30 de julho de 2018

Capítulo 8

LIMEROS

— Me disseram que nosso pai está tramando alguma coisa lá embaixo.
A voz de Magnus cortou a concentração de Lucia, assustando-a. Ela apagou a vela à sua frente, fechou o livro e se virou para olhar para o irmão com uma expressão culpada.
— O quê? — ela perguntou com toda a calma possível.
Seu irmão lançou um olhar curioso pelas sombras de seus aposentos, com a área de dormir de um lado — uma cama com dossel, lençóis de linho engomado e um cobertor forrado de pele — e a área de estar do outro.
— Estou interrompendo alguma coisa?
Ela pousou a mão casualmente sobre o quadril.
— Não, é claro que não.
Ele se aproximou do divã perto da janela, que dava para o grande jardim do palácio. Estava coberto de gelo, como sempre ficava, exceto por alguns meses mais quentes.
— O que está lendo?
— Nada importante.
— Hum. — Magnus levantou uma sobrancelha e estendeu a mão para ela.
Às vezes Lucia não gostava do fato de seu irmão mais velho conhecê-la tão bem. Aceitando a derrota, entregou o pequeno livro revestido de couro a ele. Ele olhou a capa, depois folheou rapidamente.
— Poesia sobre a deusa Cleiona?
Ela deu de ombros.
— Estudos comparativos, só isso.
— Menina desobediente.
Lucia ignorou o calor que subira ao seu rosto. Não estava sendo desobediente; estava sendo questionadora. Havia uma diferença. Mesmo assim, ela conhecia muitas pessoas — entre elas sua mãe —, que não ficariam contentes com aquele material de leitura. Por sorte, Magnus não era uma delas.
Cleiona era a rival da deusa Valoria. Uma era considerada boa; a outra má. Mas essa diferença dependia do reino em que se vivia. Em Limeros, Cleiona era considerada má e Valoria era tida como pura e bondosa, representante da força, da fé e da sabedoria. Eram os três atributos que os limerianos valorizavam acima de todo o resto. Cada brasão que adornava as paredes do grande salão, ou de qualquer outro lugar, cada pergaminho que seu pai assinava, cada retrato do rei tinham essas três palavras.
Força. Fé. Sabedoria.
Limeros devotava dois dias inteiros por semana a oração e silêncio. Qualquer uma das muitas vilas e cidades acima das Montanhas Proibidas que desrespeitasse essa lei era multada. Se não pudessem pagar a multa, eram repreendidas de maneira severa. O rei Gaius mandava patrulhar as áreas comuns para garantir que todos se mantivessem na linha, pagassem os impostos e seguissem à risca a ordem de seu rei.
A maioria não protestava nem causava problemas. E Valoria, Lucia tinha certeza, aprovaria as medidas austeras de seu pai — por mais duras que às vezes parecessem.
Limeros era uma terra de penhascos, charnecas e solo rochoso; uma região congelada durante a maior parte do ano, coberta por uma camada brilhante de gelo e neve antes de dar lugar à grama verde e às flores no precioso vislumbre de verão. Tão lindo — às vezes a beleza desse reino fazia lágrimas brotarem dos olhos de Lucia. Da janela de seus aposentos dava para ver, depois dos jardins, o infinito Mar Prateado, que levava a terras distantes, e o declive íngreme das paredes de granito preto do castelo às águas escuras que batiam na margem rochosa.
Lindo de tirar o fôlego, mesmo quando o inverno se aproximava e era quase impossível sair sem se enrolar em peles e couros para afastar o frio cortante. Lucia não se importava. Ela amava aquele reino, mesmo com as expectativas e dificuldades que não podia evitar por ser uma Damora. E ela amava seus livros e suas aulas, absorvia conhecimento como uma esponja. Ela lia tudo o que chegava às suas mãos. Felizmente, a biblioteca do castelo era incomparável a qualquer outra. Informação era uma dádiva valiosa para ela — mais preciosa do que ouro e joias, como aquelas que ganhava de alguns dos pretendentes mais apaixonados.
Isto é, se tais pretendentes passassem pelo crivo do irmão superprotetor para dar a ela algum presente. Para Magnus, nenhum dos garotos que já haviam demonstrado interesse por Lucia era digno da atenção da princesa. O irmão sempre fora, ao mesmo tempo, alguém frustrante e maravilhoso para ela. Nos últimos tempos, contudo, ela não sabia muito bem como lidar com seu humor sempre oscilante.
Lucia olhou para o rosto do irmão quando ele deixou o livro de lado sem se importar. A sede por conhecimento não havia se dividido por igual entre os irmãos. O tempo de Magnus era tomado por suas aulas, principalmente de equitação, esgrima e tiro com arco e flecha — que ele dizia desprezar. O rei insistia em tudo aquilo, independente do interesse de Magnus.
— Cleiona também é o nome da princesa auraniana mais nova — Magnus ponderou. — Nunca tinha parado para pensar nisso. Ela tem a mesma idade que você, não tem? Nasceram quase no mesmo dia?
Lucia confirmou, pegando o livro do divã onde estava jogado e enfiando-o sob uma pilha de livros menos controversos.
— Eu gostaria de conhecê-la.
— É improvável. Nosso pai odeia Auranos e deseja o seu fim. Desde… bem, você sabe.
