas horas, tudo foi tão perfeito. Vimos o pôr do sol juntos e ficamos contando as estrelas conforme apareciam. Ele disse que nos tornaríamos estrelas quando morrêssemos, tomando conta daqueles que amamos. Agora olho para o céu todas as noites na esperança de encontrá-lo, na esperança de vê-lo de novo. Sinto tanta falta dele que sei que é essa a causa da minha doença. O sofrimento está corroendo a minha vida.
— Você não pode deixar isso acontecer. — A garganta de Cleo estava tão apertada, mas havia raiva em suas palavras. — Não pode. Você será rainha um dia. Se morrer, eu serei a sucessora. Acredite em mim, Emilia, isso seria muito ruim. Eu seria uma péssima rainha. Por mais terrível que tudo isso esteja sendo para você, e por mais que eu também sofra com esse segredo que manteve guardado dentro de si, me recuso a aceitar que você esteja morrendo de sofrimento. Está doente, só isso. E pessoas doentes ficam boas de novo.
— Os curandeiros que me examinaram não entendem o que há de errado comigo. Não têm respostas ou remédios além daqueles que me fazem dormir o dia todo. — Emilia bufou de leve. — Contudo, um deles sugeriu que procurasse ajuda em Paelsia. Disse que era minha única esperança de sobreviver.
— Ajuda de quem em Paelsia? — Cleo perguntou imediatamente.
Emilia sacudiu a mão.
— É uma lenda, só isso.
— Que lenda?
Emilia abriu um sorriso.
— De repente, minha irmã que só acredita em coisas palpáveis está interessada em histórias e lendas.
— Se não me disser, juro que vou gritar.
— Minha nossa, acho que eu não ia gostar. — O rosto pálido de Emilia parecia cansado e ela apoiou a cabeça no travesseiro. — O curandeiro me falou de uma mulher em Paelsia que guarda as sementes de uva originais que foram inoculadas com magia da terra. São as que ajudam os vinhedos a produzir aquele vinho tão incrível. Ela cuida desses vinhedos com a magia da terra, que protege do resto do mundo.
— Magia — exclamou Cleo, cética.
— Sei que não acredita, por isso não queria contar.
— Então quer dizer que essa mulher tem sementes mágicas e é responsável pelos vinhedos serem tão maravilhosos em Paelsia. Por que ela não usa essa magia para ajudar Paelsia a sair da pobreza?
— Talvez sua magia não tenha tanto alcance. Mas a lenda diz que as sementes que ela possui são capazes de curar até as doenças mais terríveis.
— E quem é essa mulher para ter tamanha magia à disposição?
Emilia parecia relutante em dizer mais alguma coisa.
— E? — Cleo persistiu.
— Uma vigilante exilada. Que deixou o santuário há muitos anos.
— Uma vigilante — Cleo disse com descrença.
— Isso mesmo. Então você está certa. Não passa de fantasia. Vigilantes não existem de verdade. Não tem ninguém lá fora nos observando por meio dos olhos de pássaros, buscando pistas de onde encontrar a Tétrade.
— Nunca acreditei nessas bobagens.
— E foi por isso que hesitei em lhe contar tudo isso. — Ela limpou mais um pouco de sangue do nariz. O coração de Cleo, que nem havia se recuperado, começou a doer outra vez.
— Emilia… — seus olhos se encheram de lágrimas. — Não sei o que fazer.
Emilia ficou agoniada.
— Eu nunca deveria ter contado nada disso. Minha história escapou de minhas mãos. Mas se você não quiser mesmo se casar com Aron, diga ao nosso pai. Faça-o entender que vai morrer se fizer isso. E se você se apaixonar por outro, passe todo o tempo possível com ele, pois nunca se sabe quando ele poderá ser tirado de você. Siga os caminhos que seu coração apontar. Aprecie a vida, Cleo. É uma dádiva que pode ser roubada a qualquer hora. Aconteça o que acontecer comigo, não me arrependo de nenhum segundo que passei com Simon.
Cleo cerrou os dentes.
— Você não vai morrer. Eu não vou deixar.
Emilia soltou o ar, trêmula.
— Minha cabeça está doendo muito. Preciso dormir. Mal consigo abrir os olhos por causa dos elixires ridículos que os curandeiros me fizeram tomar. Boa noite, querida irmã. Amanhã será melhor.
Cleo segurou a mão de Emilia até ter certeza de que ela estava dormindo. Beijou a testa da irmã, saiu do quarto e foi para o corredor com as pernas bambas. Theon esperava ao lado da porta, com um sorriso amargo gravado no belo rosto.
Com a porta aberta, Theon poderia ter ouvido tudo o que ela e Emilia conversaram, mesmo que não estivesse tentando escutar.
— Achei que você fosse fugir pelo terraço da sua irmã de novo — ele disse calmamente.
— Hoje não. — Ela olhou para o rosto tenso do guarda. — Você sabia?
Ele negou.
— Eu sabia que meu pai gostava de alguém, mas ele não dizia quem era. Achei que estivesse envolvido com uma mulher casada. Agora eu sei.
Cleo abraçou seu próprio corpo ao andar. Os lampiões na parede lançavam um brilho cintilante de luz e sombras pelo corredor.
