4 de julho de 2018

Capítulo 9

Adam estava lendo e relendo o cronograma do primeiro trimestre quando Ronan se jogou na mesa ao lado.
Eles eram os únicos dois na sala de aula com carpete azul-claro; Adam havia chegado bem cedo à Borden House. Parecia errado que o primeiro dia de aulas tivesse o mesmo peso emocional que a tarde ansiosa na caverna dos corvos, mas não havia como negar que a agitação contente e esperançosa em suas veias era agora tão pronunciada quanto aqueles minutos ofegantes em que os pássaros cantavam à sua volta.
Um ano mais e ele a teria terminado.
O primeiro dia foi o mais fácil, é claro. Antes de tudo começar para valer: as tarefas de casa e os esportes, os jantares para toda a escola e o aconselhamento vocacional, as provas e os créditos extras. Antes de o trabalho noturno de Adam e os estudos até as três da madrugada conspirarem para destruí-lo.
Ele leu seu cronograma de novo. As aulas e as atividades extracurriculares saltavam para fora. Parecia impossível. A Aglionby era uma escola difícil: mais difícil para Adam, no entanto, porque ele tinha de ser o melhor.
No ano passado, Barrington Whelk havia se postado na frente daquela sala e ensinado latim para todos. Agora ele estava morto. Adam sabia que tinha visto Whelk morrer, mas não conseguia lembrar como tudo realmente acontecera — embora pudesse, se tentasse realmente, imaginar a cena toda.
Adam fechou os olhos por um momento. No silêncio da sala de aula vazia, ele podia ouvir o farfalhar das folhas batendo em mais folhas ainda.
— Não consigo mais suportar — disse Ronan.
Adam abriu os olhos.
— Suportar o quê?
Ficar sentado, ao que parecia. Ronan foi até o quadro e começou a escrever. Ele tinha uma caligrafia furiosa.
— O Malory. Ele está sempre reclamando dos quadris, ou dos olhos, ou do governo, ou... ah, e aquele cão. E ele não é cego ou aleijado ou qualquer coisa do tipo.
— Por que ele não pode ter algo normal como um corvo?
Ronan ignorou o comentário.
— E ele levantou três vezes à noite para mijar. Acho que ele tem um tumor.
— Você não dorme de qualquer maneira.
— Não mais.
A caneta guinchou em protesto enquanto ele lançava palavras em latim no quadro. Embora Ronan não estivesse sorrindo e Adam não soubesse parte do vocabulário, Adam tinha certeza de que era uma piada suja. Por um momento, observou Ronan e tentou imaginar que ele era um professor em vez de Ronan. Era impossível. Adam não conseguia decidir se fora a maneira como ele puxara suas mangas desajeitadamente para cima ou a maneira apocalíptica como dera o nó na gravata.
— Ele sabe de tudo — disse Ronan de maneira casual.
Adam não respondeu imediatamente, embora soubesse o que Ronan queria dizer, porque também achara a onisciência do professor desconfortável. Quando ele pensou mais atentamente a respeito da fonte de seu aborrecimento — a ideia de Malory passar um ano com Gansey, de quinze anos —, teve de admitir que não era paranoia, mas inveja.
— Ele é mais velho do que eu esperava — disse Adam.
— Ah, Deus, muito velho — respondeu Ronan imediatamente, como se estivesse esperando que Adam mencionasse isso. — Ele nunca mastiga com a boca fechada.
Eles ouviram o ruído de uma tábua de assoalho. Imediatamente, Ronan largou a caneta. Era impossível abrir a porta da frente da Borden House sem fazer o assoalho ranger duas salas adiante. Então os dois garotos sabiam o que aquele ruído queria dizer: as aulas estavam para começar.
— Bom — disse Ronan, soando rude e infeliz —, lá vamos nós, caubói.
Voltando para sua mesa, ele jogou os pés sobre ela. Isso era proibido, é claro. Ronan cruzou os braços, lançou o queixo para trás e fechou os olhos. Insolência instantânea. Aquela era a versão de si mesmo que ele preparava para a Aglionby, para seu irmão mais velho, Declan, e às vezes para Gansey.
Ronan estava sempre dizendo que nunca mentia, mas ele apresentava o rosto de um mentiroso.