Ah, ela sabia. Seu pai desprezava o rei Corvin Bellos e não tinha medo de expressar sua opinião durante as refeições em explosões apavorantes de raiva sempre que estava de mau humor. Lucia acreditava que a animosidade tinha a ver com um banquete que acontecera no palácio auraniano havia mais de dez anos. Os dois reis quase se esbofetearam devido a um ferimento misterioso que Magnus teve durante a visita. Depois disso, o rei Gaius nunca mais voltou. Nem foi convidado.
A lembrança da viagem fez Magnus, inconscientemente, tocar em sua cicatriz — que ia do topo da orelha direita até o canto da boca.
— Depois de todo esse tempo, você ainda não se lembra de como conseguiu essa cicatriz? — Lucia sempre tivera muita curiosidade a respeito disso.
Os dedos de Magnus ficaram imóveis, como se ele também tivesse sido pego fazendo algo que não devia.
— Dez anos é muito tempo. Eu era apenas um menino.
— Nosso pai exigiu que o responsável por isso pagasse com a própria vida.
— Ele queria a cabeça do culpado em uma bandeja de prata, na verdade. Ver uma criança ensanguentada chorando perturbou nosso pai. Mesmo a criança sendo eu. — Suas sobrancelhas escuras se uniram. — Para ser sincero, não me lembro de nada. Só me lembro de estar vagando e depois sentir o filete de sangue quente no rosto e a ardência do ferimento. Não fiquei chateado até nossa mãe ficar. Talvez eu tenha caído de uma escadaria ou batido com força na quina de uma porta. Você sabe como sou desastrado.
— Até parece. — Seu irmão se movimentava com a graça de uma pantera: fluido, silencioso. — Eu sou a desajeitada da família.
— Discordo. — Os lábios de Magnus se curvaram de lado. — Cheia de graça e beleza, minha irmã, com uma multidão de pretendentes à disposição. Obrigada a ser irmã de um monstro marcado como eu.
— Como se essa cicatriz o transformasse em monstro. — A ideia era risível. — Não é possível que não veja como as garotas olham para você. Já vi até criadas aqui do castelo olhando você com desejo, mesmo que nunca as note. Elas acham você muito bonito. E a cicatriz só o deixa mais… — ela parou para pensar na palavra certa — fascinante.
— Você acha mesmo? — Seus olhos cor de chocolate reluziam de satisfação.
— Acho. — Lucia tirou os cabelos escuros, que há muito tempo precisavam ser aparados, da frente do rosto do irmão para inspecionar a cicatriz mais de perto. Passou o dedo indicador sobre ela. — Além disso, quase não dá mais para notá-la. Eu, pelo menos, não a vejo.
— Se está dizendo… — A voz dele agora parecia abafada e o rosto estava aflito. Ele empurrou a mão da irmã com brutalidade.
Ela franziu a testa.
— Algum problema?
Magnus se afastou.
— Nada. Eu… eu vim aqui para… — Ele passou a mão pelos cabelos. — Não importa. Você provavelmente não estaria interessada. Nosso pai convocou uma reunião política de última hora lá embaixo. Vou deixá-la com seus estudos.
Lucia ficou surpresa quando ele saiu do quarto sem dizer mais nada.
Algo estava perturbando seu irmão. Ela havia notado havia pouco tempo, a cada dia mais evidente. Ele parecia distraído e muito angustiado com alguma coisa — ela gostaria de saber o quê. Detestava vê-lo tão chateado e não saber o que fazer para aliviar sua dor.
Ela também queria muito poder compartilhar seu próprio segredo, que escondia há quase um mês — e que ninguém sabia. Ninguém mesmo.
Deixando de lado seus medos e incertezas, rezou à deusa pedindo força, fé e sabedoria o bastante para enfrentar a tempestade negra que temia estar se aproximando.


Magnus seguiu os ruídos do andar de baixo até o grande salão do castelo. Passou por vários rostos conhecidos — garotos da sua idade que o consideravam amigo. Ele lhes ofereceu sorrisos formais e recebeu o mesmo em troca.
Não eram verdadeiros amigos. Nenhum deles. Eram filhos dos membros do conselho real de seu pai, obrigados a se aproximar do príncipe limeriano, gostando ou não. E alguns, como Magnus havia escutado de passagem, não gostavam nada dele.
Irrelevante.
Magnus imaginava que todos aqueles garotos — e suas irmãs, que ficariam mais do que felizes se ele escolhesse uma delas como futura esposa — estavam prontos para usá-lo assim que fosse preciso. Ele não hesitaria em fazer o mesmo quando servissem a seus propósitos. Não confiava em ninguém ali. Apenas em Lucia. Ela era diferente. Era a única com quem podia ser ele mesmo, sem fingimento. Era sua confidente e aliada mais íntima. Compartilharam muitos segredos no decorrer dos anos, confiando que o outro nunca diria nada.
Ele havia acabado de fugir dos aposentos dela como se estivesse em chamas.
Ninguém poderia saber do seu desejo cada vez maior por Lucia. Muito menos ela. Nunca. Ele o manteria enterrado no peito até a dor deixar apenas cinzas no lugar de seu coração. Já estava na metade do caminho. Talvez quando seu coração estivesse destruído, tudo ficasse mais fácil.
Já havia se passado mais de um mês do banquete, e ele não havia descoberto nada que elucidasse o diálogo enigmático que ouvira entre seu pai e Sabina. Ele havia pedido a Amia que prestasse atenção nas conversas pelo castelo. Se ouvisse o nome de Lucia, deveria relatar imediatamente a ele. A jovem criada havia concordado em fazer aquilo, assim como concordava com tudo o que Magnus pedisse.
