15 de julho de 2018

Capítulo 9

Assim que Blue voltou de Cabeswater, já se meteu em confusão.
Após os garotos a deixarem, ela entrou abruptamente na cozinha da Rua Fox, 300 e começou a interrogar Artemus, que ainda estava atrás da porta fechada da despensa. Quando ele deixou de responder às perguntas dela, razoavelmente formuladas a respeito de mulheres com mãos assassinas e com o rosto de Blue, assim como do possível paradeiro de Glendower, ela começou a falar cada vez mais alto e acrescentou pancadas na porta. Seu coração estava cheio da lembrança dos ombros respingados do blusão da Aglionby de Gansey — precisamente o que o seu espírito estivera usando na vigília da igreja — e sua cabeça estava tomada pela frustração de que Artemus sabia mais a respeito de tudo isso do que estava dizendo.
De uma posição mais elevada sobre o balcão, Gwenllian observava com deleite a ação.
— Blue! — a voz de sua mãe irrompeu de alguma outra parte na casa. — Bluuuuuuuuu. Por que você não dá um pulo aqui para bater um papo com a gente?
Blue sabia que aquele tom pegajoso da voz da mãe era sinal de que ela estava com algum problema. Blue baixou o punho da porta fechada da despensa da cozinha e começou a subir a escada. A voz de sua mãe vinha do único banheiro compartilhado da casa, e, quando Blue chegou lá, encontrou sua mãe, Calla e Orla, todas sentadas dentro de uma banheira cheia, completamente vestidas e igualmente molhadas. Jimi estava sentada sobre a tampa fechada da privada, com uma vela acesa nas mãos. Todas tinham chorado, mas nenhuma chorava agora.
— O que foi? — demandou Blue. Sua garganta estava um pouco dolorida, o que significava que ela tinha gritado mais alto do que gostaria.
Sua mãe a espiou com mais autoridade do que alguém poderia pensar que uma mulher em sua posição o faria.
— Você gostaria se alguém batesse na porta do seu quarto e ordenasse que você saísse?
— Uma despensa não é um quarto — disse Blue. — Para começo de conversa.
— As últimas décadas foram estressantes para ele — disse Maura.
— Os últimos séculos foram estressantes para Gwenllian, e ela pelo menos está sentada no balcão!
Da privada, Jimi disse:
— Você não pode comparar a capacidade de uma pessoa em lidar com situações com a de outra, querida.
Calla bufou.
— É por isso que vocês estão juntas numa banheira? — perguntou Blue.
— Não seja maldosa — respondeu Maura. — Nós estamos tentando fazer contato com a Persephone. E não, antes que você pergunte, não funcionou. E aproveitando que estamos falando da insensatez das suas escolhas, onde exatamente você esteve, que desapareceu? Estar suspensa não são férias.
Blue se irritou.
— Eu não estava de férias! Ronan sonhou sua criança interior ou algo assim, e tivemos que levar a garotinha para a mãe dele. Enquanto estávamos lá, vimos três mulheres daquela tapeçaria que eu te contei, e uma árvore esquisita, e Gansey poderia ter morrido com a maior facilidade, e eu estaria bem ali, ao lado dele!
As mulheres tinham uma expressão de pena, o que deixou Blue mais irritada ainda.
— Eu quero avisar o Gansey.
Silêncio.
Ela não sabia que diria isso até as palavras saírem de sua boca, mas agora já tinham sido ditas.
Ela preencheu o silêncio.
— Eu sei que vocês já disseram antes que ficar sabendo disso apenas arruinaria a vida de uma pessoa, e não a salvaria. Eu entendo isso. Mas dessa vez é diferente. Nós vamos encontrar Glendower, e vamos pedir que ele salve a vida do Gansey. Então precisamos que ele permaneça vivo até lá. E isso significa que ele precisa parar de correr riscos!
Sua tênue esperança não suportaria mais pena àquela altura, mas, felizmente, não foi esse o retorno que ela teve. As mulheres se entreolharam, considerando a questão. Era difícil saber se elas estavam tomando decisões baseadas em meios usuais ou mediúnicos.
Então Maura deu de ombros:
— Tudo bem.
— Tudo bem?
— Sim, claro — disse Maura. Ela olhou de relance novamente para Calla em busca de confirmação, e Calla ergueu as sobrancelhas. — Conte a ele.