Entraram os estudantes. O ruído era tão familiar — pernas de mesas arranhando o chão, jaquetas jogadas sobre o encosto das cadeiras, notebooks batendo sobre bancadas — que Adam poderia ter fechado os olhos e ainda ter visto a cena com perfeita clareza. Eles eram tagarelas, odiosos e desatentos. Para onde você foi nas férias, cara? Cape, sempre, onde mais? Tão chato. Vail. Minha mãe quebrou o tornozelo. Ah, você sabe, fizemos a Europa de mochilão. Meu avô me disse para ganhar uns músculos porque eu estava parecendo meio gay. Não, ele não disse pra valer. Falando nisso, olha lá o Parrish.
Alguém deu um tapa na nuca de Adam. Ele piscou. Para um lado, então o outro. Seu agressor tinha vindo pelo lado surdo.
— Ah — disse Adam. Era Tad Carruthers, cujo pior defeito era que Adam não gostava dele, e Tad não percebia.
— Ah — imitou Tad de maneira benevolente, como se a pouca sociabilidade de Adam o encantasse. Adam queria de maneira desesperada e masoquista que Tad lhe perguntasse onde ele passara o verão. Em vez disso, Tad se virou para onde Ronan ainda estava reclinado com os olhos fechados. Ele levantou a mão para dar um tapa na cabeça de Ronan, mas perdeu a coragem a um centímetro do golpe. Então apenas tamborilou sobre a mesa de Ronan e seguiu em frente.
Adam podia sentir o pulso da linha ley nas veias das suas mãos. Os estudantes continuavam entrando. Adam continuava observando.
Ele era bom nessa parte, na observação dos outros. Era ele mesmo que ele parecia estudar ou compreender. Como ele os desprezava, como queria ser um deles. Como era sem sentido passar um verão no Maine, como ele queria fazer isso. Quão afetado ele achava o discurso deles, como ansiava ter o tom monótono da fala deles. Ele não conseguia dizer como todas essas coisas podiam ser igualmente verdadeiras.
Gansey apareceu no vão da porta. Ele falava com um professor no corredor, o polegar posicionado sobre o lábio inferior, o cenho belamente franzido, o uniforme usado com uma tranquilidade confiante. Ele entrou na sala de aula, os ombros aprumados, e, apenas por um segundo, era como se ele fosse um estranho de novo — mais uma vez aquele principezinho da Virgínia, incognoscível e majestoso.
A cena atingiu Adam como algo real. Como se de alguma forma ele tivesse deixado de ser amigo de Gansey e tivesse esquecido disso até aquele momento. Como se Gansey fosse sentar do outro lado de Ronan em vez de na cadeira ao lado de Adam. Como se o ano anterior não tivesse acontecido, e mais uma vez seria apenas Adam contra todo o resto daqueles predadores superalimentados.
Então Gansey se sentou na cadeira na frente de Adam com um suspiro. Ele se virou.
— Meu Deus, não dormi um segundo. — Ele se lembrou das boas maneiras e estendeu o punho. Quando Adam tocou os nós dos dedos com os de Gansey, sentiu uma sensação extraordinária de alívio e afeição. — Ronan, pés no chão.
Ronan colocou os pés no chão.
Gansey se virou novamente para Adam.
— O Ronan te contou tudo sobre o Pig, então.
— O Ronan não me contou nada.
— Eu contei sobre a mijada — disse Ronan.
Adam o ignorou.
— E o que tem o carro?
Gansey olhou à sua volta para a Borden House, como se esperasse ver que ela havia mudado durante o verão. É claro que não havia: carpete azul-claro sobre tudo, aquecedor ligado cedo demais para a época do ano, prateleiras cheias de livros elegantemente esfarrapados em latim, grego e francês. Era como a sua tia favorita que cheirava mal quando você a abraçava.
— Na noite passada a gente saiu para buscar pão, geleia e mais chá no Pig, e a direção hidráulica desligou. Depois o rádio e as luzes. Jesus. O Ronan estava cantando aquela música péssima sobre o assassinato das abóboras, e não tinha chegado nem na metade de um verso e eu já não tinha mais nada. Foi uma luta para tirar o carro da estrada.
— O alternador de novo — observou Adam.
— Certo, sim, sim — disse Gansey. — Eu abri o capô e vi a correia do alternador pendurada ali, esfarrapada. A gente teve que sair para buscar outra, e foi um inferno conseguir uma no estoque, não sei por quê, parecia que tinha tido grande procura por uma justo desse tamanho. É claro, instalar a correia nova no acostamento foi a parte mais rápida.
Ele disse isso da maneira mais natural possível, como se não tivesse sido nada ter instalado uma correia nova, mas, não fazia muito tempo, Richard Gansey III tinha apenas uma habilidade automotiva: chamar o guincho.
— Você foi esperto e descobriu rápido o problema — disse Adam.