No salão, seu pai levantava a voz para se dirigir à multidão de trezentos homens. Os presentes pareciam concordar com todas as suas palavras. Atrás do rei havia poucas peças de arte nas paredes lisas e frias — uma grande tapeçaria com o rei montado em seu garanhão preferido, espada em punho, parecendo forte, severo e nobre.
Magnus levantou os olhos. Seu pai adorava ser o centro das atenções.
— Um assassinato. — A voz do rei retumbou pelo salão. — Bem no meio do mercado de Paelsia, há um mês e meio. Era um dia frio, porém bonito, quando os paelsianos estavam na rua aproveitando o sol, vendendo suas mercadorias, tentando ganhar a vida decentemente e sustentar a si e à família. Mas tudo isso foi tumultuado por alguns auranianos perversos que lá estavam.
O burburinho cercou Magnus. A notícia sobre o assassinato do filho do vendedor de vinho já havia chegado aos ouvidos de alguns, mas para outros era novidade. Magnus ficou surpreso por alguém de fato se importar.
Ficou surpreso por seu pai parecer se importar. Quando ele próprio ficara sabendo, no banquete de aniversário de Lucia, não havia parado para pensar muito no assunto. Depois, quando o rei soube, ignorou a notícia.
Parecia que ele havia mudado de ideia. Talvez fosse por influência do jovem de cabelos escuros que estava a seu lado. O homem que havia voltado há pouco de uma viagem pelo mar. O rosto de Magnus começou a se contrair.
Seu nome era Tobias Argynos. Chegara ao castelo um ano antes para ser valete do rei, e logo depois ganhou sua total confiança. Se o rei precisasse de alguma coisa, Tobias conseguia. O rei o considerava um trunfo e o tratava como o filho favorito. Se os rumores fossem verdadeiros, Tobias realmente era o filho favorito — o bastardo do rei com uma bela cortesã auraniana, nascido havia vinte anos.
Magnus não acreditava em intrigas fúteis, mas nunca as ignorava de todo. Boatos sussurrados podiam se transformar em verdades ditas em voz alta tão rápido quanto o dia virava noite. Ainda assim, aquilo não comprometeria a posição de Magnus no reino. Ele era o herdeiro de direito hoje, amanhã e sempre. De todo modo, a forma como Tobias havia sido acolhido pelo rei, que fora frio com Magnus durante a vida toda, perturbava-o mais do que gostaria de admitir. O príncipe de direito recebia uma cicatriz no rosto enquanto o bastardo ficava ao lado do rei quando ele discursava a um público extasiado.
Mas justiça e gentileza nunca foram o forte do rei Gaius. Força, fé e sabedoria acima de tudo.
— Os paelsianos têm sofrido — o rei continuou. — Vi isso, e meu coração sangrou por nossos pobres vizinhos. Os auranianos, por sua vez, ostentam sua riqueza para todos. Eles são vergonhosamente vaidosos. Começaram até a negar a religião e as orações e ergueram suas próprias imagens como ídolos, prova de seu hedonismo extremo. Um jovem lorde egoísta – lorde Aron Lagaris – matou o pobre filho do vendedor de vinho. O garoto assassinado era um belo e gentil rapaz, que poderia, no futuro, ajudar a liderar seu povo contra a pobreza que enfrenta há gerações. Mas ele foi esfaqueado enquanto um lorde favorecido tentava se mostrar diante de uma princesa – a princesa Cleiona. Sim, ela tem o nome da própria deusa má, aquela que matou nossa adorada Valoria, deusa da terra e da água. Os dois viram a jovem vida de Tomas Agallon se esvair diante de sua própria família. Não se arrependeram da dor que causaram a eles e a todos os paelsianos.
Houve mais burburinho enquanto a multidão ouvia a história do rei.
— Não é apenas um assassinato. É um insulto. E eu estou muito indignado em nome de todos os paelsianos, nossos vizinhos que dividem fronteira conosco ao leste, até as Montanhas Proibidas. Está chegando a hora do ajuste de contas; um ajuste de contas que cresce há mil anos.
O burburinho cresceu e, Magnus notou, todos concordavam com o que o rei estava dizendo. Havia histórias sobre a opulência em Auranos. Ruas pavimentadas com ouro. Pedras preciosas que enfeitavam os cabelos das nobres e eram descartadas no fim do dia. Os ricos gastavam em festas luxuosas que duravam semanas. E, o pior de tudo, diminuía o interesse pelo trabalho duro e pela religião — bases da sociedade limeriana.
— O que está fazendo, pai? — Magnus disse baixinho, perplexo.
Uma mão forte apertou o ombro de Magnus. Ele se virou alarmado e viu um homem de cujo nome não se lembrava: um grande e parrudo membro do conselho do rei, cuja barba grisalha cobria a maior parte do rosto. Olhos pequenos brilhavam de empolgação.
— Seu pai é o melhor rei que Limeros já conheceu — o homem exclamou. — Você deve ter muito orgulho de ser filho dele.
Magnus apertou os lábios. Orgulho era uma palavra que nunca usaria para descrever o que sentia pelo pai, naquele ou em qualquer outro momento. Ele deu um sorriso falso.
— É claro. E nunca tive tanto orgulho quanto agora.


Foi uma semana depois do discurso do rei. Os músculos de Magnus queimavam — ele acabara de sair da aula de esgrima. Depois de se limpar e trocar de roupa, andava pelo castelo como se fosse uma sombra. Ele gostava de fazer aquilo para desafiar a si mesmo, para ver até onde podia chegar antes que alguém o notasse. Vestido de preto, normalmente conseguia chegar bem longe.