— Mesmo?
Blue provavelmente havia esperado que elas a pressionassem mais, pois, quando não o fizeram, ela sentiu como se um tapete tivesse sido puxado debaixo dela. Uma coisa era informá-las de que ela contaria a Gansey que ele morreria, e outra era se imaginar contando para ele. Não havia como desfazer isso quando terminasse. Blue cerrou os olhos — seja sensata, coragem — e os abriu.
A mãe olhou para a filha. A filha olhou para a mãe. Maura disse:
— Blue.
Blue se permitiu relaxar.
Jimi apagou a vela que ela segurava com um sopro e a colocou ao lado da privada. Então colocou os braços em torno dos quadris de Blue e a trouxe para o seu colo, como fazia quando Blue era pequena. Bem, Blue ainda era pequena. Quando Blue era jovem. A privada gemeu debaixo delas.
— Você vai quebrar a privada — disse Blue, mas ela deixou que Jimi a abraçasse e a puxasse para o seu busto largo. Ela suspirou, trêmula, enquanto Jimi fazia carinho em suas costas e ronronava para si mesma. Blue não conseguia entender como esse conforto infantil era ao mesmo tempo calmante e sufocante. Ela estava ao mesmo tempo feliz por isso e desejando estar em algum outro lugar, com menos ligações a amarrando, a cada desafio ou tristeza em sua vida.
— Blue, você sabe que não é uma coisa ruim que você queira deixar Henrietta, certo? — sua mãe perguntou da banheira. Isso era tão precisamente o que Blue estivera pensando, que ela não sabia dizer se sua mãe havia trazido o assunto à tona porque ela era uma boa médium ou porque a conhecia bem.
Blue se apertou contra Jimi.
— Pfff.
— Nem sempre é fugir — disse Jimi, com a voz profunda ribombando através do peito até o ouvido de Blue. — Partir.
— Nós não vamos pensar que você odeia a Rua Fox — acrescentou Calla.
— Eu não odeio a Rua Fox.
Maura afastou a mão de Orla com um tapinha; Orla tentava trançar o cabelo úmido de Maura.
— Eu sei. Porque nós somos ótimas. Mas a diferença entre uma casa bacana e uma prisão bacana é realmente pequena. Nós escolhemos a Rua Fox. Nós a fizemos, Calla, Persephone e eu. Mas ela é apenas a sua história de origem, não o seu destino final.
Essa sabedoria de Maura deixou Blue contrariada por alguma razão.
— Diga alguma coisa — disse Orla.
Blue não sabia bem como dizê-lo; ela não sabia bem o que era.
— Isso... Só parece um desperdício muito grande. Apaixonar-se por todas essas pessoas. — Por todas essas pessoas ela se referia realmente a todas elas: os garotos, Jesse Dittley, a Rua Fox, 300. Para uma pessoa sensata, Blue achou que ela talvez tivesse problemas com o amor. Em uma voz perigosa, ela acrescentou: — Não diga que “é uma boa experiência de vida”. Não faça isso.
— Eu amei um monte de gente — disse Orla. — Eu diria que é uma boa experiência de vida. De qualquer maneira, eu disse a você muito tempo atrás que esses caras iam te deixar para trás.
— Orla — disparou Calla, enquanto a respiração seguinte de Blue saiu um pouco irregular. — Às vezes eu fico confusa quando imagino o que você deve dizer aos seus pobres clientes ao telefone.
— Como queira.
Maura lançou um olhar sombrio para Orla sobre o ombro, e então disse:
— Eu não ia dizer que é uma boa experiência de vida. Eu ia dizer que partir ajuda, às vezes. E nem sempre é um adeus para sempre. Há partir e há voltar.
Jimi balançou Blue. A tampa da privada rangeu.
— Acho que não vou conseguir ir para nenhuma das faculdades que quero — disse Blue. — O orientador acha que não vai ser possível.
— O que você quer? — perguntou Maura. — Não da faculdade. Da vida.
Blue engoliu a verdade de uma vez, pois ela estava pronta para avançar da crise e do choro para soluções e estabilidade. Então ela disse a verdade lenta e cuidadosamente, de maneira que fosse exequível.
— O que eu sempre quis. Ver o mundo. Tornar o mundo melhor.