— Ah, não sei — respondeu Gansey, mas não restava dúvida de que ele sentia orgulho de si mesmo. Adam sentia como se tivesse ajudado um passarinho a quebrar a casca do ovo.
Graças a Deus não estamos brigando graças a Deus não estamos brigando graças a Deus não estamos brigando como eu faço para que isso não aconteça de novo...
Ronan disse:
— Continue assim e talvez você seja mecânico depois que se formar. Vão colocar isso na revista dos ex-alunos.
— Haha e... — Gansey girou em sua cadeira para observar enquanto o novo professor de latim abria caminho até a frente da sala.
Todos os estudantes o observavam.
No porta-luvas, Adam mantinha um anúncio recortado para inspiração. A foto trazia um carro cinza cheio de estilo feito por alemães felizes. Um jovem se recostava contra o veículo em um casaco longo de lã negra, colarinho virado para cima contra o vento. Ele era confiante e arrogante, como uma criança poderosa, com montes de cabelo escuro e dentes brancos. Seus braços estavam cruzados sobre o peito como um lutador.
Era assim que o novo professor de latim parecia.
Adam não teve uma boa impressão.
O novo professor tirou o casaco escuro enquanto observava a caligrafia de Ronan no quadro. Então voltou o olhar para os estudantes sentados com a mesma confiança que o homem na propaganda do carro.
— Bom, olhem só para vocês — ele disse. Seus olhos se demoraram em Gansey, Adam e Ronan. — A juventude da América. Não consigo decidir se vocês são a melhor ou a pior coisa que eu vi esta semana. Quem escreveu isso?
Todos sabiam, mas ninguém entregou Ronan.
Ele segurou as mãos atrás das costas e fez um exame mais próximo.
— O vocabulário é impressionante. — Depois bateu com o nó do dedo em algumas palavras. Ele era cinético. — Mas o que está acontecendo com a gramática aqui? E aqui? Seria preciso colocar um subjuntivo nessa oração do temor. “Eu temo que eles possam acreditar nisso”... Deveria haver um vocativo aqui. Eu sei o que está sendo dito aqui porque conheço a piada, mas um nativo da língua apenas encararia vocês sem entender. Não se trata de latim utilizável.
Adam não precisou virar a cabeça para sentir Ronan fervendo.
O novo professor de latim se virou, rápido, compacto e entusiástico, e mais uma vez Adam teve aquela sensação ao mesmo tempo de intimidação e admiração.
— Uma coisa boa, também, ou eu perderia o emprego. Bem, seus tampinhas. Cavalheiros. Eu sou o professor de latim deste ano. Não sou realmente um fã de línguas por si só. Só estou interessado em como podemos usá-las. E não sou realmente professor de latim. Sou um historiador. Isso significa que só estou interessado em latim como um mecanismo para... para... pilhar os papéis de homens mortos. Alguma pergunta?
Os alunos o encararam. Aquela era a primeira aula do primeiro dia de escola, e nada poderia fazer uma aula de latim mais vazia de latim. A energia ardorosa daquele homem se afundava inutilmente em pedras cobertas de musgo.
Adam levantou a mão.
O homem apontou para ele.
— Miserere nobis — disse Adam. — Timeo nos horrendi esse. Senhor.
Tenha misericórdia de nós — temo que sejamos terríveis.
O sorriso do homem se abriu ao senhor. Mas ele devia saber que os alunos tinham a obrigação de se dirigir aos professores como senhor ou senhora para demonstrar respeito.
— Nihil timeo — ele respondeu. — Solvitur ambulando.
As nuances de sua primeira frase — Não temo nada! — escaparam à maioria da turma, e a segunda frase — um idioma contando com o mérito da prática — passou completamente despercebida do resto.
Ronan sorriu preguiçosamente. Sem levantar a mão, disse:
— É. Noli prohicere maccaritas ad porcos.
Não jogue pérolas aos porcos.
Ele não acrescentou senhor.
— Vocês são porcos, então? — perguntou o homem. — Ou são homens?
Adam não estava ansioso para observar Ronan ou seu novo professor de latim ultrapassarem os limites um do outro. E perguntou rapidamente:
— Quod nomen est tibi, senhor?
— Meu nome — o homem apagou uma grande faixa da gramática ruim de Ronan com a ponta de um apagador e usou o espaço para substituí-la com letras eficientes de sua própria mão — é Colin Greenmantle.

Um comentário:

  1. Sério? O homem que contratou o Homem Cinzento. Com certeza também o homem que apareceu na casa de Blue perguntando pela mãe dela.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!