Naquele dia ele havia evitado Lucia depois de vê-la no café da manhã. Ela passou a tarde toda estudando no quarto.
“Bom. Longe dos olhos, longe do coração”, pensou.
A mentira deslizou com suavidade.
Andando em silêncio, ele se deparou com um garoto esperando no enorme átrio de pé-direito alto, que tinha uma escadaria sinuosa esculpida nas paredes de pedra. O filho de algum nobre local, ele sabia. Magnus era péssimo com nomes. Não era problema de memória, era questão de não se importar com aquilo. Ele se lembrava do nome das pessoas que tinham algum propósito em sua vida. Aquele garoto não lhe interessava nem um pouco. Mas o interesse do garoto por Lucia, sim.
Em reuniões anteriores, Magnus havia observado nos olhos atentos do rapaz que ele era um dos muitos que tinham uma queda por Lucia e aguardavam a oportunidade de passar um tempo com ela e solidificar sua… amizade.
Assim como fez com muitos pretendentes, ele cercou o garoto como um monstro marinho, olhando para ele com uma reprovação aguda até gotas de suor se formarem na testa pálida do rapaz.
Lucia havia dito que Magnus era belo, mas ele sabia que muita gente considerava sua aparência — cabelos escuros, olhos escuros, roupas escuras e, é claro, a cicatriz — intimidadora e ameaçadora. O fato de ser filho do rei Gaius e herdeiro do trono de Limeros apenas aumentava a impressão. Alguns reis ganhavam o respeito de seu povo por meio do amor, como havia feito seu avô. Seu pai, contudo, preferia ganhar respeito com medo e derramamento de sangue. Processo diferente, mesmo resultado.
Magnus poderia usar a percepção geral de que era exatamente como o pai. Já tinha feito isso antes; faria de novo. As pessoas devem utilizar as armas disponíveis quando há necessidade.
Naquele momento, havia necessidade.
— Você não deveria estar aqui — Magnus disse ao rapaz com clareza.
O garoto afundava a ponta do sapato de couro no piso de mármore cinza.
— Eu… eu estou apenas… Não vou demorar. Meus pais acharam que seria bom levar a princesa Lucia para um passeio pelos jardins do palácio. Hoje não está tão frio.
— Sim, que gentileza. — As palavras eram ácidas em sua língua à medida que o ciúme tomava conta dele como um raio. — Mas ela não está interessada em caminhar pelos jardins do palácio. Não com… bem… não com você.
O garoto arregalou os olhos.
— O que quer dizer com isso?
Magnus forçou uma expressão tensa, como se tivesse falado demais e se sentisse culpado.
— Bem, não é da minha conta.
— Não, por favor. Se tiver algum conselho para me dar, eu agradeceria muito. Sei que você e Lucia são bem próximos.
Magnus pegou no ombro do garoto.
— É que ela comentou algo sobre você. — Seria um momento excelente para saber o nome do rapaz: Mark, Markus, Mikah, algo assim. — E deixou claro que, se aparecesse por aqui, não deveria ser encorajado a prosseguir. Ela não quis ofender, é claro. Mas… ela tem interesse em outro pretendente.
— Outro?
— Isso mesmo. Então sugiro que vá embora.
— Ah. — A voz do garoto estava fraca e esganiçada. Já se sentia derrotado.
Magnus não tinha paciência para pessoas tão fáceis de manipular. Se o garoto estivesse mesmo interessado em Lucia, deveria ser capaz de enfrentar qualquer adversidade, até mesmo um irmão mais velho superprotetor.
Coisas fracas são tão fáceis de quebrar.
Se o rapaz tivesse um rabo, ele estaria enfiado entre as pernas quando correu do palácio e voltou para a quinta dos pais. E esse foi o fim de Mickey. Ou qualquer que fosse seu nome.
Com um sorriso vitorioso nos lábios, Magnus voltou a vagar pelos corredores do castelo.
Não demorou muito para encontrar algo um pouco mais agradável do que os admiradores de sua irmã.
Amia sorriu para ele ao passarem um pelo outro no corredor e fez um sinal para que ele a seguisse, desaparecendo mais adiante. Ela o levou para um pequeno cômodo usado como capela dos criados e fechou a porta. Estavam sozinhos. A garota mordeu o lábio inferior, mas suas bochechas estavam coradas de entusiasmo.
— Parece que não vejo você há séculos, meu príncipe.
— Foram apenas um ou dois dias.
— Uma eternidade. — Ela pôs as mãos no abdômen dele e as escorregou lentamente até os ombros.
Magnus permitiu. Desejava o toque de alguém naquele momento, para ajudar a atenuar a dor em seu peito. Se fechasse os olhos, ele poderia imaginar que Amia era outra pessoa. Ela estremeceu quando ele a pressionou contra a parede de pedra e levou a boca à dela em um beijo profundo. Ele passava os dedos pelos cabelos castanhos da garota e os imaginava descendo até a cintura, e da cor do mais rico ébano. E que seus olhos eram da cor do céu no verão, não pálidos e cinzentos como o inverno.
— Ficou sabendo de alguma coisa? — ele perguntou, afastando a fantasia. Amia cheirava ao peixe que estava ajudando a preparar para o jantar, não a rosas e jasmins. Ele não podia se enganar tanto.
— Sobre sua irmã?
A garganta dele ficou apertada.