Maura parecia escolher cuidadosamente as palavras.
— E você tem certeza que a faculdade é a única maneira de conseguir isso?
Esse era o tipo de resposta impossível que o orientador de Blue daria a ela após examinar sua situação financeira e acadêmica. Sim, ela tinha certeza. De que outra maneira ela poderia mudar o mundo para melhor, sem primeiro encontrar como fazê-lo? Como Blue poderia conseguir um trabalho que lhe pagasse para estar no Haiti, ou na Índia, ou na Eslováquia, se ela não fosse para a faculdade?
Então ela lembrou que não era seu orientador que lhe perguntava; era sua mãe, médium.
— O que devo fazer? — perguntou Blue cautelosamente. — O que vocês me viram fazendo?
— Viajando — respondeu Maura. — Mudando o mundo.
— Árvores em seus olhos — acrescentou Calla, mais delicadamente do que de costume. — Estrelas em seu coração.
— Como? — perguntou Blue.
Maura suspirou.
— Gansey se ofereceu para te ajudar, não foi?
Era um palpite que não exigia capacidade mediúnica, apenas uma compreensão mínima da personalidade de Gansey. Blue tentou se levantar, irada. Jimi não a deixou.
— Não vou pegar o trem de caridade do Gansey.
— Não fique assim — disse Calla.
— Assim como?
— Amarga. — Maura considerou a questão e então acrescentou: — Eu só quero que você olhe para o seu futuro como um mundo onde qualquer coisa é possível.
Blue disparou de volta:
— Tipo o Gansey não morrendo antes de abril? Tipo eu não matando meu amor verdadeiro com um beijo? Alguma dessas possibilidades?
Maura ficou calada por um longo minuto, durante o qual Blue se deu conta de que ela estava desejando ingenuamente que sua mãe lhe dissesse que ambas as previsões poderiam estar erradas e que Gansey ficaria bem. Mas, por fim, sua mãe simplesmente respondeu:
— A vida vai continuar depois que ele morrer. Você tem que pensar no que você vai fazer depois.
Blue estivera pensando sobre o que ela faria depois, razão pela qual ela tivera uma crise.
— Não vou beijá-lo, de qualquer forma, então não pode ser assim que ele será levado.
— Não acredito no conceito de amor verdadeiro — disse Orla. — Trata-se de uma construção de uma sociedade monogâmica. Nós somos animais. Fazemos amor nos arbustos.
— Obrigada por sua contribuição — disse Calla. — Vamos ligar para a previsão de Blue e informá-la.
— Você o ama? — perguntou Maura, curiosa.
— Eu preferiria não o amar — respondeu Blue.
— Ele tem milhares de defeitos. Eu posso te ajudar a focar neles — ofereceu sua mãe.
— Já conheço esses defeitos. Muito bem. É uma idiotice, de qualquer maneira. O amor verdadeiro é uma construção. O Artemus era o seu amor verdadeiro? O sr. Cinzento? Isso torna o outro não verdadeiro? Existe apenas uma chance e então acabou?
Essa última pergunta foi feita com mais impertinência que todas as outras, mas apenas porque era a que mais doía. Se Blue estava longe de assimilar a morte de Gansey, ela certamente não estava muito distante de assimilar a ideia de ele estar morto há tempo suficiente para que ela valsasse alegremente em um relacionamento com uma pessoa que ela não tinha nem encontrado ainda. Ela só queria continuar sendo uma ótima amiga de Gansey, e talvez um dia também conhecê-lo carnalmente. Parecia ser um desejo muito sensato, e Blue, uma pessoa que havia buscado ser sensata durante toda a sua vida, se sentia bastante aborrecida que esse pequeno detalhe lhe estivesse sendo negado.
— Tome meu cartão de mãe — disse Maura. — Tome meu cartão de médium. Eu não sei as respostas para essas perguntas. Gostaria de saber.
— Pobre garota — murmurou Jimi, afagando o cabelo de Blue. — Humm, coisa boa que você não ficou mais alta.
— Por favor — disse Blue.
Calla ficou de pé com um suspiro, segurando o cano do chuveiro para se equilibrar. A água do banho se revolveu abaixo dela. Ela praguejou. Orla baixou a cabeça enquanto a água pingava da blusa de Calla.
— Nem mais um pingo de choro. Vamos fazer umas tortas.

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