— Você acredita nessas coisas que ela falou sobre vigilantes exiladas e sementes mágicas que podem curar doenças?
— Eu não sei.
Cleo parou de andar e se virou para ele.
— Não sabe? Então acha que pode ser verdade?
— Meu pai acreditava em magia, em lendas perdidas dos vigilantes da Tétrade. Ele me disse que aqueles que se exilam no mundo mortal têm crianças que também podem ser tocadas pela magia. Bruxas.
— Nunca acreditei que existissem bruxas de verdade. Ou vigilantes.
A expressão de Theon ficou obscura.
— Eu também não, e não sei bem se você deve começar agora.
— Eu me pergunto se os próprios moradores das vilas paelsianas saberiam como encontrar essa mulher — disse ela em voz baixa. — Se eu descobrisse um nome, uma localização, poderia encontrá-la e falar com ela.
Theon ficou em silêncio por um momento.
— Não está pensando em ir atrás disso, está? É apenas uma história que sua irmã lhe contou.
— Se existe alguém que pode ajudar Emilia, eu preciso encontrar.
Theon ficou preocupado com a determinação repentina no rosto de Cleo.
— Depois do que aconteceu com lorde Aron, não é uma boa ideia um auraniano botar os pés em Paelsia até o assunto ser esquecido.
Cleo olhou para o guarda, assustada.
— Você acha que isso vai acontecer?
Ele fez que sim.
— É um dos motivos de seu pai ter anunciado seu noivado agora. É uma distração.
Os ombros dela desabaram.
— Meu futuro sofrimento está sendo usado como distração. Que maravilha!
— Como sua irmã disse, você não precisa se casar com ele. A menos que queira.
— Você fala como se eu tivesse escolha.
— A princesa Emilia conseguiu desfazer seu noivado porque amava outra pessoa.
— Então você acha que eu deveria me apaixonar por outra pessoa?
Theon não respondeu de imediato. Cleo percebeu que ele a estava observando atentamente.
— Talvez devesse — ele por fim respondeu.
O coração dela quase parou.
— E ser tão corajosa quanto a minha irmã ao me apaixonar por alguém que não seja adequado para uma princesa?
— A decisão é toda sua.
O olhar dela voltou-se para os lábios dele, como se não pudesse se conter.
— Quero ajudar Emilia — ela sussurrou. — Não posso perder minha irmã. Ela acha que está morrendo; vi em seus olhos. Não posso deixar isso acontecer.
— Eu sei.
— Preciso ir a Paelsia e descobrir mais informações sobre essa vigilante exilada.
A expressão de Theon endureceu. O que havia de confuso em seus olhos desaparecera.
— Esqueça isso, princesa. Além do mais, você não acredita em magia.
— Nunca acreditei em magia porque não acredito em nada que não tenha visto com meus próprios olhos. Portanto, devo ir a Paelsia assim que puder e descobrir a verdade.
Ele a analisou pacientemente, e um lampejo de respeito passou por seus olhos.
— Está determinada a salvar sua irmã.
— Ela está morrendo. Eu sinto, Theon. Vou perdê-la se não fizer alguma coisa logo. — Ela engoliu em seco e olhou para ele. — Você iria comigo?
Theon ficou pensativo por um momento.
— Se conseguir a permissão de seu pai para essa viagem, é claro que irei com você.
Aquela era a resposta de que ela precisava — Emilia precisava restabelecer sua saúde. E se houvesse uma crise em Paelsia, Cleo faria de tudo para evitá-la. Com Theon a seu lado, nada a impediria. Uma onda de motivação e otimismo tomou conta dela.
— Então vou conseguir a permissão do meu pai.

6 comentários:

  1. Esse Theon... estou tendo a impressão que ele irá nos surpreender muito ainda!

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  2. Acho que ele pode querer se vingar pelo pai, já que tá na cara que o pai dele foi assassinado por ter se apaixonado pela princesa herdeira e o Theon pode querer usar a Cléo. Gostei muito dele no começo, agora tô desconfiado

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  3. O pai dele não era muito velho pra Emilia?

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    1. Provavelmente. Mas nessa época era comum as moças se casarem cedo, e normalmente com homens mais velhos. Os novos ainda estavam se divertindo por aí

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  4. Eu sei que a Cléo é uma das mocinhas, mas acho que ela merece sim sofrer pela morte do Tomas, ela tem parte da culpa pelo que aconteceu, e se arrepender não muda as coisas.. Pensei que ela tivesse escondendo um segredo muito cabeludo, mas ter perdido a virgindade não era motivo suficiente pra deixar uma pessoa morrer, ela é a princesa, poderia negar! AFF

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  5. AAAAAA CARA EU TÔ APAIXONADA PELO THEON
    ASS:JANIELLI

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Boa leitura, E SEM SPOILER!