— Sim.
— Ainda não. — Ela olhava para ele como se estivesse em transe. — Mas tem uma outra coisa interessante acontecendo neste exato momento. O rei e Tobias estão em uma reunião secreta com visitantes.
“Tobias”, ele pensou com desgosto. “Sempre espreitando.”
— Que visitantes? — Magnus perguntou.
— O chefe Basilius chegou com um séquito há uma hora.
Ele a encarou, momentaneamente sem palavras.
— Não pode estar falando sério.
Amia riu.
— Estava procurando você para contar. Se o chefe paelsiano, que nunca faz aparições públicas, veio a Limeros para falar com o rei, algo muito interessante deve estar acontecendo, não acha?
— De fato.
Diziam que o chefe Basilius era um poderoso feiticeiro temido e respeitado por seu povo. Ele se isolava dos outros paelsianos em um recinto particular, dedicando seus dias à meditação e, supostamente, à magia.
Magnus não aceitava ideias tão ridículas. No entanto, seu pai acreditava naquilo, e muito. O rei Gaius acreditava no poder dos elementia, magia que havia sumido do mundo desde a época das deusas.
— Ouviu mais alguma coisa? — ele perguntou. — Sabe por que o chefe está aqui?
— Tentei ouvir o máximo que pude, mas tive medo de ser pega.
— Amia, é melhor você não ser descoberta. Meu pai não lida bem com bisbilhoteiros.
— Mesmo se estiver bisbilhotando em nome do filho dele?
— Eu não hesitaria em desmenti-la. — Ele pegou o braço da criada e o apertou até ela se contrair. Um lampejo de medo passou pelos olhos pálidos da garota. — Em quem você acha que o rei acreditaria? Em seu filho e herdeiro? Ou em uma criada da cozinha?
Amia engoliu em seco.
— Peço desculpas, meu príncipe. Nunca devia ter dito uma coisa dessas.
— Garota esperta.
Ela se recompôs, livrando-se do desprazer momentâneo que houvera entre os dois.
— Pelo que ouvi, parece que tem a ver com o assassinato que houve na vila paelsiana e com a reunião que o rei Gaius convocou semana passada.
Magnus soltou a menina.
— Acho que vou me juntar a eles. Tenho tanto direito de participar dessa reunião política quanto Tobias.
— Concordo plenamente.
A criada não fazia nada além de concordar. Magnus olhou para ela.
— Obrigado pela informação, Amia. Foi muito útil.
O rosto dela se iluminou.
— Vai precisar de mais alguma coisa de mim?
Ele refletiu por um instante antes de se afastar dela.
— Sim. Vá me visitar em meus aposentos depois que eu me recolher esta noite.
Seu rosto corou e ela sorriu com discrição.
— É claro, meu príncipe.
Magnus deixou a capela e se dirigiu à sala onde ocorria a reunião privada de seu pai, ao lado do grande salão. Ele não se preocupou em ouvir nada escondido, apenas entrou direto.
Havia uma dúzia de homens na sala e todos os olhares se voltaram para ele.
— Ah, sinto muito — ele disse. — Estou interrompendo alguma coisa?
Embora gostasse de se passar por sombra na maior parte do tempo, havia outras ocasiões que pediam uma abordagem mais inspirada. A presença permanente de Tobias no castelo o enfurecia mais do que havia percebido até o momento. Sentia uma necessidade repentina e violenta de afirmar sua posição de príncipe e herdeiro de direito do trono de seu pai.
— Este — anunciou o rei Gaius de seu assento sobre a plataforma, sempre um degrau acima de todos — é meu filho, o príncipe Magnus Lukas Damora.
Em vez de uma expressão indignada por conta da interrupção, havia um pequeno sorriso nos lábios do rei com a entrada repentina de Magnus. Tobias olhava feio, como se estivesse furioso em nome do rei pela grosseria de Magnus.
— É uma grande honra conhecer o príncipe — proferiu a voz de um homem, e Magnus moveu os olhos para sua esquerda. — Eu sou o chefe Hugo Basilius de Paelsia.
— A honra é nossa, chefe Basilius — Magnus disse de maneira controlada. — Bem-vindo a Limeros.
— Junte-se a nós, meu filho — pediu o rei.
Magnus se conteve para não fazer uma observação sarcástica sobre não ter sido convidado para a reunião e se sentou de frente para o chefe e quatro de seus homens.
O chefe parecia mais pomposo do que Magnus esperava do líder de um povo camponês. Em Paelsia não havia classe alta ou média, apenas graus variados da baixa — especialmente nas últimas gerações, quando a terra começara a se degradar.
Mesmo sentado, ficava claro que Basilius não era camponês. Ele era alto, de ombros largos. Os cabelos longos e escuros tinham fios grisalhos. No rosto bronzeado havia linhas de expressão, e seus olhos escuros expressavam sagacidade. As roupas eram muito bem-feitas, de couro macio e pele de raposa. Ele parecia mais nobre do que Magnus imaginava. Era provável que Basilius não compartilhasse do estilo de vida dos homens comuns de Paelsia.
— Devemos deixar seu filho a par do que discutimos até agora? — Basilius perguntou.
— É claro. — A atenção do rei Gaius não desviara de seu filho desde que ele adentrara a sala. Mesmo sem vê-lo, Magnus sentia o olhar de seu pai como uma ardência em sua cicatriz.
Um rastro frio de suor percorreu sua espinha, ainda que tentasse aparentar calma. O rei Gaius tinha temperamento impulsivo, e Magnus sabia por experiência própria como poderia ser punido se o pressionasse demais. Afinal, tinha a cicatriz como prova.
Uma cicatriz que ele lembrava muito bem como havia adquirido.
Dez anos antes, o rei levara Magnus e a rainha Althea em uma visita real a Auranos. Estavam havia pouco tempo no palácio opulento e ricamente decorado — em contraste com o castelo sóbrio e utilitário de Limeros — quando Magnus cedeu à curiosidade de criança. Ficou vagando durante um banquete para explorar o castelo sozinho. Deparou-se com um expositor de adagas ornadas com joias e sentiu o ímpeto de roubar uma de ouro, incrustada com safiras e esmeraldas. Em Limeros, as armas não eram tão belas e decoradas. Eram práticas e úteis, forjadas em aço ou ferro. Ele desejava aquilo mais do que havia desejado qualquer outra coisa em seus sete anos de vida.
O pai o surpreendeu tirando a adaga do estojo. O rei ficou tão furioso com a ideia de que seu filho pudesse roubar algo, prejudicando o nome da família, que o atacou. A punição de Magnus veio pela própria lâmina.
O pai arrancou a adaga das mãos do filho e retalhou o rosto de Magnus com o lado afiado.
Gaius se arrependeu imediatamente do surto violento. Mas em vez de ajudar Magnus e enfaixar o ferimento, ele se ajoelhou diante do filho e falou em um tom de voz baixo e intimidante, enquanto o sangue escorria da bochecha do garoto até o chão de mármore. Ele ameaçou a vida de Magnus, a de sua mãe e de sua irmãzinha. O menino não deveria contar a ninguém como fora ferido.
Até o momento, não havia contado. Lembrava-se da ameaça e da reação insensível de seu pai sempre que se olhava no espelho.
Mas ele não era mais um garotinho de sete anos. Tinha dezessete, quase dezoito. Era tão alto quanto o pai. E também forte. Não queria mais ter medo.
— Mandei avisar o chefe Basilius — o rei explicou — que gostaria de me encontrar com ele para falar dos problemas de sua terra, acentuados pelo assassinato de Tomas Agallon nas mãos de um lorde auraniano. Ele concordou em vir aqui e discutir uma possível aliança.
— Uma aliança? — Magnus repetiu com surpresa.
— A união de duas terras por um único propósito — afirmou Tobias.
Magnus lançou um olhar contundente para o bastardo.
— Eu sei o que é uma aliança.
— Acredito que possa ser o prenúncio pelo qual eu esperava — disse o chefe Basilius. — Há tempos procuro uma solução para minha terra moribunda.
— E que solução traria uma aliança com Limeros? — perguntou Magnus.
Seu pai e o chefe trocaram um olhar de cumplicidade, e o rei Gaius disse, encarando o filho:
— Eu propus nos juntarmos para tomar Auranos daquele rei ganancioso e egoísta que deixa seu povo acreditar que pode fazer o que quiser, com quem quiser, sem nenhuma consequência.
— Tomar Auranos — repetiu Magnus sem acreditar no que estava ouvindo. — Querem dizer conquistá-la. Juntos.
O sorriso do rei se abriu.
— O que você acha disso, meu filho?
Aquela era uma pergunta capciosa. Estava claro para Magnus que aquela discussão já estava acontecendo havia um bom tempo antes de sua chegada. Ninguém parecia chocado pela sugestão de guerra depois de várias gerações de paz.
E depois que Magnus pôde recobrar o fôlego, também não estava tão surpreso. Seu pai odiava Corvin Bellos publicamente havia uma década, e a reprovação limeriana a um reino dedicado ao hedonismo e aos excessos já havia sido discutida em reuniões do conselho real e em banquetes. Magnus só estava surpreso por seu pai ter demorado tanto para resolver entrar em ação.
A terra do chefe Basilius ficava entre Limeros e Auranos. Duzentos e quarenta quilômetros que qualquer exército teria que cruzar para chegar à fronteira auraniana. Uma aliança amigável deixaria a viagem muito mais tranquila.
— Posso dizer o que eu acho — disse Tobias. — Acho que é um plano brilhante, vossa graça.
Magnus olhou para o valete do rei com desgosto. Os mesmos cabelos negros, olhos escuros, a mesma altura e o porte físico dele próprio. As feições de Tobias eram um pouco mais suaves que as de Magnus. De resto, restavam poucas dúvidas de que tinham o mesmo pai. Era perturbador pensar que Tobias poderia ser o irmão mais velho legítimo de Magnus. Se o rei algum dia admitisse a paternidade do rapaz e o reivindicasse como filho verdadeiro, Tobias entraria na frente de Magnus na linha de sucessão ao trono. Não havia lei limeriana que exigisse sangue real puro para assumir o posto. Mesmo o filho de uma prostituta poderia se tornar rei.
— Acho que independente de minha opinião sobre o assunto, meu pai fará o que lhe aprouver — Magnus disse. — Como sempre fez.
O chefe riu alto daquilo.
— Acho que seu filho o conhece muito bem.
— Bastante — afirmou o rei Gaius, divertindo-se. — Então, chefe Basilius, o que me diz? Concorda com o meu plano? Auranos ficou gorda e preguiçosa durante vários anos de paz e não será capaz de aguentar um ataque inesperado. Eles vão cair, e juntos recolheremos os pedaços que sobrarem.
— E esses pedaços que pegaremos — ponderou Basilius — serão divididos entre nós igualmente?
— Sim.
O chefe recostou na cadeira e analisou todos os que estavam na sala. Os quatro homens atrás dele tinham adagas curvas no cinto e estavam vestidos com couro dos pés à cabeça. Pareciam prontos para a batalha, se recebessem tal ordem.
— Está ciente dos rumores a meu respeito? — perguntou o chefe. Magnus demorou um instante para se dar conta de que Basilius estava falando diretamente com ele.
— Rumores? — Magnus repetiu.
— O motivo de eu ser o escolhido para liderar meu povo.
— Ouvi histórias de que o senhor é o último de uma linhagem de feiticeiros tocados com elementia. Que seus ancestrais estavam entre os próprios vigilantes, guardiões da Tétrade.
— Ouviu bem. É por isso que sou o chefe de meu povo e eles confiam em mim mais do que em qualquer outro. Não temos deus, nem deusa, para adorar como vocês. Meu povo tem a mim. Quando reza, reza por mim.
— E o senhor ouve essas preces?
— Em espírito, ouço todas elas. Mas quando eles querem muito alguma coisa, fazem um sacrifício de sangue para mostrar reverência a mim.
Sacrifício de sangue? Que selvageria. Não era de estranhar que fossem um povo moribundo, dependente de alguns vinhedos para impedir que sua economia se estagnasse completamente.
— Que interessante — disse Magnus.
— O maior sacrifício deve ser algo que a pessoa valorize. Sacrificar algo sem valor não faz sentido.
— Concordo.
— É isso que está me pedindo agora? — perguntou o rei Gaius. — Um sacrifício de sangue para mostrar reverência a você?
Basilius abriu as mãos e se virou para o rei.
— Assim como há lendas sobre mim, também há muitas histórias sobre você. É difícil separar a verdade da ficção.
— O que você ouviu?
— Que você é um rei que não aceita menos que a perfeição. Que cobra impostos de seu povo até as pessoas mal poderem se alimentar. Seu exército policia as vilas de Limeros, e qualquer um que saia das regras que você estabeleceu paga caro pelo erro, até mesmo com a vida. Que tortura e executa qualquer um acusado de bruxaria em suas terras. Que governa seu reino com violência e intimidação, e que seu povo o teme mesmo curvando-se aos seus pés. Que o chamam de Rei Sanguinário.
Se pedissem para Magnus falar depois daquele pequeno discurso, tinha certeza de que nada sairia de sua boca. Aqueles eram os rumores sobre o rei Gaius?
Como eram… precisos.
Ele observou o pai para ver sua reação, esperando que ele atacasse Basilius com ameaças, expulsando o chefe e seu séquito de seu reino imediatamente.
Em vez disso, o rei Gaius começou a rir. Era um riso obscuro e fez um arrepio subir pelas costas de Magnus enquanto ecoava pelo salão cavernoso.
— Essas histórias — ele disse. — Exageradas para entreter o povo, claro. Ficou intimidado por essas possibilidades?
— Pelo contrário — respondeu o chefe Basilius. — Um homem assim é alguém que não deixaria outras pessoas lutarem suas batalhas. Ele mesmo lutaria por seus interesses. Mataria e tomaria o que precisasse, quando precisasse. Você é esse homem?
O rei Gaius se inclinou para a frente, deixando de lado a expressão descontraída.
— Eu sou esse rei.
— Você quer Auranos, mas não acredito que seja apenas por indignação a respeito de um assassinato cometido em minha terra. Diga-me: por que está tão compelido a se aliar a Paelsia e tomar aquele reino?
O rei Gaius ficou em silêncio por um instante, como se analisasse o homem que estava diante dele.
— Quero ver o governante daquela terra sofrer ao ver seu reino escapar de suas mãos e ir para as de alguém que ele odeia. Esta é a minha chance de fazer isso.
O chefe Basilius pareceu satisfeito com a resposta.
— Ótimo. Então só falta me dar uma prova mais tangível do que palavras. Faça isso e prometo refletir a esse respeito e lhe responder em breve.
— Preciso provar com um sacrifício de sangue.
O chefe confirmou.
— Quero que sacrifique algo com que se importe muito, algo cuja perda lhe trará sofrimento.
O rei olhou de relance para Magnus. O rapaz segurou firme na borda da mesa. Suas mãos estavam úmidas. Seu pai não poderia concordar com algo tão selvagem por um simples capricho de um rei camponês.
— Tobias — chamou o rei Gaius. — Me dê sua adaga.
— Pois não. — Tobias tirou a adaga de aço da bainha e entregou-a ao rei. — Se aceita uma sugestão, vossa majestade, há vários ladrões no calabouço aguardando julgamento.
— Você aceitaria, chefe Basilius? — O rei se levantou do trono sobre a plataforma. — Roubo não é crime com pena de morte aqui. No máximo teriam as mãos cortadas. A perda desnecessária da vida de qualquer limeriano também seria uma perda para o meu reino, para minha economia – e, consequentemente, para mim.
Basilius também se levantou. Magnus ficou onde estava, observando tudo com um misto de interesse e consternação.
— Estou decepcionado com essa escolha — afirmou o chefe. — No meu povo, há quem sacrificaria os próprios filhos por mim.
— E você aceita um crime como esse? — o rei perguntou, tenso. — A família, para mim, é a coisa mais valiosa do mundo. E os filhos são nosso legado, são mais preciosos que ouro.
— Encerremos por aqui. Pensarei no que me propôs hoje. — O chefe seguiu na direção da porta. Seu tom não tinha o mesmo entusiasmo que demonstrara antes com a perspectiva de aliança.
— Tobias — chamou o rei, calmo.
— Pois não, vossa majestade?
— Lamento muito que isso seja necessário.
O rei moveu-se rapidamente por trás do garoto, puxou a cabeça dele para trás e enfiou a lâmina em sua garganta.
Os olhos de Tobias se arregalaram e ele levou as mãos ao pescoço. O sangue jorrou por entre seus dedos. Ele caiu no chão.
O rei Gaius ficou sério ao olhar para o corpo imóvel do garoto.
Magnus reuniu todas as suas forças para não deixar a tempestade de emoções que havia dentro dele transparecer em seu rosto. Ele se controlou para usar apenas a máscara da indiferença que havia se esforçado para construir no decorrer dos anos.
Basilius fez uma pausa na porta, voltando a olhar para o rei e para o valete morto. Suas sobrancelhas se uniram. Os guardas estavam com a mão nas armas, preparados para defender o chefe, mas Basilius fez sinal de que não era necessário.
— Ele era seu valete, não era? — indagou o chefe.
O rosto do rei estava tenso.
— Era.
— Mais do que isso, se os boatos forem verdadeiros.
O rei Gaius não respondeu.
Finalmente, o chefe paelsiano assentiu.
— Obrigado por me fazer tamanha reverência. Seu sacrifício não será esquecido. Entrarei em contato com você em breve informando minha decisão final.
O chefe e seu séquito se retiraram.
— Tirem o corpo daqui — o rei vociferou para alguns guardas que estavam ali. Juntos, eles removeram o corpo de Tobias. Apenas uma poça de sangue permaneceu como prova do que havia acontecido. Magnus se obrigou a não olhar para ela.
Ele não deu nenhum indício de que sairia, nem disse nada. Esperou.
Passaram-se vários minutos até que o rei parou atrás da cadeira do príncipe. Todos os músculos do corpo de Magnus estavam tensos. Enquanto Tobias não esperava que sua morte viesse pelas mãos do próprio pai, Magnus nunca havia subestimado o rei quanto a isso.
Ele quase abandonou o próprio corpo quando o rei agarrou seu ombro.
— Tempos difíceis exigem decisões difíceis — o rei declarou.
— O senhor fez a única coisa que podia — respondeu Magnus, o mais calmamente possível.
— Que seja, então. Eu não me arrependo de nada. Nunca me arrependi e nunca me arrependerei. Levante-se, meu filho.
Magnus se afastou da mesa e ficou em pé, de frente para o rei.
Seu pai passou os olhos por ele, dos pés à cabeça, assentindo.
— Sempre soube que havia algo especial em você, Magnus. A forma como agiu hoje apenas confirma isso. Você se comportou muito bem.
— Obrigado.
— Eu o tenho observado com atenção. Depois de uma infância difícil, creio que tenha se transformado em um rapaz excelente: pronto para responsabilidades de verdade, e não apenas o lazer cotidiano de um jovem príncipe. A cada dia que passa sinto mais orgulho de chamá-lo de filho.
O fato de seu pai ter orgulho dele foi uma revelação chocante.
— Fico satisfeito em ouvir isso — Magnus conseguiu dizer de maneira equilibrada.
— Quero que faça parte disso. Que aprenda tudo o que puder para um dia assumir meu lugar no trono fortalecido pelas lições aprendidas. Eu não estava mentindo sobre o que disse antes. Família é a coisa mais importante para mim, acima de todo o resto. Quero você ao meu lado. Concorda com isso?
Aquela havia sido uma decisão sobre a qual seu pai já havia refletido ou a morte de Tobias fora suficiente para desencadear o repentino apego paterno?
E aquilo tudo importava?
— É claro que concordo — respondeu Magnus. — Tudo o que precisar.
Ele percebeu que dizia aquelas palavras de coração.
O rei assentiu com a cabeça.
— Ótimo.
— Deseja algo de mim no momento? Ou devemos esperar que o chefe mande notícias de sua decisão?
O rei olhou para os dois guardas que permaneciam na sala. Um aceno de queixo na direção deles indicou que saíssem para que pudesse falar com Magnus em particular.
— Tem uma coisa, embora não esteja diretamente relacionada a meus planos para Auranos.
— O que é?
— É sobre sua irmã.
Magnus ficou paralisado.
— O que tem ela?
— Sei que ela é próxima de você. Mais próxima do que é de mim ou de sua mãe. Quero que fique de olho nela. Se notar algo que considere incomum, deve me dizer no ato. Se não fizer isso, ela pode estar em grande perigo. Entendeu?
Magnus ficou sem ar.
— Que tipo de perigo?
— Não posso dizer mais do que isso por enquanto. — Sua expressão ficou sombria. — Vai fazer o que estou pedindo sem questionar? É importante, Magnus. Você vai observar Lucia e me contar se perceber alguma coisa?
O mundo parecia balançar debaixo dos pés de Magnus. Ele não se importava com Tobias, mas a morte do bastardo o abalara profundamente.
Com Lucia, no entanto, ele se importava. O que seu pai estava pedindo tinha relação direta com a conversa que Magnus havia escutado entre o rei e Sabina na noite do aniversário de sua irmã. Sobre magia e mistério. E se aquilo comprometia o bem-estar de Lucia, ele sabia que não havia outra resposta para dar a seu pai.
Ele concordou.
— É claro que sim, pai.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!